3. Sobre a Escrita.
A escrita é uma técnica. Uma tecnologia
humana para comunicação. Junto com as línguas, a escrita pode ser construída
como uma forma de linguagem, baseada no registro comunicativo atemporal.
Assim, na época de predominância da oralidade, o importante era "contar
um conto sem aumentar um ponto", com a manutenção cíclica da memória; o
que se tornou menos necessário depois de inventada a escrita, que mantinha
o "conto" inalterado entre uma leitura e outra (atemporal). A comunicação
mediada por computadores (CMC - Castells, 1999), em rede e especialmente
em tempo real transforma essas formas de expressão (oral e escrita) de forma
a trazer novas e complexas características às interações entre seres humanos.
Vivemos uma tradição escrita, porém permeada de oralidade, pois fluem as
linguagens coloquiais longe das regras formais ao mesmo tempo que guardamos
e acumulamos nossa história pela escrita. No espaço da Internet, onde a
escrita ainda é a forma predominante de expressão, o que se pode supor que
há é uma "oralidade escrita" . Não é simplesmente pelo fato de ser uma escrita
veloz que tenta imitar o oral, é uma escrita que segue a demanda de velocidade,
como também de imediaticidade e efemeridade. Se uma das características
de culturas com tradição oral é o fato de o presente parecer se repetir,
não havendo acúmulo de registros do passado como nós os entendemos, então
esta "oralidade escrita" nos espaços de interação da Internet (chat rooms/salas
de bate papo, em especial) carrega consigo a semelhança com esta característica,
pois, apesar da possibilidade de registro da escrita que ocorre durante
a interação , é uma situação que só faz sentido durante seu acontecimento,
isto é, no presente que se sucede. Qualquer acúmulo de interações deve ficar
na mente dos indivíduos, de forma cognitiva, fazendo parte da contínua construção
de novas interações, sempre imediatas. E a questão da velocidade causa uma
notória não obediência às regras da gramática dita formal , no entanto com
uma auto compreensão que também muito se assemelha à oralidade. Para nós,
leitores desta obra, de forte tradição escrita, é muito difícil imaginar
um universo de pura oralidade, porém no espaço da Internet há a oportunidade
de um quase meio termo: a "oralidade escrita" surge como uma possibilidade
de expressão, que é sem dúvida dependente da escrita, mas que possibilita
a liberdade da mesma em suas formalidades, se aproximando assim de um tipo
de "oralidade" bastante singular. Dentro de nossa tradição escrita, a oralidade
já é altamente influenciada pela mesma. Os espaços de interação imediata
da Internet podem ser considerados espaços que proporcionam mais ainda essa
mútua influência entre escrita e oralidade nas sociedades ocidentais contemporâneas.
Pois, como diz Ong, "La escritura nunca puede prescindir de la oralidad."
(1987: 17) Há sempre trocas de influências entre diferentes tipos de formas
de expressão: escrita/leitura, visual, sonora, etc. O uso maior da escrita
em nosso objeto é antes de tudo uma escolha devido a sua atual difusão e
abrangência. Toda tradição escrita está ligada a uma oralidade, mesmo a
escrita contemporânea das interações no espaço da Internet. Especialmente
esta, cuja fluidez das conexões demanda formas de expressividade múltiplas.
Enquanto na tradição oratória antiga (Ong, 1987: 19) era escrito o discurso
depois de se haver falado, hoje se escreve antes o que vai se dizer. Nos
espaços de interação imediata da Internet o que está sendo escrito já é
o que está sendo dito. A fluidez desta afirmação já demonstra a interdependência
entre as formas de expressão escrita e oral. As estruturas de expressão
podem ser múltiplas, porém estão inevitavelmente presas a sistemas de expressividade
que impõem as suas regras. A mobilidade existe (seja oral ou escrita; mais
oral do que escrita), mas está inserida em diversos contextos de expressividade
e aprendizado (comunicação). Noções e regras interiorizadas no inconsciente
dos indivíduos que fazem parte destes contextos. Ou, de outro modo, "Las
agrupaciones constituyen los principios de organización de las fórmulas,
de modo que la 'idea esencial' no está sujeta a uma expresión directa y
clara, sino antes bien representa una especie de conjunto ficticio mantenido
unido en gran medida en el inconsciente." (Ong, 1987: 33) Algumas características
da escrita nos espaços de interação da Internet que a aproxima da oralidade
são as frases curtas e cumulativas; não tanta subordinação ou análise como
na escrita formal; referentes a situações, mais que a abstrações. Ex.: "E
aí? Vai hoje? Quando é jogo? Vou sim! Tem jeito! Vamos todos!" Formas de
expressão que familiarizam a comunicação entre seus usuários; do mesmo modo
como diz Ong: "La comunicación oral une a la gente en grupos." (Ong, 1987:
73) O tipo de escrita produzida nos chats, principal e mais popular forma
de interação em tempo real do espaço da Internet, propicia, mas não garante,
o agrupamento, por isso, apesar de ser uma interação baseada em leitura
e escrita (atividades solitárias), a presença do outro é imprescindível
e por isso à formação de grupos, e por isso a aproximação com a oralidade
. A escrita na Internet é volatilizada pela agilidade e fluência da oralidade,
mas ambas ficam equilibradas aos usos práticos nas interações. Não se inventa,
aprende-se com o uso e com os rituais de interação. Como dito por Ong, "...el
habla y el pensamiento reales siempre existem esencialmente en un contexto
de ida y vuelta entre personas." (1987: 82) Enquanto nas tradições orais,
o diálogo é a forma básica de aprendizado e interação, nas tradições escritas
o outro falante se torna dispensável, pode-se formular discursos inteiros
sem a presença de um interlocutor; já as interações no espaço da Internet
dão uma oportunidade de mistura destes dois aspectos, pois, se por um lado
é escrita, obedecendo a algumas das regras da escrita/gramática e ao tipo
de elaboração mental específica necessária à escrita, por outro também tem
um interlocutor imediato, ou quase imediato: há a ida e a volta. Realizando-se
assim uma mistura de formas de elaboração mental que deve ser para a escrita,
mas que também deve ser quase tão rápida e específica quanto o tipo de elaboração
necessária à oralidade. Ex.: usuários da Internet (especialmente Chat e
ICQ ) costumam muito dizer que sentem como se o interlocutor estivesse em
sua frente. O espaço da Internet é como um espaço imaginário de interação
de respostas em tempo real; o caráter mediatizado (com mediador eletrônico)
é equilibrado pela representação de proximidade pelo tempo real possível.
São trocas de expressividades que exigem novas formas de expressão: não
só palavras escritas, mas também símbolos que expressem mais (emoções, sensações,
etc.) . A dinâmica da textualidade alcança um meio termo entre escrita e
oralidade, pois os processos de elaboração mental dos usuários em interação
na Internet se adaptam às novas características do espaço da interação;
especialmente a comunicação escrita imediata (escrever rápido), onde a velocidade
nas trocas e a multiplicidade de construções simbólicas afetam nos processos
de escolhas e de elaborações de respostas. Ong diz que, "Las palabras se
componem de unidades (tipos) que existen como tales antes que las palabras
a las que darán forma. La impresión sugiere, mucho más de lo que jamás la
hizo la escritura, que las palabras son cosas." (1987: 118) Na tela do computador
as palavras estão escritas, mas não impressas. Há uma fluidez muito maior
que a escrita impressa. A mobilidade maior sugere agilidade nas mudanças
e nas interpretações. As palavras passam a ser coisas móveis, quase vivas,
quase orais (uma oralidade silenciosa), pois voltam a ter dinâmica estímulo/resposta
de um período ainda não dominado pela escrita e pela imprensa. Os processos
de reprodução perfeita da escrita continuaram a se desenvolver após a invenção
da imprensa, mas as capacidades interativas e interpretativas também mudaram
com o tempo. O texto escrito impresso molda a nossa forma espacial de pensar:
linear, textual, fixo; o texto escrito no computador (e na Internet), o
chamado hipertexto pode ir além da linearidade da impressão, pois possui
mobilidade espacial interna, interconexões imediatas fora dele, ferramentas
de procura, uma incompletude diante do texto infinitamente referenciado
a outros e outros (uma intertextualidade rizomática), inconcluído, etc.
Ele já não é mais tão fixo. E o principal, dá oportunidade de resposta imediata
ao leitor, contatando o próprio autor/emissor do texto ao final da leitura;
quase um diálogo . Enfim, as técnicas de linguagem são uma parte integrante
dos espaços de interação e disso, que a escrita tem um importante e diferencial
papel na sociabilidade que se desenvolve no espaço da Internet, suas apresentações
de Eus e as interações nos seus diversos sub-espaços. No decorrer desta
dissertação problemas relacionados a escrita ainda serão desenvolvidos em
momentos específicos, mas, por hora, fica clara a sua importância pontual
e referencial para o resto do argumento.
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