1. Contexto e Perfil de Usuário Ideal da Internet.
Fazer-se-á aqui uma análise de dados extraídos
a partir da aplicação de questionário com intenção de construir um perfil
do usuário ideal do espaço da Internet, que nos serve para melhor visualizar
e compreender os indivíduos que utilizam e que constróem este espaço à medida
do seu uso; complementando então tudo que ainda pode fazer parte dos membros
do grupo Net.
1.1- Perfil sócio-econômico:
A questão da ocupação profissional nos trouxe algumas dificuldades. É
aberta mas de conteúdo objetivo e direto. E existem muitas interpretações
possíveis sobre o perfil das pessoas a partir deste dado: se tem um curso
superior ou não; se provavelmente seu uso da Internet tem haver com essa
profissão exercida ou posição ocupada, etc . Tivemos pessoas que trabalham
com suporte técnico na área de informática (ou analista de suporte), que
é uma função que não exige curso superior, mas que necessita de conhecimentos
em informática, normalmente adquiridos em cursos particulares ou auto aprendizado;
de uma maneira ou de outra, necessita do contato com a tecnologia e isso
indica ou investimento ou convivência, e isso usualmente significa que é
uma pessoa que não é de uma classe tão desprivilegiada. Temos professores
(tanto de nível médio quanto de nível superior), o que também indica instrução,
mas não completamente aberto acesso aos utensílios tecnológicos modernos,
pois é uma profissão notoriamente mal remunerada no país. Temos donas de
casa, que já tiveram carreiras profissionais bem remuneradas no passado,
mas que, após o casamento e filhos, resolveram permanecer em casa e cuidar
da família. Obviamente não se trata do tipo de dona de casa tradicionalmente
pobre; seria muito mais uma administradora do lar (com empregados a seu
serviço) que comanda uma casa, mas tem tempo para usar o computador e a
Internet (tempo livre, instrução e possibilidades financeiras). Temos funcionários
públicos, que têm alguma instrução e um modo de vida não muito variável,
mas com algumas possibilidades de consumo e funcionários públicos federais
aposentados, cuja remuneração e o modo de vida mantido pode lhe proporcionar
o acesso à tecnologia, dentre outras coisas; mas que também tem a oportunidade
de ainda trabalhar em projetos filantrópicos e coisas do gênero, tendo a
possibilidade, experiência, instrução e o engajamento necessários para tais
atividades de "depois do tempo de trabalho" (Dumazedier, 1994) e isso inclui
aprender a usar a Internet. Temos bancários (e bancários aposentados), que
tanto podem ter instrução média quanto superior (e por isso alguma instrução)
e alguma capacidade financeira para usufruir dessa tecnologia. Temos jornalistas
(curso superior e acesso a tecnologia, seja no trabalho ou em casa ou em
universidade). Temos web designers (constróem os sites que estão na Internet),
cuja a própria função já indica uma grande presença no espaço da Internet,
tanto para trabalho quanto para lazer (possivelmente); sendo necessário
conhecimento técnico (instrução) e acesso (possibilidade financeira ou de
conveniência: trabalho). Temos industriários (nível técnico e superior).
Temos analistas de sistemas (nível superior), que tem contato direto com
a informática e é uma profissão muito valorizada, por causa da necessidade
da informática em várias áreas hoje em dia (normalmente são os chefes dos
analistas de suporte). Temos engenheiros florestais, com curso superior
e provavelmente uma boa instrução e com regular poder de consumo. Temos
administradores. Temos atrizes e dançarinas e cantores, que apesar de serem
profissões que apenas são bem remuneradas quando se torna "estrela", deduz-se
uma boa formação e instrução, e também acesso a Internet (via casa/família,
trabalho ou escola). Temos advogados. E temos um grande grupo de estudantes
e estagiários em várias áreas (desde Segundo Grau até cursos superiores
e técnicos); muitas das ocupações citadas se combinam com "ser estudante"
também. Muitos têm acesso a computador e Internet através das escolas e
faculdades ou através dos estágios. Como vemos o nível de instrução e o
acesso são dois fatores constantes no dado sobre a ocupação desses usuários
da Internet; tendo sido razoavelmente corroborados pelo dado sobre nível
de instrução da pesquisa de Eduardo Krauze Diehl, citado anteriormente.
Sobre a classe social dos usuários da Internet, perguntamos: "Você se considera
como sendo de alguma classe social? Qual? Por que? (use quanto espaço quiser)"
A intenção era não ter de usar os padrões de classificação de classe econômica
normalmente utilizados pelas pesquisas de economia, marketing e até algumas
de sociologia; queria que o entrevistado colocasse seu ponto de vista sobre
sua situação econômica, por isso, também, o espaço livre para que ele(a)
pudesse comentar sua resposta ou o que acha deste tipo de classificação.
Numericamente a maioria absoluta (100%) dos entrevistados (96 indivíduos
que freqüentam ou usam a Internet) deixaram claro ou transparente (mesmo
que sem a palavra exata) que são de classe média. Há, obviamente, uma estratificação
possível dentro dessa classificação, mas o geral foi este.
Para o tópico do local de acesso do usuário da Internet foram dadas três
opções: Casa. Trabalho. Outro (onde?). A intenção dessa pergunta era, ao
conhecer os locais de acesso de alguns usuários, contribuir para a construção
de seu perfil sócio-econômico. Supondo que se alguém só acessa na trabalho
ou na escola (ou outro lugar que não seja em casa), então ela não tem condições
financeiras, mesmo que momentâneas, de possuir um computador; o que implicaria
na condição apresentada pela grande maioria de entrevistados no momento
de categorizar sua classe econômica: poder de consumo. No entanto, ter acesso
a tal aparelho por outras vias demonstraria interesse por informação ou
lazer dessa natureza e por isso algum nível de instrução não só para a utilização
de tal coisa técnica, como também acesso a uma escola ou trabalho com tal
aparelhagem disponível. Por isso, continuo a supor que a grande maioria
de usuários da Internet tem um perfil de pessoas com algum nível de instrução
e algum nível de acesso a tecnologia, mesmo que não próprios (consumo, posse).
A outra razão seria para tentar conhecer que nível de intimidade e auto-expressividade
(liberdade de expressão) podia ser atingida pelo usuário da Internet, já
que o local de onde ele acessa deveria ser de grande influência no que ele
pode ou não pode fazer ao estar conectado. Numericamente temos que 73 pessoas
(76%) acessam a Internet de casa; 61 pessoas (63,5%) acessam do trabalho;
e que 41 pessoas (42,7%) acessam de outro lugar, no caso todos disseram
escola ou universidade. Devemos observar que alguns dos questionados afirmaram
acessar tanto em casa quanto no trabalho (ou casa e escola); isso, ao meu
ver, reforça a construção do perfil do usuário, como tendo algum poder econômico
(ter computador em casa) e também tendo instrução institucional suficiente
para ou estar trabalhando ou estar numa universidade, por exemplo. Como
no caso de nossa amostra, a maioria dos entrevistados afirmam usar mais
a Internet em casa, podemos apenas acrescentar a suposição que essa amostra
é um pouco mais privilegiada, mas, como não há um grande desequilíbrio entre
casa e trabalho, acredito termos coberto uma boa amostra . Voltando aos
dados, temos que as pessoas questionadas interpretam estes locais de acesso
da seguinte maneira: 32 pessoas (33,3%) disseram que o local de acesso interfere
no seu modo de fazer as coisas na Internet, e 64 pessoas (66,6%) disseram
que o local de acesso não interfere. Não nos resta muito a interpretar destes
números, além do fato de a nossa amostra numérica parecer tender para um
lado de uso do espaço da Internet que não dependa tanto de uma maior privacidade.
Devemos porém lembrar que muitos dos questionados utilizam a Internet tanto
em casa quanto em outro local (trabalho principalmente), logo, estas pessoas
não se sentem tão afetadas pelas outras possibilidades de usos mais privados
da Internet, já que podem fazer isso em casa (todos os entrevistados que
responderam apenas "não" à pergunta tinham acesso em casa).
Enfim, podemos concluir que há níveis de interferência no comportamento
dos usuários da Internet quando se trata do local de acesso; a depender
dos usos, intenções e motivações de cada usuário, o local de acesso pode
ser um importante fator de formação de uma série de rituais específicos
para cada ambiente externo que compõe o local de acesso, sendo o mais evidente
que, na maioria dos casos, a acesso em casa proporciona maior liberdade
de auto-expressão do usuário, enquanto outros locais (trabalho, escola,
casa de amigos, shoppings, etc.) deixam uma grande margem de impedimentos
sejam práticos ou morais para a liberdade de auto-expressão do usuário da
Internet enquanto está conectado.
1.2- Sobre a Multiplicidade:
O usuário ideal da Internet tem certa consciência da multiplicidade e
amplitude de possibilidades na Internet (tanto possibilidades positivas
quanto negativas). E tem diferentes níveis de interesse por informações
generalizadas. Ele busca, encontra ou não, se frustra, volta a procurar,
encontra e segue fazendo uso do espaço das mais diversas maneiras. Há muitos
níveis de busca por informação e níveis de consciência sobre o próprio espaço
da Internet, mas dentro de toda essa variedade podemos afirmar sobre o nosso
usuário ideal que ele é explorador, curioso, prático e ambivalente quando
se trata de satisfação, pois quando encontra o que procura, logo depois
tende a ter outras vontades... Acredito que esta característica faz parte
do ethos contemporâneo aqui desenvolvido: consumo e renovação; efemeridade
e identificação. A partir da pergunta "O que mais lhe atrai na Net? (espaço
livre)" vejamos algumas das respostas dos usuários da Net: "A possibilidade
de ter as notícias em tempo real." "A facilidade de contato em massa." "Gosto
das diversas possibilidades de comunicação que a rede traz." "O ICQ." "Facilidade
de contato com os amigos via e-mail e pesquisa." "A liberdade e a oferta
de pesquisa e a quantidade de informação." "Agilidade e informação variada
sobre tudo." "A rapidez de se obter informação e a possibilidade de vencermos
a barreira do espaço com um simples teclado." "A disponibilidade de informação."
"A fácil comunicação e a resposta em tempo ágil." "O poder de comunicação
e difusão da mesma em segundos e o mesmo poder que tem sobre o comportamento
das pessoas (a transformações dos costumes)." "As possibilidades de tipos
de atividades a se fazer. Pode-se descobrir CEP para enviar cartão de Natal
aos amigos, fazer pesquisas, ajudar outras pessoas com seu conhecimento,
tirar dúvidas, estudar línguas gratuitamente, fazer cursos on-line, bater
um papo com amigos de fora do Brasil, enviar fotos e outros arquivos..."
"A possibilidade de conhecer pessoas e obter qualquer tipo de informação."
"Rapidez e custo baixo." "As possibilidades de muitas coisas diferentes
ao mesmo tempo." "A possibilidade de estar antenado no mundo da minha própria
casa." O nosso usuário ideal é atraído pela Internet por ser um espaço que
proporciona comunicação rápida e uma grande quantidade e variedade de informação
. Analisando os significados dessas características temos que a comunicação
suscita interação e sociabilidade. Essa comunicação ser rápida vem da característica
contemporânea do ambiente tecnológico ágil, veloz, instantâneo, etc. Essa
comunicação/interação pode ser funcional (trabalho ou escola, o fator agilidade
parece ser mais útil e evidente neste caso) ou pessoal (o termo sociabilidade
se encaixa melhor aqui) (preenchimento, aproximação afetiva, liberdade de
expressão, distâncias físicas serem superadas subjetivamente). O nosso usuário
ideal faz uso dessas duas possibilidades (funcional e pessoal) dentro da
comunicação eletrônica, isto é, ele usufrui das possibilidades práticas
do espaço da Internet tanto no campo funcional-utilitário quanto no pessoal-afetivo.
A informação presente no espaço da Internet, e sobre a qual o nosso usuário
ideal se refere, tanto é funcional quanto não funcional (quer dizer, sem
uma utilidade prática clara; Ex.: piadas, orações, declarações de amor ou
amizade, mantras, poemas, etc.); de certo modo pode-se dizer que ela é de
todo tipo. A informação na Internet é o principal material simbólico de
troca, isto é, a interação é baseada na troca de informações de todo tipo.
O nosso usuário ideal entra em contato freqüentemente com uma grande quantidade
de informações e ao se comunicar (funcional ou pessoalmente) ele troca informações.
Essa constante troca de informações na Internet afeta o comportamento dos
usuários, transforma os seus cotidianos, fica fazendo parte da "cultura"
peculiar inerente às trocas no espaço. O nosso usuário ideal é, com certeza,
um indivíduo que convive e lida com muitas informações quotidianamente.
Complementando ainda a questão da multiplicidade, perguntamos aos pesquisados
"O que menos gosta na Net? (espaço livre)" e vejamos as suas respostas mais
relevantes: "Propagandas." "Sites sobre futebol." "A baixaria." "A lentidão
do acesso." "Chat." "Chats e a demora de acesso." "Páginas na Net que tem
crianças se prostituindo." "Comerciais e SPAM." "Os chats em que só há discussões
banais e os sites de sexo e exibicionismo." "A difamação de coisas que relatam
a violência e coisas do tipo." "E-mails de venda de produtos e pornografia."
"SPAM, falta de ética, pornografia, entupimento de caixa postal com arquivos
pesados enviados por usuários despreparados." "Limitações do provedor e
na tecnologia telefônica brasileira, muito lenta." "Como ela é largamente
usada para coisas inúteis (propaganda, pornografia infantil, etc.)" "Interferência
de pessoas nos e-mails e vírus." "Quando não encontro o que procuro." Vemos
que as maiores restrições dos usuários do espaço da Internet pesquisados
são a respeito de aspectos: técnicos; morais; comerciais; informativo; comportamental;
econômico e pessoal. Os aspectos econômicos estão ligados aos comerciais
e os aspectos pessoais estão ligados a todos em um certo nível, já que são
preocupações de pessoas para com coisas que também envolvem pessoas. Dos
aspectos técnicos temos as dificuldades de acesso a sites ou à própria Internet;
lentidão em alguns processos; problemas de segurança e privacidade; ineficiência
dos sistemas de telecomunicações atuais; o perigo dos vírus de computador
a que todos estão de certo modo vulneráveis; enfim, o nosso usuário ideal
é alguém que ao menos tem conhecimento desses riscos e problemas e que são
coisas ruins. Dentre os aspectos morais temos uma grande aversão a informações
dirigidas a assuntos considerados desagradáveis ou imorais: violência em
geral e pornografia (mais especificamente quando envolve crianças). Dos
aspectos comerciais temos a aversão às propagandas em geral e aos SPAMs;
e o desagrado em relação aos custos de certos serviços na Internet (esse
poderia ser considerado mais um aspecto econômico). A grande quantidade
de informação descartada quotidianamente pelos usuários da Internet é mais
um aspecto negativo da mesma, parte do contexto múltiplo. Como também o
desconhecimento e a não observação de convenções dos espaços de interação,
o que provoca incômodos excessivos na vida dos indivíduos.
1.3- Sobre os Usos da Internet:
Perguntamos: "Com quais classificações você concorda sobre a Net? (pode
marcar várias)", que nos mostra que imagem os nossos usuários pesquisados
têm ou sentem a respeito da Internet no que diz respeito ao seu uso subjetivo.
64 pessoas (66,6%) disseram considerar a Internet como um Espaço Público;
42 pessoas (43,7%) consideram como Espaço para Elite; 67 pessoas (69,8%)
consideram um Espaço Democrático; 21 pessoas (21,9%) consideram Espaço Fechado;
45 pessoas (46,9%) consideram como Espaço de Fuga; 68 pessoas (70,8%) consideram
como Espaço de Diversão e 19 pessoas (19,8%) consideram a Internet como
outros tipos de espaço. Baseado nestas respostas vemos que a maioria dos
usuários pesquisados vêem o espaço da Internet, predominantemente, como
Público, Democrático, de Diversão e de Fuga; lembrando que 43,7% dos pesquisados
também disseram achar a Internet um espaço para Elite. Disso podemos afirmar
que a Internet é um espaço amplo de informação e comunicação (público e
democrático), porém somente para aqueles que têm acesso ao mesmo (uma elite,
que já vimos ser atualmente de cerca de 8 milhões de usuários num país de
mais de 160 milhões, isto é, apenas cerca de 5% da população brasileira
têm acesso a Internet). É também espaço de diversão, complementando o cotidiano
dos usuários com uma grande variedade de aspectos lúdicos. E finalmente
é também espaço de fuga, de realização simbólica das fantasias que também
complementam o cotidiano, de anonimato e liberdade diante da multiplicidade
e das inibições, de fuga das regras da vida cotidiana durante as diversas
interações (especialmente as "não-sérias") que também fazem parte do cotidiano
dos usuários. O nosso usuário ideal usa a Internet para suprir seus interesses
práticos (trabalho, pesquisa, etc.): 86 pessoas (89,6%) responderam que
faziam pesquisas. 83 pessoas (86,4%) responderam que procuravam informação.
71 pessoas (74%) responderam que procuravam cultura. 62 pessoas (64,6%)
responderam que procuravam coisas de informática. E 31 pessoas (32,2%) responderam
que procuravam outras coisas. E também para preencher interesses lúdicos
e acessórios (diversão, afetividade, engajamentos políticos e sociais voluntários,
etc.): 53 pessoas (55,2%) responderam que procuravam relacionar-se com outras
pessoas. 67 pessoas (69,8%) responderam que procuravam diversão. 89 pessoas
(92,7%) responderam que usavam o e-mail. Podemos notar por estes números
que há uma grande procura por informação (pesquisa, informação e cultura)
de uma maneira geral, que é a função primordial que funda a Internet: espaço
de fluxo de informação eletrônica. No entanto, devemos observar que todos
estes que assinalaram procurar informação, de todo tipo, também usam o e-mail
(item mais assinalado) e que também tendem a procurar conhecer pessoas e
diversão através da Internet. Como é uma questão de momento, o envolvimento
do usuário naquelas atividades que mais costuma fazer é que compõem a interpretação
desta questão. Na verdade, devemos admitir que todo conteúdo das atividades
realizadas no espaço da Internet é baseado em informação, que é constantemente
produzida, interpretada e trocada, no entanto, para os propósitos de nossa
pesquisa, procuramos extrair desses hábitos de atividades aquilo que pode
ser mais ligado à sociabilidade no espaço da Internet. Os números vistos
acima demonstram que nossa amostra parece priorizar mais a pesquisa, a informação
e a cultura, além do e-mail, pelo menos no momento da resposta . Complementando
esta questão, perguntamos: "O que você normalmente faz na Net? (pode marca
várias)". Das pessoas pesquisadas 91 (94,8%) disseram usar o e-mail; 45
(46,9%) disseram fazer uso das salas de bate-papo (chats); 12 (12,5%) disseram
participar de fóruns; 87 (90,6%) disseram fazer pesquisas; 89 (92,7%) disseram
usar como meio de informação e 15 pessoas (15,6%) disseram fazer outros
usos da Internet. No primeiro momento, o que notamos é que é extremamente
valorizado a utilização do correio eletrônico (e-mail), pois quase todos
os entrevistados fazem uso do mesmo e ainda lembramos que muitos possuem
mais de um. É a forma de comunicação/interação mais cotidiana na Internet,
pois demanda apenas a abertura de caixas de mensagem por seus usuários:
um hábito já comum a todos (verificar mensagens e respondê-las). Já outras
atividades exigem um pouco mais de envolvimento e motivação do usuário para
serem realizadas: chats, pesquisas, fóruns, etc. Fazendo o cruzamento de
dados com a questão anterior já mencionada temos que 53 pessoas (55,2%)
responderam que procuravam relacionar-se com outras pessoas através da Internet.
Dentro desta atividade podemos incluir os espaços de uso de e-mail, chats,
fóruns e até mesmo pesquisas, presentes aqui. A interpretação disso é que
os hábitos de um tipo ideal de usuário da Internet vão além dos extremos
numéricos presentes na pesquisa. Apenas 45 pessoas (46,9%) disseram usar
salas de bate papo, no entanto 53 pessoas (55,2%) disseram procurar conhecer
pessoas através da Internet e também 67 pessoas (69,8%) disseram procurar
diversão através da Internet, o que nos leva a formular que os chats estão
presentes na maioria das interações com novas pessoas; seria, junto com
o fórum, um espaço de interação primário, onde se faz os primeiros contatos,
se descobrem afinidades e daí passa-se para os outros espaços/ferramentas
de interação (e-mail, ICQ, telefone, etc.). E também nos ajuda a formular
que as intenções predominantemente lúdicas ao se procurar conhecer pessoas
novas através da Internet servem de reforço ao fato de provavelmente estes
usuários terem no chat, também, um espaço para procurar diversão. Talvez
uma das razões porque as salas de bate-papo não tiveram um maior índice
de escolha entre a amostra entrevistada seja justamente porque elas cumprem
um papel primário no processo de interação (conhecer pessoas, etc.) e por
isso não seja procurado com mais freqüência. Demonstrando este equilíbrio
entre usos lúdicos e funcionais do espaço da Internet, concluímos, diante
da questão "Que sites (ou tipos de site) mais costuma visitar? (livre)"
que os sites ou tipos de sites mais visitados nos revelam também um pouco
de suas motivações, hábitos e intenções dos usuários ao estarem conectados
e porque se conectaram ao espaço da Internet. A variedade de respostas e
a já mencionada momentaneidade das respostas dadas me fazem crer que para
a construção do perfil do nosso usuário ideal o que vale aqui é a noção
de equilíbrio do uso do espaço da Internet entre Funcional - Informativo
- Lúdico - Cotidiano. Funcional por ser utilizado para situações classificadas
convencionalmente como "sérias" (trabalho, escola, etc.). Informativo por
ser um espaço de divulgação e troca de informações de diversos tipos, inclusive
a jornalística (também classificada de "séria"). Lúdico por, além de dispor
de várias fontes de diversão, tem um caráter lúdico por si próprio, mesmo
quando usado para "coisas sérias" (uso/escolha do uso do tempo livre para
aprender, pesquisar, etc.). E Cotidiano por fazer parte da construção de
hábitos que fazem parte da vida do usuário: se informar, ler e enviar e-mails,
pesquisar, bater-papo, divertir-se, etc. Então, concluindo, o uso do espaço
da Internet como espaço lúdico para interagir-se com outras pessoas parece
ser uma característica forte no perfil dos usuários do mesmo. Dentro de
um contexto de alto fluxo de informações e utilidades, também se dá muita
atenção ao relacionamento com outras pessoas, à comunicação e ao lazer dentro
deste espaço... Então podemos dizer que os usuários da Internet, num perfil
ideal, são pessoas que lidam com muita informação (de vários tipos e de
várias utilidades) e que gostam de relacionar-se com outras pessoas, divertindo-se.
1.4- Sobre a Familiaridade com o Espaço:
Perguntamos há quanto tempo se utiliza a Internet... Algo que pode ser
afirmado anteriormente sobre isso é que com o maior tempo de uso e familiaridade
do espaço da Internet maior o grau de compreensão de suas possibilidades
de informação prática e também de ludicidade e de sociabilidade. Em certo
sentido, podemos cruzar essa informação com o nível de respostas de nossa
amostra e perceber que realmente as respostas são passageiras... Quem sabe
que tipo de respostas se dará a esse tipo de perguntas daqui há mais 5 ou
10 anos. Foi deixado em aberto o espaço para as respostas; para facilitar
a interpretação numérica das mesmas eu as dividi em dois blocos: "menos
de dois anos" e "mais de dois anos"; em seguida eu apresentarei qualquer
comentário relevante dos usuários a respeito da questão. 32 pessoas (33,3%)
disseram que usam a Internet há menos de dois anos e 64 pessoas (66,6%)
disseram que usam a Internet há mais de dois anos . Comentários de pesquisados:
"Uso o micro desde antes da Net... no tempo do Vídeo Texto (não sei se conhece)."
A grande maioria apenas disse há quanto tempo usava a Internet. Mas podemos
pensar dois níveis de familiaridade com a Internet: muito tempo de uso e
também os que tem pouco tempo, mas muita intensidade de atividades. O contínuo
crescimento da popularidade da Internet também possibilita este tipo de
familiaridade em menor tempo de uso; relativamente, as pessoas que começaram
a usar a Internet de 1997 para cá têm o mesmo conhecimento básico (saber
navegar, conhecer os programas de comunicação e saber pesquisar) que as
pessoas que usam desde 1994, quando a Internet começou a aparecer no Brasil
para uso mais doméstico. Complementando este ponto perguntamos do período
de maior uso (estar conectado) na Internet, se dia ou noite. De certo modo
está também relacionado com a questão da auto-expressividade vista antes
sobre o local de acesso e a influência do mesmo. 59 pessoas (61,4%) disseram
se conectar mais de dia. 46 pessoas (47,9%) mais durante a noite. E 25 pessoas
(26%) disseram se conectar tanto de dia quanto de noite. A relação possível
que fazemos entre estes números e a construção de um perfil ideal do usuário
da Internet é que muitos ainda têm acesso somente em outros ambientes que
não o próprio lar, o que diminui a utilização durante a noite. Isso implica
na suposição da questão econômica do usuário da Internet no Brasil, que
têm acesso e conhecimento da mesma, mas não tem condições de possuir a tecnologia.
No entanto devemos notar que há um certo equilíbrio dentro da amostra pesquisada
sobre o local de acesso (casa e trabalho) e sobre o horário de uso (dia
e noite), o que também sugere uma maior capacidade dentro desta amostra.
Com relação ao tempo passado no espaço da Internet, o que os dados até o
momento demonstram é uma maior preocupação do usuário médio em não permanecer
conectado por muito tempo quando está em sua casa pela razão dos gastos
com a conta de telefone, energia, etc. Situação não muito observada quando
num ambiente exterior (trabalho, faculdade, escola), mesmo quando há uma
maior vigilância de uso, como já dissemos; mas há sempre formas de burlar
vigilâncias e usar a Internet e trabalhar ao mesmo tempo. Esperava-se que
durante a noite os usuários da amostra demonstrassem uma maior liberdade
de expressão ao estarem conectados, que é mais ou menos o mesmo critério
de liberdade utilizado para o uso mais livre em casa que num ambiente de
trabalho. Mas a falta de uma constatação numérica maior que a esperada não
invalida totalmente a hipótese inicial, já que ao serem somados a quantidade
de usuários que dizem usar mais à noite com os que dizem usar em ambos os
períodos do dia, temos uma quantidade superior de usuários. Sem dúvida seria
necessária uma maior extensão na amostra para que as hipóteses sobre expressividade
e liberdade sejam mais completamente confirmadas ou negadas. O trabalho
de campo com o grupo Galera ZAZ parece apontar, pelo menos dentro daquela
amostra, que, o uso noturno é acentuado para aqueles que possuem computador
em casa e o diurno é maior para aqueles que não tem, isto é, que acessam
de escola ou trabalho, o que nos parece uma proposição óbvia, mas não ainda
totalmente convincente.
Ainda contribuindo com este tópico da familiaridade e também antecipando
algo sobre a sociabilidade, perguntamos aos nossos pesquisados: "Você usa
o ICQ ou similar?" e apresentamos o seguinte: 46 pessoas (47,9%) disseram
que sim e 49 pessoas (51%) disseram que não. Em primeiro lugar devo lembrar
novamente que as respostas a maioria destas questões têm um caráter temporário,
pois muitas das questões e situações analisadas possuem uma característica
de aprendizado e uso que muitas vezes demanda tempo. No caso do ICQ ou programa
similar, isso é bastante visível. Ele é um programa/ferramenta de comunicação
"on line" bastante popular, mas que só demonstra sua maior utilidade para
aquelas pessoas que mantêm já um certo número de contatos através da Internet.
Para usos funcionais (trabalho, escola, etc.) a ferramenta mais prática
e utilizada ainda é o e-mail. Então, imaginemos que no momento em que as
pessoas que disseram não usar o programa ele ainda não era do conhecimento
da mesma pessoa e que logo após de respondido o questionário ela procurou
saber do que se tratava, se interessou e instalou em seu computador e passou
a usá-lo regularmente... Na verdade uma pessoa respondeu que nunca tinha
ouvido falar no ICQ até aquele momento... Esse dado seria impossível de
ser quantificado. E mesmo que fizéssemos o mesmo questionário para as mesmas
pessoas algum tempo depois, os dados ainda seriam momentâneos; inclusive
as pessoas que dizem agora usar o programa talvez já não o tenham mais,
desistiram de usá-lo por qualquer razão, etc. Então, utilizando os dados
que temos, podemos notar que as pessoas com maior índice de atividades de
sociabilidade no espaço da Internet são as que também usam o ICQ ou similar.
Isto nos confirma que o grau de familiaridade com o espaço e o de intimidade
das interações no mesmo tendem a se desenvolver de sub-espaço (programa/ferramenta)
em sub-espaço, de acordo com o avanço da identificação entre usuários, isto
é, a progressiva descoberta de afinidades, semelhanças. Imaginemos que o
usuário ideal da Internet entrou num chat, teclou com alguém com quem teve
afinidades; daí trocaram endereços eletrônicos e logo estão se enviando
constantes e-mails; depois eles se colocam em suas listas de usuários de
ICQ ou similar e sempre que ambos estão conectados, eles sabem que o outro
também está e assim ficam em constante conexão; a seguir vem o telefone
e quem sabe o face-a-face. É claro que esta é uma ilustração ideal, mas
na verdade é o padrão mais convencional da construção da sociabilidade no
espaço da Internet. Dentro desta nossa amostra inicial vemos que o uso do
ICQ não faz parte (ainda) dos hábitos da maioria, mas a contagem está razoavelmente
equilibrada. Se eu tivesse concentrado os envios de questionários para pessoas
do meu convívio ou mesmo para os membros do grupo com o qual faço trabalho
de campo, com certeza haveria uma grande maioria de usuários do programa,
pois, novamente, sua utilidade está em razão direta com a atividade de sociabilidade
do usuário da Internet.
1.5- Sobre as Interações:
O usuário ideal da Internet inevitavelmente interage com outros usuários,
mas, a depender das intenções e/ou motivações, estas interações podem ser
mais funcionais ou mais afetivas. A sociabilidade no espaço da Internet
se equilibra neste espectro (funcional - afetivo). Ao interagir conhece
regras/convenções de convivência e tende a sempre aprender mais para poder
manter as interações nos diferentes sub-espaços. Essas interações construídas
no espaço da Internet têm as seguintes características: presença da escrita;
escrita elaborada de Eus; atenção à leitura sobre os Eus elaborados; manutenção
tolerante de jogo entre expressão e impressão dependente desta escrita (interlocutores
jogam através desta linguagem enquanto interagem); manutenção possivelmente
efêmera da interação individual devido a multiplicidade e velocidade do
espaço e do esgotamento de afinidades; espera-se a observação das regras
de convivência específicas dos sub-espaços de interação. O nosso usuário
ideal convive com isso, faz parte de seu cotidiano, mesmo que não totalmente
consciente. Tendo como um complemento inesperado ao aspecto da sociabilidade
presente nos hábitos do nosso usuário ideal, notamos que diante do cabeçalho
"A sua Sociabilidade na Net", que apenas pretendia apresentar uma mudança
de tópicos dentro do próprio questionário, muitos pesquisados colocaram
comentários interessantes a respeito do que eles achavam ser a sociabilidade
deles na Internet. Vejamos: "Maravilhosa..." "A maior possível." "Me comunico
o máximo que posso com a galera (Galera ZAZ) tentando passar minha alma
para as pessoas, pena que não há sinceridade da parte de todos." "Conheci
pessoas legais, outras menos, como em qualquer lugar." "Não procuro pessoas,
procuro informações. Assim não me exponho." "Já fiz muitas amizades, através
de e-mails de amigos, termino por conhecer outras pessoas e passo a transmitir-lhes
informações." "Sou sociável." "Ótima. Se entro num chat é para conhecer
pessoas e levo a proposta a sério. Costumo ser gentil e receptiva, sem máscaras.
Sou eu mesma, até no nick utilizado." Podemos ver que as noções sobre sociabilidade
variam um pouco em cada pessoa na tentativa de expressar o que eles achavam
da mesma de cada um, mas é possível captar a presença da noção de troca,
que é o centro do conceito de sociabilidade que estamos utilizando aqui,
em muitas das respostas apresentadas: trocar informações; lidar com os outros;
dar e receber. Perguntamos "Você tem mais de um e-mail (endereço de correio
eletrônico)? Quantos? Por que?" com a intenção de um descobrir um pouco
como os usuários do espaço da Internet tendem a construir diferentes interações
de acordo com os tipos de espaços e relações construídas no mesmo. Numericamente
temos que 83 pessoas (86,4%) têm mais de um e-mail. Enquanto apenas 13 pessoas
(13,5%) dizem ter apenas um e-mail. O que nos chama atenção é o fato de
ser notoriamente uma coisa comum entre os usuários da Internet usar mais
de um e-mail... Por que? Há uma questão técnica envolvida e que não pode
ser ignorada: algumas vezes os servidores e provedores desses e-mails simplesmente
não funcionam, o que pode ser um grande impecilho para aqueles que fazem
uso freqüente desta forma de comunicação. Mas, além disso, que razões levam
os usuários da Internet a terem, algumas vezes, mais de três (quatro, cinco)
endereços eletrônicos?... Voltando às razões pessoais, vemos que as justificativas
variam um pouco, mas podemos concentrá-las em algumas situações mais específicas
passíveis de análise na construção do tipo ideal de usuário da Internet.
Em primeiro lugar podemos notar que muitos usuários possuem diferentes grupos
de afinidades, o que proporciona uma multiplicidade de apresentações através
de e-mails a depender da afinidade envolvida. Por exemplo: nada mais normal
dentro do espaço de interação da Internet que haver em um grupo formado
a partir da Internet (como no nosso caso estudado: o grupo Galera ZAZ) pessoas
que, para uma melhor identificação com sua apresentação dentro do grupo,
fazerem uma conta de e-mail (se já não houver) com o nome/nick (apelido)
pelo qual é conhecido no grupo. Em segundo lugar, a clara separação em alguns
casos entre lazer e trabalho: um e-mail para cada tipo de interação, as
duas já fazendo parte do seu cotidiano, mas com interpretações e intenções
diferentes. Por exemplo: uma pessoa dá um e-mail para alguém que acabou
de conhecer; dá um segundo para um velho amigo que reencontrou; deixa um
terceiro registrado no seu currículo de trabalho; se inscreve em um concurso
com um quarto e ainda faz uma assinatura em algum site de diversões com
um quinto. Quando ela abre cada conta para verificar se tem mensagens, ela
vai carregar tipos de expectativas diferentes, responderá as mensagens de
maneiras diferentes e talvez até finja ser outra pessoa. Daqui, em terceiro
lugar, temos que as pessoas podem usufruir de grande facilidade em ignorar
outras pessoas através do uso de vários e-mails: imaginemos no caso anterior
ao se dar um e-mail para alguém que acabou de conhecer, mas não sentiu interesse
em manter a interação futuramente, simplesmente pode-se dar um e-mail que
não existe ou que não mais se utiliza ou simplesmente pode-se ignorar as
mensagens quando e se as mesmas vierem. Enfim, no resumo das possibilidades
de interação através de diversas contas de e-mails, temos que são modos
diferentes de se apresentar/interagir com diferentes grupos ou pessoas,
fazendo-nos recordar novamente de Goffman (1999), quando discorre sobre
como os diferentes espaços ajudam a construir as diferentes formas de interação.
Em cada e-mail há um Eu possível, que interage com vários outros Eus possíveis,
formando assim espaços momentâneos de interação possíveis, que se constróem
a medida que fluem as diversas interações.
Sobre esses outros Eus possíveis, ao perguntarmos "Como qualifica as pessoas
que freqüentam a Net? O que lhe dá essa impressão? (espaço livre)" começamos
a ver a maneira como o nosso usuário ideal enxerga o outro, as outras pessoas
que freqüentam a Internet e nisso um pouco mais dele mesmo. As respostas:
"Pessoas que buscam um pouco mais de informação do que a tradicional." "Percebo
na maioria das pessoas uma carência afetiva enorme." "Curiosas." "São pessoas
normais, que apenas têm mais um meio para se comunicarem." "Pessoas antenadas
para o futuro." "Na minha opinião não há como qualificar as pessoas que
estão na NET. Atualmente todos os tipos de pessoas estão na Net." "Solitárias
e cansadas da loucura dos jogos de poder e conquista." "É um público diferenciado.
Há desde jovens loucos para parecerem outras pessoas, adultos vivendo aventuras
amorosas, crianças usando sites infantis ou não, senhores como meu avô que
se divertem pelo mundo virtual, pesquisadores que mantêm contato com outros
estudiosos..." "São pessoas abertas a qualquer tipo de novidades." "São
carentes e não se prendem a uma mesma coisa (pessoa) por muito tempo...
Pessoas que conheci que se mostraram muito carentes e que logo mudaram para
outras pessoas..." "Tenho meus altos e baixos também e às vezes não tenho
quem me faça companhia. Gostei de ver que as pessoas gostavam ou se interessavam
por mim, pelo que eu escrevia, pelas minhas idéias, e não como eu aparentava,
o que geralmente acontece. As pessoas na net são das mais variadas possíveis...
não há uma classificação exata, mas pra mim, a palavra-chave que descreve
a todos, seja qual for o nível ou espécie, é a CARÊNCIA. Carência de gente,
de se expressar, de falar, de informação, de sentir sensações novas, de
conhecer, de ajudar e ser ajudado, de ser escutado, enfim, existem vários
tipos de carências." Pontuando as noções apresentadas temos que as pessoas
da Net têm um certo nível de cotidiano e familiaridade com a informática
e com tecnologia; o aprendizado e uso das mesmas já faz parte de um certo
nível médio do dia-dia da maioria dos usuários, fazendo assim parte de sua
vida cotidiana. Procuram estar informadas sobre os mais diversos assuntos;
disso elas serem curiosas, atentas a novidades, criativas e terem algum
nível de instrução e alguma condição econômica para assim ter acesso a este
material (físico e simbólico). Possuem alguma carência afetiva ou sentem
alguma solidão; disso procuram um preenchimento ou complementação afetiva
através da Internet . As considerações de "normalidade" estão intimamente
ligadas às semelhanças ou afinidades entre usuários: se há comunicação,
isto é, se há troca de símbolos semelhantes (mediações bem sucedidas), este
é um sinal de normalidade; há uma clara referência de normalidade em relação
a si mesmo. Têm a noção de segurança e anonimato no espaço da Internet como
algo que possibilita a livre expressão de si; disso a livre participação
nas fantasia e simulacros da contemporaneidade (Ex.: sexo virtual, namoro
virtual, realidade virtual, jogos interativos, fóruns de temas normalmente
repudiados, invasões da intimidade alheia, invenção de características físicas
e/ou psicológicas, etc.) . Têm uma certa consciência ou noção da multiplicidade,
amplitude e variedade dos conteúdos e das pessoas que fazem parte do espaço
da Internet. E admitem a efemeridade como característica do modo como as
pessoas lidam com as coisas (e pessoas) no espaço da Internet, mas julgam
isso de maneira negativa. Enfim, podemos notar que muito do modo como estes
usuários da Internet vêem os outros usuários é também parte de suas próprias
características no mesmo espaço. O modo como se expressão a respeito do
outro (suas interpretações) mostra muito do que eles próprios parecem ignorar
de si próprios por ser já corriqueiro. Suas reconstruções dos cotidianos
dos outros no espaço da Internet é a expressão dos deles próprios. Ou, como
diz Giordano: "O eu e o outro, fechados na própria subjetividade e corporeidade
surgem prisioneiros nos limites insuperáveis do próprio espaço." (Giordano,
in Peluso, org., 1998: 73) Ainda sobre esta noção de Outro, temos a questão
do dito "anonimato" na Net, que atinge dois pólos: confiança e desconfiança,
pois, se um desconfia, o outro parece desconfiar também, porém, como ambos
se sentem seguros e protegidos pelo anonimato podem "se abrir" quase sem
restrições e a "crença" fica toda a cargo do outro. Fica então sendo uma
reciprocidade baseada na segurança do anonimato. Do nosso usuário ideal,
eu diria que ele é consciente em parte desta dinâmica e participa dela fazendo
julgamentos de caso a caso, de momento a momento, sobre como irá interagir
com o outro: confiando ou desconfiando (o mais geral seria no primeiro momento
a desconfiança, mas não é uma regra); forjando fantasias ou sendo "real";
mas tendo sua participação neste processo junto com as suas outras atividades:
comunicação, informação, trabalho, diversão e sociabilidade.
Em seguida perguntamos: "Você costuma fazer amizades (ou relações mais
próximas) com pessoas que conhece na Net?", que complementa este questionamento,
já que poderemos ver o grau de procura pela proximidade vista anteriormente.
53 pessoas (55,2%) disseram que costumam fazer amizades através da Internet.
38 pessoas (39,6%) disseram que não fazem ou ainda não o fizeram. E 5 pessoas
(5,2%) não responderam a questão. O que novamente podemos notar é a confirmação
da hipótese levantada anteriormente de que a Internet é, para os usuários,
um espaço de diversas interações em potencial. Mais da metade dos entrevistados
já construíram interações de cunho afetivo e quase uma outra metade está
presente num ambiente de potencial interação, seja afetiva por motivação
ou mesmo uma interação estritamente funcional que pode se tornar afetiva
também. Depois perguntamos: "Quantas pessoas já conheceu na Net? (não precisa
ser exato)", que nos dá uma noção da variedade de amplitudes alcançadas
até aquele momento pelas pessoas que afirmaram interagir afetivamente através
da Internet. Em alguns casos as diferenças de quantidades são diretamente
proporcionais com o tempo que a pessoa vem acessando a Internet. Algumas
quantidades: "Umas 3 ou 4." "Não menos que umas 50. Agora, desse total,
amigos, são poucos." "Um número muito alto... talvez mil ou mais." "Superficialmente,
centenas. Pra valer, umas cinco." "Várias, não sei quantas." "Várias, umas
sete ou oito." "Aproximadamente 10." "Entre 30 e 50 pessoas." "Muitas, mais
de 1000." "Umas 60, mas tive um segundo contato pouquíssimas vezes (umas
5 vezes)." "Umas setenta." "...mais de 35." "Mais de 40, só que continuo
mantendo contato com umas 5 ou 6." "Pessoalmente, umas trinta." Podemos
notar que as quantidades são bastante extremas (5 a mais de 1000), porém
podemos ver também que há diferenciação entre conhecer pessoas e fazer amizades.
O fato da ampla potencialidade de interações afetivas é um fator predominante
no fato da sociabilidade do nosso usuário ideal ser tão fluida e variável.
As questões de confiança e desconfiança voltam a aparecer aqui e também
da possibilidade do anonimato, da proteção e da fantasia, que inevitavelmente
restringem e limitam a aproximação simbólica/afetiva entre usuários, a não
ser mediante uma contínua busca por pessoas de maiores afinidades, com quem
se possa partilhar mais coisas e daí adquirir confiança e assim uma maior
proximidade simbólica, afetiva e até face-a-face (maior intimidade). 31
pessoas (32,3%) disseram que preferem relações com pessoas que estejam mais
próximas. 13 pessoas (13,5%) disseram que preferem relações com pessoas
estejam mais distantes. E 42 pessoas (43,7%) disseram que não faz diferença
estarem mais longe ou mais perto "fisicamente". Vemos que a grande maioria
não dá uma importância restritiva à distância em que se encontra a pessoa
com quem interage. Isso nos informa que as interações tendem a ter um caráter
realmente efêmero. Não que as pessoas que se interagem afetivamente no espaço
da Internet são prioritariamente efêmeras com relação às interações que
constróem, mas este dado pode ser interpretado como uma faceta multi-complementar
do espaço de interação da Internet, já reconhecida pelos usuários, e que
leva à formação de múltiplas interações que se complementam simbolicamente
dentro de cada usuário. Em todos, acredito, há sempre a possibilidade de
uma busca mais próxima com intenções menos efêmeras, mas a correspondência
desta intenção nem sempre é recíproca e por isso o uso da multiplicidade
de interações e por isso a não restrição da maioria em relação a uma localização
(mais próxima ou mais distante) do interlocutor. A intimidade pode tanto
estar na casa vizinha quanto num país muito distante. É o jogo de trocas
e afinidades que determinará essa interpretação. Essas questões relativas
a proximidade e distância; confiança e desconfiança; e efemeridade e intimidade
nos levam a perguntar: "Você já ignorou (ou costuma ignorar) pessoas que
conheceu na Net? Por que? É mais fácil fazer isso na Net? Por que? (espaço
livre)", onde vemos uma das características das interações no espaço da
Internet que mais as diferenciam das interações face-a-face e como os usuários
lidam com esta diferença. Os números: 49 pessoas (51,1%) disseram já ter
ignorado outras na Internet; e 45 pessoas (46,8%) disseram que não, nunca
ignoram ninguém (ainda). São dados equilibrados, mas como sempre, momentâneos
e apenas representativos de uma amostra de usuários da Internet; mesmo se
fossem mais pessoas questionadas estas contingências permaneceriam. Vejamos
os comentários dos pesquisados sobre este aspecto bastante particular da
sociabilidade na Internet: "Já! Pessoas inconvenientes." "Sim. Acho igual
a ignorar pessoas no real." "Sim. Tem pessoas que são chatas e que não vale
a pena manter contatos porque ás vezes querem manter uma conversa que não
me agrada como por exemplo fazer sexo virtual e conversas íntimas." "Uma
vez ignorei, porque menti sobre meu físico, chegamos a conversar por telefone,
e a coisa foi ficando cada vez mais profunda, e por vergonha de haver mentido
tive que cortar a relação." "Nunca ignorei, mas esta muito claro que é muito
mais fácil ignorar uma pessoa na Net." "Não o fiz. Mas é muito fácil ignorar
as pessoas na Internet pois cortando o meio de comunicação, se corta o contato."
"Às vezes, por questões de não haver empatia." "Sim, porque a gente enjoa
fácil das pessoas hoje, pois elas também dão atenção a um monte de gente
ao mesmo tempo... Sim, é mais fácil... porque você não convive com a pessoa
direto." "Sim. Se a pessoa não consegue manter um nível de conversa legal,
ou há uma má comunicação, tentou me ofender de alguma maneira, a gente não
se entende... eu ignoro. Claro... eu dificilmente ignoraria alguém pessoalmente
pelos tolos motivos que costumo fazer na Net, pois não gosto de machucar,
ofender, fora que estamos cara a cara... na Net pode-se mentir, dizer que
teve problemas na conexão e não haverá mágoas." Vê-se o espaço da Internet
como protegido, seguro, que possibilita o anonimato, a invisibilidade, a
distância e a variedade de escolhas, assim, descartar uma interação se torna
mais fácil e uma prática possível bastante comum, mesmo que aparentemente
não reconhecida em alguns momentos pelos próprios usuários. As razões para
este ignorar são variadas e de caráter pessoal, enumerá-las seria de certo
modo inútil. Todos estão expostos aos mesmos riscos de ignorar e de ser
ignorado pelas mais diversas razões. Reforçamos ainda mais este aspecto
do contexto da sociabilidade no espaço da Internet com as respostas dos
pesquisados a outra questão, que pergunta "E você já foi ou se sentiu ignorado?
Qual foi a sensação? (livre)", onde 29 pessoas (30,2%) disseram já terem
sido ignoradas. Enquanto 54 pessoas (56,2%) disseram que nunca foram (ainda)
ignoradas. Vejamos alguns dos comentários: "Olha, nunca percebi isso não.
Se aconteceu, não deu para perceber." "Sim, porém achei que naquele momento
a outra pessoa estava ocupada. Não me incomodei, pois tenho outros amigos."
- (a multiplicidade e a efemeridade influenciam nas reações a respeito;
além disso "estar ocupado" é uma das desculpas mais utilizadas para ignorar
outro usuário num momento inconveniente) "Sim. Uma vez troquei fotos com
uma criatura do Paraná, e quando recebeu as minhas, não me respondeu mais
os e-mails, me senti frustrado." "Sim, já fui ignorada, é horrível." "Por
vezes se entra em salas de bate-papo e os grupinhos já estão formados. Geralmente,
um ou outro fala com você. No caso de insatisfação, saí para outra sala
ou desliguei o micro sem crises existenciais." - (ação familiar ao cotidiano
dos usuários) "Já sim. Esqueci e parti pra outra..." - (familiaridade e
efemeridade) "Já fui ignorado. Bem, quem gosta de ser ignorado?" Baseado
nos dados, acredito que nosso usuário ideal está exposto à possibilidade
de ser ignorado, sempre, mas que sua reação deverá sofrer um tipo de classificação
não muito consciente do nível de importância da mesma; o que novamente penetra
no aspecto pessoal da noção do processo de ser ignorado. No entanto, devido
a característica da multiplicidade, somada a da efemeridade, também possíveis
e fortes nas interações no espaço da Internet, sua reação inicial deverá
ser de indiferença, mesmo que superficial, pois poderá sempre "partir para
outra...", como disse um dos usuários entrevistados.
1.6- Sobre a passagem da Net para o face-a-face:
Ao fazer a passagem de espaços de interação (Internet para face-a-face),
encontram-se diferentes rituais e regras de interação. A manutenção da interação
irá depender mais ainda do desenvolvimento do partilhamento das afinidades
(funcionais ou afetivas). O jogo expressão/impressão agora é direto e há
possibilidade das elaborações escritas (do espaço da Internet) entrarem
em conflito com as atuais (face-a-face), na mesma medida em que se complementam.
É a importância da interação com o outro sem a mediação escrita e eletrônica,
é o olho no olho que pode revelar mais do que se quer . A sociabilidade,
então, terá um caráter de espaços complementares (Internet e face-a-face)
de interação, caso a mesma continue (as afinidades se mantiverem). As múltiplas
possibilidades de ocorrência desse processo também é característico das
interações iniciadas a partir do espaço da Internet e o nosso usuário ideal
da Internet também convive com isso. Perguntamos "As amizades feitas na
Net passam ou já passaram para o chamado Mundo Real? Quantas já passaram?
O que pensa sobre isso, sobre esse tipo de relações? (sinta-se livre para
falar o que quiser)", e aqui estão algumas das respostas dos usuários: "Levei
alguns anos me relacionando apenas com pessoas cujo primeiro contado foi
virtual." "Cinco. Acho interessante, mas da mesma forma que acharia as que
fizesse no mundo "real"." "Não, nunca passaram porque eu não quis e também
por falta de oportunidade. Acho normal se vier a acontecer um encontro.
Tenho um encontro para Janeiro/2000 com um grupo de bate-papo."- (em contato
posterior fiquei sabendo que a pessoa conheceu, festejou e criou novas afinidades
e interações na nova situação; foi uma situação passageira, pois eram pessoas
de lugares diferentes; tirou fotos, guardou lembranças e alguns poucos teve
oportunidade de ver de novo, seguindo o seguinte modelo: semelhanças, identificações,
daí afinidades e possível identidade, quando comparada à diferença de outros
do mesmo grupo, mesmo sendo semelhantes; neste caso tem haver com proximidade
também, pois estar mais perto geograficamente passa a ser uma afinidade
partilhada...) "Sim. Cinco. Tão boas e duradouras quanto às "reais"." "Sim,
umas cinco. São amigos como quaisquer outros. Pessoas que gosto e com quem
eu saio." "Poucas, normalmente existe uma forte conexão sexual, que mais
facilmente se desacredita quando se conhece a pessoa que estava do outro
lado." "Várias já passaram, é sempre bom." "Nunca, mas tenho uma amiga próxima
que está namorando um cara que conheceu num chat. Achei legal porque ela
é uma pessoa relativamente tímida e ele também. Se não tivessem tido esse
primeiro contato no chat acho que não teriam nem começado a namorar." "Sim,
umas 5. Acho que são como qualquer outra, só que em maior quantidade e mais
rápidas..." "Não me sinto legal conversando pela Net. Acho que tudo é muito
falso." "Sim. Amizade de verdade, de sair e de participar da vida um do
outro, poucas. Mesmo porque a gente se identifica pela Net (semelhanças,
partilhamento de afinidades), mas pessoalmente não é nada daquilo (auto
elaboração de Eus, que não são sustentadas pelo novo espaço de interação).
Tenho um ex-namorado com quem me relaciono até hoje; foi a primeira pessoa
que conheci na Net. Outros, converso por telefone, mas não costumo sair
ou conviver muito mesmo. Acho legal quando as pessoas se identificam e conseguem
concretizar uma amizade. Mas não tem sido muito fácil pra mim concretizar
uma." "Sim, mas com algumas restrições... o elo que se forma é muito tênue,
qualquer coisa ele se desfaz e a amizade simplesmente evapora. Foi com umas
quatro pessoas... eu encaro como algo natural... a Net ainda é novidade,
as pessoas estão se acostumando, com o tempo vão levar mais a sério as coisa."
"Já sim, e foram quase todas. Acho uma ótima maneira de se fazer novos amigos
desde que haja sinceridade e respeito." Podemos ver que há uma visão geral
positiva a respeito das relações que começam na Internet e passam para o
face-a-face. Uma positividade ligada ao preenchimento afetivo, lúdico e
também o utilitário. No entanto, os usuários reconhecem certas contingências
inerentes à origem (uma origem baseada em afinidades/semelhanças) das relações
no espaço da Internet, tais como a desconfiança em relação ao outro; as
possibilidades de intenções discordantes a respeito da relação; a presença
subliminar do sexo nas relações; a intimidade efêmera; as distâncias geográficas;
etc. Na questão seguinte, "Qual o caminho (os passos) para maior intimidade
na Net para você? (livre)", continuamos a desenvolver os processos de passagem
entre espaços de interação. As respostas: "Uma maior proximidade geográfica
talvez." "Começar com um bate-papo e depois ir para o ICQ ou manter correspondência
por e-mail." "Na minha opinião não existe intimidade na Net, pois intimidade
mesmo é quando já se conhece e se convive com a pessoa." "Os chats, ICQ..."
"Com o tempo de contato eletrônico as afinidades vêm à tona e a intimidade
chega naturalmente. Mais ou menos como no mundo real." "Telefone." "Sinceridade."
"Não existe nenhum "roteiro" para a intimidade na Net." "Fórum, chat ou
site de encontros, e-mail, talvez ICQ, telefonema e finalmente ao vivo..."
"Conversar, telefonar, ver foto, marcar encontros... não sei se é isso que
quer saber!" "Tratar a Internet como algo normal... e acima de tudo respeitar
as pessoas." "E depois que sair da sala de bate-papo continuar sempre escrevendo
e se for do seu agrado passar seu fone e depois marcar um encontro..." "Sinceridade,
atenção e amizade." "Tentar ser natural como se a "coisa" estivesse acontecendo
no "mundo real"." Podemos analisar dois pontos de vista que terminam por
se cruzar sobre este aspecto da intimidade construída no espaço da Internet.
De um lado temos a progressão técnica ou instrumental, com o uso de ferramentas
de comunicação (chat, e-mail, ICQ, telefone, etc.) que levam a interação
a níveis cumulativos cada vez mais pessoais. E de outro lado temos que o
processo de construção de intimidade depende do material simbólico que é
trocado pelos usuários (as interpretações pessoais dadas a esses materiais
de troca), isto é, os níveis de intimidade dependem do jogo entre honestidade
e confiança entre interlocutores. No cruzamento destes dois pontos de vista
temos que, com uma fluência maior de ferramentas que permitem maior expressividade
entre os interlocutores das interações, as impressões se tornam também mais
fortes, o que não permitiria o uso de um tipo de má fé bastante peculiar
ao espaço da Internet: a auto elaboração de Eus exageradamente idealizados.
O nosso usuário ideal está presente neste contexto com as possibilidades
de usos de ferramentas de mediação que progressivamente trazem uma maior
intimidade às interações ao mesmo tempo que depende, para uma bem sucedida
construção de intimidade, de trocas simbólicas honestas. De qualquer maneira
a desconfiança ainda parece permear a noção de intimidade dos usuários entrevistados,
mesmo quando um caminho instrumental é apresentado. Perguntamos: "Onde costuma
encontrar (no Mundo Real) as pessoas que conheceu na Net?", cuja intenção
é fazer-se revelar os aspectos rituais e significativos desta possível passagem
entre espaços de interação diferentes, mas complementares. Algumas respostas:
"Em festas, em aniversários, em barzinhos." "Bares, praia, na minha casa."
"Locais públicos, como bares e Shoppings." "Geralmente locais públicos:
bares, lanchonetes, etc." "Em todo canto que ando." "Em bares, cafés, cinemas,
etc." Podemos ver uma grande maioria de usuários optando por lugares de
natureza lúdica: shoppings, bares e praias são os principais. No caso de
shoppings e bares de uma maneira mais generalizada já que são locais de
concentração lúdica bastante populares e acessíveis da contemporaneidade
urbana média. A praia parece ser um espaço mais sazonal e territorial, no
caso de Salvador (uma cidade litorânea), um espaço de lazer também bastante
popular e de baixo custo. Logo, os aspectos principais para a escolha de
locais para encontros face-a-face dos nossos usuários da Internet que praticam
a sociabilidade na mesma são o lazer e o baixo custo. Um outro aspecto está
implícito nesta questão, algo que não foi diretamente abordado nesta questão,
mas que está presente no discurso sobre a interação a partir da Internet,
que está relacionado com a questão da desconfiança, da segurança e da proteção;
quase todos os locais expressos pelos entrevistados se constituem como espaços
abertos ao público, isto é, a grandes quantidades de pessoas, o que deixaria
qualquer usuário seguro diante do fato de estar conhecendo alguém pela primeira
vez face-a-face. No entanto, os níveis de intimidade e de desconfiança são
constantemente balanceados por diversos fatores durante as interações e
suas continuações e acumulamentos simbólicos, portanto, em muitos casos
também já existe a aproximação suficiente para se encontrar o outro em locais
menos abertos ao público: casa, trabalho, escola, especialmente casa, pois,
como vimos, muitas pessoas disseram não revelar seus endereços residenciais.
A seguir foi perguntado: "Essas relações foram (ou são) mais duradouras
ou mais frágeis? Dê sua opinião." 24 pessoas (25%) disseram achar as relações
iniciadas a partir da Internet mais duradouras; 20 pessoas (20,8%) disseram
achar essas relações mais frágeis; e 52 pessoas (54,2%) simplesmente não
souberam como responder à pergunta. Um comentário que muito ilustra a posição
de parte dessa grande maioria que não soube responder a essa questão reproduzo
aqui: "A Net nada tem haver com o status da relação, se passou para o mundo
real é como outra qualquer, depende das pessoas envolvidas..." Podemos considerar
os outros dois blocos de respostas como representantes de posições pessoais
sobre uma situação sempre possível, isto é, pessoas que têm ou já tiveram
experiências de relações duradouras iniciadas a partir do espaço da Internet
e pessoas que ainda não tiveram esta oportunidade ou que tiveram a experiência
de passar por relações que foram rápidas e fugazes. A nossa generalização
final é que as relações iniciadas a partir do espaço da Internet tanto podem
ser mais duradouras quanto mais frágeis que outras. Na questão final foi
perguntado se "Você participa ou já participou de algum grupo formado a
partir da Net? Quais? Como foi ou é? (sinta-se livre para escrever)", que
nos acrescenta um pouco mais sobre o nível de envolvimento e integração
desses usuários da Internet com o tipo de sociabilidade possivelmente desenvolvida
na mesma. 33 pessoas (34,4%) disseram participar ou já ter participado de
algum grupo formado a partir da Internet; e 47 pessoas (48,9%) disseram
(ainda) nunca ter participado do mesmo tipo de grupo. Estes dados são obviamente
afetados pela presença de alguns membros do grupo Galera ZAZ pesquisado
dentro da amostra, mas, de qualquer modo, considerando os pesquisados de
fora do grupo que também fizeram parte da amostra e que também disseram
fazer ou já ter feito parte de grupo de origem semelhante, podemos afirmar
que os níveis de integração coletivos dos usuários da Internet têm um grande
potencial de crescer e se realizar. A presença de fatores circunstanciais
(trabalho, pesquisa, moda ou qualquer que seja a afinidade) e a tendência
a efemeridade estão também presentes na formação destes possíveis grupos,
mas, o fato relevante aqui na construção deste perfil de usuário ideal e
do contexto onde ele se desenvolve é que há a possibilidade do agrupamento,
existem grupos, as pessoas participam deles das mais diversas formas e apresentam
impressões sobre esta participação.
A despeito de tudo que é dito sobre a Internet (informação, velocidade,
etc.), o que parece importar para os usuários é o uso criativo particular
de cada um (profissional, lúdico, etc.), mesmo estando dentro de uma rede
infinita e impessoal (instituições, mercado, etc.) de aprendizados e influências
sobre o que deve e o que não deve ser feito com o espaço da Internet.
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