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Contemporânea Página da disciplina de História Contemporânea da UDESC |
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"Os fascistas ocupavam três chácaras - pedras amareladas, telhas da mesma cor - em uma depressão, de onde era preciso, antes de mais nada, expulsá-los. A operação era banal. Todas aquelas pedras do Tejo, entre Talavera e Toledo, permitiam que os milicianos chegassem à fazenda cobertos, se agissem com ordem e prudência. De noite, Ximenes tinha pedido granadas. O oficial encarregado da distribuição das armas era um emigrante alemão e, ao amanhecer, Ximenes, pasmo com tanta eficiência, tinha visto chegarem os caminhões - carregando granadas. Enfim, devidametne reclamadas, granadas de verdade estavam chegando. Uma das companhias de Ximenes era formada por milicianos chegados há pouco tempo, e que ainda não tinham lutado. Ximenes os cercara de seus melhores oficiais e agora os comandava pessoalmente. Ele deu início aos exercícios de lançamento de granadas. Na terceira companhia, a dos novos milicianos, houve oscilações. Um deles, a granada acesa, não conseguia lançá-la. 'Joga!", berrava o sargento. Ela ia explodir na mão dele e não ia sobrar muita coisa do coitado. Ximenes deu-lhe, com toda a força, um soco no cotovelo: a granada explodiu no ar, o miliciano caiu e o sangue começou a jorrar do rosto de Ximenes. O miliciano ficou ferido no ombro. Tinha escapado de uma boa. Assim que ele foi tratado e evacuado, começaram a desenrolar as bandagens para Ximenes. - Deixem os turbantes para os mouros - disse ele. - Basta um curativo. Ficava bem menos heróico: restou-lhe o aspecto de alguém remendado com selos. Ele voltou a se colocar ao lado do lançador seguinte. Não houve mais acidentes. Cerca de cinte homens foram dispensados. Ximenes tinha mandado Manuel - que, inteligentemente, o partido tinha colocado com um dos oficiais com o qual ele poderia aprender mais - fazer um reconhecimento do terreno. Ele sentia afeição pelo rapaz: Manuel não era disciplinado nem por gosto pela obediência, nem por gosto pelo comando, mas por natureza e sentido de eficiência. E ele era cultivado, o que sensibilizava o coronel. Que aquele engenheiro de som, excelente músico, fosse um oficial nato, espantava o coronel, que só conhecia os comunistas através de histórias absurdas. Ele não se dava conta de que um militante comunista de alguma importância, obrigado por suas funções a uma disciplina estrita e à necessidade de convencer, ao mesmo tempo, como administrador, agente de execução rigoroso e propagandista, tem muitas chances de ser um excelente oficial. O ataque da primeira granja começou. Era uma manhã tranqüila, as folhas imóveis como pedras e, de tempos em tempos, um vento bem leve, quase fresco, como se já quisesse anunciar o outono. Os milicianos atacaram com granadas, em ordem, protegidos pelas pedras e por seus atiradores, e a posição fascista tornou-se insustentável. De repente, cerca de trinta milicianos pularam sobre as rochas e atacaram a descoberto, gritando, em um assalto feroz. - Pronto! - grunhiu Ximenes, socando a porta do carro. Vinte milicianos já tinham caído sobre os rochedos, encolhidos, com os braços em cruz ou com os punhos sobre o rosto como se estivessem se protegendo; o sangue de um dos corpos, reluzente ao sol, cobria pouco a pouco uma pedra branca e chata, de uma pureza de açúcar. Felizmente, dos dois lados da granja, os outros milicianos tinham conseguido chegar aos últimos rochedos; eles não tinham visto os camaradas caírem. Sob as granadas, as telhas começaram a explodir como gêiseres. Em quinze minutos a granja tinha sido tomada. Os novos milicianos deviam atacar a segunda. Eles tinham assistido a todos os acontecimentos. - Meus filhos - disse Ximenes, montado na capota do Ford - a granja foi tomada. Aqueles que saíram das rochas contrariando as ordens, estão eliminados da coluna, tenham ou não sido os primeiros a entrar na granja. Não se esqueçam que aquele que nos contempla, quero dizer a história, que nos julga e nos julgará, precisa da coragem que vence, não da coragem que consola. Seguindo os caminhos designados, não há nenhum perigo até duzentos metros do inimigo. A prova é que eu irei com vocês neste carro. Antes disso, não devemos ter nenhum ferido. Em seguida, lutaremos e tomaremos a granja. Que a Provi... sorte nos assista! Que Aquele que tudo vê, quero dizer... a Nação espanhola, esteja conosco, rapazes, que lutamos por aquilo que acreditamos justo..." Na retaguarda dos novos milicianos, agora granadeiros, ele tinha colocado como atiradores os seus melhores soldados. Antes que chegassem às chácaras, viram os fascistas abandoná-las. Na semana precedente, alguns soldados fascistas tinham passado para o lado deles; cerca de quinze deles foram designados para a companhia de Manuel. Seu chefe efetivo, embora não eleito, Alba, era um miliciano de muita coragem, quase sempre hostil e que muitos suspeitavam que fosse um espião. Manuel mandou chamá-lo. Começaram a caminhar em meio ás pedras. Manuel estava indo em direção às linhas fascistas. Não era um front, mas naquela direção, apesara do abandono das granjas, o inimigo não estava a mais de três quilômetros. - Você tem um revólver? - perguntou Manuel. - Não. Alba estava mentindo: para Manuel bastava ver como suas calças pesavam na cintura. - Tome este. Ele entregou o revólver que tinha no bolso; manteve na cintura a longa pistola automática dentro do coldre. - Por que você não está na FAI? - Não tenho vontade. Manuel o observava, esses traços acentuados, mais que virilizados, o nariz redondo, a boca de lábios fortes, os cabelos quase ondulados mas plantados rudemente na fronte baixa... Manuel imaginava como, outrora, sua mãe devia achá-lo 'uma gracinha'. - Você reclama muito - disse Manuel. - Há muito a reclamar. - Há sobretudo muito a fazer. Se você ou eu mesmo estivéssemos no lugar de Ximenes, as coisas não seriam melhores, seriam piores. Portanto, é preciso ajudá-lo afazer o que tem que fazer. Depois veremos. - Ia ficar ainda pior, mas não seria um inimigo de classe a comandar. Para mim tanto faz. - Eu não me interesso por aquilo que as pessoas são, mas pelo que fazem. Enfim, Lenin não era um operário. Eis o que tenho a lhe dizer: você tem valor, esse valor tem que ser usado. O mais rápido possível e não para reclamar. Pense bem e depois diga com quem você concorda. A FAI, a CNT, o POUM, o que você quiser. Vamos reunir os caras de sua organização e você assume a responsabilidade. Precisamos de tenentes. Você já foi ferido? - Não. - Eu já, nessa história idiota de dinamite. Segura isto, está me dando dor nos rins. - E desatou o cinturão. - A cada qual o seu prazer: o meu é bancar o idiota com uma vareta. Ele arrancou uma à beira do caminho e voltou para o lado de Alba. Estava desarmado. Os fascistas talvez estivessem a um quilômetro. E, em qualquer caso, Alba estava a seu lado. - Minha opinião é que, para você, aqui não dá. E não vai dar nunca. Mas cada um tem que ter a sua chance. - Mesmo os excluídos do Partido? Manuel parou, estupefato. Ele não tinha pensado nisso. - Quando chegarem instruções formais do Partido a esse respeito, vou executá-las, quaisquer que sejam. Enquanto não chegarem, eu respondo: mesmo os excluídos do Partido. Neste momento, todo homem válido deve ajudar a República a vencer. - Você não vai ficar no Partido! - Vou." (MALRAUX, André. A esperança. Trad. e pref. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.155-158) |