Carta dos editores

"Alguém disse que lutar contra o neoliberalismo é o mesmo que lutar contra a lei da gravidade.

Então, ABAIXO A LEI DA GRAVIDADE" (Zapatista mascarad@)

Há poucos meses, o capitalismo global e a globalização econômica eram vistos como leis naturais inevitáveis, extensões, mesmo, da natureza humana. Quase ninguém pensou que seria possível desafiar o mito do "fim da história" (Francis Fukuyama) e calar uma instituição capitalista tão poderosa como a Organização Mundial de Comércio, num ato de desobediência civil de massas.

Depois da batalha de Seattle e do dia de ação internacional de 30 de Novembro, o mundo não voltará a ser o mesmo.

Há um número crescente de pessoas, grupos e movimentos que vêem as suas ações autônomas como atos de cooperação coletiva que estão intimamente ligados. Os dias globais de ação provaram que redes informais, diversas e "horizontais" podem levar a grandes mudanças.

Esta observação é obvia à medida que vamos trabalhando neste boletim: estudantes em greve na UNAM, no México; manifestações à porta da embaixada dos EUA em solidariedade com os protestos de Seattle; eventos simultâneos em Milão, Amsterdã, Manila e Coréia; agricultores indonésios em solidariedade com os indígenas na Colômbia que enfrentam a perseguição e a expulsão de suas terras; ativistas bascos e londrinos ocupam a roda do "milênio", em solidariedade com as pessoas de Narmada e do País Basco, ambas ameaçadas por construções de diques / barragens, etc.

Há uma consciência crescente quanto à interligação das diferentes lutas que se opõem ao capitalismo global em todas as suas formas. Há, também, uma consciência crescente de que estas relações sociais, das quais instituições como a OMC são meros símbolos ou expressões, não são, de forma alguma, leis naturais, mas sim humanas e, como tais, sistemas que os humanos podem desfazer.

A esperança em estimular tal processo levou, entre outras coisas, à criação da Ação Global dos Povos (AGP). A AGP era só uma iniciativa entre muitas, que fez a bola rolar. De momento, estes desenvolvimentos construíram a sua própria dinâmica, envolvendo cada vez mais pessoas e movimentos. A diversidade de realidades políticas que levou às "ondas de choque de esperança", em Seattle, só podem ser parcialmente reproduzidas neste boletim. É óbvio que nem todas as ações relatadas neste boletim estiveram envolvidas na AGP. Muitas podem nem ter ouvido tal nome. O Boletim da AGP não é só uma troca de informações, é uma ferramenta para facilitar a comunicação ao nível global. Está apenas começando e precisa da contribuição de todas pessoas interessadas em dar-lhe forma.

Neste boletim há uma clara falta de equilíbrio entre as regiões representadas. Há uma abordagem pesada da América do Norte e da Europa, enquanto que outras partes do mundo estão totalmente ausentes. Isto não se deve ao fato de não haver lutas nesses locais, mas sim de não haver contatos.

Um assunto que diga respeito a todo mundo só pode ser resolvido por todo mundo. Cabe a todo mundo tomar a iniciativa. Isto foi só o começo.

Em solidariedade-

os editores

 

voltAr


railtong@g.com