B.6 Mas não são decisões tomadas por indivíduos inteligentes que na maioria das vezes determina o sucesso ou fracasso financeiro?

Esta questão refere-se a um argumento muito utilizado pelos capitalistas para justificar o fato das decisões sobre investimentos estarem fora do controle público sob o capitalismo, onde os investidores privados tomam todas as decisões. Claramente o que está por trás desse argumento é que os indivíduos repentinamente perdem sua inteligência quando se reúnem para discutir interesses comuns. Contudo, seguramente, é atraves do debate que podemos enriquecer nossas idéias pela interação social. No mundo capitalista de mercado somos impossibilitados de discutir ou opinar e as ações ficam restritas a indivíduos isolados.

"o capitalismo sabe o preço de tudo e não sabe o valor de nada"

Esse assunto envolve o "Paradoxo do Isolamento", onde a verdadeira lógica de tomada de decisão do indivíduo difere da decisão tomada coletivamente. Veja um exemplo da "tirania das pequenas decisões". Vamos supor que na indústria de refrigerantes algumas companhias comecem a adotar garrafas não recicláveis. O resultado disso é que a maior parte, senão todas, das companhias que adotam garrafas recicláveis perderão terreno e acabarão por adotar as não recicláveis. Resultado: Isto provocará uma vasta destruição do meio ambiente.

É por isso que os preços de mercado falham por não levar em consideração os custos sociais e os benefícios. Na verdade estas coisas são subestimadas tanto pelo vendedor, pelo comprador, como também pelos outros que não se envolveram na transação. Segundo Schumacher, essas coisas acontecem por "força da idéia de que os negócios privados repousam em sua terrível simplicidade. Isto sugere que a totalidade da vida pode ser reduzida a apenas e tão somente um aspecto - lucros . . . " [Small is Beautiful, p. 215]. Mas a vida não pode ser reduzida a um só aspecto sem que se torne paupérrima, tanto que o capitalismo "sabe o preço de tudo e não sabe o valor de nada".

Portanto, o mercado promove "a tirania das pequenas decisões" e isto pode trazer resultados negativos para aqueles que estão envolvidos. A "solução" capitalista para este problema nunca foi solução, pois entra em ação apenas depois do fato consumado. Depois que as decisões foram tomadas e seus efeitos são sentidos é que vem a idéia de se fazer alguma coisa. Aí  pode já ser tarde demais. Será que uma companhia realmente pode reparar os danos causados a um frágil eco-sistema? Acrescente-se também que o contexto econômico muitas vezes tem sido significativamente alterado por causa de decisões envolvendo investimentos dificilmente reversíveis.

Em outras palavras, as operações de mercado provêem uma infinita fonte de exemplos que reforçam o argumento de que os resultados agregados à procura e satisfação de interesses privados podem ser coletivamente danosos. E como a coletividade é constituída por indivíduos, isto significa prejuízo para os indivíduos envolvidos. O extraordinário sucesso ideológico do "livre mercado" capitalista se constitui numa mistura de opção anti-social com interesse particular, tanto que qualquer decisão em favor da coletividade é tida como uma peça de auto-sacrifício. De qualquer maneira, na atomização da tomada de decisões, o mercado muitas vezes funciona contra os próprios interesses dos indivíduos que nele tomam parte.

A teoria do jogo alerta que a soma das escolhas racionais não significa automaticamente lucro a ser rateado pelo grupo racional. Na verdade, tal situação acaba de fato resultando em problemas de "âmbito coletivo". Por não agregar um benefício comum, a "corrida para o topo" pode resultar em que uma dada sociedade fique diante de situações que seus indivíduos na realidade nunca desejaram. A procura racional pelo auto-interesse individual conduz o grupo, e portanto, a maioria dos indivíduos, a piorar cada vez mais. O problema não é um julgamento individual ruim (longe disto, o indivíduo é a única pessoa capaz de saber o que é melhor para ele mesmo em determinada situação). É a ausencia de discussão social e de remédio para a situação que compele as pessoas a efetuarem escolhas intoleráveis. Elas não vêem outras opções.

Por não discutir o impacto de suas decisões com cada um daqueles que serão afetados, o indivíduo em questão acaba não efetuando a melhor escolha. Naturalmente, sob nosso atual centralizado e estatista sistema capitalista, seria impossível implementar tal discussão, e o arremedo que ele apresenta -- o processo eleitoral -- é tão vasto, burocrático e dominado pelo poder econômico, que assemelha-se àquelas leis desdentadas, geralmente ignoradas desde que não atrapalham os lucros.

Vamos considerar a mesma situação diante do socialismo libertário, onde a assembléia comunitária local discute a questão das garrafas recicláveis com seus trabalhadores. Aqui a função dos grupos de interesse específico (tais como cooperativas de consumidores, grupos ecológicos, comitês de ação, e daí por diante) jogam um papel crítico na produção de informações. Pessoas como Bakunin, Kropotkin, etc. sabiam da completa dispersão da sociedade onde o papel das partes interessadas é essencial para tornar as informações disponíveis para todos. Com base nestas informações surge o debate e a decisão coletiva virá enriquecida e muito provavelmente trará um retorno favorável para todos. Ela seria a melhor decisão sob o ponto de vista social e ecológico, que sem dúvida beneficiaria os indivíduos que discutiram e concordaram sobre seus efeitos neles mesmos e em sua sociedade.

Em outras palavras, o pensamento anarquista tem tomado uma parte ativa na criação de uma grande quantidade de opções que tem sua orígem naqueles que estão diretamente afetados pelos problemas. Naturalmente serão suas próprias decisões que melhor refletirão suas ansiedades e interesses.

É necessário enfatizar que tal sistema não envolve a discussão e o voto de cada pessoa na terra, o que paralizaria todas as atividades. Pelo contrário, a maioria das decisões seriam tomadas por aqueles que mais diretamente estão afetados pelo problema (p.e. trabalhadores decidindo sobre questões pertinentes à administração e sobre as decisões no dia-a-dia dentro da fábrica), a comunidade decidindo sobre política (p.e. reciclando coisas que estão sendo desperdiçadas). Jamais seriam eleitas pessoas para decidirem por nós em função da natureza descentralizada das confederações de comunidades que assegurariam a permanencia do poder nas mãos das pessoas locais.

Este processo de forma alguma implicará em que a tal "sociedade" decidirá o que um indivíduo irá consumir. Isto, como todas as decisões que dizem respeito a apenas um indivíduo, é inteiramente decidido por ele. A tomada de decisão comunal é para decisões cujo impacto afete tanto o indivíduo como a sociedade, de forma que aqueles que serão atingidos pela decisão reunidos entre si como iguais discutem e decidem o que é melhor para eles, tal processo cria um rico contexto social onde cada indivíduo participa como ator nunca como espectador. Estas coisas são impossíveis de serem implementadas sob o corrente sistema capitalista, onde as decisões que afetam profundamente as vidas das pessoas ficam nas mãos de uma elite, de uma classe de administradores e proprietários, que supostamente "sabem mais".

Existe, naturalmente, o perigo da "tirania da maioria" em qualquer sistema democrático, mas em uma democracia libertária direta, este perigo seria grandemente reduzido, pelas razões discutidas na seção I.5.6 (Sob o socialismo libertário, não haveria o perigo da "tirania da maioria"?).

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