C.7 O que provoca o ciclo econômico capitalista?

C.7.1 Qual o papel da luta de classes no ciclo econômico?
C.7.2 Qual o papel do mercado no ciclo econômico?
C.7.3 Qual o papel dos investimentos no ciclo econômico?

Ciclo econômico é a expansão (boom) ou contração alternada na atividade econômica capitalista. Em algumas épocas há pleno emprego, com os locais de trabalho produzindo mais e mais bens  e serviços, a economia cresce juntamente com os salários. Contudo, conforme Proudhon argumentou, a alegria desta situação não dura muito:

"Mas a indústria, sob a égide da propriedade, nunca será estável. . .  Ao menor sinal de crescimento da demanda, as fábricas enchem, e há trabalho para todos. Os negócios prosperam. . . [contudo] sob a égide da propriedade, o florescer da indústria vira uma coroa de flores funerária, [onde o papel do] trabalhador é cavar sua própria sepultura. . . [o capitalista] tenta. . . continuar produzindo com menos despesas. Então vem a ameaça de corte nos salários; a introdução de maquinário; a admissão de mulheres e de crianças . . . a diminuição nos custos cria um grande mercado. . . [mas] o poder produtivo tende a ser maior que a capacidade de consumo. . . [Se] hoje a fábrica está fechada. Amanhã o povo passará fome nas ruas. . . Em virtude da falência nos negócios e da extrema queda nos preços das mercadorias. . . os credores apavorados se apressam em resgatar seus fundos. A produção é suspensa, e o trabalho é paralizado". [P-J Proudhon, What is Property, pp. 191-192]
Por que isso acontece? Para os anarquistas, conforme observado por Proudhon, isso faz parte da natureza da produção capitalista e da relação social que ela cria ("a égide da propriedade"). A chave para o entendimento do ciclo econômico é a percepção de que, usando as palavras de Proudhon, "O proprietário vende produtos para o trabalhador por mais do que paga por eles; isto se configura em um embuste". [Op. Cit., p. 194]. Em outras palavras, a necessidade que os capitalistas tem de obter lucros às custas dos trabalhadores que empregam é a causa fundamental do ciclo econômico. Se a classe capitalista não pode produzir suficiente lucro, ela para a produção, promove o saque às pessoas, arruina vidas e comunidades até obter vantágens suficientes para novamente voltar a extrair lucros dos trabalhadores.

O que influencia estes níveis de lucro? Existem dois principais tipos de pressões nos lucros, que podemos chamar de "subjetivas" and "objetivas". As pressões objetivas estão relacionadas àquilo que Proudhon sugeriu quando disse que "o poder produtivo tende a ser maior que a capacidade de consumo", veremos isso com mais detalhes nas seções C.7.2 e C.7.3. As pressões "subjetivas" tem a ver com a natureza da relação social gerada pelo capitalismo, as relações de dominação e de sujeição são a raiz da exploração e da resistencia a ela. Em outras palavras as pressões subjetivas resultam do fato de que "propriedade é despotismo" (usando a expressão de Proudhon). Discutiremos o impacto na luta de classes (dessas pressões "subjetivas") na próxima seção.

Antes de continuar, gostaríamos de destacar que estes três fatores operam juntos em uma economia real, os dividimos aqui apenas para ajudar a explicar as questões envolvidas com cada um deles. Na luta de classes, a "comunicação" no mercado cria desproporcionalidades e excesso de investimento que interagem entre si. Devido às necessidades internas (luta de classes) e externas (inter-companhias) de competição, os capitalistas tem que investir em novos meios de produção. Como o poder dos trabalhadores cresce durante a expansão (boom), os capitalistas inovam e investem de forma a contê-lo. De maneira semelhante, para conquistar vantágens no mercado (visando lucros) sobre seus competidores, uma companhia investe em máquinas novas. Contudo, devido à ausencia de uma comunicação efetiva dentro do mercado causada pelo mecanismo de preços e por informações incompletas fornecidas. Conforme o gráu de interesse, este investimento torna-se concentrado em certas partes da economia. Pode ocorrer um relativo super investimento, criando a possibilidade de crises. Além disso, o boom encoraja novas companhias e competidores estangeiros a tentar obter uma quota no mercado ameaçando a queda no "gráu de monopólio" em uma indústia, reduzindo o aumento nos preços e os lucros das gandes coporações (que, por sua vez, pode provocar um aumento de fusões entre as empresas acelerando o fim do boom). Dessa forma, o poder dos trabalhadores além de diminuir, passa a ser apontado como a causa da erosão nas márgens dos lucros patronais. Daí surgem super investimentos pela introdução de novos equipamentos e de tecnicas visando manter a demanda pelos bens acabados. Este efeito contraditório da luta de classes é o estopim do efeito contraditório do investimento. O investimento causa crise por que ele é útil (i.e. ele ajuda a aumentar os lucros para as companhias individualmente em curto prazo, mas provoca o super investimento coletivo e derruba os lucros a longo prazo). A luta de classes atrapalha tanto a super acumulação de capital como também mantem a demanda agregada (postergando as crises) ao mesmo tempo em que provoca uma erosão nas márgens de lucros no ponto da produção (acelerando essa erosão). Estes fatores subjetivos e objetivos interagem e interferem entre si. Mas no final virá uma crise simplesmente porque o sistema é baseado no trabalho assalariado e os produtores não produzem para si mesmos. Em última análise, a crise é provocada quando a classe capitalista não angaria suficientes taxas de lucro. Se os trabalhadores produzissem para si mesmos, este fator decisivo não seria um problema uma vez que não existiria nenhuma classe capitalista.

É interessante notar que tais fatores funcionam inversamente durante um colapso econômico provocado pela recessão, onde é criado o potencial para um boom. Durante as crises, os capitalistas tentam restabelecer sua lucratividade (i.e. aumentando a mais valia). O trabalho fica em uma posição de fragilidade devido ao grande aumento do desemprego e assim, geralmente, aumenta o gráu de exploração àqueles que permanecem em seus empregos. Na queda econômica, muitas empresas param de funcionar, reduzindo o montante de capital fixo na economia. Além disso, o "gráu de monopólio" de cada indústria aumenta, elevando os preços e os lucros das grandes corporações. Eventualmente este aumento da produção de mais valia é relativamente suficiente para que o (reduzido) estoque de capital imobilizado aumente a taxa de lucro. Isto encoraja os capitalistas a voltar a investir novamente em direção a um novo boom (um boom que já contem as sementes do seu próprio fim).

Dessa forma o ciclo econômico continua, ao sabor das pressões "subjetivas" e "objetivas" -- pressões que são diretamente relacionadas com a natureza da produção capitalista e com o trabalho assalariado, sua base.



ciclo econômico. Diz-se da expansão ou contração alternada na atividade econômica geral de um país. Segundo alguns economistas, o intervalo entre a expansão e a contração é bastante regular. O ciclo, geralmente, tem quatro fases: expansão, nivelamento, contração e recuperação. Nos períodos de expansão (boom), o volume de produção, emprego, lucros e preços aumenta, acontecendo o contrário na contração. Quando a contração é muito forte, denomina-se depressão (depression), mas quando não é tão intensa, passa a chamar-se recessão (recession).

bens acabados. Bens que um fabricante tem prontos para vender e que por ele não serão ulteriormente transformados. Esses bens podem ser finais ou intermediários, de acordo com as circunstâncias de seu uso.

demanda agregada. Em palavras gerais, é a demanda total de bens e serviços dentro de uma economia. Mostra quanto dinheiro se espera que a comunidade gaste nos produtos da indústria dentro de um certo período. O esquema de demanda agregada é o fator vital na teoria do emprego.

depressão. Período prolongado em que a atividade econômica se encontra muito abaixo da normal e há grande pessimismo em todos os setores. Há grande redução em produção, investimento, consumo, surge o desemprego (unemployment) e ocorrem falências (bankruptcies).

capital imobilizado. Parte do acervo de uma companhia que se acha investido em bens do ativo fixo.

boom. Prosperidade rápida. Surto de prosperidade durante o ciclo econômico (business cycle), quando a economia está em recuperação (recovery) após uma depressão; há pleno emprego (full employment) dos recursos e os preços se elevam rapidamente. Depois de atingido o pico da prosperidade, quase certamente começará um período de recessão (recession).


C.7.1 Qual o papel da luta de classes no ciclo econômico?

Ela exerce um papel básico no ciclo econômico. A luta de classes (a resistencia à hierarquia em todas suas formas) é a causa principal do ciclo econômico. Conforme argumentamos na seção B.1.2 e na seção C.2. Para que o capitalista possa explorar um trabalhador ele precisa primeiro oprimi-lo. Mas onde há opressão, há resistencia; onde há autoridade, há o desejo de liberdade. Consequentemente o capitalismo é marcado por uma contínua luta entre trabalhador e patrão no que diz respeito à produção tanto fora como dentro do local de trabalho, e  contra todas as formas de hierarquia.

Esta luta de classes reflete um conflito entre trabalhadores que tentam se libertar e se fortalecer contra capitalistas que por sua vez tentam transformar o trabalho individual em um pequeno dente da engrenagem de uma grande máquina. Ela reflete a procura por parte dos oprimidos de tentar viver suas vidas em toda sua plenitude, que se expressa quando o "trabalhador reclama sua parte nas riquezas que produz; reclama sua participação na administração da produção; reclama não apenas viver um pouco melhor, mas usufruir integralmente de todos os seus direitos nos benefícios proporcionados pelas ciências e pelas artes". [Peter Kropotkin, Kropotkin's Revolutionary Pamphlets, pp. 48-49]

Confome Errico Malatesta argumentou, se os trabalhadores "tiverem sucesso em alcançar aquilo que procuram, eles estarão em melhor situação: eles ganharão mais, trabalharão menos horas e terão mais tempo e energia para refletir naquilo que lhes diz respeito, e desejarão imediatamente fazer grandes exigencias e satisfazer suas grandes necessidades . . . Não existirá nehuma lei natural (lei de salário) que determine qual porção do labor do trabalhador caberia a ele [ou ela]... Salário, horas e outras condições empregatícias são resultantes da luta entre patrões e empregados. O patrão procura fazer com que os trabalhadores tenham o mínimo possível; estes últimos procuram, ou pelo menos tentam, trabalhar o mínimo e ganhar o máximo, na medida do possível. Quando os trabalhadores acatam as condições que lhes são impostas contra sua vontade, sem saber como exercer uma efetiva resistencia às exigências dos patrões, eles acabam logo submetidos a uma condição bestial  de vida. Quando, em vez disso, eles tem idéias sobre como seres humanos devem viver, sabem como juntar forças, resolvem recusar trabalhar, de forma latente ou aberta ameaçam a rebelião, [agindo assim eles acabam] conquistando o respeito do patrão, em tais casos, eles serão tratados de uma forma relativamente decente. . . Através da luta, pela resistencia contra os patrões, portanto, os trabalhadores podem, até certo ponto, garantir uma melhora nas suas condições tanto quanto obter um progresso real". [Life and Ideas, pp. 191-2]

É essa luta que determina os salários e os benefícios indiretos tais como assistencia médica, auxílio educação e daí por diante. Esta luta também influencia na concentração de capital, na medida em que o capital usa a tecnologia para controlar trabalhadores (extraindo o máximo de mais valia possível) para obter vantágens contra seus competidores (veja seção C.2.3). Conforme discutido na seção D.10 (Como o capitalismo afeta a tecnologia?), o aumento do investimento de capital também reflete a tentativa de controle dos trabalhadores pelo capital (ou substituí-los por máquinas que nunca dizem "não"), e de transformar o indivíduo em uma "massa trabalhadora" que pode ser demitida e substituida com pouco ou nenhum incômodo. Por exemplo, Proudhon mencionou uma "fábrica inglesa" que confessou investir em maquinário precisamente para substituir humanos porque máquinas são mais fáceis de controlar:

"A insubordinação de nossa força de trabalho nos deu a idéia de que ela é dispensável. Nós empreendemos e estimulamos grandes esforços na mente para substituir o serviço dos homens por ferramentas mais dóceis, e alcançamos este objetivo. As máquinas libertaram o capital da opressão do trabalho". [System of Economical Contradictions, p. 189]
(Ao que Proudhon responde "quão desafortunado é aquele cujo maquinário não pode também libertar o capital da opressão dos consumidores!" A super produção em um mercado inadequado provocada pela substituição de pessoas por maquinário fará com que a ilusão da produção automática seja substituida por um profundo colapso -- veja seção C.7.3).

Portanto, a luta de classes influencia tanto salários como investimento de capital e preços das mercadorias no mercado. Ela também, e isso é muito importante, determina níveis de lucro e são esses mesmos níveis de lucro que originam o ciclo econômico. É por isso que, sob o capitalismo, a produção "apenas ajuda aumentar os lucros dos capitalistas. Assim surgem, consequentemente, - as contínuas flutuações da indústria, crises que se alternam periodicamente. . . " [Kropotkin, Op. Cit., p. 55]

Um mito capitalista muito comum, derivado da Teoria do Valor Subjetivo, é a idéia de que o livre mercado capitalista resultará em um contínuo boom, e que a causa das quedas econômicas surgem devido a um suposto controle estatal do crédito e do dinheiro. Vamos assumir, por um momento, que este fosse o caso. (De fato, não é o caso, como veremos na seção C.8). Na "economia boom" dos sonhos do "livre mercado", haveria pleno emprego. Mas em um período de pleno emprego, essa condição ajuda "aumentar a demanda total, [contudo] sua característica fatal do ponto de vista do empregador é que ela mantém o exército reserva de desempregados em um baixo patamar, isso proteje os níveis de salário e fortalece o poder de barganha dos trabalhadores". [Edward S. Herman, Beyond Hypocrisy, p. 93]

Em outras palavras, os trabalhadores estão em uma forte posição sob as condições do boom, um fortalecimento que pode inclusive vir a instabilizar o sistema. E isto porque o capitalismo sempre caminha sobre uma corda bamba. Se o boom prossegue sereno, os salários reais permanecem dentro de uma certa faixa. Se seu crescimento for muito pequeno os capitalistas terão dificuldades para vender os produtos que seus trabalhadores produzem, por causa disso, enfrentarão aquilo que se chama de "crise de realização" (i.e. o fato dos capitalistas não poderem lucrar pois não tem a quem vender seus produtos). Se o salário real crescer mais da conta então as condições para produzir lucros serão arruinadas pelo fato do trabalho receber mais valor do que produz. Isto significa que em períodos de boon, quando o desemprego está em baixa, as condições para o lucro melhoram pelo fato da procura para o consumo de bens aumentar, esta expansão nos mercados encoraja os capitalistas a investir. Contudo, tal crescimento nos investimentos (como tambem no emprego) tem um efeito adverso nas condições para produção de mais valia em virtude do trabalho passar a reivindicar seus direitos no ponto da produção, aumentando sua resistencia às exigências dos administradores e, muito mais importante, fazendo suas próprias.

Se uma indústria ou país experimenta alto desemprego, os trabalhadores farão muitas horas extras, os salários ficarão estagnados, haverá péssimas condições de trabalho e novas tecnologias serão criadas para substituir a mão de obra. Tudo isso faz com que o capital extraia um alto índice de lucro às custas dos trabalhadores, sinalizando para que outros capitalistas invistam também naquela área. Na medida que o investimento cresce, o desemprego cai. Conforme o poço da mão-de-obra disponível começa a secar, os salários voltam a subir, enquanto os empregadores vascilam os trabalhadores se conscientizam do seu próprio potencial. Como os trabalhadores estão em melhor posição eles podem avançar resistindo à agenda do capital e apresentando a sua própria (p.e. exigindo elevação de salários, melhores condições de trabalho e até mesmo autonomia e controle pelos próprios trabalhadores). Na medida que o poder dos trabalhadores aumenta, a quota de renda que vai para o capital sofre uma queda, o mesmo ocorre com o rateio nos lucros, o capital passa a experimentar uma pressão nos lucros e reage cortando os investimentos, empregos e salários. O corte nos investimentos faz reaparecer o desemprego nos setores de bens de capital da economia, que por sua vez reduz a demanda pelos bens de consumo pelo fato dos trabalhadores desempregados não poderem comprar tanto quanto antes. Este processo se acelera na medida em que os patrões demitem os trabalhadores ou cortam seus salários fazendo com que a queda econômica se aprofunde, e assim se renovam os ciclos vez após vez. Todas estas coisas podem ser chamadas de pressões "subjetivas" para aumento do rateio de lucros.

Esta interação entre lucros e salários pode ser observada na maioria dos ciclos econômicos. Por exemplo, vamos considerar a crise keynesiana do pós guerra que terminou no princípio dos anos 70 e que preparou o caminho para as "revoluções na oferta" de Thatcher e Reagan. Esta crise, que ocorreu em 1973, teve suas raízes no boom dos anos 60. Se olharmos para os EEUU veremos que esse país experimentou um contínuo crescimento entre 1961 e 1969 (o mais longo de sua história). De 1961 em diante, o desemprego manteve-se estável, efetivamente havia pleno emprego. A partir de 1963, o número de greves e o total de tempo gasto teve um aumento constante (de cerca de 3.000 greves em 1963 para perto de 6.000 em 1970). O número de greves relâmpago subiu de 22% (total das greves em 1960) para 36.5% em 1966. Em 1965 tanto as quotas como o rateio de lucros das corporações chegaram ao seu pico. Daí em diante começou uma queda na participação e na taxa de lucro que continuou até 1970 (quando o desemprego começou a crescer), daí ela passou a crescer levemente até o ano de 1973 quando ocorreu a queda econômica. Além disso, após 1965, a inflação botou o pé no acelerador com as empresas capitalistas tentando desesperadamente manter suas márgens de lucro repassando suas crescentes despesas para os consumidores (conforme discutiremos mais abaixo, a inflação tem mais a ver com lucro dos capitalistas do que com oferta de moeda ou salário monetário). Tudo isso ajudou a reduzir os ganhos reais no salário e a manter a lucratividade alta de 1968 até 1973, fato que ajudou a postergar, mas não interrompeu a queda econômica que estava a caminho.

Analisando bem este quadro, vemos que nos países capitalistas desenvolvidos em geral, a massa salarial subiu constantemente de 1962 até 1971 quando a produtividade despencou. Essa massa salarial (quanto realmente custa ao empregador os salários dos trabalhadores) equiparou-se à produtividade em 1965 (ao redor dos 4%) -- que também foi o ano em que as quotas e as taxas de lucros alcançaram seu pico. De 1965 até 1971, a produtividade continuou a cair enquanto os salarios aumentavam. Este processo resultou na queda do desemprego e no aumento do poder dos trabalhadores (expresso, em parte, pela eclosão de greves pela Europa e em outros lugares). Tudo isso garantiu que os salários reais e a produtividade nos paises capitalistas desenvolvidos crescesse alcançando os mesmos índices de 1960 a 1968 (4%). Mas entre 1968 e 1973, os salários reais cresceram uma média de 4.5% comparado com o aumento da produtividade de apenas 3.4%. Alem disso, devido ao aumento da competição internacional as companhias não puderam repassar os aumentos de salários para os consumidores elevando os preços das mercadorias (de forma que, novamente, isso serviu apenas para postergar, não impedir, a queda econômica). Como resultado destes fatores, a taxa de lucros obtida pelas corporações caiu em cerca de 15% no período.

Além disso, fora do local de trabalho uma "serie de fortes movimentos por libertação eclodiram entre as mulheres, estudantes e minorias étnicas. Estava em curso uma crise das instituições sociais, extensos grupos sociais passaram a questionar os fundamentos da sociedade moderna e hierárquica: o patriarcado familiar, o autoritarismo na escola e na universidade, a hierarquia no local de trabalho e nas oficinas, a burocracia partidária e sindical". [Takis Fotopoulos, "The Nation-state and the Market," p. 58, Society and Nature, Vol. 3, pp. 44-45]

Estas lutas sociais resultaram em uma crise econômica pois o capital não conseguia oprimir e explorar suficientemente as pessoas da classe trabalhadora de forma a manter uma satisfatória taxa de lucros. Esta crise foi então usada para
"disciplinar" a classe trabalhadora e restaurar a autoridade capitalista dentro e fora do local de trabalho (veja seção C.8.2). Convem também lembrar que este processo de revolta social, a despeito, ou talvez por causa de, do crescimento da riqueza material, foi prevista por Malatesta. Em 1922 ele argumentou:

"O erro fundamental dos reformistas é sonhar com uma solidariedade, uma sincera colaboração, entre senhores e servos. . .

"Aqueles que visualizam uma sociedade de porcos gordos gingando satisfeitos sob a palmatória de um pequeno número de porqueiros; não levam em conta a necessidade de liberdade e o sentimento de dignidade humana. . . [eles] podem também imaginar e aspirar por uma organização técnica de produção que assegure abundancia para todos e ao mesmo tempo vantágens materiais tanto para patrões como para os trabalhadores. Mas na realidade "paz social" baseada em abundancia para todos não passará de um sonho enquanto a sociedade estiver dividida em classes antagônicas, entre empregadores e empregados. . .

"O antagonismo é tanto espiritual quanto material. Jamais haverá um sincero entendimento entre patrões e trabalhadores para uma melhor exploração [sic!] das forças da natureza no interesse da humanidade, porque os patrões almejam sobretudo continuar sendo patrões e garantir cada vez mais poder às custas dos trabalhadores, mesmo competindo com outros patrões, uma vez que os trabalhadores recebem seu suprimento dos patrões e não querem nada mais além disso!" [Life and Ideas, pp. 78-79]

A experiencia dos compromissos de pós-guerra e a reforma social democrática revela com clareza que, definitivamente, a questão social não é tanto a pobreza mas a liberdade, pelo impacto que ela exerce na luta de classes sob o capitalismo.

Mais recentemente, o pânico em Wall Street que sucedeu à notícia de que o desemprego estava declinando nos EEUU reflete este medo do poder da classe trabalhadora. Sem o fantasma do desemprego, os trabalhadores podem começar a lutar por melhores condições, contra a opressão capitalista, a exploração, por liberdade e por um mundo justo. Cada depressão dentro do capitalismo ocorre a partir do momento em que os trabalhadores começam a ver o desemprego cair e seu padrão de vida melhorar -- e isso não é uma coincidência.

A Curva de Philips, que indica que a inflação aumenta na medida em que o emprego cai é também uma indicação desse relacionamento. Inflação é a situação onde existe um aumento geral de preços. Economistas neo-classicos (e outros pró-"livre mercado" capitalista) argumentam que inflação é um fenômeno puramente monetário, o resultado de existir mais dinheiro em circulação do que é necessário para a venda das variadas mercadorias no mercado. Contudo, isto não é verdade. Em geral, não há qualquer relação entre oferta de dinheiro e inflação. O montante de dinheiro pode aumentar ao mesmo tempo em que a inflação cai, por exemplo (este foi o caso nos EEUU entre 1975 e 1984). A inflação tem outras raízes. Sabidamente, ela é "uma expressão de lucro inadequado que precisa ser compensado pelo preço e pela política monetária. . . Sob quaisquer circunstâncias, inflação expressa a necessidade por altos lucros. . ." [Paul Mattick, Economics, Politics and the Age of Inflation, p. 19]. Inflação conduz a altos lucros por tornar o trabalho barato. Isto é, ela reduz "os salários reais dos trabalhadores. . . [fato que] beneficia diretamente os empregadores. . . [na medida] que os preços sobem mais rápido que os salários, os rendimentos que iriam para os trabalhadores acabam indo direto para os cofres dos patrões". [J. Brecher and T. Costello, Common Sense for Hard Times, p. 120]

Inflação, em outras palavras, é o sintoma de que há uma contínua luta em torno da distribuição da renda entre as classes, pelo fato dos trabalhadores não terem nenhum controle sobre os preços, ela surge quando as márgens de lucro dos capitalistas estão reduzidas (por diversas razões, subjetivas ou objetivas). Isto significa que é errado concluir que aumento de salário "provoca" inflação. Dizer isso é ignorar o fato de que não são os trabalhadores que estabelecem os preços, mas os capitalistas. A inflação, por si própria, mostra a hipocrisia do capitalismo. Os salários aumentam, acima de tudo, devido às forças "naturais" de procura e de oferta no mercado. A inflação reflete a ação dos capitalistas tentando avançar no mercado recusando aceitar os lucros baixos provocados pelas condições daquele mercado. Obviamente, para usar a expressão de Tucker, sob o capitalismo, as forças do mercado são boas para os peixinhos (trabalho) mas má para os tubarões (capital).

Isto não significa que num processo inflacionário todos os que estão sob o regime capitalista serão igualmente atingidos (obviamente que não, neste processo as camadas sociais que vivem de rendas fixas são as que mais sofrem quando os preços aumentam, mas tais pessoas são irrelevantes aos olhos do capital). Na verdade - durante os períodos de inflação, o emprestador tende a perder e o que pede emprestado tende a ganhar. A oposição aos altos índices de inflação por parte de muitos defensores do capitalismo é baseado neste fato e a divisão entre as classes também aponta isso. Há dois principais grupos de capitalistas, os capitalistas financeiros e os capitalistas industriais. Estes últimos podem e tiram proveito da inflação (como mencionamos anteriormente) mas o outro vê a inflação como uma ameaça. Quando a inflação está acelerada ela pode empurrar a real taxa de juro para o território negativo e isto se torna uma horripilante perspectiva para aqueles cujos ganhos com juros são fundamentais (i.e. o capital financeiro). Além disso, altos níveis de inflação podem também ser o combustível para lutas sociais, com os trabalhadores e outros setores da sociedade tentando preservar seus rendimentos em um patamar seguro. Dessa forma, a luta social exerce um efeito político naqueles que estão envolvidos, uma condição de inflação elevada pode trazer sérios impactos à política de estabilidade do capitalismo, causando problemas para a classe dominante.

A forma como o governo e os meios de comunicação encaram a inflação reflete a correlação de forças dessas duas seções da classe capitalista e a amplitude da luta de classes dentro da sociedade. Por exemplo, nos anos 70, com o crescimento da mobilidade internacional do capital, a balança do poder se estabilizou com a ajuda do capital financeiro, ao mesmo tempo em que a inflação era apontada como a fonte de todo o mal e o bode expiatório para todos os problemas. O sinal da influencia do capital financeiro pode ser facilmente notado quando os agiotas começam a ganhar muito dinheiro. A distribuição dos lucros nas fábricas dos EEUU revela este processo -- comparando os períodos 1965-73 com 1990-96, notamos que os pagamentos em juros subiram de 11% para 24%, os pagamentos em dividentos de 26% para 36% enquanto que os lucros retidos cairam de 65% para 40% (lucros retidos são a fonte mais importante dos fundos de investimentos, pois o aumento do capital financeiro ajuda a expandi-lo. Ao contrário do que diz a direita, o crescimento econômico torna-se firme na medida em que o mercado torna-se mais liberalizado -- os fundos que recebem investimentos reais acabam se tornando uma verdadeira máquina financeira). O problema, do ponto de vista do capital, é que os salários oriúndos de greves e de protestos que a inflação produz tem implicações preocupantes para a classe dominante. Na medida em que as razões fundamentais para a inflação permanecem (sabidamente o desejo pelo aumento nos lucros) a inflação por si só acaba apenas reduzida a níveis aceitáveis, níveis que asseguram um rateio de juros positivos reais e lucros aceitáveis.

É por isso que a condição de pleno emprego é considerada ruim para o empresário. A base da chamada "Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment" (NAIRU). Em português, "taxa não acelerada de inflação do desemprego". Esta é a taxa de desemprego para uma economia para que a inflação, conforme dizem, comece a acelerar. Embora esta "teoria" seja débil em sua base (a NAIRU é uma taxa invisível, móvel, e enquanto "teoria" pode explicar cada evento histórico simplesmente porque você não pode provar nada pois seus detalhes não são transparentes aos olhos de meros mortais) ela é muito útil para justificar políticas cuja meta é atacar o povo trabalhador, suas organizações e atividades. A NAIRU relaciona-se com um "espiral de salários-preços" causada pela queda do desemprego e pelo aumento dos direitos e do poder dos trabalhadores. Naturalmente, você nunca fica sabendo de nenhuma "espiral de salários-preços", de uma "espiral de renda-preço" ou de uma "espiral de lucros-preços" mesmo quando todos sabemos que estas coisas também fazem parte na composição de algum preço. Aparece apenas e tão somente a tal de "espiral de salários-preços", simplesmente por causa dos juros, renda econômica e lucros são rendimentos para o capital e portanto, por definição, do ponto de vista do capital estão acima de qualquer reprovação. Ora, a simples aceitação da lógica da NAIRU, é uma prova de que o sistema capitalista implicitamente reconhece sua incompatibilidade com o pleno emprego (são mutuamente exclusivos) jogando por terra o mito de sua eficiencia na alocação de recursos e a ilusão de que o contrato de trabalho beneficia igualmente ambas as partes.

Por estas razões, os anarquistas argumentam que um contínuo "boom" economico torna-se uma impossibilidade simplesmente pelo fato de que o capitalismo vive em função do lucro. As pressões subjetivas para obtê-lo devido a luta de classes entre trabalhadores e capitalistas, necessariamente produz o contínuo ciclo prosperidade-colapso. Quando o caldo começa a engrossar, tudo aquilo que vem depois torna-se absolutamente previsível, assim "necessariamente, a abundancia de alguns baseia-se na pobreza de outros, e as circunstancias restritivas de um grande número [de pessoas] precisa ser mantida a todo custo, para que a mão-de-obra possa vender-se a si mesma, de forma que uma parte dela seja capaz de produzir, sem o que a acumulação privada de capital torna-se impossível!" [Kropotkin, Op. Cit., p. 128]

Naturalmente, quando tais pressões "subjetivas" são levadas a efeito dentro do sistema, quando a acumulação de capital é ameaçada pela melhora das condições de vida de um número crescente de pessoas, a classe dominante acusa a classe trabalhadora de "gananciosa" e de "egoísta". Quando isto ocorre precisamos nos lembrar das palavras de Adam Smith sobre esse tema:

"Na realidade, altos lucros tendem muito mais a aumentar preço de trabalho do que elevar salários... Aquele componente do preço da mercadoria que de per si determina salários. . . cresce apenas em proporção aritmética no que diz respeito ao aumento de salários. Mas se os lucros de todos os diferentes empregadores daquelas pessoas subisse cinco por cento, aquele componente do preço da mercadoria que de per si determina lucros. . . cresceria em proporções geométricas no que diz respeito ao aumento nos lucros. . . Nossos comerciantes e proprietários de fábricas reclamando dos maus efeitos dos altos salários aumentam os preços fazendo com que haja uma redução das vendas de seus produtos tanto no plano doméstico como externo. [Todavia] calam-se com relação aos efeitos noscivos dos altos lucros. Permanecem em silêncio com relação aos perniciosos efeitos de sua própria ganância. O mal sempre está nos outros nunca neles próprios" [The Wealth of Nations, pp. 87-88]
Smith, é bom lembrar, tira suas conclusões a partir de uma análise fria sobre o pensamento e o comportamento dos "comerciantes e proprietários de fábricas" de seu tempo. Não é de surpreender, que uma determinada teoria econômica avance (ou degenere) tendo como ponto de partida a desinteressada análise de Smith e como ponto de chegada a apologética contida na ação patronal (um exemplo clássico, importante destacar, da procura e da oferta, com o mercado local de idéias respondendo a uma demanda de funcionamento a partir de "nossos comerciantes e proprietários de fábricas"). Qualquer "teoria" que procure imputar os problemas do capitalismo à "ganancia" dos trabalhadores sempre entrará em choque com qualquer outra que corretamente apresente as contradições criadas pela escravidão assalariada. Proudhon resumiu a teoria econômica capitalista quando ele afirmou que "A política econômica -- ou seja, o despotismo do proprietário -- nunca incorre em erro: ele tem que esstar no proletariado". [System of Economical Contradictions, p. 187]. Nada mudou desde 1846 (ou 1776!) quando os economistas começaram a "explicar" os problemas do capitalismo (tais como ciclo econômico ou desemprego). Em nosso dias os economistas capitalistas apontam o dedo para a classe trabalhadora acusando-a de culpada por cada problema que o capitalismo enfrenta, afirmam que as adversidades surgem pela recusa dos trabalhadores em se ajoelhar devidamente diante dos patrões (por exemplo, o desemprego é provocado deliberadamente quando os salários se tornam elevados porque os patrões precisam do desemprego para a manutenção de seu poder e lucros -- veja seção C.9.2 uma evidência impírica que indica que a segunda explanação é a mais correta).

Antes de concluir, resta ainda um último ponto. Embora nossa análise da pressões "subjetivas" no capitalismo possa parecer similar à dos principais economistas, este não é o caso. Isso porque nossa análise reconhece que tais pressões são inerentes ao sistema, tem efeitos contraditórios (e portanto não podem ser facilmente resolvidas sem que as coisas fiquem pior que antes) e retem o potencial para a criação de uma nova sociedade. Nossa análise reconhece que o poder e a resistencia dos trabalhadores é ruim para o capitalismo (como o é para qualquer sistema hierárquico), mas ela também indica que não existe nada que o capitalismo possa fazer sem a criação de regimes autoritarios (tais como a Alemanha nazista) ou pela produção de maciços amontoados de desempregados (como foi o caso no princípio da década de 80 nos EEUU e no Reino Unido, quando governos de direita deliberadamente provocaram profundas recessões). Mesmo assim, a exemplo dos anos 30 na América do Norte ou nos anos 70 na Inglaterra, não conseguiram eliminar a luta das classes dos trabalhadores.

Nossa análise demonstra as limitações e as contradições do sistema tanto quanto a necessidade dos trabalhadores sempre estarem em uma posição de fraqueza na hora da barganha para que ele possa "trabalhar" (fato que por si só destrói o mito de que o capitalismo é uma sociedade livre). Além disso, mais que retratar o povo trabalhador como vítima do sistema (como é o caso de muitas análises marxistas do capitalismo) nossa análise reconhece que nós, tanto individualmente como coletivamente, temos o poder de influenciar e mudar este sistema através de nossa atividade. Temos que nos orgulhar do fato de que o povo trabalhador se recusa negar-se a si mesmo, resiste submeter seus interesses a outros ou exercer o papel de tarefeiro requerido pelo sistema. Expressões do espírito humano como a luta pela liberdade contra a autoridade, por exemplo, não podem ser ignoradas nem menosprezadas, pelo contrário, devem ser celebradas. Esta luta contra a autoridade causa muitos problemas ao sistema e não é um argumento contra a luta social, é um argumento contra um sistema baseado na hierarquia, na exploração e na negação da liberdade.

Resumindo, de muitas maneiras, a luta social torna-se a expressão dinâmica da decadência do sistema, de sua mais básica contradição: onde o capitalismo tenta transformar a maioria das pessoas em meras mercadorias (precisamente, portadores da força de trabalho). Daí surge a resposta humana a este processo de objetificação (precisamente, a luta de classes). Portanto, jamais poderemos concluir que crises se resolvem com cortes de salários -- muito pelo contrário, conforme argumentaremos na seção C.9.1, o corte nos salários aprofunda ainda mais a crise, tornando a situação pior que antes. Não podemos concluir tampouco que, uma vez eliminada a luta social, o capitalismo passaria a funcionar tranquilamente. Mesmo que assumamos que a força de trabalho seja uma mercadoria como qualquer outra, alegando que seu preço subirá na medida em que crescer sua procura (produzindo inflação ou achatando os lucros, provavelmente ambos). Mesmo sem a luta social que acompanha o fato de que a força de trabalho não pode ser separada do indivíduo que a vende. Enfim, o capitalismo deve ser confrontado com o fato de que apenas o trabalho excedente (desemprego) garante a criação de um montante adequado de mais valia.

E as coisas não param por aí. Mesmo assumindo que os indivíduos podem ser totalmente felizes em uma economia capitalista, o fato de vender sua liberdade e criatividade por um punhado de dinheiro, coloca-os, inquestionavelmente, diante das exigencias e caprichos de seus patrões (negando, assim, sua própria personalidade e individualidade por esse processo), o capitalismo não tem pressões "objetivas" limitando seu desenvolvimento. A luta social, conforme argumentamos acima, pode exercer um efeito decisivo na saúde da economia capitalista, e este não é o único problema que os sistema enfrenta. Isto porque há pressões objetivas dentro do sistema além e acima das relações sociais que ele produz (e a resistencia a elas). Tais pressões serão discutidas a seguir, nas seções C.7.2 e C.7.3.



greve-relâmpago. Interrupção súbita do trabalho que ocorre em violação ao contrato trabalhista e contraria os desejos dos líderes sindicais.

participação nos lucros. Plano que permite a empregados elegíveis receber uma proporção dos lucros da empresa em que trabalham.

recessão. Movimento descendente do ciclo econômico (economic cycle), geralmente de curta duração. Durante a recessão diminui o crescimento econômico do país, há desemprego e a demanda geral baixa. Tem certo relacionamento com depressão (depression) e contração (contraction).

oferta de moeda. Montante total da moeda que circula em um país, em dado momento, não estando incluído o estoque de moeda reservado pelas autoridades. Essencialmente, a moeda é geralmente aceita como um meio de troca, mas esta característica não permite uma definição única de oferta de moeda; outros meios de pagamento também são aceitos.

salário monetário. Remuneração por serviços de um assalariado, em termos do dinheiro recebido. Comparar com salário real (real wage), que é o poder aquisitivo da moeda quanto às necessidades da vida e outras coisas desejadas pelo assalariado. Também se chama salário nominal (nominal wage).

Curva de Phillips. Curva que estabelece uma relação entre o índice de aumento nos salários e o percentual de desemprego da mão-de-obra (labor) civil. A intenção é demonstrar a substitutibilidade (trade-off) entre emprego e aumentos salariais. É também um relacionamento hipotético entre desemprego e inflação.

lucros retidos. Diz-se da retenção dos lucros após a dedução dos impostos e dos dividendos das sociedades anônimas. Nos balanços (balance sheets) podem figurar como "reservas".

espiral de salários-preços  ou inflação de custo. Alta no nível de preços que, segundo se acredita, ocorre quando os salários aumentam mais do que a produtividade. Embora possa significar aumento em qualquer dos custos de produção, o uso mais comum da expressão é para descrever aumentos salariais, sendo usada como sinônimo de inflação salarial (wage inflation) e de inflação de entidades vendedoras (seller's inflation). De acordo com as teorias, os preços sobem somente quando a demanda (demand) excede o volume de produção, havendo emprego total (full employment); todavia, parece que o volume de produção pode estar abaixo de tal nível e ainda assim os preços subam. Em inglês, a expressão quer dizer, literalmente, "inflação impelida por custo".

 renda econômica. 1. Importância monetária paga pelo uso da terra ou dos edifícios porventura existentes. 2. Excedente pago a qualquer fator de produção (factor of production) acima do que é necessário para mantê-lo em sua ocupação. Por exemplo, se um aviador ganha 20, mas conseguisse apenas 15 em alguma outra ocupação, sua renda econômica (rent) seria 5. Esta quantia poderia desaparecer sem afetar a produção.

colapso. Baixa acentuada nas atividades econômicas em geral, resultando em desemprego (unemployment), poucas rendas (incomes) e lucros, baixa nos preços e valores de bens de todos os tipos. Geralmente ocorre depois de um período de prosperidade algo exagerada.


C.7.2 Qual o papel do mercado no ciclo econômico?

Um dos maiores problemas no capitalismo é o funcionamento do próprio mercado capitalista. Para os defensores do "livre mercado" capitalista, o mercado provê todas as informações necessárias para fazer investimentos e tomar decisões na área produtiva. Isto significa que o ato de aumentar ou diminuir o preço de uma mercadoria funciona como sinal para cada um no mercado que, por sua vez reage a esse sinal. Estas respostas bem coordenadas pelo mercado, resultarão numa economia saudável. Por exemplo, o aumento no preço de uma mercadoria resultará no aumento da produção e na redução do consumo de tal bem, e isso moverá a economia em direção ao equilíbrio.

Embora possamos concordar que essas considerações acerca do mercado não sejam sem fundamento, é também claro que o mecanismo do preço não transmite todas as informações relevantes e necessárias para as companhias e para os indivíduos. Isto quer dizer que o capitalismo não funciona da forma como é apresentado nos livros de economia. É a própria dinâmica do mecanismo de preços que conduz ao boom ou à queda econômica da atividade econômica e aos custos sociais e humanos resultantes. Isto pode ser observado se investigarmos o real processo que se esconde por traz do funcionamento do mecanismo de preços.

Quando indivíduos e companhias fazem planos concernentes a uma futura produção, eles não planejam pensando na demanda agora mas pensando na demanda em um tempo no futuro quando seus produtos penetrarem no mercado. A informação que o mecanismo de preços provê, portanto, é a relação entre oferta e procura (ou preço de mercado relacionado com o preço de produção no mercado) no momento atual. Embora esta informação seja relevante para o planejamento das pessoas, ela não representa o conjunto de todas as informações relevantes ou que são requeridas por aqueles que estão envolvidos.

A informação que o mercado não provê é de que forma as outras pessoas reagirão com relação às informações fornecidas. Esta informação, além disso, não pode ser fornecida devido à competição. Em termos simples, se A e B competem entre si, se A informa B de suas atividades e B não é recíproco, então B está em uma posição que lhe permite competir mais efetivamente que A. Consequentemente a comunicação com o mercado é desencorajada e cada unidade de produção permanece isolada das demais. Em outras palavras, cada pessoa ou companhia respondem ao mesmo sinal (a mudança no preço) mas cada um reage independente da resposta dos outros produtores e consumidores. O resultado é geralmente um choque no mercado, causando desemprego e colapso econômico.

Vamos supor, por exemplo, um aumento de preço devido à deficiência de uma mercadoria. Isto resulta em lucros exorbitantes neste mercado, levando os donos do capital a investir neste ramo de produção de forma a abocanhar uma parte desses lucros acima da média. Todavia, os consumidores responderão ao aumento do preço reduzindo o consumo daquele bem. Isto significa que quando os resultados dessas decisões independentes começa a aparecer, existe uma superprodução daquele bem no mercado com relação à efetiva demanda por ele. Os bens não podem ser vendidos e é instalada uma crise uma vez que os produtores não conseguem lucro com seus produtos. Diante desta superprodução, surge a queda econômica, a retração no capital, e o mercado de preços desaba. Isto eventualmente conduz ao aumento da oferta se contrapondo à procura, e a produção se expande conduzindo a um outro boom e assim por diante.

Proudhon descreveu este processo como resultante de uma "contradição" do "duplo caráter do valor" (i.e. entre o valor de uso e o valor de troca). Esta contradição resulta em que o "valor [do bem] decresçe na medida em que a produção desse bem aumenta, e um produtor pode chegar à escassez pelo contínuo enriquecimento de si mesmo" via superprodução. Isto porque um produtor "que ceifou vinte sacas de trigo. . . imagina a si mesmo duas vezes mais rico do que se tivesse ceifado apenas dez. . . Relativamente a seus negócios domésticos, [ele] está correto; [mas] olhando do ponto de vista de suas relações externas, ele pode estar completamente enganado. Se a dupla safra de trigo ocorre em todo o país, vinte sacas venderão por menos do que ele conseguiria com dez se tivesse colhido apenas a metade de sua safra normal". [The System of Economical Contradictions, p. 78, pp. 77-78]

Isto, como pode ser observado, não se trata de pessoas cometendo uma série de erros desconexos. Pelo contrário, resulta por causa do mercado comunicar a mesma informação para todos os envolvidos e esta informação não ser suficiente para uma tomada de decisão racional. Embora ela seja racional para cada agente no que diz respeito a expandir ou retrair a produção, ela não é racional para todos os agentes que agem da mesma maneira. Em uma economia capitalista, o mecanismo de preços não fornece todas as informações necessárias para a tomada de uma decisão racional. De fato, ele ativamente encoraja a supressão das informações extras necessárias que dizem respeito a uma resposta planejada à informação original.

É esta irracionalidade e lacuna nas informações que alimenta o ciclo econômico. Aquele crescimento econômico e queda econômica local na produção na forma como delineamos aqui pode transformar-se em uma crise generalizada devido às informações insuficientes que permeiam dentro da economia através do mercado. Todavia, as desproporcionalidades de capital entre as indústrias não resultam de per si em uma crise geral. Se este fosse o caso o capitalismo estaria em um constante estado de crise porque o capital se move dentro dos mercados durante períodos de prosperidade tanto quanto antes dos períodos de depressão. Isto significa que os deslocamentos no mercado não são a base para a expansão de uma crise generalizada na economia (embora eles possam explicar quedas econômicas  localizados).

Portanto, a tendência para uma crise generalizada que se expressa a si mesma em uma abundância generalizada no mercado é o produto da profundidade das mudanças econômicas. Enquanto a supressão da informação pelo mercado exercer seu papel produzindo depressão, um colapso generalizado apenas se desdobrará em ciclos locais alternados de boom e slump quando eles ocorrerem ao lado de atividades de efeitos secundários da economia capitalista, sabidamente o crescimento da produtividade como resultado do investimento em capital, tanto quanto as pressões subjetivas da luta de classes.

O problema resultante do crescimento da produtividade e dos investimentos de capital serão distutidos na próxima seção.



slump. n 1 queda brusca (de preços), baixa, colapso. 2 Fig. fracasso.  // vi cair, baixar, afundar, mergulhar, baixar repentinamente (preços, valores), fracassar, ter postura ou andar curvados.


C.7.3 Qual o papel dos investimentos no ciclo econômico?

Outros problemas do capitalismo surgem devido ao crescimento da produtividade que ocorre como resultado dos investimentos de capital ou das novas práticas trabalhistas que ajudam a incrementar lucros de curto prazo em uma companhia. A necessidade de maximizar lucros resulta em mais e mais investimentos de forma a melhorar a produtividade da força de trabalho (i.e. aumentando o montante de mais valia produzida). O aumento na produtividade, contudo, significa que qualquer que seja o lucro produzido ele ocorre em função da produção de um crescente número de mercadorias. Este lucro necessita ser angariado no mercado mas isso pode ser dificultado porque os capitalistas não produzem para um mercado existente mas para uma espectativa de mercado. Como as firmas individualmente não podem prever o que seus competidores farão, é racional para elas tentar maximizar suas ações no mercado pelo aumento na produção (investindo mais). Como o mercado não provê as informações necessárias para coordenar suas ações, essa situação leva a oferta a exceder à demanda dificultando o rateio dos lucros através das mercadorias produzidas. Em outras palavras, um período de super produção ocorre devido à super acumulação de capital.

Devido ao crescimento dos investimentos nos meios de produção, o capital variável (trabalho) utilisa um grande, extenso e constante capital (os meios de produção). Em virtude do trabalho ser a fonte da mais valia, isso significa que em curto prazo os lucros terão que aumentar através dos novos investimentos, i.e. os trabalhadores precisam produzir mais, em termos relativos, do que antes de forma a reduzir o custo de produção das empresas para as mercadorias e os serviços que elas produzem. Isto faz com que o crescimento nos lucros seja realizado pelo corrente preço de mercado (que reflete os velhos custos de produção). A exploração do trabalho precisa crescer de forma a trazer de volta o capital total (i.e. constante e variável) para aumentar, ou na pior das hipoteses, tornar-se constante.

Contudo, ao mesmo tempo em que isso é racional para uma companhia, não o é para todas as firmas que fazem isso, procurando manter seus negócios. Na medida em que os investimentos crescem, a mais valia dos trabalhadores precisa produzir cada vez mais rápido. Se a massa dos lucros disponíveis na economia é muito pequena comparada com o total do capital investido isso fará com que a companhia encontre diante de si problemas para obter lucros em um mercado específico devido a uma queda econômica localizada em um mercado específico causada pelo mecanismo de preços que espalha seus efeitos para a economia como um todo. Em outras palavras, a queda na taxa de lucro (o rateio dos lucros para investimento em capital e trabalho) na economia como um todo pode resultar em uma já produzida mais valia, sinalizando a expansão do capital remanescente na forma de dinheiro mas que falha em atuar como capital. Nenhum novo investimento é feito, os bens não podem ser vendidos resultando em uma redução geral da produção e num aumento do desemprego com as companhias demitindo trabalhadores ou indo para outros mercados. Isto remove mais e mais capital constante da economia, aumentando o desemprego que força aqueles que continuam trabalhando a trabalharem mais duramente que antes de forma a aumentar a massa de lucro produzido, resultando (eventualmente) num aumento da taxa de lucro. Uma vez que as taxas de lucro estão suficientemente altas, os capitalistas são incentivatos a fazer novos investimentos e a queda econômica se transforma em crescimento econômico.

Alguem pode argumentar que essa análise é falha porque nenhuma companhia precisa investir em maquinário pois isto reduziria sua taxa de lucros. Mas tal objeção é fraca, simplesmente porque (conforme observamos) tal investimento é perfeitamente sensato (verdadeiramente, uma necessidade) para uma empresa específica. Investir o que ganham (potencialmente) agita o mercado e aumenta os lucros. Infelizmente, enquanto isso é individualmente perceptível, coletivamentte não o é e a consequencia resultante desses atos individuais é o super investimento na economia como um todo. Diferente do modelo de perfeita competição, em uma verdadeira economia capitalista não há qualquer meio de conhecer o futuro, nem o resultado de suas próprias ações, nem tampouco das ações dos seus competidores. Tal super acumulação de capital é o resultado natural da competição simplesmente porque ela é individualmente racional e o futuro é desconhecido. Ambos estes fatores asseguram que as firmas atuem dessa forma, investindo em maquinarios que, no fim, resultarão em uma crise de super acumulação.

Ciclos de prosperidade, seguidos por super produção e depois depressão são resultantes naturais do capitalismo. A super produção é o resultado da super acumulação, e a super acumulação ocorre devido à necessidade de maximizar os lucros em curto prazo de forma a permanecer no mundo dos negócios. Enquanto a crise aparece na forma de uma abundância de mercadorias no mercado, existe mais mercadorias em circulação do que podem ser adquiridas pela demanda agregada ("A propriedade vende produtos para o trabalho por um preço maior do que paga por ele" usando as palavras de Proudhon), suas raízes são profundas. Ela repousa na própria natureza da produção capitalista.

Um exemplo clássico dessas pressões "objetivas" no capitalismo é o "estrondo dos anos vinte" que precedeu a Grande Depressão dos anos 30. Após a queda econômica em 1921, houve um rapido aumento nos investimentos nos EEUU que quase dobraram entre 1919 e 1927.

Por causa deste investimento em equipamentos pelo capital, a produção fabril cresceu para 8.0% ao ano entre 1919 e 1929 e a produtividade dos trabalhadores cresceu para uma taxa anual de 5.6% (computando-se a queda econômica de 1921-1922). Este aumento na produtividade foi refletido no fato de que mais que o pós prosperidade rápida de 1922, a quota de rendimentos industriais paga em salários aumentou de 17% para 18,3% e a quota de capital aumentou de 25,5% para 29,1%. Os salários dos administradores subiu para 21,9% e o excesso empresarial para 62,6% entre 1920 e 1929. Com os custos caindo e os preços relativamente estáveis, os lucros cresceram de tal forma que proporcionaram um alto índice de capital direcionado para os investimentos (a produção de bens de capital aumentou para uma média anual de 6,4%).

Como era de se prever, em tais circunstancias, na década de 20 a prosperidade se concentrou no topo das 60% famílias mais ricas que detinham menos que $2000 por ano, 42% menos que $1000. Um décimo das 1% das famílias recebiam rendimentos no patamar de 42% e apenas 2,3% da população detinha rendas acima de $10000. Ao passo que os 1% mais ricos possuiam 40% da riqueza nacional no ano de 1929 (e o número de pessoas que detinham meio milhão de dólares em rendas subiu de 156 em 1920 para 1489 em 1929) enquanto isso o patamar de 93% da população amargava a migalha de 4% de renda per capita entre 1923 and 1929.

Todavia, a despeito de tudo isso, o capitalismo dos Estados Unidos estava em fase de crescimento econômico e o laissez-faire capitalista havia alcançado seu pico. Mas em 1929 tudo mudou com a quebra da bolsa de valores -- seguida por uma produnda depresssão. Mas, qual foi sua causa? Sob a luz do que apresentamos acima, era de se esperar que ela tenha sido provocada pela "prosperidade rápida" e pela queda no desemprego, pelo aumento do poder da classe trabalhadora e por ter conduzido a um arocho nos lucros, mas este não foi o caso.

Esta queda econômica não foi resultante da resistencia da classe trabalhadora, na verdade os anos 20 foram marcados pelo mercado de trabalho que persistia continuamente favorável aos trabalhadores. E isto acontecia por duas razões. Primeiramente, o "Palmer Raids" nos finais da década de 10 viu o estado enfraquecido pelos radicais do movimento operário dos EEUU que detinham uma ampla base de apoio na sociedade. Em segundo lugar, a profunda depressão de 1920-21 (durante a qual a taxa média nacional de desemprego subiu para mais de 9%) combinada com o uso de injunções legais pelos empregadores contra os protestos dos trabalhadores e o uso de espiões industriais para identificar e sacar membros dos sindicatos fez com que o trabalho enfraquecesse provocando a queda na influencia e no tamanho dos sindicatos na medida em que os trabalhadores eram obrigados a assinar o "yellow-dog", literalmente "cão amarelo", um contrato que o mantinha entre seus empregos.

Durante os anos pós boom de 22, esta posição não foi alterada. A taxa dos 3,3% de desemprego nacional omitiu a média dos 5,5% dos desempregados não rurais entre 1923 e 1929. Em todas as indústrias, o crescimento na produção fabril não aumentou a procura por trabalho. Entre 1919 e 1929, o emprego de trabalhadores na produção caiu para 1% e o emprego dos trabalhadores na não produção caiu para cerca de 6% (durante o ano de 1923 até o boom de 29, onde o emprego de trabalhadores na produção cresceu apenas em 2%, enquanto que o emprego de trabalhadores em setores não produtivos permaneceu constante). Isto foi devido à introdução do trabalho sendo efetuado pelas máquinas e o aumento nos estoques de capital. Além disso, a alta produtividade associada com a produção agrícola resultou em uma enchurrada de trabalhadores rurais que se deslocaram em direção aos mercados de trabalho urbano.

Enfrentando um grande desemprego, os trabalhadores abandonaram suas reivindicações pelo medo de perder seus empregos (particularmente aqueles trabalhadores com salários relativamente altos e com empregos estáveis). Isto combinado com o constante declínio dos sindicatos e o reduzido número de greves (o menor índice desde os princípios da década de 1880) indicavam que o trabalho estava fraco. Os salários, assim como os preços, permaneceram comparativamente estáveis. Na verdade, a quota total das rendas industriais que iam para os salários caiu de 57.5% em 1923-24 para 52.6% em 1928/29 (entre 1920 e 1929, ela caiu para 5.7%). É interessante notar que mesmo com o mercado de trabalho favorável aos patrões por mais de 5 anos, o desemprego continuou alto. Isto indica que o "argumento" neo-clássico de que o desemprego dentro do capitalismo e causado por sindicatos fortes ou por salários reais altos é outra ilusão que estudaremos mais detalhadamente mais tarde (veja a seção C.9).

A chave para a compreensão daquilo que aconteceu repousa na natureza contraditória da produção capitalista. As condições do "boom" foram resultado dos investimentos de capital, que aumentaram a produtividade, o que fez com que os custos fossem reduzidos e os lucros aumentassem. A amplificação e o crescimento nos investimentos em bens de capital foram os principais setores onde os lucros foram aplicados. Além disso, tais setores da economia dominados pelas grandes corporações (i.e. oligopolio, um mercado monopolizado por algumas empresas) passaram a pressionar aqueles mais competivivos. As grandes corporações, como sempre, angariaram uma alta quota de lucros devido à sua privilegiada posição no mercado (veja seção C.5), isto levou muitas empresas em setores mais competitivos da economia a enfrentar uma crise de lucratividade durante os anos 20.

O aumento no investimento, ao mesmo tempo em que esmagou diretamente os lucros dos concorrentes nos setores mais competitivos da economia, também eventualmente levou suas taxas de lucro à estagnação, e depois para a queda, interferindo na economia como um todo. Embora a massa de lucros disponíveis na economia aumentasse, ela eventualmente tornara-se muito pequena comparada com o total de capital investido. Além disso, com a diminuição da quota de renda para o trabalho e o aumento da desigualdade, a demanda agregada por bens não se coadunou com a produção, impedindo a venda de bens (que é também uma expressão do processo de super investimento conduzindo à super produção, com a super produção levando ao sub consumo e vice versa). Na medida em que o esperado retorno (lucratividade) nos investimentos hesitam chegar, ocorre um declínio na demanda por investimentos, o que por sua vez representou o início da queda econômica (um crescente predomínio dos estoques de capital que aumentam mais depressa que os lucros). Os investimentos se acomodaram em 1928 e tornaram a crescer em 1929. Com a estagnação nos investimentos, ocorreu uma grande orgia especulativa em 1928 e 1929 numa tentativa de alcançar lucratividade. Como não poderia deixar de acontecer veio o fracasso e em outubro de 1929 com a quebra da bolsa de valores, abrindo caminho para a Grande Depressão dos anos 30.

A quebra de 1929 é um indicativo dos limites "objetivos" do capitalismo. Mesmo com uma débil posição do trabalho, a crise pode ocorrer e a prosperidade transforma-se em "tempos ruins". Contradizendo a teoria economica neo-clássica, os eventos dos anos 20 indicaram que mesmo se aceitassemos a afirmação capitalista de que o trabalho é uma mercadoria como as demais, o capitalismo ainda assim estaria sujeito a crises (ironicamente, um ativo movimento sindical nos anos 20 procurou postergar a crise deslocando renda do capital para o trabalho, aumentanto a demanda agregada, reduzindo investimentos e apoiando os setores mais competivivos da economia!). Contudo, qualquer argumento neo-clássico que "culpe o trabalho" pela a crise (coisa que foi muito popular tanto nos anos 30 como nos anos 70) conta apenas metade da história (se é que conta algo). Mesmo se os trabalhadores agissem como servís diante da autoridade capitalista, o capitalismo sempre estará marcado pelo boom e pela queda econômica (conforme vimos nas décadas de 20 e 80).

Tomando outro exemplo, as 100 maiores empresas da América, empregaram 5 milhões de pessoas e possuiam ativos de $126 bilhões, considerando o montante de ativos dividido pelo número de trabalhadores que o produziu verificamos que a média cresceu de $12.200 em 1949 para $20.900 em 1959 e para $24.000 em 1962. [First National City Bank, Economic Letter, June 1963]. Conforme podemos verificar, a taxa de crescimento em ativos médios por trabalhador cai com o passar do tempo. O período inicial da alta formação de capital foi seguida por um período recessivo entre 1957 e 1961. Tais anos foram marcados por um violento crescimento no desemprego (de 3 milhões em 1956 subiu para 5 milhões em 1961) uma taxa elevada de desemprego após uma queda econômica e não antes dela (um crescimento de 1 milhão em 1956 para cerca de 4 milhões em 1962). [T. Brecher and T. Costello, Common Sense for Hard Times, chart 2]

Estamos fornecendo estes dados a respeito deste período, porque alguns defensores do "livre mercado" capitalista costumam usar este mesmo período para argumentar sobre as vantágens dos investimentos em capital. Estes dados na realidade indicam que uma crescente formação de capital ajuda a criar o potencial para a recessão, porque através dele aumentam a produtividade (portanto os lucros) por um período, isto reduz as taxas de lucros a longo prazo por existir uma relativa escassez de mais valia na economia (comparada ao investimento de capital). Esta queda na taxa de lucros é uma indicação da queda na formação de capital no ponto da produção, aumentando o desemprego durante tal período.

Assim, se a taxa de lucros cai para índices que não permitem a continuação da formação de capital, tem uma queda econômica embutida aí. Essa queda econômica é usualmente iniciada pela superprodução de uma mercadoria específica, possivelmente provocada por processos que descreveremos na seção C.7.2. Se existem suficientes lucros na economia, quedas econômicas localizadas terão uma reduzida tendencia a se propagar e se generalizar. Uma queda econômica apenas se generaliza quando a taxa de lucro começa a cair na economia como um todo. Uma queda econômica local contamina o mercado por causa da ausência de informações sobre o mercado por parte dos produtores. Quando uma indústria produz em excesso, isso faz com que o processo de produção seja interrompido, provocando medidas como o corte nos custos, trabalhadores passam a ser demitidos de forma a tentar obter mais lucros. Isto reduz a procura pelas indústrias que abastecem aquela indústria afetada reduzindo a demanda geral devido ao desemprego. Quando uma indústria começa a apresentar sinais de super-produção a resposta natural daqueles que abastecem aquela indústria é a imediata redução da produção, demissão de trabalhadores, etc., que novamente leva ao declínio da demanda. Fica muito difícil realizar lucros no mercado, o que conduz a mais cortes nas despesas, aprofundando a crise. Mesmo isso sendo racional no plano individual, não o é no plano coletivo e logo todas as empresas enfrentarão o mesmo problema. Surge uma queda econômica e ela se propaga através da economia porque a economia capitalista não comunica informações suficientes para que os produtores possam tomar decisões racionais ou coordenar suas atividades.

A "super-produção", é importante destacar, existe apenas do ponto de vista do capital, nunca do ponto de vista da classe trabalhadora:

"Aquilo que os economistas chamam de superprodução não passa de uma produção que está acima da capacidade de compra do trabalhador. . . este tipo de superprodução torna-se uma característica fatal da presente produção capitalista, porque os trabalhadores ao mesmo tempo que não podem comprar com seus salários aquilo que eles mesmos produziram, alimentam copiosamente os parasitas que vivem de seu trabalho". [Peter Kropotkin, Op. Cit., pp. 127-128]
Em outras palavras, superprodução e subconsumo possuem implicações recíprocas entre si. Não haveria nenhuma superprodução exceto no que diz respeito a determinado nível de uma demanda solvente. Não há qualquer deficiencia na procura exceto em relação a determinado nível de produção. Os bens "superproduzidos" podem ser adquiridos por consumidores, mas o preço de mercado é muito deficiente para gerar lucro e a produção precisa ser reduzida de forma a artificialmente aumentá-lo. Assim, por exemplo, ver comida sendo destruída enquanto pessoas passam fome é muito comum durante anos de depressão.

Assim, quando a crise surge no mercado na forma de um "excesso de mercadorias" (i.e. com a redução da demanda efetiva) e se propaga através da economia pelo mecanismo de preços, é fácil verificar que as raízes desta crise estão fincadas na produção. Até mesmo quando os níveis de lucro se estabilizam em índices aceitáveis, devido à constante necessidade de expansão capitalista a queda econômica permanece. Os custos sociais do corte de custos se constituem em outra "externidade" do ponto de vista do poder e da riqueza capitalista.

Existem maneiras, naturalmente, pelas quais o capitalismo posterga (mas não interrompe) o desenvolvimento de uma crise generalizada. O imperialismo, sob a sombra do qual os mercados crescem e os lucros são extraídos dos países menos desenvolvidos e usados para impulsionar os lucros dos paises imperialistas, é um método ("estando o trabalhador incapacitado de comprar com seus salários as riquezas que eles mesmo produziram, as indústrias passam a buscar mercados no exterior" - Kropotkin, Op. Cit., p. 55). Um aspecto importante é a manipulação do crédito e de outros fatores econômicos (como salário mínimo, a incorporação dos sindicatos pelo sistema, produção de armas, manutenção de índices "naturais" de desemprego para manter os trabalhadores "disciplinados", etc.). Outro é o estado gastando para aumentar a demanda agregada, procurando incentivar o consumo e abrandar o perigo da superprodução. Ou o gráu de exploração produzido pelos novos investimentos que podem ser altos o suficiente para manter o aumento do capital constante e preservar a taxa de lucros da queda. Contudo, todos estas alternativas (objetivas e subjetivas) tem um alcance limitado e nunca são suficientes para estancar efetivamente uma depressão que está a caminho.

Por essa razão o capitalismo sempre passará pelo ciclo do crescimento acelerado/queda econômica devido às acima citadas pressões objetivas para a produção do lucro, mesmo se ignorarmos a revolta subjetiva contra a autoridade pelos trabalhadores, conforme explicamos anteriormente. Em outras palavras, mesmo se aceitassemos como verdade que os trabalhadores não são seres humanos mas apenas "capital variável", isto não implicaria em que o capitalismo se transformaria em um sistema livre de crises. Embora, para muitos anarquistas, essa discussão de que seres humanos não são mercadorias soe um tanto quanto acadêmica, a verdade é que o "mercado" de trabalho não é como o mercado do ferro. A subjetiva revolta contra a dominação capitalista existirá sempre enquanto existir capitalismo.
 

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