* * * COMUNICAÇÃO * * *



BARÃO DE CAPANEMA: O PIONEIRO ESQUECIDO


Por Maurílio Brito

           A passagem no dia 11 de maio de 2004, do 152º aniversário do nosso Telégrafo Elétrico, nos leva a lembrar a figura de Guilherme Schuch, depois Barão de Capanema, Pioneiro das nossas Telecomunicações, hoje muito pouco citado.

           Nasceu o ilustre brasileiro no dia 17 de janeiro de 1825 em Antônio Pereira, comarca de Mariana, Minas Gerais. De seu pai, o Dr. Roque Schuch, professor do Museu Nacional de Viena, Áustria, que veio para o Brasil na comitiva da Imperatriz Leopoldina, recebeu os chamados estudos primários, incluindo noções de Geografia, História, Línguas e Ciências. Sua mãe, D. Josephina Roth, era de procedência germânica, como o marido.

           Mas, indaga-se logo, qual a razão do apelido "Capanema"? Edgard de Barros, seu autorizado biógrafo, esclareceu: "A dificuldade que encontravam os mineiros em pronunciar-lhe o sobre-nome alemão levou o Dr. Roque Schuch a adotar o de "Capanema", nome de um povoado existente nas proximidades de Ouro Preto.

           Em 1834, por iniciativa de D. Pedro II, Capanema foi continuar os estudos na Europa, formando-se em Engenharia pela Escola Politécnica de Viena. Regressando ao Rio de Janeiro, viu seu nome indicado para ocupar a cadeira de Mineralogia da Escola Militar. Entretanto, surgia um empecilho: o magistério da Escola era privativo dos Engenheiros por ela formados. A solução, porém, veio logo: Capanema revalidou o diploma de Engenheiro, prestando os exames necessários, incluindo conhecimentos da Arte Militar. Aprovado, recebeu o grau de doutor em Matemática, tendo o Ministro da Guerra outorgado-lhe a patente de Capitão de Engenheiros. E a nomeação foi feita.

           Em 1852, servindo no Ministério da Justiça, recebeu do titular da Pasta a incumbência de implantar o serviço telegráfico elétrico em substituição ao telégrafo óptico, o que foi concretizado na histórica manhã de 11 de maio de 1852, com a inauguração de uma linha subterrânea que, partindo do Quartel do Campo de Santana, terminava no Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista. A linha media cerca de 4.300 metros, tendo Capanema dirigido pessoalmente os serviços de assentamento com a ajuda de alunos da Escola Central de Engenharia e de presos da Casa de Correção.

           Em pouco tempo, todas as repartições da Corte e cidades próximas contavam com o novo serviço. Em 1864, Capanema, já nomeado Diretor-Geral dos Telégrafos Elétricos (vencimentos anuais de 1.200 réis e mais cavalgaduras e forragem para os encargos de inspeção) passou a dirigir, também, o telégrafo óptico. Estas duas repartições tinham sido unificadas com a sede no local onde está hoje o Quartel Central do Corpo de Bombeiros, na Praça da República.

           Em 1865, iniciou a construção da linha Rio de Janeiro - Porto Alegre, terminada no ano seguinte, possibilitando comunicações rápidas entre a Corte e o Comando das nossas tropas, que no Sul lutavam contra o exército de Solano Lopez, do Paraguai. Foi uma empreitada de difícil realização, face aos poucos recursos postos à sua disposição. Saíra do Rio de Janeiro em companhia de um engenheiro com apenas 4.000 réis para as despesas mais urgentes. Nos momentos de descanso, instruía as pessoas indicadas para dirigir as estações que iam sendo instaladas, notadamente no aprendizado do alfabeto Morse e no manejo do aparelho Breguet. Não raro, na falta de operários, via-se na contingência de deixar o animal em que viajava, para ajudar a colocação de postes, arames e isoladores.

           Em 1874, Capanema dá início à realização do projeto que vinha acalentando: levar o Telégrafo às Províncias do Norte: Primeiro, Espírito Santo, seguindo-se Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e São Luis, cuja estação foi inaugurada em 1881. Tendo recebido instruções de Dom Pedro II para estender a rede telegráfica até Pará, depois de adquirir as provisões de maior necessidade deixou a capital maranhense. Atravessadas as grandes florestas e caudalosos rios existentes nos limites das duas Províncias, entrou no território paraense. No dia 13 de outubro de 1886 inaugurou a estação telegráfica de Belém, sem a presença de muitos dos seus companheiros que haviam regressado as suas terras, uns por motivo de saúde, outros por não acreditarem no êxito do empreendimento. Foi ele, assim, a primeira pessoa que levou o Telégrafo Elétrico à Região Amazônica.

           Mas, não só ao telégrafo Capanema dedicou sua extraordinária capacidade de realizador. Atraído pela inventiva, obteve privilégio para processos de combate à saúva (verdadeira praga, que na época atacava em profundidade a Agricultura), a fabricação de sulfureto de carbono, aparelho destinado a retirar açúcar da cana, fabricar papel com fibras de vegetais indígenas, e outros fins.

           Em 1852, percorrendo o Ceará, estudou o problema da seca e as condições precárias do trabalho dos que têm na pesca o único meio de subsistência.

           Voltando ao Rio de Janeiro, em sessões do Instituto Politécnico, do qual era destacado membro, sugeriu que fosse abolido "o rotineiro sistema de jangadas" usado no litoral do Estado, assentando-se plataformas de madeira sobre tubos cilíndricos de ferro, que flutuassem, demandando pequeno calado. Ainda no Instituto Politécnico combateu o corte indiscriminado de nossas madeiras de construção sem se cuidar de substituí-las "por novos indivíduos'. Interessou-se, igualmente, pelo problema de exploração de minérios nos afluentes do Rio Piriá, no Pará, e outros assuntos de natureza científica.

           Da extensa relação dos seus títulos destacamos: Sócio do Instituto Histórico e Geográfico; professor da Imperial Academia Nacional de Belas Artes; Cavaleiro da Ordem de Cristo; Major Honorário de Exército; Conselheiro de Estado; Comendador da Ordem de Cristo. Foi agraciado com o título de Barão por decreto do Imperador D. Pedro II, que lhe dedicava grande apreço.

           Publicou, além de outras obras: "Dissertação sobre o Método de Divisão de Horner; Apontamentos sobre as Secas do Ceará; a Questão de Limites com a Argentina."

           Os seus relatórios, como Diretor Geral dos Telégrafos, são valiosas fontes de subsídios para a História de nossas comunicações.

           Encerrando esta breve biografia do pioneiro das nossas Telecomunicações, cabe lembrar os últimos momentos por ele vividos como Diretor-Geral do Serviço Telegráfico. Foi assim: Proclamada a República, logo compareceu ao prédio-sede da Repartição dos Telégrafos, na Praça 15 de Novembro, o Tenente do Exército José Augusto Vinhais que, sem apresentar qualquer documento, pretendeu assumir a direção dos serviços. Capanema ponderou que só pela força ou uma ordem escrita deixaria o prédio. Face a essa atitude, o oficial deu-lhe um papel onde estava escrito o seguinte: "Por ordem do General Deodoro, Chefe do Governo Provisório, intimo ao Sr. Barão de Capanema para que me entregue a Repartição a seu cargo, e que lhe foi confiada pelo extinto Governo Imperial e gabinete de 10 de junho, presidido pelo cidadão Visconde de Ouro Preto, sendo que, no caso de resistência, usarei dos meios que me forem dados."

           Triste, mas não humilhado, retirou-se, seguido por todos que estavam no Gabinete, com a certeza de que não traíra a confiança do Imperador, de quem tinha a amizade pessoal. Foi substituído pelo Vice-Almirante João Nepomucemo Batista.

           Seu falecimento ocorreu no dia 28 de julho de 1908, no Rio de Janeiro. Dele, disse o Conde de Afonso Celso: "Empreendedor, deleitando-se no subjugar de óbices opostos pela Natureza e pelos homens, triunfou em repetidas e esforçadas lutas."

           Fonte: Revista Antenna - Eletrônica Popular, AN-EP 1124, Volume 101, Nº 1, Janeiro/Fevereiro de 1991.

Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: ivanr@cpovo.net  


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Publicado em 13 de junho de 2006
Atualizado em 25 de maio de 2008