Este artigo assinala "impossibilidades técnicas" na recepção, no Canadá, de sinais radioelétricos que Marconi teria transmitido da Inglaterra em 1901. Contudo, a alegada proeza foi o alicerce do êxito empresarial do finório inventor.
Sem querer tirar os méritos inegáveis de Marconi, é necessário relatar alguns fatos para enquadrar o acontecimento na perspectiva certa. Na época, quando os contatos entre continentes eram restritos à telegrafia por meio de cabos submarinos, o anúncio de um meio alternativo de comunicação obviamente causou grande impacto nos meios técnicos e econômicos e serviu como prova de que o alcance das Radiocomunicações poderia ser estendido bem além dos limites até então imaginados.
Ainda hoje não sabemos, e jamais iremos saber, se os sinais provenientes de Poldhu realmente foram dettectados em Newfoundland. Sabemos, porém, que a admissão de um fracasso teria arruinado a empresa
de Marconi e afugentado os investidores que apostaram no futuro das Radiocomunicações. Sabemos também que, depois de Marconi ter anunciado o sucesso em 12 de dezembro de 1901, a cotação das ações de sua
Companhia dispararam, e os recursos financeiros necessários à continuação das experiências ficaram garantidos, provando que Marconi era um empresário audacioso que não admitia revezes de qualquer espécie.
Mais tarde, quando surgiram concorrentes na área de Radiocomunicações, Marconi transformou seu Iate Electra em símbolo glamoroso da radiotécnica mais avançada, com uma estratégia promocional que fascinou a todos, exceto aos que trabalhavam no ramo de Radiocomunicações.
Nosso maior interesse, porém, não é descobrir a verdade da notícia anunciada em 12 de dezembro de 1901, nem o de analisar suas implicações sobre o desenvolvimento das Radiocomunicações, mas o de verificar as condições técnicas do alegado contato. E sob este aspecto Marconi teria infringido, se existissem na época, as normas técnicas que hoje regem os serviços de Radiocomunicação em todos os países, referentes à irradiação de harmônicos.
Quando o assistente de Marconi, George Kemp, às 12h30min, 13h10min e
14h20min (hora de Newfoundland) do dia 12 de dezembro de 1901,
alegou
ter detectado as seqüências de três pontos irradiados de Poldhu,
País de
Gales, certamente não os captou em 820 kHz, como ele pensava (os 3
pontos, correspondente à letra S do código Morse, foram escolhidos
porque Marconi, que construiu a fonte de alimentação do transmissor
com
muita economia de materiais, tinha medo que os 3 traços da letra O
fossem queimar a fonte durante o período de transmissão de 15h às
19h de
Greenwich).
Estudos ionosféricos e de radiação solar daquelas horas do dia
indicaram que de forma alguma uma transmissão em 820 kHz da
Inglaterra,
mesmo com um transmissor de 25 kW e com faiscador de dois estágios,
e
mesmo se fosse irradiada por uma antena de 400 fios suportada por 20
torres de 60 metros cada, poderia ter sido captada no Canadá com um
receptor apenas pela variação da resistência de superfície de uma
gota
de mercúrio, na presença de ondas eletromagnéticas, que acionou a
impressora.
Mesmo os leitores não familiarizados com condições de propagação
podem constatar a improcedência da afirmação. Os transmissores de
faísca
têm eficiência baixíssima. Embora a companhia de Marconi não tenha
indicado a potência de saída, acreditamos que este não ultrapassou
1.000
watts em 820 kHz, correspondendo a uma eficiência de 4%.
Existe em Manacapuru, Estado do Amazonas, uma emissora de 1 MW na
freqüência de 820 kHz.
Mesmo se inexistissem outras emissoras nesta freqüência,
dificilmente alguém acreditaria hoje que seus sinais foram captados
no
Rio Grande do Sul com um receptor de galena, utilizando só um diodo,
sem
qualquer amplificação. Pois bem: o receptor de Marconi utilizou como
detector uma gota de mercúrio, cuja variação de resistência de
superfície à corrente da pilha é menos eficiente do que a dos diodos
retificadores de hoje com fones de ouvido de milhares de ohms de
impedância.
Ainda mais: a emissora de Manacapuru transmite voz e música, que
podem ser facilmente distinguidas, pelo ouvido, do ruído
atmosférico.
transmissor de Marconi só transmitiu pontos de faiscamento, com um
espectro sonoro praticamente idêntico ao do ruído atmosférico; assim
que, mesmo se possuísse fones de ouvido, George Kemp não teria
condições
para distingui-los.
Com tantos fatores negativos, dificilmente alguém acreditaria hoje o
que o mundo inteiro parecia acreditar em 12 de dezembro de 1901.
Na realidade, a situação era pior, porque em setembro de 1901 um
vendaval no País de Gales rompeu os estais, e todas as 20 torres
caíram.
Apesar do prejuizo de 250 mil dólares, Marconi não desalentou e em
11
dias reiniciou os trabalhos com uma antena temporária, que, pela
forma
triangular, pode ser considerada antena de banda larga.
O receptor
usou
como detector uma gota de mercúrio entre duas superfícies de ferro
ou
carvão que variou sua resistência à corrente da pilha elétrica na
presença de ondas eletromagnéticas.
Com a evolução da tecnologia das telecomunicações, obviamente
ssurgiram as dúvidas sobre a afirmação feita em 12 de dezembro de
1901.
Para emprestar-lhe mais credibilidade, foi inventada a seguinte
explicação:
O transmissor de faíscas de Marconi tinha elevado conteúdo de
harmônicos. No dia do teste, os ventos no local da recepção variaram
tanto que o movimento da antena de 150 metros, sustentada por um
papagaio, tornou impossível manter o receptor sintonizado.
Em seu desespero, Marconi recorreu a um receptor antigo, aperiódico,
que ele tinha de reserva e que, muito obviamente, captou os
harmônicos
junto com a fundamental.
Com base nestes dois fatores - a antena temporária de forma
triangular e o receptor aperiódico - os adeptos de Marconi
procuraram
tornar mais plausível o anúncio do contato, aventando a hipótese de
que,
tendo um conteúdo de algumas centenas de watts no quarto harmônico
de
3.280 kHz, o receptor aperiódico poderia ter captado vestígios deste
harmônico, que seriam os pontos que Kemp afirmou ter recebido.
Mesmo assim, se um radioamador brasileiro afirmasse que, com um
receptor de galena, sem qualquer amplificação, teria ouvido, na
banda de
80 metros, um radioamador africano que operava com potência máxima
de 1
MW, não resta dúvida que passaria por mentiroso. Em 1901, ninguém no
mundo tinha base de comparação, e Marconi se aproveitou disso.
O problema de Marconi não era, assim, nem de credibilidade pública
e, muito menos, com os regulamentos das telecomunicações. O problema
era
de caráter comercial.
Hoje, qualquer estação que irradie centenas de watts em seu quarto
harmônico será suspensa na hora, até sanar a grave irregularidade.
Marconi não recebeu nenhuma notificação das autoridades, devido aos
harmônicos.
Recebeu, isto sim, uma notificação dos advogados da
Anglo-American Telegraph Company, que comunicaram que aquela
companhia
tinha o monopólio das comunicações em Newfoundland e que proibia a
ele
qualquer futura infração daquele monopólio sob pena da ação legal.
Fonte: Revista Antenna - Eletrônica Popular, Volume 93, nº 5, setembro/outubro de 1986.
Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: ivanr@cpovo.net