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Imagine-se passando por uma terapia de vidas passadas e descobrindo que foi a única mulher letrada do harém do Rei Salomão, encarregada de escrever a história do povo judeu.







Onde Está Tatiana?


De repente Tatiana desapareceu. Ninguém sabia dizer onde ela estava. Pais, irmãos e outros parentes foram mobilizados. Inúmeros telefonemas foram dados e não a localizaram. Era já mais de meia-noite; nenhuma noticia. Surpreendentemente, seu carro estava na garagem. Seu namorado, só localizado às 23:30 horas ao sair da Faculdade, nada pode adiantar; estava em aula e quando terminou ligara seu celular e não a conseguiu contactar. Foi convocado à juntar-se ao grupo de parentes reunidos na casa de sua namorada.

Mas por que tamanho reboliço? Explica-se: O clima de violência da Cidade é comentado e temido; as noticias diárias dos jornais e noticiários da TV são apavorantes; os tais seqüestros relâmpagos trazem todos em estado de alerta e apreensão. Tatiana nunca foi de agir assim: não avisar, não justificar seu atraso, deixar o carro na garagem e sair; um comportamento, no mínimo, muito estranho. E ninguém dava noticiais, embora já houvessem falado com todas as suas amigas relacionadas em sua agenda, com exceção de algumas que não foram encontradas. Suas sacolas e malas continuavam no armário. Suas roupas não pareciam estar remexidas, mas sua mãe não sabia dizer se faltava alguma. Durante a tarde, a casa ficara vazia, sem ninguém.

Um tio, advogado criminalista, arvorou-se em assumir o controle da situação e dirigir os trabalhos de busca e investigação. Já eram mais de 1 hora da madrugada, quando ele resolveu agir de maneira policial, como estava acostumado a assistir em sua profissão. O suspeito numero um para ele, era o namorado que estava sentado, chorando com as mãos na cabeça, parecendo meio atordoado.

- Oi! Marcelo, você viu a Tatiana hoje?

- Não, só falei com ela pelo telefone ppor volta do meiio-dia, quando ela chegou em casa vindo do Faculdade. Me falou que estava tudo bem. Não, não me disse se ia sair à tarde.

- E você o que fez durante a tarde?

- Fiquei durante o tempo todo lá no traabalho, só sai ddepois das seis com um colega e fomos para a Faculdade, fizemos um lanche na cantina e assistimos aulas até depois das onze. Tentei falar com Tatiana por volta das sete, mas o celular dela estava desligado ou fora da área. Tanto no trabalho, como nas aulas não permitem o uso de celular, assim não consegui falar com ela.

- Porque você está nervoso, parecendo esconder algumaa coisa?

- E não era para estar? Todos estamos ppreocupados.

- Mas, você Marcelo, parece que tem algguma coisa a conntar. O que é? Qual o estado do relacionamento dos dois namorados? Brigaram por acaso?

- De jeito algum! Estamos muito bem atéé.

- E o estado de animo dela? A mãe dissee que parecia prreocupada.

Marcelo titubeou, olhou para cá e para lá, sem graça, com ar de culpa e fez sinal que esperassem. Todos o cercaram na expectativa.

- Ela está grávida!

Houve um suspiro geral. O pai e o tio, fecharam a cara; a mãe desabou num choro convulsivo, Todos se entreolharam. Será esse o motivo? Marcelo, de cabeça baixa continuou.

- Estávamos esperando a oportunidade ppara contar a toodos. Tatiana e eu, já acertamos o que queremos e estamos numa boa. Embora apreensiva, ela está até feliz e só falando no bebê, o único senão é a expectativa da reação dos pais que ela não sabia qual seria e estava temerosa.

A mãe teve um chilique, desviando a atenção para ela. O tio, resolveu apertar o suspeito numero um.

- Quem pode atestar seus passos durantte a tarde e a nnoite? Esse seu colega de trabalho e faculdade tem nome? Ele ficou todo o tempo com você?

- Ele é o Roberto, amigo nosso, meu e dela, filho do Dr. Licurgo, colega de meu pai, o senhor conhece.

- Faça uma ligação para ele e passe paara mim.

O Roberto confirmou tudo, mas o tio ainda continuou desconfiado; podiam estar forjando um álibi falso.

- Roberto, nada tenho de concreto contrra você, mas lhee peço que continue conosco aqui. Tenho que chamar um delegado muito amigo meu, talvez precisemos acionar a policia.

- Lógico que ficarei aqui, dando toda aa ajuda possívell. Trata-se de minha noiva, da mãe do meu filho, com quem pretendo me casar. Peço apenas que permitam que chame meu pai, ele tem que saber o que se passa.

A madrugada foi ficando cada vez mais tensa. O delegado chegou na mesma hora que o pai de Marcelo, a policia foi acionada, pondo em funcionamento o chamado “Esquema de Desaparecidos”, mas que nada produziu de imediato. Tatiana continuava sem dar noticias. O pai de Marcelo, embora surpreendido com as noticias, foi compreensivo e assumiu a posição do filho. Marcelo, prostrado acabou caindo em sono profundo.

O dia desenrolou-se da mesma maneira. Todas as providencias e ações, buscas em hospitais, noticias de desastres de carros, acidentes e incidentes etc, nada surtiu efeito, embora a influencia do tio e de todo o aparato policial destacado. Até a delegacia especial Anti-Seqüestros foi acionada. De Tatiana não se tinha noticia.

Já à tarde a casa virou um pandemônio. Aparelhos de escuta telefônica, rastreadores, policiais “ninjas” fortemente armados, entrando e saindo. A rua congestionada de carros e a imprensa, despertada pela movimentação, já se aglomerando na porta. Prenunciava-se um seqüestro, não tão emocionante como o da filha de Silvio Santos é bem verdade, mas igualmente chocante. E isso era tudo que queriam, tanto os órgãos de comunicação, como a própria policia. O que tinha de figurão e figurinha querendo se promover, não estava no gibi.

Marcelo, o noivo, vira aumentada, enormemente, a tensão que vinha vivendo desde a descoberta da gravidez de Tatiana. Muito moço, inexperiente, recebera o impacto da noticia do estado da namoradinha com muita emoção e apreensão, pois ambos dependentes dos pais, nem sabiam como a mesma seria recebida. Estava aturdido, mas seu pai e sua mãe lhe confortavam e solidarizavam-se com ele. Quando alguém insinuou qualquer coisa, como foi o caso do pai da noiva, ambos se irritaram e desafiaram:

- Nosso filho Marcelo não tem nada comm o desaparecimeento e é quem está mais sofrendo neste momento. Se alguém tem alguma coisa de que acusá-lo, que o faça logo, aproveitando a presença do delegado e da policia, mas aviso, que quem começar a fazer acusações levianas será posteriormente processado. Eu conheço meu filho e o defendo intransigentemente. Marcelo prestou conta de todos os seus passos, apresentou testemunhas, tem o que chamam de álibi comprovado, que querem mais?

E acrescentou, ressentido:

- Se a menina desapareceu por conta prrópria, como me parece, foi por temer a fúria, a reação de pais não compreensivos, embora contasse com todo apoio do namorado que assumiu, como homem, sua posição de pai, no que ele conta conosco inteiramente. Aviso que só continuaremos aqui nesta casa por achar que poderemos ser útil em alguma emergência.

Mesmo assim a tensão não diminuiu.

Ao baterem as 6 horas da tarde e o radio começar a tocar a Ave Maria, as mulheres se reuniram e começaram a rezar, com velas acesas e choro, fazendo a atmosfera mais lúgubre. O relampejo dos flashes dos fotógrafos e as luzes dos “câmeras” das televisões tornava a cena surrealista, parecendo tirada dum filme de Almodóvar. Na rua a multidão engrossava com os saídos das escolas e trabalhos, quase impedindo o transito de veículos: as buzinas começavam a transtornar e tumultuar provocando a intervenção da policia.

Lá na distante esquina, uma mocinha salta dum carro e tenta romper o cerco; é impedida por um policial truculento:

- Hei! Onde pensa que vai? Tá querendoo aparecer na teelevisão, é?

- Eu moro aqui, ou melhor, lá naquela casa adiante.

- Seus documentos! Prova de residênciaa!

- Pra que? O que houve? Minha casa é aali.

- Tá querendo engrupir a autoridade? AAtestado de resiidência!

Contudo não foi difícil convencer a “otoridade”:

- Sabe o que é, “seu” guarda? Eu sou dda Globo e já esstou atrasada.

- Ah! Por que não disse logo.

A garota a muito custo foi conseguindo atravessar a multidão; apavorou-se quando viu que o foco de toda aquela confusão era justamente a sua casa. As luzes piscando dos carros da policia, davam idéia de algum acidente, incêndio talvez? Procurou se apressar, usando os cotovelos, blaterando e xingando.

- Deixem-me passar! Eu moro ali!

Chegou perto, mas encontrou outra barreira de policiais, Outra pernóstica autoridade, abriu os braços:

- E daí, garota?! Qui é qui quer?Não vvai passar não!

- Mas, eu moro ai. O que está havendo??

- Como é seu nome?

- Meu nome é Tatiana! Porque?

- Conseguimos pessoal! Oia ela aqui!

E os bravos policiais correram para arrodear a apavorada mocinha, que não estava entendendo nada. Os brutamontes preocuparam-se com suas imagens, ajeitando as boinas e colocando os óculos escuros, embora já fosse noite. Fizeram pose com os polegares para cima ou fazendo o V da vitória e gritavam e riam como se fossem os autores da resolução do crime. As câmeras de Tv, acenderam os holofotes e começaram a rodar. O coronel esbaforido, correu a ocupar seu lugar de honra junto à “seqüestrada”, ainda tendo tempo de chamar o delegado.

- Venha doutor, o senhor merece! Muito mérito!

A família desperta pelo alarido, correu para libertá-la da tropa: seu noivo conseguia tomá-la nos braços e resgatá-la. A populaça tomando conhecimento da boa nova, explodiu em aplausos e vivas à noiva!E quando soube da gravidez, começou a cantar o “parabéns pra você”!

É como dizem: No Brasil tudo acaba em samba!

Atordoada, sem saber o porque daquela confusão, foco de todas as atenções e perguntas de todos os tipos, Tatiana desabou num choro convulsivo. Ainda estava muito fragilizada com a gravidez inesperada. Marcelo, o noivo, fazendo uso de seu físico de surfista, abrigou-a nos braços e afastando com mãos e pés quem ficasse no caminho e levou-a para o abrigo da cozinha, gritando que a desocupassem por bem ou por mal; assustaram-se com os gritos e pontapés.

- Deixem em paz a menina, não vêm comoo ela está!

Só os pais , o tio e o delegado ficaram na acanhada dependência O pai de Marcelo, gritou:

- Silencio! Deixem ela respirar, depoiis explica.

A mocinha bebeu sôfrega o copo d’água que lhe serviram Conseguiu balbucia:

- O que aconteceu? Que está acontecenddo?

Marcelo abraçou-a, beijou-lhe o rosto e arriscou:

- Você desapareceu... Ninguém sabia onnde você estava.... Que houve?.. E no seu estado!...

Caindo em si, ela lembrou-se da sua secreta gravidez, não mais secreta, ocorreu-lhe que todo mundo já sabia! Escondeu o rosto nas mãos e desabou a chorar. O pai de Marcelo passou as mãos na sua cabeça e com maciez, lhe tranqüilizou:

- Calma minha menina, todos estamos do seu lado, seus pais estão até contentes, veja sua avó, é felicidade só, eu mesmo vibro só em pensar em meu neto,Eu lhe abençôo, minha filha.

Mas Marcelo não se conteve.

- Onde você estava meu amor? Todos preeocupados. Que hhouve?

- Mas, eu fui dormir no sitio da Rebecca, não sabiam, não foram avisados?

E deu maiores explicações: Haviam saído apressadas por ter que passar no super-mercado e no shopping, não sabendo ao certo o exato programa. Deixaram uma amiga com a incumbência de avisar as famílias.

- Que amiga? A Letícia. Ela não avisouu? Não é possíveel, ela é tão responsável. Eu precisava dar um tempo às coisas. Ir para um lugar tranqüilo, pensar, refletir, botar a cabeça em ordem...

Foi Aline a irmã caçula, quem desvendou o mistério.

- Não sabem?! A Letícia bateu o carro ontem de tarde,, tomou uma pancada na cabeça, está de cama até agora; nem sabe o que houve, ainda está tonta, tonta, nem fala coisa com coisa.

- Não deu tempo... Não teve oportunidaade de avisar.... dar o recado...

Explicou: lá no sitio não havia telefone e os celulares ficavam “fora da área”, por isso nem levara o seu.

- Oh! Desculpem, nunca imaginei armar eessa bagunça. NNunca pensei em preocupá-los tanto. Perdoem!

O pai e a mãe de Tatiana, vieram abraçá-la e beijá-la. Já lhe haviam perdoado a gravidez, o susto de imaginar perdê-la fez-lhes esquecer tudo. O pai fez questão de beijar sua barriguinha e abençoar seu neto. E todos fizeram a maior festa.

Só a policia saiu frustrada.

Mas tudo é bom quando termina bem. Ou como dizem os franceses:

“TOUT EST BIEN QUI FINIT BIEN”.







Guarajuba, abril – 2002
LUCIANO COSTA REIS
lucore@uol.com.br