Escuro

   Bar enfumaçado, lindas garotas e jazzistas tocando seus *groove. O lugar onde acontece esse agito se chama Circo do Jazz, definitivamente diferente de qualquer clube de Jazz tradicional.

   O cenário do clube é constituído por fotos de Stevie Wonder, Tim Maia, Miles Davis, Louis Armstrong e Dizzy Gillespie. A pista de dança está lotada e ao redor do balcão as pessoas também dançam e bebem suas cervejas. O horário certo para chegar é sempre depois da meia-noite.

   No lado de fora, vendo o agito por uma pequena janela, está Roni, sozinho na chuva. Ele sai dali e começa a caminhar pelas ruas escuras de Porto Alegre, sempre com sua única coisa de valor: o saxofone. Sem dinheiro e vestindo seu paletó velho e escuro, ele vai de bar em bar (quando ele consegue entrar sem pagar) à procura de uísque e jam. Roni acaba bebendo demais e, como sempre começa a brigar, sendo colocado para fora pelos seguranças, que muitas vezes lhe dão uma surra.

   Com uma garrafa de cachaça na mão (que ele pegou de uma macumba de encruzilhada), Roni bebe e chora solitário. Nessa linda noite de lua cheia, ele começa a tocar e o som que sai do saxofone soa como um uivo de um cão, o choro de um gato solitário, uma voz em decadência. Quando ele termina sua melodia, vozes harmoniosas se misturam ao som daquele minuano. Vozes sussurradas, suspiradas e estranhas. Roni começa a ser possuído por uma idéia e, como um bárbaro levanta sua espada para matar, ele levanta o seu sax para tocar. Fecha seus olhos e mergulha de cabeça na sua música. Aquela música é para os bêbados, prostitutas, marginais e desesperados que, como ele, povoam aqueles becos escuros e freqüentemente aparecem mortos no outro dia.

   Roni acaba de tocar e aquele vento, aquela chuva e aquelas vozes também se acabam. Ele abre seus olhos em lágrimas e começa o seu caminho sem destino pela avenida da Azenha. Ele toma mais um gole de sua cachaça e junta do chão um toco de cigarro. Então acende e dá uma tragada como se fosse a última.

   Quando ele se dá conta de onde está, vozes de crianças começam novamente com um coro fúnebre. Ele olha e vê que está no cemitério São João. Roni começa a caminhar por aquele lugar calmo, escuro e muitas vezes depressivo. Ele olha para aquelas lindas sepulturas em pedra. É quando num pequeno ataque de melancolia, olha para o céu e vê a lua cheia e quando volta seus olhos para o cemitério, na sua frente está uma sepultura com um lindo gato preto sobre sua lápide. Os olhos fixos do gato sobre ele, que, sem perceber começa a ler o que está escrito na lápide:

Roni Pereira

1930 + 1963

   Roni lê e com um sinal de alegria, senta na sua lápide e começa a tocar o seu saxofone.

   — Seja bem vindo. — Vozes de almas que mergulham sobre o vento da noite. Amanhã à noite sua alma se perde pelo purgatório, amanhã a sua alma acorda e se perde no escuro.

* Groove é a palavra inglesa para o termo "levada", quando relacionado à música (negra).

____________________

Texto de Marcos Caldeira

Digitação de Rita Barboza