Publicado na Revista Epoca Edição 218 de 19/07/2002
O mundo árabe, vanguarda da cultura no passado, entra no século
XXI como a região menos desenvolvida do planeta
Até o fim da Idade Média, a civilização islâmica esteve na
vanguarda do progresso humano. Os maiores filósofos, matemáticos,
médicos e astrônomos falavam árabe ou persa. O mundo muçulmano
era mais rico e mais poderoso que o Ocidente, visto no Oriente
Médio como uma região sombria, habitada por bárbaros ignorantes.
Hoje os países árabes, com poucas exceções, estão entre os mais
pobres e atrasados do planeta. No resto do mundo, sua imagem
está associada à opressão das mulheres, ao marasmo econômico,
à distribuição iníqua dos lucros do petróleo, a ditaduras sangrentas,
à revolta impotente dos palestinos sob a ocupação israelense
e, sobretudo a partir dos atentados de 11 de setembro, ao terrorismo
ensandecido.
O que deu errado no Oriente Médio? Essa pergunta é, simultaneamente,
o título de um livro de Bernard Lewis, um dos mais respeitados
historiadores dos povos muçulmanos, recém-lançado no Brasil
(Jorge Zahar Editor, 204 páginas, R$ 24), e o tema de uma pesquisa
das Nações Unidas divulgada no início do mês. Numa iniciativa
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud),
um grupo de estudiosos debruçou-se sobre o estado atual do mundo
árabe em busca de um diagnóstico de seus problemas. As conclusões
são desalentadoras. O estudo abarca as 22 nações que integram
a Liga Árabe - exclui, portanto, os Estados muçulmanos não-árabes,
como o Irã, a Turquia, o Paquistão e a Indonésia. Os países
árabes, unidos pelo mesmo idioma, somam 280 milhões de habitantes,
um pouco mais que os Estados Unidos. O PIB de todos eles juntos
é de US$ 531 bilhões, menor que o da Espanha, com uma população
de 40 milhões. A estagnação econômica árabe só perde para a
da África Subsaariana, a região mais pobre do mundo. Nos últimos
20 anos os países árabes cresceram a uma média anual de 0,5%.
A riqueza gerada pelo petróleo trouxe poucos benefícios, pois
é aplicada nos mercados da Europa, dos Estados Unidos e do Japão.
Para os países árabes, com a população mais jovem do mundo -
um efeito dos altíssimos índices de natalidade -, esse atraso
é sinônimo de desemprego, cerca de 15% na média da região. O
descontentamento dessa juventude sem perspectiva fica evidente
na pesquisa. Entre os entrevistados, metade dos adultos com
menos de 25 anos disse que seu maior desejo é emigrar.
Os países árabes são um caso exemplar da insuficiência dos
indicadores puramente econômicos para retratar a situação de
uma população. Desde a década de 90 o Pnud trabalha com o Índice
de Desenvolvimento Humano. Combinando expectativa de vida, taxa
de analfabetismo, matrículas nas escolas de primeiro, segundo
e terceiro grau e PIB per capita, chega-se a uma nota de IDH.
Por esse critério, os países árabes têm o pior desempenho do
mundo todo, atrás de lugares mais pobres, como o sul da Ásia
e a África Subsaariana. 'A região é mais rica que desenvolvida',
conclui o estudo.
Para os pesquisadores da ONU, há três grandes déficits que
mantêm o mundo árabe aquém de seu potencial econômico e humano:
liberdade, igualdade para as mulheres e conhecimento. Nenhum
país árabe é uma verdadeira democracia. As variações vão da
tirania em seu estado mais bruto, como a de Saddam Hussein,
no Iraque, a monarquias absolutas, como a da Arábia Saudita,
passando por democracias de fachada, como no Egito. A imprensa
é, no melhor dos casos, parcialmente livre. Também a utilização
das capacidades da mulher no mundo árabe é a menor do mundo,
segundo o Pnud. 'Toda a sociedade sofre quando metade de seu
potencial produtivo é asfixiada', afirma o estudo. As mulheres,
mantidas a distância da participação política e com menor acesso
à educação, têm pouca chance de mudar o quadro. Cerca de 50%
da população feminina árabe é analfabeta, índice duas vezes
maior que entre os homens. Outro grave empecilho ao desenvolvimento
é a falta de investimento em pesquisa e o acesso restrito à
tecnologia de informação. O mundo árabe aplica em pesquisa sete
vezes menos que a média internacional. Quando se olha para a
cultura em seu conjunto, a situação não é melhor. O mundo árabe
se mantém fechado ao conhecimento que se produz no resto do
mundo. Os autores do estudo do Pnud calculam que, nos últimos
1.000 anos, a quantidade de traduções feitas na região equivale
à de publicadas na Espanha em apenas um ano.
OPRESSÃO - Said aponta a herança colonial como o principal
problema
A Medida do Atraso
Fontes: UNDP e Inter-Parliamentary Union
Ao indagar sobre os motivos do atraso, Bernard Lewis procura
a resposta na própria cultura islâmica. Para esse historiador
de 85 anos, inglês radicado nos EUA, professor emérito de estudos
orientais na Universidade Princeton, os grandes culpados são
os próprios árabes - presos ao passado, refratários aos valores
da liberdade individual e terrivelmente machistas. Lewis detecta
entre os muçulmanos de hoje duas reações possíveis diante do
óbvio fracasso de uma civilização outrora esplendorosa. Uma
é perguntar: o que fizemos de errado e como podemos consertar?
A outra é indagar: quem fez isso conosco? Para Lewis, o mundo
árabe, se quiser sair do atoleiro, só tem um caminho: seguir
o exemplo da Turquia e adotar os padrões e valores ocidentais
da democracia e do mercado o mais rapidamente possível. 'Perguntar
quem nos causou esse atraso leva ao jogo de apontar culpados
e a teorias conspiratórias e fantasias neuróticas de todo tipo',
argumenta. Ditadores como Saddam Hussein acusam o Ocidente por
todos os males do mundo árabe e líderes religiosos fundamentalistas
apontam o abandono de um suposto verdadeiro Islã como a causa
do atraso. 'Se os povos do Oriente Médio continuarem em seu
presente caminho, os terroristas suicidas podem tornar-se uma
metáfora para toda a região e não haverá saída para uma espiral
descendente de ódio, rancor, fúria e autocomiseração', conclui
Lewis.
INJUSTIÇA - A renda do petróleo é aplicada no Ocidente, enquanto
a miséria assola as populações árabes. Na foto, mulheres egípcias
no centro do Cairo
Não é tão simples, rebate Edward Said, um intelectual palestino
exilado em Nova York que se tornou uma das vozes mais respeitadas
do mundo árabe no Ocidente. Para Said, de 66 anos, professor
na Universidade Columbia, Lewis escreve como se entidades como
o Ocidente e o Islã 'existissem num mundo de desenho animado,
em que Popeye e Brutus surram impiedosamente um ao outro e o
boxeador mais hábil leva a melhor'. A colonização, argumenta,
criou o mito de uma mentalidade oriental árabe irreconciliável
e, no fim das contas, inferior à do Ocidente. O complexo relacionamento
entre história, cultura e religião, que gerou enormes diferenças
entre as várias regiões árabes assim como fecundos contatos
entre estas e os povos cristãos do Ocidente, foi substituído
por uma ideologia de confronto. Esmagados por séculos de uma
dominação que impôs cruelmente os próprios valores, os árabes
procuram, aos poucos, restabelecer suas identidades através
do retorno a sua cultura. 'No mundo das ex-colônias, esses retornos
produziram variedades de fundamentalismo nacionalista e religioso',
constata Said. Em sua visão, não há nada de errado com a cultura
árabe ou o Islã em si mesmos.
Curiosamente, tanto Lewis quanto Said assinalam o mesmo episódio
- a invasão do Egito pelas tropas francesas de Napoleão Bonaparte,
em 1798 - como o último suspiro da civilização árabe. Quem expulsou
os invasores, anos depois, foi outra potência colonial, a Inglaterra,
com uma expedição liderada pelo almirante Horatio Nelson. Foi
o início de um longo período de dominação britânica, que só
terminaria depois da Segunda Guerra Mundial. Para Lewis, Napoleão
e Nelson foram portadores da esperança. Para Said, os pioneiros
da desgraça.
Egito volta a julgar 50 homens por homossexualismo
Publicado no Jornal Folha de S. Paulo em 26/07/2002
da France Presse, no Cairo (Egito)
Cinquenta egípcios comparecerão amanhã à Justiça acusados
por práticas homossexuais, depois que o presidente Hosni Mubarak
anulou um primeiro veredito pronunciado em novembro de 2001
pela Alta Corte de Segurança do Estado, um tribunal de exceção.
O processo será tramitado no tribunal correcional de Abdin,
no Cairo. Em maio passado, Mubarak anulou as condenações e enviou
o caso à Justiça ordinária.
A alta corte, que jugou os 52 homens, condenou 21 a penas
de um a dois anos de prisão e 29 foram absolvidos. Outros dois
acusados foram condenados a três e cinco anos de prisão por
"desprezo pela religião".
Mubarak, o único habilitado para decidir sobre as decisões
da alta corte devido ao estado de emergência vigente desde 1981,
confirmou as penas dos dois últimos acusados, mas anulou o veredito
dos outros 50.
Segundo um dos advogados de defesa, Farid al-Dib, Mubarak
adotou sua decisão baseado no fato de que as acusações contra
os 50 envolvidos não são da competência da Alta Corte de Segurança
do Estado.
De maneira explícita, a lei egípcia, fundamentada na sharia
[lei islâmica], não considera a homossexualidade um crime. No
entanto, várias leis punindo os "atentados aos bons costumes"
podem ser aplicadas se tais atos forem provados.
O novo julgamento devia ter se iniciado em 2 de julho passado,
mas foi adiado por razões de procedimento.
Desde seu início, em 18 de julho de 2001, o processo destes
egípcios provocou a indignação de associações homossexuais ou
de defesa dos direitos humanos, principalmente na Suíça, França
e Estados Unidos.
A Anistia Internacional interveio em duas ocasiões para pedir
a libertação dos acusados. O presidente francês, Jacques Chirac,
manifestou a seu colega egípcio sua "inquietude" em relação
às condenações, e o músico Jean-Michel Jarre entregou ao embaixador
do Egito em Paris uma lista de quase 6.000 assinaturas em carta
de protesto.
Sangue contra a paz Chacina de civis é arma de extremistas
para impedir acordo na guerra civil da Argélia
Publicado na Revista Veja de 01 de outubro de 1997. Edição
1515
Autor: Izalco Sardenberg
Os assassinos, cerca de quarenta, chegaram de caminhão, armados
de metralhadoras, granadas, facas e machados, e começaram a
matança. Derrubaram as portas e expulsaram os moradores das
casas. Quem resistiu foi morto na hora, quem se submeteu acabou
fuzilado mais tarde. As casas mais difíceis de invadir foram
dinamitadas. As mulheres jovens, únicas cuja vida foi poupada,
foram levadas embora suspeita-se que serão forçadas a casar
e viver na clandestinidade com os terroristas. Os demais, homens,
mulheres e crianças, morreram degolados, eviscerados ou queimados.
Muitos corpos foram mutilados, outros dinamitados. Cabeças decapitadas
foram espetadas em paus ou jogadas em poços. À noite de horror
e morte em Bentalha, um subúrbio pobre de Argel, seguiu-se a
dor dos sobreviventes emoldurada pela fileira de pequenos caixões
com o nome das crianças estripadas e a idade, escritos a giz:
"Samia 4 anos", "Mohamed 10 anos", "Yacine 3 anos".
O massacre em Bentalha, na noite de segunda para terça-feira
da semana passada, foi um dos piores de uma série de horrores.
Nas contas oficiais, morreram 85 pessoas e 67 ficaram feridas.
Os sobreviventes calculam que os mortos passam de 200. Nos últimos
três meses, cerca de 2.000 argelinos foram vítimas de chacinas
similares, quase sempre executadas em povoados ou fazendas isoladas.
Na pior de todas, um mês atrás, foram trucidados mais de 300
moradores de Sidi Rais, um vilarejo a 20 quilômetros de Argel.
Os atacantes "uivavam como lobos", contou um sobrevivente. A
guerra civil argelina começou no início de 1992, quando um golpe
militar impediu a vitória eleitoral da Frente Islâmica de Salvação,
FIS. Apoiada pelo Ocidente, a virada de mesa impediu a transformação
da Argélia numa teocracia ao estilo iraniano, mas gerou o conflito
que já matou mais de 60.000 pessoas, boa parte vítima da repressão
indiscriminada das Forças Armadas ou das milícias armadas pelo
governo. O massacre de inocentes dos últimos três meses é atribuído
ao Grupo Islâmico Armado, o GIA, uma facção extremada da FIS
mas é difícil encaixar a ensandecida violência dos fanáticos
contra seu próprio povo em qualquer padrão de reflexão política,
o que só faz aumentar a suspeita de que ao menos uma parcela
do morticínio atual tem sua origem no porão militar que apóia
o governo.
Chocado com o tamanho do barbarismo, o Exército de Salvação
Islâmica, braço armado da FIS, anunciou um cessar-fogo. O comunicado
diz que o objetivo é "expor o inimigo escondido atrás desses
terríveis massacres e isolar os criminosos remanescentes do
extremismo perverso do Grupo Islâmico Armado". É a primeira
vez que o fundamentalismo militante faz um apelo desse tipo,
mas um cessar-fogo não é o bastante para interromper a matança.
A FIS já não consegue controlar a multidão de movimentos guerrilheiros
islâmicos, incluindo o GIA, que operam com independência e vontade
própria. Ninguém até agora conseguiu explicar inteiramente por
que o grupo decidiu mergulhar o interior do país num banho de
sangue. Uma hipótese é que pretende atemorizar a população para
mantê-la longe dos grupos de autodefesa organizados pelo governo,
como fazia o Sendero Luminoso no Peru. "Nós somos o grupo que
mata, trucida, queima e pilha com a permissão de Deus", diz
um fax assinado pelo GIA e enviado na sexta-feira passada ao
jornal de língua árabe Al Hayat, de Londres. Dificilmente, contudo,
o GIA responde sozinho pela carnificina.
Com cerca de 1.500 moradores, ruas poeirentas e casario pobre,
Bentalha lembra bastante a periferia das metrópoles brasileiras.
A diferença está no véu que cobre os cabelos femininos, revelando
que se trata de um reduto do fundamentalismo muçulmano. Também
fica perto de um dos maiores quartéis da gendarmerie, a polícia
militar argelina. Na noite de segunda-feira, apesar dos gritos
e do barulho dos tiros, não apareceram policiais para socorrer
os moradores. Uma sobrevivente contou ao jornal El Watan, um
dos principais da Argélia, que tentou pedir ajuda pelo telefone,
discando em vão o 17, o número local de emergência. Esse foi
o terceiro grande massacre na capital ou em seus arredores no
espaço de um mês. As perguntas que atormentam: Por que os rebeldes
muçulmanos atacam um reduto islâmico? Por que a polícia nunca
chega a tempo?
Inocentes e anjos Não são respostas fáceis no labirinto argelino.
O GIA nunca reivindicou oficialmente a autoria dos massacres,
apesar de um de seus dirigentes ter explicado a um jornal francês
que não tem importância matar mulheres e crianças, pois Alá
reconhece os inocentes e os transforma imediatamente em anjos.
O evento central, que parece ter desencadeado o surto de selvageria,
são as negociações entre o governo e a FIS. Três meses atrás,
atendendo à exigência da organização para iniciar as conversas,
o presidente Liamine Zeroual libertou o principal líder da FIS,
Abassi Madani, na cadeia desde 1991. O entendimento desagradou
aos dois extremos da guerra civil: os militares que se opõem
a qualquer acordo e os grupos guerrilheiros, rompidos com a
FIS.
O mistério é como essas duas forças interagem para produzir
a série de massacres. Mas tanto os ataques de Rais como os de
Bentalha foram cometidos tão próximos de guarnições militares
que fica difícil negar ao menos a conivência das Forças Armadas.
O governo argelino não admite investigações independentes, restringe
a circulação de jornalistas estrangeiros no país e censura a
imprensa local, filtrando as informações e versões que deseja
ver divulgadas. Também não há estimativas confiáveis sobre o
tamanho do GIA, que continua tão bárbaro como sempre apesar
de o governo ter dizimado sua liderança duas ou três vezes nos
últimos cinco anos. Os militares erigiram um muro de silêncio
em torno da guerra civil, e qualquer tentativa de ajuda externa
é recebida pelo governo do presidente Zeroual como uma intervenção
indevida num assunto doméstico. A verdade é que país algum quer
meter a mão no vespeiro argelino, apesar do sentimento de horror
com que se acompanha cada novo massacre e do apoio da população
a toda proposta de paz. Resta saber se ainda existe quem tenha
meios de instaurá-la.
Iraniano decapita filha por achar que ela
fora estuprada
da Reuters, em Teerã, em 08/09/2002
Um iraniano decapitou sua filha de sete anos após suspeitar
que ela fora estuprada por seu tio, afirmou uma reportagem na
edição deste domingo do jornal Jomhuri-ye Eslami. A autópsia
revelou que a menina era virgem.
"O motivo por trás da morte foi defender minha honra, nome
e dignidade", teria dito o pai segundo o jornal.
Casos de estupro costumam ser abafados no Irã, onde são causa
de vergonha para a família e a vítima.
Embora os habitantes locais peçam que o homem, que foi detido,
seja enforcado, a lei islâmica atribui somente ao pai da vítima
o direito de exigir a pena de morte.
*** Não se preocupe e ame a guerra atômica
***
Publicado no Jornal O Estado de São Paulo, terça-feira, 4 de
junho de 2002
Autor: Arnaldo Jabor
Me diz uma coisa: o mundo esta à beira de uma guerra nuclear
no Oriente e ninguém faz nada? Nos jornais, as manchetes são
mínimas. A Copa é muito mais importante. No entanto, a Índia
e o Paquistão podem derreter milhões a qualquer momento. Tanta
é a impotência no mundo moderno que ninguém liga muito. Claro
que, quando virmos na CNN ou algo assim o grande festival de
cogumelos luminosos, diremos: "Que horror!..." - como foi no
11 de setembro.
Ninguém se importa mais com nada, porque ninguém pode fazer
mais nada. Os países atrasados, as terras de loucos estão ficando
fora do controle dos países dominantes. Não se trata de um mundo
em crise porque os ricos estão ditando nosso destino. Não. É
que os ricos e poderosos não têm mais como exercer seu poder.
Só resta a eles a defesa. Não só nos prédios com grades de São
Paulo como no céu de Nova York, com os escudos protetores da
"guerra das estrelas".
Na guerra fria, achávamos que os emergentes poderiam impor
um regime socialista, a ditadura do proletariado. Nada. Os fracos
e dependentes estão apenas desfazendo qualquer poder... É o
início do fim de um domínio da "Razão". Há uma "Renascença"
suja, com deuses loucos do Oriente, com milênios de ignorância
e fanatismo, atacando tudo que não seja a "santa morte". Os
terroristas do Al-Qaeda, os homens-bomba, os hindus malucos
não querem reformar vida nem sociedade, como almejaram os filósofos
e cientistas. Há um terrível desejo de se ver a grande morte
no mundo. Os equipamentos existem para ser usados um dia. O
Oriente quer morrer. São esmagados pelas teocracias bilionárias
que lhes inculcam a obediência louca ao Alcorão, para serem
controlados e acharem que o inimigo somos nós. Antes, a guerra
fria era entre dois filhos do racionalismo: a razão socialista
contra a razão capitalista. E o medo da morte criava um "deterrent".
Agora, a guerra virou loucura pura. Se um dos inimigos não tem
medo de morrer, muda tudo, não há vitória. Isso, porque existe
"morte oriental" e "morte ocidental". Eles não descobriram arma
nenhuma. Nós demos a eles a força atômica que Einstein e outros
descobriram e que o Ocidente militar transformou em máquinas
de extermínio. O Oriente só entra com a loucura. Lembrem-se
das negras palavras de Osama, há alguns meses: "Não permitiremos
de novo a humilhação que os muçulmanos sofreram na Andaluzia..."
Sabem quando? Em 1492... quando os mouros foram expulsos da
Península Ibérica. Não é doideira pura?
E como controlar e se defender de "homens-bomba" como eles?
Como dominar terroristas? Osama não é um cara, um sujeito. Ele
é muitos. Ele é "legião", como nos disse o Demônio. Osama está
por trás dessa guerra. O Al-Qaeda e os talibãs fugiram para
o Paquistão e tudo que eles querem é derrubar o Musharraff e
lançar o Paquistão como a vanguarda do "califado da morte".
E não só eles. Numa semelhança fanática e assustadora, seus
inimigos indianos pensam assim também. O dr. Ab-dul Kalam, chefe
do programa nuclear da Índia, já declarou: "O mundo agora é
a religião armada. Agora, existem quatro bombas nucleares: a
bomba cristã, a bomba judaica, a bomba de Confúcio e Mao e agora
a bomba oriental, seja ela hindu ou islâmica. São os quatro
cavaleiros de vosso Apocalipse." (...)
O mundo atual está desmoralizando até a tragédia. A morte
virou bobagem.
A Copa do Mundo pode parar no meio. Os homens-bomba estão
chegando. E aí... fazer o quê? Cantar um tango argentino? Nem
isso. A Argentina já era.
Relatório da ONU critica Estados árabes
da Reuters, em Londres e no Cairo
Relatório da ONU acusa os países árabes de desperdiçar a riqueza
gerada pelas reservas de petróleo e de privar milhões de seus
cidadãos de liberdades políticas básicas. O documento, divulgado
hoje, concentra-se nos 22 países-membros da Liga Árabe.
Realizado por especialistas árabes nos últimos 18 meses, o
relatório revela que o crescimento da renda per capita na região
nos últimos 20 anos -0,5% em média- é um dos menores do mundo,
atrás apenas da África sub-saariana.
O PIB somado (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas
pelo país) das 22 nações é menor do que o de um país como a
Espanha, por exemplo.
O relatório afirma que metade dos jovens árabes querem emigrar.
Quase 38% dos 280 milhões de árabes têm menos de 14 anos, a
maior proporção em todo o mundo.
O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, ex-ministro
das Relações Exteriores egípcio, conclamou os líderes árabes
a encarar as conclusões do relatório para evitar problemas.
"Deve haver melhorias na vida dos jovens porque as conseqüências
dessa negligência podem ser sérias. E não estou pensando em
termos de terrorismo internacional ou da política norte-americana,
mas de repercussão social", disse após a divulgação oficial
do documento, na sede da Liga Árabe, no Cairo.
Clovis Maksoud, que já ocupou o cargo de embaixador da Liga
na ONU, também ressaltou que as pressões sociais representam
um risco para a região. "A demora em agir pode levar a um nível
de estagnação que pode conduzir a explosão popular", afirmou.
O documento elogiou as nações árabes por conseguir elevar
a expectativa de vida, diminuindo os índices de mortalidade
infantil e reduzindo a pobreza extrema, mas criticou a falta
de liberdade e de oportunidades. A expectativa de vida, por
exemplo, cresceu 15 anos nas últimas três décadas.
"Os três principais problemas relacionam-se à questão da liberdade,
à situação das mulheres e ao conhecimento", afirmou Rima Khalaf
Hunaidi, chefe da seção árabe da ONU e líder da equipe que escreveu
o relatório, o primeiro das Nações Unidas sobre o mundo árabe,
realizado pelos próprios árabes.
O relatório acusa muitos dos países de conceder pouca liberdade
política, manter as mulheres subjugadas e permitir que a qualidade
de ensino caia drasticamente.
Cerca de 65 milhões de adultos, na maioria mulheres, permanecem
analfabetos, 10 milhões de crianças estão fora da escola e a
taxa de desemprego de cerca de 15% é o triplo da média mundial.
Um em cada cinco árabes vivem com menos de US$ 2 ao dia. Em
relação à participação política, as mulheres ocupam apenas 3,5%
das cadeiras nos Parlamentos.
A publicação do documento acontece em um momento em que os
países árabes se encontram no centro das atenções após os ataques
de 11 de setembro, nos EUA.
Terrorismo em nome de Deus

*** Pedradas para matar 'blasfemo' ***
Publicado no Jornal da Tarde, domingo, 7 de julho de 2002
Um homem morreu apedrejado, em uma aldeia do Paquistão, após
ser acusado de blasfemar contra o Corão.
O caso ocorreu na semana passada, em Barnala, a 26 quilômetros
de Faisalabad - cidade industrial da província de Punjab -,
mas teve sua origem há oito anos.
Em 1994, Zahid Shah, de 40 anos, foi preso sob acusação de
"blasfemar contra o Corão". Após cumprir pena, em 1997 abandonou
o povoado e se mudou para Faisalabad. Há cerca de dez dias,
porém, resolveu visitar Barnala. E, na semana passada, se envolveu
em uma discussão, ainda não esclarecida, com os vizinhos de
seu irmão, em cuja casa estava hospedado. Ao saber do fato,
Maulvi Faqir Mohammad, o ímã (líder religioso) da mesquita local,
usando os alto-falantes do templo, instigou a população a perseguir
Shah. Localizado, ele foi agredido e levado para a praça central
da aldeia. Após ver o "blasfemo" capturado, Mohammad exortou
a população a apedrejá-lo. Shah foi gravemente ferido e morreu.
Embora tivesse sido notificada do assassinato, segundo o jornal
Daw, a polícia local limitou-se a classificar o crime como "morte
acidental", e não prendeu nenhum dos envolvidos no apedrejamento.
REBELDES MUÇULMANOS MATAM 15 NA ÍNDIA
AGESTADO, 13-07-2002
Militantes integristas islâmicos mataram pelo menos 15 civis
e deixaram outros 28 feridos num ataque com granadas perpetrado
na noite deste sábado contra uma favela perto da cidade de Jammu,
na Caxemira indiana, informaram fontes hospitalares e policiais.
Segundo testemunhas, o ataque foi lançado por pelo menos oito
rebeldes, que, em seguida, iniciaram uma troca de tiros com
forças de segurança. Entre os mortos havia seis mulheres e um
menino de três anos. Foi o mais sangrento ataque desde 14 de
maio, quando militantes islâmicos mataram 34 pessoas numa base
militar perto de Jammu. [i]
Original em: http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2002/jul/13/54.htm
Indonésia vive nova onda de violência entre cristãos e muçulmanos
Publicado no Jornal do Brasil em 13/08/2002
JACARTA - Pelo menos cinco pessoas morreram no ataque contra
três povoados cristãos na ilha indonésia de Sulawesi. Agressores
também queimaram centenas de casas e duas igrejas em Poso, marcando
uma nova escalada da violência na região que desde 2000 é cenário
de um grave conflito entre cristãos e muçulmanos.
Há poucos dias, um turista francês morreu e quatro indonésios
ficaram feridos, quando vários homens armados atacaram um ônibus,
a 200 quilômetros de Poso. Nas últimas horas, foram registradas
cenas de violência nos povoados de Silanca, Sepe e Batu Gencu.
O governo da Indonésia elaborou em dezembro um plano de paz,
para acabar com os conflitos religiosos, que já mataram entre
500 e 1.000 pessoas em dois anos. Cristãos e muçulmanos trocam
acusações quanto à responsabilidade pela violência.
O arquipélago, de 212 milhões de habitantes, abriga vários
focos de tensão étnica, religiosa o separatista, que ameaçam
sua estabilidade.
Londres: vídeos chamam para o terror
Publicado no Jornal da Tarde em 28/01/2002
Jornais denunciam: vídeos com cenas de sangue e chamados à
jihad (guerra santa) recrutam terroristas nas mesquitas da Grã-Bretanha
As mesquitas da Grã-Bretanha se transformaram em centros de
recrutamento de militantes para a Al Qaida, o grupo do terrorista
saudita Osama bin Laden. A denúncia foi feita ontem, por jornais
britânicos que tiveram acesso a fitas de vídeo que recrutam
futuros terroristas com cenas de "infiéis" sendo degolados ao
clamor da jihad (guerra santa).
Antigos "recrutas" podem estar entre os três britânicos identificados
ontem, na base americana de Guantánamo (Cuba). O número de britânicos
naquela base poderia chegar a cinco. Outros dois estão presos
pelas tropas americanas no Afeganistão.
As fitas de vídeo, cujo conteúdo foi revelado pelos jornais
The Guardian e The Observer, circulam há mais de um ano por
várias mesquitas de Londres.
Uma delas, produzida antes dos atentados de setembro nos EUA,
mostra supostos "infiéis" sendo degolados, e um massacre de
civis pelo argelino Grupo Salafista para Pregação e Combate,
que apóia Bin Laden.
"Matar em nome de Alá"
Nos vídeos, cenas sangrentas são entremeadas por comentários
e exortações a "matar em nome de Alá até que nos matem", ou
lemas ufanistas como "a guerra contra os judeus e cristãos já
está ganha."
Um segundo filme, feito há 18 meses, mostra militantes do Taliban,
a milícia extremista que governava o Afeganistão - e abrigava
Bin Laden - decapitando inimigos da oposicionista Aliança do
Norte.
Ambas as fitas foram compradas, por repórteres dos dois jornais,
pelo equivalente a US$ 14. Elas teriam como um dos principais
públicos os freqüentadores de mesquitas como a de Finsbury Park,
ao norte de Londres.
Não por coincidência, o local foi um dos freqüentados pelo
britânico Richard Reid, preso após tentar detonar explosivos
escondidos em seus sapatos, durante um vôo entre Paris e Miami,
em dezembro.
Reid também visitava outra mesquita londrina, a de Brixton,
onde chegou a se encontrar com Zacarias Moussaoui - o primeiro
terrorista indiciado pela Justiça dos EUA como cúmplice dos
atentados de setembro.
Britânicos em Guantánamo
A revelação dos vídeos, que prova ser a Grã-Bretanha um dos
maiores centros de recrutamento para as fileiras da Al Qaida,
deverá fazer com que o governo britânico adote políticas mais
duras para evitar a infiltração de extremistas islâmicos. De
acordo com The Guardian, hoje só os militantes do Grupo Salafista
seriam 200 no país.
No âmbito da repressão ao terrorismo, o governo revelou ontem
a identidade de três britânicos levados presos para a base militar
de Guantánamo.
Trata-se de Asif Iqbal, de 20 anos, e Shafiq Rasul, de 24.
Ambos saíram de um grupo radical islâmico de Tipton, centro
da Grã-Bretanha, para se alistar nas milícias do Taliban após
11 de setembro. Iqbal e Rasul foram interrogados, na semana
passada, por agentes do MI5 - o serviço secreto britânico.
Um terceiro foi identificado, na semana passada, como Feroz
Abbasi, de 22 anos e procedente de Croydon, sul de Londres.
Outros dois talibans britânicos de Tipton estão presos no Afeganistão.
"Não daremos nenhum nome definitivo sem comprovar que se trata
mesmo de britânicos", alegou um porta-voz do governo.
Original em: http://www.jt.com.br/editorias/2002/01/28/int009.html
Fotos do encarceramento de homossexuais no Egito.
Crime: ter a orientação sexual diferente dos outros
O que querem os fundamentalistas
Publicado na Revista Veja em 08/10/2001
Osama bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade,
enfurnados em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de
mistério, mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar
os escritos do milionário que virou o mais exaltado dos radicais
islâmicos. Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos
das bases que eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença
de
não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como uma profanação
do solo santo onde nasceu o Islã. "Todos os esforços devem ser
concentrados em combater, destruir e matar o inimigo até que,
pela graça de Alá, esteja completamente aniquilado", esclarece
Laden, em documento datado de 1996. Realizada a primeira missão
divina, ele pretende partir para a segunda, de alcance mais
amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma comunidade, governada
de acordo com a interpretação mais literal e estrita dos preceitos
do Corão. Para isso, os governos dos países muçulmanos considerados
corrompidos pela influência ocidental - ou seja, todos, com
exceção do Afeganistão, onde já reina o fundamentalismo mais
radical - devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais,
unificados sob esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros
crentes se lançariam então rumo à etapa final - arrebatar o
resto do planeta. "Chegará o tempo em que vocês desempenharão
papel decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja
suprema e as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu
ele a seus seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever
dos muçulmanos é empregar todas as armas possíveis para atacar
os inimigos de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação
diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã".
Parece coisa de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados
no cinema ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante
de fanatismo religioso pregada por Laden, porém, tem raízes
bem fincadas na história da religião muçulmana, constantemente
marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber
da palavra mais pura do Corão, de reviver um passado mítico.
Esse movimento é chamado, genericamente, de fundamentalismo
e está entranhado no próprio código genético do Islã, religião
que tem uma visão totalizante do mundo e apresenta um modelo
para tudo o que se faz em qualquer das esferas da vida, públicas
ou privadas. Na ótica fundamentalista, a união da religião e
do Estado é um ideal ordenado por Deus - e sua separação, uma
invenção ocidental que provocou o declínio do mundo muçulmano.
Para retornar ao "verdadeiro Islã", todas as sociedades muçulmanas
devem se unir numa comunidade única, chamada ummah. Tudo isso
sob o signo da charia, a lei corânica tal como foi estabelecida
há quase 1.400 anos, com castigos coerentes com a sociedade
tribal da época: amputação de membros para os ladrões, decapitação
para assassinos ou hereges, apedrejamento para as adúlteras.
O modelo a ser seguido é o que vigorou no tempo dos quatro
califas, como são chamados os primeiros sucessores diretos do
profeta Maomé. Esse passado idílico, um ideal comum às correntes
messiânicas de várias religiões, obviamente está mais na imaginação
dos fundamentalistas. Na verdade, três dos quatro califas foram
assassinados nas violentas disputas sucessórias - a morte do
último deles, Ali, produziu a mais conhecida corrente minoritária
da religião muçulmana, os xiitas. "Eles dizem que houve um momento
na História em que a comunidade social e seus líderes foram
perfeitos. Tudo, evidentemente, é uma interpretação muito pessoal
do que apresentam como uma verdade eterna", explica o estudioso
das religiões Martin E. Marty, da Universidade de Chicago. "No
fundo, todas as religiões querem ser absolutamente puras e se
consideram o único instrumento de Deus. Nesse anseio, os fundamentalistas
se isolam, erguem barreiras psicológicas para se manter a distância.
Dessa forma, o mundo fica dividido em dois: os seus seguidores
e seus inimigos."
Uma comparação que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista
é com a Igreja Católica na fase em que se encontrava quando
tinha a mesma "idade" do Islã hoje. Naquela época, os padres
da Santa Inquisição queimavam pessoas que não acreditassem em
dogmas católicos. Torturavam e matavam suspeitos de crimes como
bruxaria. Qualquer idéia inovadora era condenada, mesmo que
fosse uma idéia científica defendida por pesquisadores de talento,
como Galileu Galilei, que sofreu perseguição no século XVII
por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. Os historiadores
também coincidem ao apontar as razões desse movimento de refluxo:
em comparação com seu passado glorioso, os países islâmicos
vivem hoje um período de decadência. O Ocidente cristão, com
o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé de
igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os vastamente
em matéria de progresso material, científico, administrativo
e tecnológico. A primeira organização fundamentalista moderna,
a Fraternidade Muçulmana, foi criada em 1928 pelo xeque Hasan
al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico. Também
ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades individuais,
a emancipação das mulheres, as mudanças nos padrões familiares
e outras transformações que se sucederam nas sociedades ocidentais.
"Aterrorizados por sua visão do mundo contemporâneo, os integristas
procuram abrigo e proteção num passado que nunca existiu da
forma como imaginam hoje", analisou o iraniano Amir Taheri,
autor de dois livros sobre o "terror sagrado".
Chegamos, assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em
sua vertente mais extremada: o recurso à violência como meio
não só legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão
ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente
interpretados da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam
há séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram
tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra.
São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis da mesma
maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás que
lançaram as bases da revolução fundamentalista que derrotou
o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá complementa: "Aqueles
que estudam a guerra santa islâmica compreendem por que o Islã
quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países subjugados
pelo Islã receberão a marca da salvação eterna. Pois eles viverão
sob a luz da lei celestial". Quando Osama bin Laden diz que
"matar americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever
individual de todo muçulmano que tenha condições de fazer isso,
em qualquer lugar onde seja possível fazer isso", ele está seguindo
exatamente o mesmo raciocínio.
É interessante notar que Laden estabeleceu como objetivo número
1 o seu próprio país, a Arábia Saudita. Quer livrar o território
saudita da presença contaminadora de militares americanos. A
ironia é que na Arábia Saudita já vigora o mais severo fundamentalismo.
É um dos poucos países islâmicos onde o Corão é a Constituição
e as normas punitivas islâmicas ocupam o lugar do Código Penal.
O Irã xiita, que tem relações gélidas com as demais nações muçulmanas,
e o Sudão também formam nesse grupo. A unificação e a independência
da Arábia Saudita aconteceram sob a bandeira de uma seita chamada
wahabita, cujo radicalismo é reproduzido agora no Afeganistão
do Talibã. Além de cobrir as mulheres de panos dos pés à cabeça,
sem deixar uma única nesga de pele à mostra, os wahabitas têm
horror a tudo que lembre remotamente diversão - música, cinema,
teatro, até vasos de flores a certa altura foram proibidos.
O rei Faisal foi assassinado em 1975 por um sobrinho por ter
tomado uma medida muito liberal: depois de um longo debate teológico,
liberou a televisão. Bebidas alcoólicas rendem chicotadas em
praça pública, a polícia religiosa anda pela rua controlando
qualquer desvio. Até uma princesa da família reinante foi executada,
por adultério. Pois todo esse rigor, para Laden, não vale nada.
Ao permitir que militares americanos se instalassem no país
(para proteger os sauditas, e todo seu petróleo, da sanha de
Saddam Hussein), a monarquia wahabita se transformou em traidora
da fé e merecedora de todos os castigos. É para arrancar os
americanos do solo saudita, reverenciado como o berço do profeta
Maomé e da revelação divina, que Laden iniciou a campanha de
ataques terroristas que culminou com o massacre de Manhattan.
O que pode vir em seguida?
Operações espetaculares como os atentados contra os Estados
Unidos, estarrecedores tanto por sua magnitude quanto pelas
conseqüências em todo o planeta, podem criar a impressão de
que o mundo está à beira de ser engolfado pelo fundamentalismo
mais ensandecido, com massas de seguidores do profeta tomando
o poder de assalto. Na verdade, as duas grandes ondas de apoio
popular aconteceram em 1979, com a revolução iraniana, e 1991,
quando os integristas ganharam, mas não levaram, as eleições
na Argélia. Nos outros países muçulmanos onde existe algum tipo
de teste das urnas, os partidos fundamentalistas costumam ter
em torno de 20% dos votos. Inseridos no jogo político, acabam
envolvidos em projetos nacionais. Isso é exatamente o oposto
do que prega o fundamentalismo, que "rejeita violentamente não
só o nacionalismo, mas a própria idéia de construir um Estado
islâmico num só país", segundo analisa o pesquisador francês
Olivier Roy, estudioso do tema.
Na visão de Roy, o fundamentalismo "clássico" está em refluxo.
Desde 1997, quando aconteceu o massacre dos turistas estrangeiros
em Luxor, não acontecem atentados de grande impacto no Egito.
A situação acalmou-se na Argélia, a violência brutal dos atentados
palestinos contra israelenses acontece contra o pano de fundo
de uma luta nacional. E, ironia das ironias, o Irã dos aiatolás
tem agora uma convergência de interesses com os Estados Unidos
no combate aos talibãs e seu aliado saudita. Para o pesquisador,
Laden é uma aberração até mesmo no contexto do fundamentalismo.
Seus seguidores, arrancados do grupo familiar e da sociedade
de origem, desenraizados e aculturados, "fazem um retorno individual
a um Islã abstrato e desligado da realidade social". Reside
aí, justamente, seu ponto fraco. Como se diria no jargão de
uma outra doutrina fundamentalista, já extinta, eles se afastaram
das bases - e por isso estão condenados ao fracasso. Queira
Alá que seja verdade.
Original em http://www.mre.gov.br/EUA/Clipping/vj1008.htm
Nigeriana é condenada à morte por adultério
Publicado no Diário OnLine em 20/08/2002
Um alto tribunal islâmico do Norte da Nigéria condenou à morte
uma mulher de 31 anos por ter tido um filho fora do casamento.
Amina Lawal Kurami deverá ser apedrejada logo após deixar de
amamentar seu filho, que está com oito meses. A defesa deve
recorrer da decisão.
A condenação à morte por lapidação decretada nesta segunda-feira
por um tribunal de apelação islâmico da Nigéria contra uma mulher
acusada de adultério é "incompatível com a Constituição" desse
país, afirmou em um comunicado a organização de defesa dos direitos
humanos Anistia Internacional (AI).
A entidade se declarou "extremamente preocupada" com a sentença
da Corte de Funtua (Estado de Katsina, norte da Nigéria) que
confirmou uma primeira condenação à morte pela mesma razão.
"Este julgamento é incompatível com a Constituição nigeriana
e com as obrigações legais contraídas pela Nigéria em virtude
dos tratados internacionais sobre direitos humanos e da Carta
africana para os direitos humanos e dos povos", afirmou a AI
em nota.
Amantes adúlteros são condenados à morte
na Nigéria
Da AFP em 29/08/2002
Dois amantes adúlteros foram condenados à morte por apedrejamento
por um tribunal islâmico do Estado de Niger, no Norte da Nigéria,
anunciaram esta quinta-feira autoridades do Estado.
Ahmadu Ibrahim e Fatima Usma, ambos de 32 anos, foram declarados
culpados de ter mantido relações sexuais fora do casamento,
o que desrespeita a Charia (lei islâmica), em vigor no Estado
de Niger desde 2000, precisou um representante do Ministério
de Justiça do Estado.
Os dois amantes, que reconheceram o fato, têm 30 dias para
apelar da sentença.
Com esta sentença, já são quatro as pessoas condenadas a morrer
por apedrejamento desde o começo de agosto e segundo os termos
da Charia, em vigor em 12 Estados do Norte da Nigéria.