Beiradão: a percepção de um escritor nativo sobre o ciclo


ÁLVARO MAIA

A prerrogativa de escrever sobre o ciclo da borracha” tendo sido testemunha ou partícipe do processo dá-se com alguns escritores. Entre eles, incluem-se Ferreira de Castro, Humberto de Campos, Alberto Rangel, Carlos de Vasconcelos e Álvaro Maia. As experiências de Ferreira de Castro e Humberto de Campos os situam no barracão, executando as tarefas do dia-a-dia que ali se faziam necessárias. O primeiro fazia pequenos serviços não tendo, segundo Jaime Brasil, trabalhado na estrada de corte por ser ainda muito jovem. O segundo foi gerente de seringal. Quanto a Alberto Rangel e Carlos de Vasconcelos, executaram como engenheiros serviços de demarcação de terras, o que lhes possibilitou também um contato com os seringais. 
A particularidade que cabe a Álvaro Maia é ter conhecido o mundo do seringal não como alguém que vem de fora, mas que nasceu nele. O cenário de seu nascimento é o sítio- seringal Goiabal, localizado à margem esquerda do rio Madeira, no município de Humaitá. Seu pai foi um imigrante da região cearense do Crato, descendente de família próspera que, como outros, veio para a Amazônia, seduzido pela possibilidade de ganhar dinheiro com a borracha, e a mãe, uma amazonense, herdeira de proprietário de seringais no rio Madeira, que estudou em internato religioso. Em sua obra Beiradão, esses traços da família são reproduzidos através das personagens Fábio e sua esposa. Maia fez os primeiros estudos com a mãe, que o alfabetizou, e depois, seguindo um roteiro comum à condição de filho de seringalista, completou os estudos fora do Amazonas. Primeiramente, em Fortaleza e depois no Rio de Janeiro onde se bacharelou em Direito na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais.
Conforme ressalta Santos(62)  Álvaro Maia veio a tornar-se uma liderança política estadual, quando regressou dos estudos, por fazer parte ou ser oriundo de um grupo dominante local que lhe possibilitou primeiramente ocupar cargos públicos como redator da Assembléia Legislativa, auditor da Força Policial do Estado do Amazonas, Secretário da Superintendência do Território Federal do Guaporé, Secretário da Comissão de Propaganda e Organização do Centenário da Independência, Secretário da Municipalidade de Manaus, Diretor da Imprensa Pública.
Contando com apoio de setores tradicionais da economia local, ligados ao comércio e ao extrativismo, Álvaro Maia é nomeado por Getúlio Vargas interventor federal do Amazonas em 1930, sob a indicação de Juarez Távora, delegado federal do Norte. Essa interventoria foi exercida apenas até 1931, quando Maia foi exonerado por Vargas em virtude de ter dissolvido o Tribunal de Justiça do Amazonas, causando descontentamento entre a classe dos juízes, que recorreram a Vargas. Maia retorna ao poder em 1934, elegendo-se indiretamente governador constitucional do Estado do Amazonas. Graças à formação de um secretariado constituído por parentes e cooptados políticos, mantém-se no cargo. Em virtude do golpe político do Estado Novo, em 1937, torna-se interventor federal e governa até a queda de Vargas, em 1945. Em 1946, é eleito senador constituinte. Por intermédio de eleições diretas, volta ao governo do Amazonas em 1951 e, em 1954, é derrotado em nova campanha política. Só consegue retornar ao cenário político em 1966, elegendo-se senador pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA). 
O elo com o seringal e a carreira política marcam  a obra do escritor Álvaro Maia, sendo que o ambiente do seringal dá-lhe o conteúdo e a política o delineamento ideológico. É o escritor amazonense que mais se voltou para os motivos ensejados pela vida no seringal e os motivos correlatos a ela. A maioria da produção abordando o seringal foi publicada a partir dos anos 1950, durante o retorno à literatura após as derrotas políticas. (63) Em 1956, é editado Gente dos seringais; em 1958, Beiradão e Buzina dos Paranás; em 1963, Banco de Canoa; em 1966, Defumadores e Porongas. Buzina dos Paranás destaca-se nessa série de narrativas por ser um livro de poemas, mas os motivos do seringal trabalhados nos outros livros não estão ausentes, uma vez que o autor dedica também poemas à seringueira e a assuntos abordados nas demais obras, como, por exemplo, a figura da parintitin Narcisa, mãe de leite índia, ou aos aviões Catalinas” que transportavam passageiros e cargas e levavam auxílio médico aos seringueiros.
Existe uma continuidade nos assuntos abordados em Beiradão e nas demais obras. Uma vez que sua publicação é anterior à maioria delas, entendemos que o autor pretendeu desdobrar o seu conteúdo através dos outros livros. Aproveitando um título que o escritor dá à quarta parte do livro Banco de canoa, podemos dizer que as narrativas contidas em Beiradão e nas outras obras  são “histórias que se repetem.
Contendo crônicas sobre acontecimentos e pessoas ligadas ao desbravamento de regiões às margens dos rios amazônicos(64)  e histórias prosaicas sobre situações da vida interiorana e dos seringais, as figuras que aparecem nas narrativas são quase sempre as mesmas: pobres, figurões poderosos, religiosos. A vida no interior é registrada através de manobras políticas, apadrinhamento, vinganças passionais, disputa e abuso de poder. O autor também procura captar aspectos culturais como crenças, seres lendários. Há nas histórias abordando as relações políticas interioranas a preponderância da noção de que a não aderência a um grupo político pode resultar em perseguições e enxovalhamentos. Já as histórias envolvendo religiosos geralmente abordam sua castidade, honestidade ou desonestidade.
A identificação entre Beiradão e as demais obras dá-se também por intermédio de personagens comuns. Fabrício, velho Unias são os contadores de histórias; velha Romana, Zé dos Espíritos, os curandeiros; Narcisa, a ama de leite índia. Personagens como Fábio, Segadais e padre Silveira constituem uma síntese de personagens de outras obras à medida que representam respectivamente o bom pioneiro, o arrivista e o missionário.
Álvaro Maia atribui uma autoria coletiva às narrativas contidas em obras como Gente dos seringais, Beiradão, Banco de canoa e Defumadores e porongas. Em Gente dos seringais, informa que reduziu narrativas ouvidas de seringueiros e hinterlandinos a textos escritos que pudessem ser compreendidos pelos próprios narradores. Para tanto, amoldou-as à [...] tessitura ductil dos narradores, fugindo, quando possível, ao ‘latim do padre e do advogado’[...].”(65)  Entretanto, declara ter modificado o “colorido das tragédias passionais que pudessem se apresentar como obscenas. Eximindo-se da autoria, considera-se um “mero compilador”. Nas demais obras, repetem-se as mesmas justificativas no sentido de atribuir as narrativas à imaginação popular. A veracidade das obras é outro ponto sempre destacado.
A intenção do autor de atribuir a autoria das narrativas a uma coletividade explicita uma preocupação de não se colocar como criador de acontecimentos que, segundo sua percepção, devem-se ao barbarismo do início do processo de desbravamento:

Certas narrações prendem-se aos tormentos sexuais nas selvas, quando povoadas exclusivamente por homens, sem refrigeração de mulheres. Surgiram tremendas crises, - raptos e crimes sangrentos, assunto exaurido pelos estudiosos. Evoquei alguns instantes de intenso realismo, revivescendo, em tintas escassas, e sem colorido descritivo, os dramas e os imprevistos patológicos, raros após a incipiente formação geo-social dêstes últimos tempos, na hiléia fragmentada pelas ânsias de estruturação. (66)

O autor, dessa forma, demonstra uma consciência do impacto do conteúdo da obra e, por isso, torna-se um mediador entre sua produção e o público. Conforme observa Sartre, a mediação reflexiva do autor remonta ao fim da Idade Média e se acentua no romance burguês do século XIX. Anteriormente, o autor limitava-se ao ato de narrar e não procedia uma reflexão sobre a sua função de autor, “[...] os temas de seus relatos eram quase todos de origem folclórica, ou ao menos coletiva, e ele se limitava a utilizá-los [...].(67)  Ainda que Maia ponha-se como um mero compilador da imaginação popular, é possível identificar em suas narrativas uma ponderação de autor instruído sobre o conteúdo de cunho não culto que afirma compilar. A inserção de suas convicções políticas em muitas dessas narrativas atesta que procedeu um trabalho de elaboração consciente. 
Sartre aponta o momento em que o conteúdo da narrativa, suas palavras, era tido como as próprias coisas que designava como de um “realismo objetivo e metafísico e o distingue do “idealismo literário” em que a substância do relato é a subjetividade do autor. Neste último, “[...] a história que se oferece ao público tem como característica principal o fato de já estar pensada, isto é, classificada, ordenada, podada, esclarecida [...].(68) 
Beiradão realiza-se intermediariamente entre a feição do romance burguês e a narrativa. A distinção entre essas categorias é posta por Walter Benjamin ao apontar a procedência da narrativa da tradição oral ou da experiência relatada por terceiros e a limitação do romance ao indivíduo isolado. (69)
Destacamos que Álvaro Maia atribui a origem das narrativas aos seringueiros e moradores das margens dos rios, colocando-se como o compilador que reduziu a textos escritos esse repertório de histórias transmitidas oralmente. Beiradão apresenta uma quantidade expressiva de pequenas histórias cujos assuntos muitas vezes não se limitam aos tópicos correntes sobre o seringal. Nelas, o fabulário nordestino soma-se ao caboclo. Os assuntos inerentes ao dia-a-dia do seringal se tornam menos exclusivos, o que não impede que o romance realize uma visão sobre o ciclo da borracha”.
A unidade que dá ao mosaico de narrativas uma constituição de romance é estabelecida pelo protagonista Fábio e sua trajetória de retirante a seringalista. Ao mesmo tempo que possui uma história independente, Fábio também é o elo de condução das narrativas paralelas, exercendo o papel de um ouvinte.
Beiradão é organizado em três partes: Bamburral, Serras e Centros e Beiradão. Segundo o autor, em nota preambular, o beiradão caracteriza “[...] a margem dos rios principais, onde se fixaram os primeiros desbravadores e permaneceram os seus descendentes”. (70) O bamburral é descrito no decorrer do romance através de uma analogia: “A sociedade em formação imitava aqueles bamburrais. Na aparência, era serena, como uma orquestração de sanhaços, mas, por outro lado, oscilavam em ousadias e ambições. (71) Essa divisão espacial do romance remete a uma divisão temporal do ciclo, tendo em vista que a primeira parte trata do início do desbravamento através da chegada de pioneiros, entre eles, as personagens de Fábio, Segadais e Padre Silveira. Serras e Centros representa o período intermediário, abordando o auge e o princípio do declínio do ciclo. Enquanto, na primeira parte, o protagonista Fábio deixa o Amazonas após ter acumulado algum dinheiro, trabalhando como recenseador para um coronel seringalista e volta ao Ceará, esse momento do romance marca o seu retorno e estabelecimento definitivo no Amazonas, tornando-se pequeno proprietário de seringal. O romance demonstra que, por ser pequeno proprietário e investir em meios alternativos como a agricultura e a pequena criação, Fábio resiste e não se arruína totalmente com a crise.
A terceira parte do livro apresenta o mundo do seringal pós-crise. O bamburral e o beiradão especificam ainda a índole dos desbravadores. Aqueles que se alocaram nos bamburrais exploraram a terra sem com ela criar vínculos, já aqueles que se instalaram nos beiradões tornaram-se os elementos que se fixaram na terra e nela permaneceram mesmo quando se desencadeou a crise. 
Apesar de a fundamentação do romance estar calcada na figura de Fábio e de sua atuação dentro do que representa o ciclo, o enredo se inicia com a personagem Segadais. Estudante de direito, mais interessado em ganhar dinheiro do que em seguir o rumo traçado pelo professor de “levar justiça às massas desamparadas”, Segadais se ajusta aos procedimentos ditados pelos poderosos coronéis de barranco, consciente de que dessa atitude depende o êxito de sua carreira:

Nas sedes municipais, o profissional tinha de reagir à politicagem, filiando-se, sem entusiasmo, às hostes do governo, representadas pelo coronel barranqueiro, cuja autoridade pairava acima do superintendente.
Segadais resistiu, mas teve, ante a inutilidade dos esforços, de babujar no cocho, onde babujavam o médico, o dentista e o vigário [...]
Diabo! Não viera tomar banhos salgados nos altos rios do inferno e sim arranjar dinheiro, supremo sonho do bacharel pobre no pouco movimentado foro local. (72)

Segadais é o emblema de profissionais (engenheiros, advogados, médicos) que, recém-formados, vêm tentar carreira fora dos grandes centros e findam por ter de se submeter ao jugo do poder local, mas, como seringueiros, comerciantes, almejam acumular riqueza. Não tendo o destino atado à escravidão do seringal, valem-se do oportunismo, casando-se com a filha de algum potentado ou partem, como Segadais, para outras alternativas, “[...] enganando bolivianos, transpondo cachoeiras nas jangadas, imaginando diversões para os seringueiros, centralizando-os em torno às ladainhas.” (73) Fica, assim, caracterizada essa personagem como o arrivista. Move-o o desejo de ganhar dinheiro e não o espírito de estabilidade. Mas, conforme é demonstrado nas obras de Álvaro Maia através de outras personagens, Segadais também é afetado pelo “banzo da floresta”. No romance, essa situação é descrita como um estado em que aqueles que retornavam as suas terras

[...] enfermavam da alma. Ouviam o murmúrio das selvas brutas, o bater do vento nas praias onduladas, em cujos baixios os peixes se empilhavam aos cardumes, as chuvas sem-fim [...] A mesma nostalgia do marujo que não se acostuma à terra firme, e do catequista, que retorna às malocas ameaçado de ser morto pelos índios. (74)

Paralelamente ao perfil aventureiro de Segadais, está a persongagem Padre Silveira, representando a presença religiosa no processo de desbravamento desencadeado pela extração da borracha. Gondim destaca que as figuras do aventureiro, do missionário e do abnegado são comuns ao processo de conquista da Amazônia. (75) Padre Silveira, por seu turno, acumula o papel duplo do missionário e do aventureiro no sentido de que motiva-o o mesmo senso de oportunismo de Segadais, levando-o a aproveitar-se do sacerdócio para amealhar recursos em proveito próprio. A principal causa que se apresenta no romance para os desvios do padre, que flerta com as mulheres casadas e aproveita-se da boa fé dos seringueiros e da população interiorana, são os efeitos do meio, os quais o levam a agir de maneira diferenciada:

[...] Fábio sustentava que a honestidade, até nos sacerdotes, depende do ambiente. Fácil a comparação: Padre Silveira, como vigário na serra, espalhando confissões em seu cavalo choutador, bebendo copos de leite mugido, e Padre Silveira nos seringais, comendo tambaquis com pimenta, sentado em rede macia de Zefa Mixira, enquanto o pescador estava no lago e os curumins na roça. Não há dúvidas: a honestidade depende também do ambiente. (76)

Nos trabalhos de desobriga pelo Amazonas, instalando o altar portátil onde for conveniente para batizar pagãos, dizer missa, sacramentar uniões, Padre Silveira demonstra seriedade, usando a batina e a coroa. Findas as obrigações do sacerdócio, trata de comercializar clandestinamente com os regatões a borracha e os demais produtos recebidos em doação pelos fiéis. O lucro sobrepõe-se aos escrúpulos sacerdotais; quando estão em jogo os seus ganhos, os pecados dos fiéis diminuem de importância. A sua noção de pecado distingue os de menor e maior gravidade, esses últimos os verdadeiros. Entre os pecados verdadeiros, está o adultério que ele próprio ajuda as mulheres a praticarem. Não teme, porém, confessá-lo ao Monsenhor, confiante na justificativa de que o ambiente é o responsável pelos excessos.
Tanto Padre Silveira quanto Segadais opõem-se à personagem Fábio Moura. Essas três personagens recebem um tratamento individualizado no romance, que é entrecortado por episódios em que surgem dezenas de personagens em casos diretamente relacionados ao seringal ou à vida interiorana. A história principal do romance é protagonizada por Fábio e refere-se desde a sua migração até o período pós-crise que enfrenta como seringalista.
No que diz respeito à história principal vivida pela personagem Fábio, o enredo do romance não segue uma ordenação rigorosamente linear. O início da narrativa apresenta Fábio inserido no trabalho de recenseamento e fiscalização dos seringais do coronel Francisco Moreira, viajando a bordo de batelões ao longo dos rios. A partir da seção D” desta primeira parte, a narrativa presente é interrompida e conta-se a história pregressa de Fábio. No Crato, sua carreira de seminarista determinada pelo pai é interrompida em virtude da rigorosa seca do fim do século XIX. Ele tem, então, dezoito anos. Após esses esclarecimentos sobre sua origem, aspectos culturais de seu ambiente familiar e sobre sua decisão de abandonar o Ceará, a narrativa torna ao curso presente. Mais adiante, ainda na segunda parte do romance, colhe-se uma sumarização do roteiro de vida seguido por Fábio depois de abandonar o seminário e partir de sua terra:

Fábio Moura coletava observações curiosas, que lhe feriam a vida acidentada de vinte e dois anos. Viera de longe, cortara os primórdios da educação seminária, palmeara caminhos sertanejos, com aglomerações amontoadas de retirantes, hospedarias de Fortaleza e Belém, cabeças-de-porco de Manaus, viagens em cargueiros do Lóide, nos gaiolas, motores, batelões, canoas e ubás. Campos, terra firme, alagações, águas cristalinas das chuvas, águas escuras do Machado e dos igarapés, águas dos igapós e charcos, águas do Madeira. (77)

Ao fim da segunda parte do romance, Fábio viaja de retorno ao Ceará, tendo acumulado uma considerável experiência nos bamburrais através do trabalho de recenseamento. Conhecera a realidade muitas vezes grotesca dos centros onde famílias morriam à míngua atacadas pelas febres, permanecendo os corpos abandonados nas barracas para banquete das varejeiras, mucuras e urubus; acompanhara a saga de pioneiros no desbravamento das áreas inóspitas e admirava os que se tornavam proprietários às custas do próprio suor;  conhecera a selva além do registro nos livros e, ao contrário do que lera sobre o seu adormecimento, descobrira que ela jamais dormia; ouvira histórias escabrosas de crimes passionais e de vinganças e histórias sobre extorsão, fuga e revolta nos seringais; acompanhara as ingerências políticas abusivas dos coronéis no trato com os adversários e os eleitores.
Em sua terra, apercebe-se de que mesmo tendo ali nascido, cursado o seminário e possuindo terras que lhe foram deixadas de herança para administrar, os bamburrais o haviam seduzido e o chamavam de volta. Teria de cumprir a missão de “[...] desbravar o Amazonas, incorporar os seringais ao movimento econômico do Vale [...].” (78) Imbuído dessa missão e também afetado pelo banzo da floresta, Fábio retorna para, desta vez, instalar-se definitivamente. Casa-se com a filha de um seringalista e com ela divide a abnegada dedicação à terra, fundando uma escola que recebe gratuitamente os alunos. Só não consegue manter-se isolado do jogo político local. O quadro em que o indivíduo se sente encurralado e é obrigado a aderir às hostes políticas locais é reiterativo nas narrativas de Álvaro Maia. Em Beiradão, ilustra-o a seguinte passagem:

[...] A politicagem era um retiário: os vencidos lhes caíam nas malhas, que se apertavam mais e mais, até a asfixia e o estrangulamento. Improvisavam-se imaginários crimes, perseguiam-nos em qualquer empresa que exercessem, demitidos de funções públicas, caluniados na vida pública e privada, e, ao fim, não escapavam de sovas e exílios disfarçados, impostos por implacáveis perseguições. Não podiam resistir à debandada nas cidades às vinditas tributárias e comerciais. Multiplicavam-se os impostos; executavam-se os atrasados, em prazos sumários; as embarcações, por precaução, não lhes tocavam nos portos. Nas vilas, se comerciantes, sofriam bloqueio oficial, e poucos lhes compravam as mercadorias. 
- O chefe não quer!
Procuravam-nos à noite, passando ao longe sem pagar as dívidas. Se residiam num seringal, sofriam também feroz assédio. O camarada resistia algum tempo, mas não poderia ficar nesse crescente prejuízo e cedia. Transferia-se ao partido situacionista, assinando-lhe uma ficha, e tudo se modificava. Impostos reduzidos, taxações desclassificadas, recomendações ao coletor, silêncio ou elogios nos jornais. Perdia as fumaças de rebeldia, calava-se rendendo graças por não ser surrado ou expulso de sua propriedade. (79)

Fábio mantém seu seringal, procurando não criar desafetos. Para tanto, equilibra-se entre a vida de pequeno proprietário rural e a execução de algumas funções públicas que as relações políticas lhe impõem e não lhe é conveniente recusar. O seu entendimento sobre a distorção da política, a politicagem, no entanto, está estabelecido: “[...] Servia-a para servir a amigos; suportava-a para não querer parecer melhor que os outros [...].”(80)  Fechando os olhos para as hipocrisias políticas, vai tocando sua pequena propriedade. A missão de educar os filhos preocupa-o mais que a obtenção de lucros. Com a pouca produção de borracha, cobre as despesas essenciais, o que demonstra lhe bastar, apesar das críticas feitas por Segadais e Padre Silveira, apontando sua falta de ambição.
A feição diferenciada de seringalista apresentada por Fábio é destacada ironicamente pelo narrador que o qualifica com jeito de pai de santo ao invés de comerciante. Seu procedimento de receber todos que lhe batem à porta, corrigindo contas, lendo e respondendo cartas e ouvindo histórias, dá-lhe ares de conselheiro.
Precavendo-se contra tempos difíceis, Fábio constrói um pomar em que mistura espécies locais às do Pará e Nordeste e completa a sua defesa econômica com um pequeno rebanho. Nesta fase em que seu seringal prospera, surge uma epidemia de varíola nos seringais, levando-o a enfrentá-la com a família. Com a atenuante de já terem ele e a mulher apanhado a doença quando crianças, conseguem isolar os filhos e prestam auxílio aos enfermos. À epidemia, sucede uma outra calamidade: a economia da borracha entra em crise devido às plantações no Oriente. Contudo, Fábio e outros pequenos proprietários unem-se para enfrentar a crise, recorrendo às alternativas de sustentação econômica que haviam criado. Já [...] os grandes seringalistas não se haviam preocupado com a lavoura e a pecuária: importavam sempre, porque a borracha dava para tudo [...].”(81)  A lição tirada da crise é o endividamento e a ruína dos grandes proprietários, que sofrem também a pressão dos seringueiros, os quais ameaçam revoltar-se devido à suspensão de fornecimento de mercadorias. Inicia-se o êxodo de seringueiros principalmente nas regiões de seringais mais ricos, os dos rios do Alto: Machado, Jamari e Preto. Nos seringais mais pobres, dos beiradões, onde os seringueiros haviam feito roças, há uma tendência a permanecerem na terra apesar da crise. O aventureiro, como Segadais, novamente se prepara para partir, desta vez, tangido pela falta de perspectiva na terra onde buscava recursos de forma imediatista: “[...] ninguém tinha a loucura de morrer sem proteção, sem amparo, sem financiamento, num Vale que retornava às condições primitivas do descobrimento [...].(82)  O romance acentua os posicionamentos opostos de Segadais e de Fábio no momento da crise, determinando o espírito arrivista de um e os princípios idealistas do outro:

Fábio amava as florestas e as águas. Alguém teria de ficar, porque aquele mundo verde não desapareceria, somente porque diminuía o preço de um produto. Outros produtos existiriam; outras explorações teriam de nascer; agitando indústrias e industriais. O futuro não seria para daqui a cem anos; era um futuro que se desenhava bem perto, tecido no presente. A crise parecia uma seca; voltaria o inverno nordestino, limpando o horizonte. Regressariam os fugitivos e encontrariam de pé, embora alquebrados, os vultos que não se arredaram dos portos bombardeados, como alavancas de resistência. O comerciante não é o homem do imediatismo, mas um idealista na ação que desenvolve. Nem todos se esforçam somente para ganhar dinheiro: abrem o caminho, como pioneiros, e milhares marcharão cantando [...]. (83)

Temperamentos opostos têm também os seringueiros dos rios do Alto e os dos beiradões na relação com os patrões durante a crise. O primeiro caso é ilustrado na situação da personagem Coronel Moreira, o rico potentado que perde o poder e o respeito que impunha aos seus trabalhadores. No segundo caso, está o seringalista representado pela personagem Fábio, que consegue manter uma relação cordial com seus trabalhadores. Enquanto Fábio precisa intervir como mediador junto aos seringueiros do coronel para que não tomem de assalto o seringal deste, atentando contra sua vida; com os seus seringueiros, pode conversar francamente, revelando-lhes a gravidade da situação “[...] porque ali tudo era de todos [...].” (84) Assim, os seus seringueiros, ao invés de exigirem pagamento e abandonarem o seringal, decidem permanecer ali mesmo, como o patrão, enfrentando os tempos difíceis. Quando a escassez de mercadorias se acentua, dificultando a obtenção de produtos básicos para a sobrevivência, o aparecimento do regatão se registra como uma tábua de salvação para os náufragos que decidiram permanecer. Desse modo, o narrador destaca: “[...] fugiram os aviadores, os seringalistas, mas, na hora difícil, o tão amaldiçoado regatão vinha salvá-los [...]”.(85)  Na consideração do narrador, essa era a verdadeira fase dos regatões, pois poderiam negociar com os pequenos seringalistas sem serem perseguidos e sem sofrerem fiscalização. Para o narrador, portanto, os regatões, através de seu comércio ambulante, prestaram uma ajuda aos hinterlandinos, evitando a morte por doenças, uma vez que não lhes chegava qualquer assistência oficial. 
O enredo do romance prossegue arrolando as conseqüências da crise na capital e nas regiões dos seringais de que são significativas as seguintes passagens:

Na capital em torpor, sacudida pelo temporal, desapareceram os dias faustosos da queima de cédulas para acender cigarros: os comerciantes lutavam, desesperados de receber os saldos espalhados no interior, pela simples razão de que, sem mercadorias, esse interior não poderia lutar. As sedes municipais eram uma cópia empobrecida da capital. (86)
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[...] Seringais, campos, embarcações, casas-de-farinha, engenhocas respondiam pelas dívidas; agricultores perdiam as posses, onde lutaram anos e anos, tentativas de pequenas indústrias caseiras cediam aos impostos excessivos[...]
[...] 
Choviam as execuções criminosas, sem uma providência aleatória e salvadora. Seringais tornavam a florestas, sem atividade lucrativa, pois não encontravam novos exploradores; barracões desabavam, barracas emaranhavam-se nas trepadeiras; a capoeira dominava. Surgia o imprevisível: seringalistas, outrora prósperos, pediam um emprego aos mais abastados, ou ocupavam um pedaço alagadiço da ilha para defender a vida – derrubar a mata, plantar roçados...(87) 

Durante esse período, Fábio permanece em seu sítio seringal, sobrevivendo às custas de sua cautela. À insistência de Padre Silveira de que deve abandonar o Amazonas e voltar ao Ceará para dar educação completa aos filhos, argumenta a lealdade para com os que também decidiram ficar, seguindo seu exemplo. Partir, deixando-os sós na dificuldade seria, para ele, traição. Diante de um convite que recebe para o filho estudar num seminário, Fábio titubeia ao refletir que o menino, acostumado a viver nas brenhas, não se amoldaria à missão eclesiástica, não possuiria a vocação necessária para ser um sacerdote virtuoso. Ademais, o próprio filho resiste a seguir esse caminho. O ambiente amazônico onde fora criado é tido como o principal fator negativo para a sua conversão. Entretanto, Fábio deseja que o filho tenha uma educação integral e por isso o menino segue com uma tia para a capital a fim de realizar os estudos que apenas iniciara com as lições primárias da mãe. Posteriormente, Fábio também se questiona sobre sua própria partida para a cidade e, consultando a esposa, obtém dela a mesma convicção que sempre tiveram de permanecer no beiradão até o fim de suas vidas. 
Quase ao fim do romance, o beiradão começa a dar sinais de recuperação da crise, atestando um incipiente restabelecimento. Não é mais a extração da riqueza encontrada abundantemente na natureza, especialmente o látex, que anuncia o soerguimento:

O beiradão povoava-se, povoaram-se as terras marginais às linhas telegráficas. Seringais em abandono começaram a ser procurados. Velhos seringueiros, fatigados de esforços andarilheiros, apelavam também para a agricultura; tabaquistas e farinheiros, desiludiam-se das estradas e se aboletavam nas terras férteis das ilhas vizinhas. Notava-se diferença entre o ilheiro, independente em suas roças e bananais, e o seringueiro, vergado ao encarceramento das matas. (88)

Seguindo essa perspectiva de restabelecimento, o sítio de Fábio também atinge uma prosperidade, atestando que “[...] havia tranqüilidade na pobreza, a fartura na relatividade, a comprovação da vida no interior verde, afastando o tabu da vida unicamente apegada ao extrativismo [...]”.(89)  As ações de Fábio na administração de sua propriedade comprovam ainda um planejamento racional, à medida que não somente busca outras alternativas econômicas, além da monocultura, mas também se previne de surpresas que possam ser causadas pelos acidentes naturais próprios da estrutura geológica da região, plantando cacauais em restingas altas, longe, portanto, das margens afetadas pelo fenômeno das terras caídas.
Redenção é a palavra que resume o desfecho do romance, haja vista que a sociedade ressurgida após a crise está galvanizada pelo sofrimento. É também uma sociedade com a marca da hibridação, um Amazonas “cearensizado” cujo casal representativo é Fábio e sua esposa.
Beiradão é um romance que abrange integralmente o ciclo econômico da borracha, da fase áurea à derrocada. Como as demais ficções do ciclo, aponta a ilusão dos seringueiros com o processo de extração do látex, que os leva muitas vezes a consumir a vida nas estradas de corte e depois dissipar o saldo que por ventura tirem com gastos fúteis na cidade, deixando escapar a possibilidade de retornarem a sua terra; o endividamento inevitável com as despesas de viagem, instrumentos de trabalho e alimentação, comprometendo a possibilidade de saldo no primeiro ano de produção; a dura realidade dos centros, onde encontram a morte pelas febres; a disputa pelo sexo feminino; o bloqueio tropical, expressão utilizada pelo narrador para caracterizar a impossibilidade de fuga dos seringais, seja pelas barreiras impostas pelo ambiente, seja pelo consórcio dos patrões que se irmanavam na perseguição e captura dos foragidos com o apoio das autoridades locais; e, conseqüente ao poder conjugado dos seringalistas, o desamparo e a submissão do seringueiro que “[...] sente medo de autoridade. Olha-a, como quem olha uma fera, abestalhado e sem arma [...].” (90) Com isto, no romance, confirma-se o mando indiscutível dos patrões”, especialmente aqueles que se estabeleceram nos rios Jamari, Machado e afluentes do rio Madeira. A luta dos exploradores contra os índios é, por fim, outro aspecto reiterado em Beiradão.
Entretanto, ao mesmo tempo em que o romance aborda os aspectos convencionais em torno do ciclo, renova algumas das suas tradicionais abordagens literárias. Assim sendo, uma das principais inovações apresentadas é o rompimento do anátema que recai sobre o seringalista. A personagem Fábio sintetiza esse rompimento. Comparando-a com modelos de seringalistas rudes, sem visão e tacanhos, criados em outras obras, é possível perceber o quanto diferem. Divergindo mesmo do tipo de explorador que caracterizou o ciclo, Fábio não almeja tão somente obter lucro da terra, mas ocupá-la, implantando uma forma de economia duradoura, numa palavra, seu objetivo é criar raízes. 
A formação que irá possibilitar o perfil diferenciado à personagem Fábio é também oposta à das demais personagens de seringalistas. Antes de se tornar um imigrante banido pela seca, foi seminarista o que lhe possibilitou se instruir: “Fábio deixara o internato em tempos rigorosos de catecismo e latim. Lia os seus clássicos, abeberava-se em História e Filosofia [...].”(91)
Mais do que um bom seringalista, a personagem Fábio encarna o pioneiro que se tornou proprietário, mantendo uma posição arrazoada sobre a exploração da terra, trabalhando não apenas para extrair benefícios num momento presente, mas fazendo uma previsão para os dias futuros, da qual proprietários apoiados na monocultura chegam a fazer pouco caso: “[...] Fábio esquematizou a sua resistência contra o temporal que se aproximava, - plantações de café, cacau, árvores frutíferas e roças, criação de gado, suínos e galinhas. Alguns, julgando-se mais atilados, gracejavam dessas atividades sertanejas – seria melhor enveredar pelo Machado, arrendar seringais e voltar rico [...].(92) 
Fábio também possui a faceta de abnegado, enfatizada por sua postura de estar preocupado em dar ganho aos outros ao invés de ganhar, de não saber cobrar nem valorizar os seus próprios esforços. O idealismo que manifesta, por sua vez, é efusivamente otimista como quando fala aos seus seringueiros, pedindo-lhes paciência nos momentos de crise: - Devem ter calma e esperança. Daqui a 50 anos, tudo mudará. Preparam esse tempo para nossos filhos, que terão liberdade, assistência médica, escolas.”(93)  Essa percepção da personagem harmoniza-se com o pensamento político de Álvaro Maia, o que pode ser observado já através do discurso intitulado Canção de fé e esperança”, proferido em 1923, ensejado pela data comemorativa do centenário da adesão do Amazonas à Independência Nacional, ocorrida em 1823. Referindo-se ao amor que devota ao Estado, declara:

[...] É esse amor que nos faz prever o Amazonas de dois mil e vinte e três, como uma pátria em que milhares de homens, unidos pelo mesmo afeto, celebram uma nova era, sustentando, por seu poder financeiro, uma potência econômica formidável, cujas cariátides serão as fábricas plantadas nos campos, os armazéns com incalculáveis valores, as cidades debruçadas à margem dos rios nervosos e barrentos. As estradas de ferro comunicarão os afluentes entre si  e porão em contato os reservatórios de riquezas, que se prolongam do Rio Branco aos campos-gerais do Madeira [...] (94)

As críticas que Álvaro Maia empreende no mesmo discurso à falta de um trabalho efetivo de cultivo da terra são assinaladas também pelo narrador do romance ao destacar uma “[...] terra em que não se plantava, não se criava, importando-se sempre e destruindo as reservas naturais.”(95)  Outros pontos de confluência que também podemos notar é a exaltação do nordestino, o “nobre bandeirante do nordeste”, apontado como herói do desbravamento, e a denúncia do descaso governamental em relação ao Estado. Tanto a crítica quanto a exaltação presentes no discurso justificam plenamente a arquitetura de uma personagem como Fábio, um nordestino que demonstra amor à terra para a qual se transplantou, que constrói e administra sua propriedade com base na racionalidade, que ao invés de inimigo se transforma num parceiro daqueles que para ele trabalham. A idéia da cooperação entre patrões e empregados que podemos depreender da postura de Fábio, patrão que se solidariza com seus trabalhadores, está em afinação com a política trabalhista do Estado Novo que, como lembra Santos, postulava “a ausência dos conflitos entre patrões e trabalhadores [...].”(96)
Figurando sempre como oponente, o seringalista não teve na ficção do ciclo o status de protagonista. A nomeação de protagonista em relação à personagem Fábio deve ser estabelecida a partir de algumas considerações. Ela pode ser tomada como uma figura central por ter destaque em relação às demais personagens, especialmente no que diz respeito à história principal, sendo Beiradão uma narrativa que se divide em muitas histórias paralelas. No que diz respeito ao herói como um ser problemático que enfrenta adversidades e busca entender-se no mundo ou numa sociedade de que faz parte, Fábio representa uma categoria e não um ser individualizado, pois não enfrenta situações que o ponham em choque com forças opostas as suas e não ostenta maiores transformações de sua personalidade. Sendo assim, não tem oponentes mas contrapontos como Segadais e Padre Silveira, personagens com posturas diferentes da sua, mas com as quais não entra em conflito. Mesmo em relação aos seringalistas de papel oposto ao seu, não se cria um antagonismo, uma vez que admira sua função de desbravadores. Em síntese, Fábio é um modelo ideal de seringalista em contraponto a um modelo errôneo. Desde o princípio do romance, sua personalidade já está traçada para atender a esse modelo. 
A criação de Fábio como um modelo ideal de seringalista não leva a uma tendência generalizada da bonomia de todos os seringalistas apresentados no romance. O autor não assume uma defesa intransigente do seringalista, propõe uma faceta alternativa para o patrão dos seringais.
A indicação dada no romance de que o seringalista rude, sem visão e planejamento, é responsável pelo fracasso do ciclo econômico, torna claro o papel alternativo desempenhado por Fábio e está exemplificada na personagem do coronel Moreira endividando-se e não prevendo a crise ou em Valério Liras, 

[...] exportador de toneladas de borracha e centenas de hectolitros de castanha, sem uma escola, uma assistência médica, sem educar um filho de seringueiro. Viagens, luxo, larguezas, mesa com vinhos, e nada para os pobres. Somente sol, frio, nudez, barraca escura. Lendo pouco, tivera coragem, faro canino para negócios e pouco ligava à defesa da terra. Não incentivava roçados, agricultura, porque lhe prejudicava os lucros nas compras de farinha do Pará. Dava-lhe o dinheiro influência política, e as autoridades locais se curvavam aos seus arrotos de mandão. (97)

O seringalista cruel não desaparece no romance e o seu perfil vingativo e por vezes sádico é ressaltado em tipos como Arsênico, que queima vivo o seringueiro causador de prejuízo, ou de caciques políticos como o coronel Moreira, capaz de pôr em prática vingança sumária contra os seus desafetos. Na posição posta no romance sobre o seringalista, há distinção entre o mau e o bom, evitando  generalização, conforme se nota neste diálogo entre Fábio e Padre Silveira, em que o primeiro busca um consenso e o segundo não acredita numa recompensa à postura justa do explorador:

- Quer dizer que você estabelece diferenças entre eles?
- Sim, como em todos os períodos de conquista. Bons e maus latifundiários, bons e maus pioneiros e seringueiros. Os pioneiros das selvas, vamos dizer assim, impunham a sua vontade com um 44 à ilharga. Se fraquejassem, estariam mortos. Rezavam a Deus e levavam o demônio por dentro. Sorriam uns para os outros, pensando que tinham uma quicé à ilharga. Também se arrojavam às cachoeiras para salvar um trabalhador, expondo a própria vida.(98) 

Conquanto o romance esteja voltado para a temática do ciclo, notamos uma descentralização dos tópicos tornados exclusivos em outras obras. O mapeamento detalhado do dia-a-dia do seringal, com suas situações peculiares, sofre um desvio que favorece um leque maior de sub-temas da vida interiorana. As relações políticas figuram como um desses acréscimos, fornecendo uma visão às vezes irônica como a dos eleitores famintos, do período da crise, que prometem votos a candidatos adversários a fim de melhor lucrarem com o banquete oferecido em virtude da eleição:

- Dizem que vai haver carne na eleição de outubro. Vem um homem oferecer boi e vinho pra votar no doutor de Manaus, que fala bonito. Mas o coronel tem espia. A gente não diz nada, vota no coronel, que é de casa e come a carne dos dois lados.(99) 

As críticas que o autor faz no romance em relação ao governo são fruto de sua atividade política. Mesmo sendo um político conservador,  ligado ao Estado Novo, Álvaro Maia não contém o tom de denúncia, apontando o descaso e a falta de assistência governamental. É preciso destacar, no entanto, que o romance foi escrito em 1958, no período em que esteve desligado dos cargos públicos, retirado em sua residência no seringal “Goiabal” e que como político enfrentou denúncias em relação ao recrutamento e assistência aos nordestinos na campanha da batalha da borracha, realizada durante sua interventoria, sob os desígnios da política do Estado Novo. O episódio é comentado por Santos:

Após 1946, proliferaram as críticas dos adversários de Álvaro Maia, no Diário da Tarde, formuladas contra a “batalha da borracha” e a desorganização da imigração de nordestinos para os seringais. Nesse empreendimento, a interventoria de Álvaro Maia consumiu enormes esforços, o que acarretou um desgaste político ao Partido Social Democrático e seus líderes. O esquema institucional montado durante o Estado Novo para implementar a “batalha da borracha”, recebeu denúncias na imprensa local e nacional em decorrência de sua improvisação, carência organizacional e desordem administrativa.(100) 

A utilização de motivos à margem dos tópicos abordados na ficção da borracha, empreendida por Álvaro Maia em Beiradão, também se origina do viés político. As narrativas colhidas nos repertórios nordestino e caboclo, propiciadoras do conjunto de histórias paralelas ao enredo principal do romance, e que, nas palavras de André Araújo, dão a conhecer a “[...] gleba, a estrada, a dietética, os hábitos, o lendário, o místico, a vida social, a criminologia, as revoltas, as fugas de dentro das florestas, a fé, o amor, as técnicas, o trabalho, a medicina caseira, o caçador, o regatão, o banditismo, a politicagem [...]”, (101)   configuram o enfoque que o autor dá aos textos produzidos durante o afastamento da política e que já estava caracterizado em seus discursos, artigos e conferências publicados na década de 1920, os quais tinham ressonância no movimento denominado glebarismo, através do qual eram defendidas idéias regionalistas. (102)
Desse modo, Álvaro Maia apresenta-se, desde o início de sua carreira política e de sua atividade no magistério, como um defensor da glória dos heróis do passado, o que se constata em sua conferência “Pela glória de Ajuricaba” na qual eleva essa personagem histórica a símbolo do Amazonas. No artigo intitulado “O elogio do caboclo”, Maia procura, por sua vez, desmistificar o perfil negativo em relação a esse ser, acusado de indolência e covardia, e o aponta como o guia ideal dos pioneiros e desbravadores, estes também alçados à categoria de heróis:

Esses homens rudes, que sentem no espírito a adustão de seus sertões e a agitação de seus males, transmudam-se em valentes, ao contato sarcástico dos caboclos, desvendam o labirinto de nossas terras e, no momento preciso, se metamorfoseiam em soldados para morrer ou vencer, cantando pelo orgulho de sua pátria. Velos-eis, em Porto-Acre, pelejadores em nome do Amazonas e do Brasil, contra um exército, bater uma nação: velos-eis enfrentar, em fronteiras indefesas, invasores imprudentes; velos-eis no Rio Branco e no Madeira, no Javari e no Negro, como sentinelas, conservando no coração o culto da terra e da gente [...] (103)

Além do enfoque no elemento humano que, a exemplo dos textos mencionados,  também se dá em Beiradão, o romance apresenta uma percepção do ambiente amazônico distinta daquela das obras da primeira fase do ciclo ficcional. Ainda que Beiradão evoque o determinismo do meio em personagens como Padre Silveira, o qual tem o comportamento alterado pelo ambiente amazônico, levando-o à concupiscência, a natureza não é retratada pelo estigma do “infernismo” que caracterizou, segundo Mário Ypiranga Monteiro, a produção ficcional em torno do “ciclo da borracha”. Importa mencionar que Álvaro Maia reprovou, em carta aberta ao presidente Washington Luís sob o título “Em Nome dos Amazônidas”, a denominação inferno verde”, estampada no livro de Alberto Rangel e propôs, ao invés, a expressão “Paraíso verde”.
Os desequilíbrios no ambiente expressos em Beiradão são dados como resultado do processo de desbravamento tal se pode notar por esta passagem do romance:

Redimiam-se os seringalistas da triste fama de criminosos, explicável pela violência dos pioneiros, na arrancada para vencer o índio e dominar o desconhecido, uma pequena parte desse desconhecido [...] A conquista prosseguia em capítulos verídicos, inscrevendo os nomes daqueles homens audazes entre os que empurraram o Amazonas para a frente, espalhando barracas e caminhos, cadáveres e heroísmos nos meridianos coloniais [...] (104)

A justificativa apresentada no romance de que a violência e a espoliação são conseqüências de uma “sociedade em formação” afina-se com a concepção do historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, para quem esses mesmos fatores são resultados naturais de um processo de colonização ou de um “meio-sociedade em formação”. A redenção é também destacada pelo historiador: “[...] Os anos de rigor, da fase  de decadência dos seringais, ferindo seringalistas, aviadores e seringueiros, tiraram-lhes muito daquele sentimento de voracidade, de apetite insofrido que os levou àqueles excessos por demais lamentáveis. (105)
Nesse diapasão, os “pecadilhos” de Padre Silveira são postos como perdoáveis porque ele realiza a tarefa pioneira de oferecer assistência religiosa aos interioranos. Padre Silveira e Fábio são dois exemplos de que a carreira sacerdotal sofre um abalo numa natureza virgem, o primeiro, tendo chegado ordenado ao Amazonas, exerce o sacerdócio pela metade e o segundo, ao se deparar novamente com o seminário na volta ao Ceará, perde a vocação em virtude da estada nos bamburrais amazônicos.
A natureza em Beiradão seduz e deixa na alma do pioneiro uma marca indelével: “[...] Estas margens, estes aguaceiros, estes sofrimentos gravam-se na gente para sempre e cozinham os dias em saudade permanente.” (106) No romance, a atração exercida pelo meio ocorre de forma extensiva, atingindo o arrivista e o abnegado.
O que motivou a diversificação na abordagem de Beiradão quanto ao papel do seringalista foi menos um diálogo com os ficcionistas da borracha do que uma proposta política de alternativa econômica para a região. Durante a década de 1930, quando governava em sua primeira interventoria, Álvaro Maia já pedia providências ao governo federal para minimizar a crise e sugeria o amparo à lavoura, através da divisão de terras pertencentes ao Estado entre pequenos proprietários, como forma de conter o êxodo rural ocorrido com a desvalorização da borracha. Por outro lado, Santos observa que, como interventor, Maia não abandona a idéia da valorização da borracha e que tanto essa valorização quanto o apelo à implantação de um meio econômico alternativo atendiam aos interesses das classes conservadoras amazonenses e das populações interioranas.(107)  A cooperação entre o proprietário e o extrator, a necessidade de fixação do homem à terra que marcam o procedimento da personagem Fábio, em Beiradão, faziam parte do programa populista desenvolvido por Vargas e igualmente assumido por Álvaro Maia. 
Vemos que a percepção do escritor no romance pouco diverge dos postulados políticos que defendeu toda a vida, que podem ser mapeados em seus artigos, discursos e conferências, mesmo tendo o romance sido escrito durante a fase de afastamento da política.
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62)  Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia,  p. 22-3.
63)  A estréia de Álvaro Maia no mundo das letras se deu em 1904, aos onze anos, quando foi publicado num jornal infantil o poema “Cabelos negros”, de sua autoria. Em 1925, foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses no concurso promovido pela revista Redenção. Tendo tido seus textos poéticos publicados em jornais, só veio a reuni-los em livro em 1958, sob o título Buzina dos paranás. Durante as décadas de 1950 e 1960, publica os livros contendo narrativas e o romance Beiradão. O autor colaborou com a fundação da Sociedade Amazonense de Letras, posteriormente denominada Academia Amazonense de Letras.
64)  Em Gente dos seringais, Álvaro Maia esclarece que as narrativas que compõem o livro se passam na região do Médio Madeira na confrontação com os rios Maici, Machado e Jamari, à margem direita, e com os rios menores como o Puruzinho e o Mucuim, à margem esquerda. Depreende-se nas demais obras a mesma localização.
65)  Álvaro MAIA. Introdução, In: Gente dos seringais, p. 14.
66)  Ibid.,  p. 15.
67)  Jean-Paul SARTRE, O que é literatura?, p. 104.
68)  Jean-Paul SARTRE, O que é literatura?, p.105.
69)  Walter BENJAMIN, O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In:Walter BENJAMIN, Magia e técnica, arte e política (ensaios sobre literatura e história da cultura), p. 201.
70)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 23.
71)  Ibid., p. 161.
72)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 28-29.
73)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 90.
74)  Ibid., p. 72.
75)  Neide GONDIM. Dos bamburrais aos beiradões. In: Álvaro MAIA,  Beiradão, p. 19
76)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 174.
77)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 160.
78)  Ibid., p. 171.
79)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 178-9.
80)  Ibid., p. 181.
81)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 223.
82)  Ibid., p. 266.
83)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 266.
84)  Ibid., p. 288.
85)  Ibid., p. 293.
86)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 291-2.
87)  Ibid., p. 304-5.
88)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 344.
89)  Ibid., p. 364.
90)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 152.
91)  Ibid., p. 180. 
92)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 200.
93  Ibid., Beiradão, p. 199.
94)  Álvaro MAIA, Canção de fé e esperança. In: Revista UBE-Amazonas (Álvaro Maia – Poliantéia), p. 150.
95)  Idem, Beiradão, p. 193.
96)  Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 114.
97)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 329.
98)  Ibid., p. 330. 
99)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 337.
100)  Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 130.
101)  André ARAÚJO, Traços de uma sociologia na obra de Álvaro Maia. In: Revista da UBE–Amazonas (Álvaro Maia – Poliantéia),  p. 69.
102)  A esse respeito, Eloína Monteiro dos Santos destaca: “[...] As idéias regionalistas defendidas pelo glebarismo nesse momento articulam-se com aquelas peculiares às do Partido Revisionista [...]” (Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 40). 
103)  Álvaro MAIA, “Canção de fé e esperança”. In: Revista da UBE-Amazonas  (Álvaro Maia – Polianteia), p. 153.
104)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 369.
105)  Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro,  p. 178.
106)  Álvaro MAIA, Beiradão, p. 148. 
107)  Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia, p. 87-90.

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