Beiradão:
a percepção de um escritor nativo sobre o ciclo
ÁLVARO MAIA
A prerrogativa
de escrever sobre o “ciclo
da borracha”
tendo sido testemunha ou partícipe
do processo dá-se com alguns escritores. Entre eles, incluem-se
Ferreira de Castro, Humberto de Campos, Alberto Rangel, Carlos de Vasconcelos
e Álvaro Maia. As experiências de Ferreira de Castro e Humberto
de Campos os situam no barracão, executando as tarefas do dia-a-dia
que ali se faziam necessárias. O primeiro fazia pequenos serviços
não tendo, segundo Jaime Brasil, trabalhado na estrada de corte
por ser ainda muito jovem. O segundo foi gerente de seringal. Quanto a
Alberto Rangel e Carlos de Vasconcelos, executaram como engenheiros serviços
de demarcação de terras, o que lhes possibilitou também
um contato com os seringais.
A particularidade
que cabe a Álvaro Maia é ter conhecido o mundo do seringal
não como alguém que vem de fora, mas que nasceu nele. O cenário
de seu nascimento é o sítio- seringal Goiabal, localizado
à margem esquerda do rio Madeira, no município de Humaitá.
Seu pai foi um imigrante da região cearense do Crato, descendente
de família próspera que, como outros, veio para a Amazônia,
seduzido pela possibilidade de ganhar dinheiro com a borracha, e a mãe,
uma amazonense, herdeira de proprietário de seringais no rio Madeira,
que estudou em internato religioso. Em sua obra Beiradão, esses
traços da família são reproduzidos através
das personagens Fábio e sua esposa. Maia fez os primeiros estudos
com a mãe, que o alfabetizou, e depois, seguindo um roteiro comum
à condição de filho de seringalista, completou os
estudos fora do Amazonas. Primeiramente, em Fortaleza e depois no Rio de
Janeiro onde se bacharelou em Direito na Faculdade Livre de Ciências
Jurídicas e Sociais.
Conforme ressalta
Santos(62) Álvaro Maia veio a tornar-se uma liderança
política estadual, quando regressou dos estudos, por fazer parte
ou ser oriundo de um grupo dominante local que lhe possibilitou primeiramente
ocupar cargos públicos como redator da Assembléia Legislativa,
auditor da Força Policial do Estado do Amazonas, Secretário
da Superintendência do Território Federal do Guaporé,
Secretário da Comissão de Propaganda e Organização
do Centenário da Independência, Secretário da Municipalidade
de Manaus, Diretor da Imprensa Pública.
Contando com
apoio de setores tradicionais da economia local, ligados ao comércio
e ao extrativismo, Álvaro Maia é nomeado por Getúlio
Vargas interventor federal do Amazonas em 1930, sob a indicação
de Juarez Távora, delegado federal do Norte. Essa interventoria
foi exercida apenas até 1931, quando Maia foi exonerado por Vargas
em virtude de ter dissolvido o Tribunal de Justiça do Amazonas,
causando descontentamento entre a classe dos juízes, que recorreram
a Vargas. Maia retorna ao poder em 1934, elegendo-se indiretamente governador
constitucional do Estado do Amazonas. Graças à formação
de um secretariado constituído por parentes e cooptados políticos,
mantém-se no cargo. Em virtude do golpe político do Estado
Novo, em 1937, torna-se interventor federal e governa até a queda
de Vargas, em 1945. Em 1946, é eleito senador constituinte. Por
intermédio de eleições diretas, volta ao governo do
Amazonas em 1951 e, em 1954, é derrotado em nova campanha política.
Só consegue retornar ao cenário político em 1966,
elegendo-se senador pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA).
O elo com o
seringal e a carreira política marcam a obra do escritor Álvaro
Maia, sendo que o ambiente do seringal dá-lhe o conteúdo
e a política o delineamento ideológico. É o escritor
amazonense que mais se voltou para os motivos ensejados pela vida no seringal
e os motivos correlatos a ela. A maioria da produção abordando
o seringal foi publicada a partir dos anos 1950, durante o retorno à
literatura após as derrotas políticas. (63) Em 1956, é
editado Gente dos seringais; em 1958, Beiradão e Buzina dos Paranás;
em 1963, Banco de Canoa; em 1966, Defumadores e Porongas. Buzina dos Paranás
destaca-se nessa série de narrativas por ser um livro de poemas,
mas os motivos do seringal trabalhados nos outros livros não estão
ausentes, uma vez que o autor dedica também poemas à seringueira
e a assuntos abordados nas demais obras, como, por exemplo, a figura da
parintitin Narcisa, mãe de leite índia, ou aos aviões “Catalinas”
que transportavam passageiros e cargas e levavam auxílio
médico aos seringueiros.
Existe uma
continuidade nos assuntos abordados em Beiradão e nas demais obras.
Uma vez que sua publicação é anterior à maioria
delas, entendemos que o autor pretendeu desdobrar o seu conteúdo
através dos outros livros. Aproveitando um título que o escritor
dá à quarta parte do livro Banco de canoa, podemos dizer
que as narrativas contidas em Beiradão e nas outras obras
são “histórias
que se repetem.”
Contendo crônicas
sobre acontecimentos e pessoas ligadas ao desbravamento de regiões
às margens dos rios amazônicos(64) e histórias
prosaicas sobre situações da vida interiorana e dos seringais,
as figuras que aparecem nas narrativas são quase sempre as mesmas:
pobres, figurões poderosos, religiosos. A vida no interior é
registrada através de manobras políticas, apadrinhamento,
vinganças passionais, disputa e abuso de poder. O autor também
procura captar aspectos culturais como crenças, seres lendários.
Há nas histórias abordando as relações políticas
interioranas a preponderância da noção de que a não
aderência a um grupo político pode resultar em perseguições
e enxovalhamentos. Já as histórias envolvendo religiosos
geralmente abordam sua castidade, honestidade ou desonestidade.
A identificação
entre Beiradão e as demais obras dá-se também por
intermédio de personagens comuns. Fabrício, velho Unias são
os contadores de histórias; velha Romana, Zé dos Espíritos,
os curandeiros; Narcisa, a ama de leite índia. Personagens como
Fábio, Segadais e padre Silveira constituem uma síntese de
personagens de outras obras à medida que representam respectivamente
o bom pioneiro, o arrivista e o missionário.
Álvaro
Maia atribui uma autoria coletiva às narrativas contidas em obras
como Gente dos seringais, Beiradão, Banco de canoa e Defumadores
e porongas. Em Gente dos seringais, informa que reduziu narrativas ouvidas
de seringueiros e hinterlandinos a textos escritos que pudessem ser compreendidos
pelos próprios narradores. Para tanto, amoldou-as à “[...]
tessitura ductil dos narradores, fugindo, quando possível, ao ‘latim
do padre e do advogado’[...].”(65)
Entretanto, declara ter modificado o “colorido
das tragédias
passionais”
que pudessem se apresentar como obscenas. Eximindo-se da autoria, considera-se
um “mero
compilador”. Nas demais obras, repetem-se as mesmas justificativas
no sentido de atribuir as narrativas à imaginação
popular. A veracidade das obras é outro ponto sempre destacado.
A intenção
do autor de atribuir a autoria das narrativas a uma coletividade explicita
uma preocupação de não se colocar como criador de
acontecimentos que, segundo sua percepção, devem-se ao barbarismo
do início do processo de desbravamento:
Certas narrações
prendem-se aos tormentos sexuais nas selvas, quando povoadas exclusivamente
por homens, sem refrigeração de mulheres. Surgiram tremendas
crises, - raptos e crimes sangrentos, assunto exaurido pelos estudiosos.
Evoquei alguns instantes de intenso realismo, revivescendo, em tintas escassas,
e sem colorido descritivo, os dramas e os imprevistos patológicos,
raros após a incipiente formação geo-social dêstes
últimos tempos, na hiléia fragmentada pelas ânsias
de estruturação. (66)
O autor, dessa
forma, demonstra uma consciência do impacto do conteúdo da
obra e, por isso, torna-se um mediador entre sua produção
e o público. Conforme observa Sartre, a mediação reflexiva
do autor remonta ao fim da Idade Média e se acentua no romance burguês
do século XIX. Anteriormente, o autor limitava-se ao ato de narrar
e não procedia uma reflexão sobre a sua função
de autor, “[...]
os temas de
seus relatos eram quase todos de origem folclórica, ou ao menos
coletiva, e ele se limitava a utilizá-los [...].(67) Ainda
que Maia ponha-se como um mero compilador da imaginação popular,
é possível identificar em suas narrativas uma ponderação
de autor instruído sobre o conteúdo de cunho não culto
que afirma compilar. A inserção de suas convicções
políticas em muitas dessas narrativas atesta que procedeu um trabalho
de elaboração consciente.
Sartre aponta
o momento em que o conteúdo da narrativa, suas palavras, era tido
como as próprias coisas que designava como de um “realismo
objetivo e metafísico”
e o distingue do “idealismo
literário”
em que a substância
do relato é a subjetividade do autor. Neste último, “[...]
a história que se oferece ao público tem como característica
principal o fato de já estar pensada, isto é, classificada,
ordenada, podada, esclarecida [...].(68)
Beiradão
realiza-se intermediariamente entre a feição do romance burguês
e a narrativa. A distinção entre essas categorias é
posta por Walter Benjamin ao apontar a procedência da narrativa da
tradição oral ou da experiência relatada por terceiros
e a limitação do romance ao indivíduo isolado. (69)
Destacamos
que Álvaro Maia atribui a origem das narrativas aos seringueiros
e moradores das margens dos rios, colocando-se como o compilador que reduziu
a textos escritos esse repertório de histórias transmitidas
oralmente. Beiradão apresenta uma quantidade expressiva de pequenas
histórias cujos assuntos muitas vezes não se limitam aos
tópicos correntes sobre o seringal. Nelas, o fabulário nordestino
soma-se ao caboclo. Os assuntos inerentes ao dia-a-dia do seringal se tornam
menos exclusivos, o que não impede que o romance realize uma visão
sobre o “ciclo
da borracha”.
A unidade que
dá ao mosaico de narrativas uma constituição de romance
é estabelecida pelo protagonista Fábio e sua trajetória
de retirante a seringalista. Ao mesmo tempo que possui uma história
independente, Fábio também é o elo de condução
das narrativas paralelas, exercendo o papel de um ouvinte.
Beiradão
é organizado em três partes: Bamburral, Serras e Centros e
Beiradão. Segundo o autor, em nota preambular, o beiradão
caracteriza “[...]
a margem dos
rios principais, onde se fixaram os primeiros desbravadores e permaneceram
os seus descendentes”.
(70) O bamburral
é descrito no decorrer do romance através de uma analogia: “A
sociedade em formação
imitava aqueles bamburrais. Na aparência, era serena, como uma orquestração
de sanhaços, mas, por outro lado, oscilavam em ousadias e ambições.
(71) Essa divisão espacial do romance remete a uma divisão
temporal do ciclo, tendo em vista que a primeira parte trata do início
do desbravamento através da chegada de pioneiros, entre eles, as
personagens de Fábio, Segadais e Padre Silveira. Serras e Centros
representa o período intermediário, abordando o auge e o
princípio do declínio do ciclo. Enquanto, na primeira parte,
o protagonista Fábio deixa o Amazonas após ter acumulado
algum dinheiro, trabalhando como recenseador para um coronel seringalista
e volta ao Ceará, esse momento do romance marca o seu retorno e
estabelecimento definitivo no Amazonas, tornando-se pequeno proprietário
de seringal. O romance demonstra que, por ser pequeno proprietário
e investir em meios alternativos como a agricultura e a pequena criação,
Fábio resiste e não se arruína totalmente com a crise.
A terceira
parte do livro apresenta o mundo do seringal pós-crise. O bamburral
e o beiradão especificam ainda a índole dos desbravadores.
Aqueles que se alocaram nos bamburrais exploraram a terra sem com ela criar
vínculos, já aqueles que se instalaram nos beiradões
tornaram-se os elementos que se fixaram na terra e nela permaneceram mesmo
quando se desencadeou a crise.
Apesar de a
fundamentação do romance estar calcada na figura de Fábio
e de sua atuação dentro do que representa o ciclo, o enredo
se inicia com a personagem Segadais. Estudante de direito, mais interessado
em ganhar dinheiro do que em seguir o rumo traçado pelo professor
de “levar
justiça
às massas desamparadas”,
Segadais se ajusta aos procedimentos ditados pelos
poderosos coronéis de barranco, consciente de que dessa atitude
depende o êxito de sua carreira:
Nas sedes
municipais, o profissional tinha de reagir à politicagem, filiando-se,
sem entusiasmo, às hostes do governo, representadas pelo coronel
barranqueiro, cuja autoridade pairava acima do superintendente.
Segadais
resistiu, mas teve, ante a inutilidade dos esforços, de babujar
no cocho, onde babujavam o médico, o dentista e o vigário
[...]
Diabo! Não
viera tomar banhos salgados nos altos rios do inferno e sim arranjar dinheiro,
supremo sonho do bacharel pobre no pouco movimentado foro local. (72)
Segadais é
o emblema de profissionais (engenheiros, advogados, médicos) que,
recém-formados, vêm tentar carreira fora dos grandes centros
e findam por ter de se submeter ao jugo do poder local, mas, como seringueiros,
comerciantes, almejam acumular riqueza. Não tendo o destino atado
à escravidão do seringal, valem-se do oportunismo, casando-se
com a filha de algum potentado ou partem, como Segadais, para outras alternativas, “[...]
enganando bolivianos,
transpondo cachoeiras nas jangadas, imaginando diversões para os
seringueiros, centralizando-os em torno às ladainhas.”
(73) Fica,
assim, caracterizada essa personagem como o arrivista. Move-o o desejo
de ganhar dinheiro e não o espírito de estabilidade. Mas,
conforme é demonstrado nas obras de Álvaro Maia através
de outras personagens, Segadais também é afetado pelo “banzo
da floresta”.
No romance, essa situação
é descrita como um estado em que aqueles que retornavam as suas
terras
[...] enfermavam
da alma. Ouviam o murmúrio das selvas brutas, o bater do vento nas
praias onduladas, em cujos baixios os peixes se empilhavam aos cardumes,
as chuvas sem-fim [...] A mesma nostalgia do marujo que não se acostuma
à terra firme, e do catequista, que retorna às malocas ameaçado
de ser morto pelos índios. (74)
Paralelamente
ao perfil aventureiro de Segadais, está a persongagem Padre Silveira,
representando a presença religiosa no processo de desbravamento
desencadeado pela extração da borracha. Gondim destaca que
as figuras do aventureiro, do missionário e do abnegado são
comuns ao processo de conquista da Amazônia. (75) Padre Silveira,
por seu turno, acumula o papel duplo do missionário e do aventureiro
no sentido de que motiva-o o mesmo senso de oportunismo de Segadais, levando-o
a aproveitar-se do sacerdócio para amealhar recursos em proveito
próprio. A principal causa que se apresenta no romance para os desvios
do padre, que flerta com as mulheres casadas e aproveita-se da boa fé
dos seringueiros e da população interiorana, são os
efeitos do meio, os quais o levam a agir de maneira diferenciada:
[...] Fábio
sustentava que a honestidade, até nos sacerdotes, depende do ambiente.
Fácil a comparação: Padre Silveira, como vigário
na serra, espalhando confissões em seu cavalo choutador, bebendo
copos de leite mugido, e Padre Silveira nos seringais, comendo tambaquis
com pimenta, sentado em rede macia de Zefa Mixira, enquanto o pescador
estava no lago e os curumins na roça. Não há dúvidas:
a honestidade depende também do ambiente. (76)
Nos trabalhos
de desobriga pelo Amazonas, instalando o altar portátil onde for
conveniente para batizar pagãos, dizer missa, sacramentar uniões,
Padre Silveira demonstra seriedade, usando a batina e a coroa. Findas as
obrigações do sacerdócio, trata de comercializar clandestinamente
com os regatões a borracha e os demais produtos recebidos em doação
pelos fiéis. O lucro sobrepõe-se aos escrúpulos sacerdotais;
quando estão em jogo os seus ganhos, os pecados dos fiéis
diminuem de importância. A sua noção de pecado distingue
os de menor e maior gravidade, esses últimos os verdadeiros. Entre
os pecados verdadeiros, está o adultério que ele próprio
ajuda as mulheres a praticarem. Não teme, porém, confessá-lo
ao Monsenhor, confiante na justificativa de que o ambiente é o responsável
pelos excessos.
Tanto Padre
Silveira quanto Segadais opõem-se à personagem Fábio
Moura. Essas três personagens recebem um tratamento individualizado
no romance, que é entrecortado por episódios em que surgem
dezenas de personagens em casos diretamente relacionados ao seringal ou
à vida interiorana. A história principal do romance é
protagonizada por Fábio e refere-se desde a sua migração
até o período pós-crise que enfrenta como seringalista.
No que diz
respeito à história principal vivida pela personagem Fábio,
o enredo do romance não segue uma ordenação rigorosamente
linear. O início da narrativa apresenta Fábio inserido no
trabalho de recenseamento e fiscalização dos seringais do
coronel Francisco Moreira, viajando a bordo de batelões ao longo
dos rios. A partir da seção “D”
desta primeira parte, a narrativa presente
é interrompida e conta-se a história pregressa de Fábio.
No Crato, sua carreira de seminarista determinada pelo pai é interrompida
em virtude da rigorosa seca do fim do século XIX. Ele tem, então,
dezoito anos. Após esses esclarecimentos sobre sua origem, aspectos
culturais de seu ambiente familiar e sobre sua decisão de abandonar
o Ceará, a narrativa torna ao curso presente. Mais adiante, ainda
na segunda parte do romance, colhe-se uma sumarização do
roteiro de vida seguido por Fábio depois de abandonar o seminário
e partir de sua terra:
Fábio
Moura coletava observações curiosas, que lhe feriam a vida
acidentada de vinte e dois anos. Viera de longe, cortara os primórdios
da educação seminária, palmeara caminhos sertanejos,
com aglomerações amontoadas de retirantes, hospedarias de
Fortaleza e Belém, cabeças-de-porco de Manaus, viagens em
cargueiros do Lóide, nos gaiolas, motores, batelões, canoas
e ubás. Campos, terra firme, alagações, águas
cristalinas das chuvas, águas escuras do Machado e dos igarapés,
águas dos igapós e charcos, águas do Madeira. (77)
Ao fim da segunda
parte do romance, Fábio viaja de retorno ao Ceará, tendo
acumulado uma considerável experiência nos bamburrais através
do trabalho de recenseamento. Conhecera a realidade muitas vezes grotesca
dos centros onde famílias morriam à míngua atacadas
pelas febres, permanecendo os corpos abandonados nas barracas para banquete
das varejeiras, mucuras e urubus; acompanhara a saga de pioneiros no desbravamento
das áreas inóspitas e admirava os que se tornavam proprietários
às custas do próprio suor; conhecera a selva além
do registro nos livros e, ao contrário do que lera sobre o seu adormecimento,
descobrira que ela jamais dormia; ouvira histórias escabrosas de
crimes passionais e de vinganças e histórias sobre extorsão,
fuga e revolta nos seringais; acompanhara as ingerências políticas
abusivas dos coronéis no trato com os adversários e os eleitores.
Em sua terra,
apercebe-se de que mesmo tendo ali nascido, cursado o seminário
e possuindo terras que lhe foram deixadas de herança para administrar,
os bamburrais o haviam seduzido e o chamavam de volta. Teria de cumprir
a missão de “[...]
desbravar o Amazonas, incorporar os seringais ao movimento econômico
do Vale [...].”
(78) Imbuído
dessa missão e também afetado pelo banzo da floresta, Fábio
retorna para, desta vez, instalar-se definitivamente. Casa-se com a filha
de um seringalista e com ela divide a abnegada dedicação
à terra, fundando uma escola que recebe gratuitamente os alunos.
Só não consegue manter-se isolado do jogo político
local. O quadro em que o indivíduo se sente encurralado e é
obrigado a aderir às hostes políticas locais é reiterativo
nas narrativas de Álvaro Maia. Em Beiradão, ilustra-o a seguinte
passagem:
[...] A politicagem
era um retiário: os vencidos lhes caíam nas malhas, que se
apertavam mais e mais, até a asfixia e o estrangulamento. Improvisavam-se
imaginários crimes, perseguiam-nos em qualquer empresa que exercessem,
demitidos de funções públicas, caluniados na vida
pública e privada, e, ao fim, não escapavam de sovas e exílios
disfarçados, impostos por implacáveis perseguições.
Não podiam resistir à debandada nas cidades às vinditas
tributárias e comerciais. Multiplicavam-se os impostos; executavam-se
os atrasados, em prazos sumários; as embarcações,
por precaução, não lhes tocavam nos portos. Nas vilas,
se comerciantes, sofriam bloqueio oficial, e poucos lhes compravam as mercadorias.
- O chefe
não quer!
Procuravam-nos
à noite, passando ao longe sem pagar as dívidas. Se residiam
num seringal, sofriam também feroz assédio. O camarada resistia
algum tempo, mas não poderia ficar nesse crescente prejuízo
e cedia. Transferia-se ao partido situacionista, assinando-lhe uma ficha,
e tudo se modificava. Impostos reduzidos, taxações desclassificadas,
recomendações ao coletor, silêncio ou elogios nos jornais.
Perdia as fumaças de rebeldia, calava-se rendendo graças
por não ser surrado ou expulso de sua propriedade. (79)
Fábio
mantém seu seringal, procurando não criar desafetos. Para
tanto, equilibra-se entre a vida de pequeno proprietário rural e
a execução de algumas funções públicas
que as relações políticas lhe impõem e não
lhe é conveniente recusar. O seu entendimento sobre a distorção
da política, a politicagem, no entanto, está estabelecido: “[...]
Servia-a para
servir a amigos; suportava-a para não querer parecer melhor que
os outros [...].”(80)
Fechando os olhos para as hipocrisias políticas, vai tocando sua
pequena propriedade. A missão de educar os filhos preocupa-o mais
que a obtenção de lucros. Com a pouca produção
de borracha, cobre as despesas essenciais, o que demonstra lhe bastar,
apesar das críticas feitas por Segadais e Padre Silveira, apontando
sua falta de ambição.
A feição
diferenciada de seringalista apresentada por Fábio é destacada
ironicamente pelo narrador que o qualifica com jeito de pai de santo ao
invés de comerciante. Seu procedimento de receber todos que lhe
batem à porta, corrigindo contas, lendo e respondendo cartas e ouvindo
histórias, dá-lhe ares de conselheiro.
Precavendo-se
contra tempos difíceis, Fábio constrói um pomar em
que mistura espécies locais às do Pará e Nordeste
e completa a sua defesa econômica com um pequeno rebanho. Nesta fase
em que seu seringal prospera, surge uma epidemia de varíola nos
seringais, levando-o a enfrentá-la com a família. Com a atenuante
de já terem ele e a mulher apanhado a doença quando crianças,
conseguem isolar os filhos e prestam auxílio aos enfermos. À
epidemia, sucede uma outra calamidade: a economia da borracha entra em
crise devido às plantações no Oriente. Contudo, Fábio
e outros pequenos proprietários unem-se para enfrentar a crise,
recorrendo às alternativas de sustentação econômica
que haviam criado. Já “[...]
os grandes seringalistas não se haviam preocupado com a lavoura
e a pecuária: importavam sempre, porque a borracha dava para tudo
[...].”(81)
A lição tirada da crise é o endividamento e a ruína
dos grandes proprietários, que sofrem também a pressão
dos seringueiros, os quais ameaçam revoltar-se devido à suspensão
de fornecimento de mercadorias. Inicia-se o êxodo de seringueiros
principalmente nas regiões de seringais mais ricos, os dos rios
do Alto: Machado, Jamari e Preto. Nos seringais mais pobres, dos beiradões,
onde os seringueiros haviam feito roças, há uma tendência
a permanecerem na terra apesar da crise. O aventureiro, como Segadais,
novamente se prepara para partir, desta vez, tangido pela falta de perspectiva
na terra onde buscava recursos de forma imediatista: “[...]
ninguém
tinha a loucura de morrer sem proteção, sem amparo, sem financiamento,
num Vale que retornava às condições primitivas do
descobrimento [...].(82) O romance acentua os posicionamentos opostos
de Segadais e de Fábio no momento da crise, determinando o espírito
arrivista de um e os princípios idealistas do outro:
Fábio
amava as florestas e as águas. Alguém teria de ficar, porque
aquele mundo verde não desapareceria, somente porque diminuía
o preço de um produto. Outros produtos existiriam; outras explorações
teriam de nascer; agitando indústrias e industriais. O futuro não
seria para daqui a cem anos; era um futuro que se desenhava bem perto,
tecido no presente. A crise parecia uma seca; voltaria o inverno nordestino,
limpando o horizonte. Regressariam os fugitivos e encontrariam de pé,
embora alquebrados, os vultos que não se arredaram dos portos bombardeados,
como alavancas de resistência. O comerciante não é
o homem do imediatismo, mas um idealista na ação que desenvolve.
Nem todos se esforçam somente para ganhar dinheiro: abrem o caminho,
como pioneiros, e milhares marcharão cantando [...]. (83)
Temperamentos
opostos têm também os seringueiros dos rios do Alto e os dos
beiradões na relação com os patrões durante
a crise. O primeiro caso é ilustrado na situação da
personagem Coronel Moreira, o rico potentado que perde o poder e o respeito
que impunha aos seus trabalhadores. No segundo caso, está o seringalista
representado pela personagem Fábio, que consegue manter uma relação
cordial com seus trabalhadores. Enquanto Fábio precisa intervir
como mediador junto aos seringueiros do coronel para que não tomem
de assalto o seringal deste, atentando contra sua vida; com os seus seringueiros,
pode conversar francamente, revelando-lhes a gravidade da situação “[...]
porque ali
tudo era de todos [...].”
(84) Assim, os seus seringueiros, ao invés
de exigirem pagamento e abandonarem o seringal, decidem permanecer ali
mesmo, como o patrão, enfrentando os tempos difíceis. Quando
a escassez de mercadorias se acentua, dificultando a obtenção
de produtos básicos para a sobrevivência, o aparecimento do
regatão se registra como uma tábua de salvação
para os náufragos que decidiram permanecer. Desse modo, o narrador
destaca: “[...]
fugiram os aviadores, os seringalistas, mas, na hora difícil,
o tão amaldiçoado regatão vinha salvá-los [...]”.(85)
Na consideração do narrador, essa era a verdadeira fase dos
regatões, pois poderiam negociar com os pequenos seringalistas sem
serem perseguidos e sem sofrerem fiscalização. Para o narrador,
portanto, os regatões, através de seu comércio ambulante,
prestaram uma ajuda aos hinterlandinos, evitando a morte por doenças,
uma vez que não lhes chegava qualquer assistência oficial.
O enredo do
romance prossegue arrolando as conseqüências da crise na capital
e nas regiões dos seringais de que são significativas as
seguintes passagens:
Na capital
em torpor, sacudida pelo temporal, desapareceram os dias faustosos da queima
de cédulas para acender cigarros: os comerciantes lutavam, desesperados
de receber os saldos espalhados no interior, pela simples razão
de que, sem mercadorias, esse interior não poderia lutar. As sedes
municipais eram uma cópia empobrecida da capital. (86)
..............................................................................................................................
[...] Seringais,
campos, embarcações, casas-de-farinha, engenhocas respondiam
pelas dívidas; agricultores perdiam as posses, onde lutaram anos
e anos, tentativas de pequenas indústrias caseiras cediam aos impostos
excessivos[...]
[...]
Choviam
as execuções criminosas, sem uma providência aleatória
e salvadora. Seringais tornavam a florestas, sem atividade lucrativa, pois
não encontravam novos exploradores; barracões desabavam,
barracas emaranhavam-se nas trepadeiras; a capoeira dominava. Surgia o
imprevisível: seringalistas, outrora prósperos, pediam um
emprego aos mais abastados, ou ocupavam um pedaço alagadiço
da ilha para defender a vida –
derrubar
a mata, plantar roçados...(87)
Durante esse
período, Fábio permanece em seu sítio seringal, sobrevivendo
às custas de sua cautela. À insistência de Padre Silveira
de que deve abandonar o Amazonas e voltar ao Ceará para dar educação
completa aos filhos, argumenta a lealdade para com os que também
decidiram ficar, seguindo seu exemplo. Partir, deixando-os sós na
dificuldade seria, para ele, traição. Diante de um convite
que recebe para o filho estudar num seminário, Fábio titubeia
ao refletir que o menino, acostumado a viver nas brenhas, não se
amoldaria à missão eclesiástica, não possuiria
a vocação necessária para ser um sacerdote virtuoso.
Ademais, o próprio filho resiste a seguir esse caminho. O ambiente
amazônico onde fora criado é tido como o principal fator negativo
para a sua conversão. Entretanto, Fábio deseja que o filho
tenha uma educação integral e por isso o menino segue com
uma tia para a capital a fim de realizar os estudos que apenas iniciara
com as lições primárias da mãe. Posteriormente,
Fábio também se questiona sobre sua própria partida
para a cidade e, consultando a esposa, obtém dela a mesma convicção
que sempre tiveram de permanecer no beiradão até o fim de
suas vidas.
Quase ao fim
do romance, o beiradão começa a dar sinais de recuperação
da crise, atestando um incipiente restabelecimento. Não é
mais a extração da riqueza encontrada abundantemente na natureza,
especialmente o látex, que anuncia o soerguimento:
O beiradão
povoava-se, povoaram-se as terras marginais às linhas telegráficas.
Seringais em abandono começaram a ser procurados. Velhos seringueiros,
fatigados de esforços andarilheiros, apelavam também para
a agricultura; tabaquistas e farinheiros, desiludiam-se das estradas e
se aboletavam nas terras férteis das ilhas vizinhas. Notava-se diferença
entre o ilheiro, independente em suas roças e bananais, e o seringueiro,
vergado ao encarceramento das matas. (88)
Seguindo essa
perspectiva de restabelecimento, o sítio de Fábio também
atinge uma prosperidade, atestando que “[...]
havia tranqüilidade
na pobreza, a fartura na relatividade, a comprovação da vida
no interior verde, afastando o tabu da vida unicamente apegada ao extrativismo
[...]”.(89)
As ações de Fábio na administração de
sua propriedade comprovam ainda um planejamento racional, à medida
que não somente busca outras alternativas econômicas, além
da monocultura, mas também se previne de surpresas que possam ser
causadas pelos acidentes naturais próprios da estrutura geológica
da região, plantando cacauais em restingas altas, longe, portanto,
das margens afetadas pelo fenômeno das terras caídas.
Redenção
é a palavra que resume o desfecho do romance, haja vista que a sociedade
ressurgida após a crise está “galvanizada
pelo sofrimento.”
É também uma sociedade com a marca da hibridação,
um Amazonas “cearensizado”
cujo casal representativo
é Fábio e sua esposa.
Beiradão
é um romance que abrange integralmente o ciclo econômico da
borracha, da fase áurea à derrocada. Como as demais ficções
do ciclo, aponta a ilusão dos seringueiros com o processo de extração
do látex, que os leva muitas vezes a consumir a vida nas estradas
de corte e depois dissipar o saldo que por ventura tirem com gastos fúteis
na cidade, deixando escapar a possibilidade de retornarem a sua terra;
o endividamento inevitável com as despesas de viagem, instrumentos
de trabalho e alimentação, comprometendo a possibilidade
de saldo no primeiro ano de produção; a dura realidade dos
centros, onde encontram a morte pelas febres; a disputa pelo sexo feminino;
o bloqueio tropical, expressão utilizada pelo narrador para caracterizar
a impossibilidade de fuga dos seringais, seja pelas barreiras impostas
pelo ambiente, seja pelo consórcio dos patrões que se irmanavam
na perseguição e captura dos foragidos com o apoio das autoridades
locais; e, conseqüente ao poder conjugado dos seringalistas, o desamparo
e a submissão do seringueiro que “[...]
sente medo de autoridade.
Olha-a, como quem olha uma fera, abestalhado e sem arma [...].”
(90) Com isto,
no romance, confirma-se “o
mando indiscutível dos patrões”,
especialmente aqueles que se estabeleceram nos rios Jamari, Machado e afluentes
do rio Madeira. A luta dos exploradores contra os índios é,
por fim, outro aspecto reiterado em Beiradão.
Entretanto,
ao mesmo tempo em que o romance aborda os aspectos convencionais em torno
do ciclo, renova algumas das suas tradicionais abordagens literárias.
Assim sendo, uma das principais inovações apresentadas é
o rompimento do anátema que recai sobre o seringalista. A personagem
Fábio sintetiza esse rompimento. Comparando-a com modelos de seringalistas
rudes, sem visão e tacanhos, criados em outras obras, é possível
perceber o quanto diferem. Divergindo mesmo do tipo de explorador que caracterizou
o ciclo, Fábio não almeja tão somente obter lucro
da terra, mas ocupá-la, implantando uma forma de economia duradoura,
numa palavra, seu objetivo é criar raízes.
A formação
que irá possibilitar o perfil diferenciado à personagem Fábio
é também oposta à das demais personagens de seringalistas.
Antes de se tornar um imigrante banido pela seca, foi seminarista o que
lhe possibilitou se instruir: “Fábio
deixara o internato em tempos rigorosos de catecismo e latim. Lia os seus
clássicos, abeberava-se em História e Filosofia [...].”(91)
Mais do que
um bom seringalista, a personagem Fábio encarna o pioneiro que se
tornou proprietário, mantendo uma posição arrazoada
sobre a exploração da terra, trabalhando não apenas
para extrair benefícios num momento presente, mas fazendo uma previsão
para os dias futuros, da qual proprietários apoiados na monocultura
chegam a fazer pouco caso: “[...]
Fábio
esquematizou a sua resistência contra o temporal que se aproximava,
- plantações de café, cacau, árvores frutíferas
e roças, criação de gado, suínos e galinhas.
Alguns, julgando-se mais atilados, gracejavam dessas atividades sertanejas –
seria melhor enveredar pelo Machado, arrendar
seringais e voltar rico [...].(92)
Fábio
também possui a faceta de abnegado, enfatizada por sua postura de
estar preocupado em dar ganho aos outros ao invés de ganhar, de
não saber cobrar nem valorizar os seus próprios esforços.
O idealismo que manifesta, por sua vez, é efusivamente otimista
como quando fala aos seus seringueiros, pedindo-lhes paciência nos
momentos de crise: “-
Devem ter calma e esperança. Daqui a 50 anos, tudo mudará.
Preparam esse tempo para nossos filhos, que terão liberdade, assistência
médica, escolas.”(93)
Essa percepção da personagem harmoniza-se com o pensamento
político de Álvaro Maia, o que pode ser observado já
através do discurso intitulado “Canção
de fé e esperança”,
proferido em 1923,
ensejado pela data comemorativa do centenário da adesão do
Amazonas à Independência Nacional, ocorrida em 1823. Referindo-se
ao amor que devota ao Estado, declara:
[...] É
esse amor que nos faz prever o Amazonas de dois mil e vinte e três,
como uma pátria em que milhares de homens, unidos pelo mesmo afeto,
celebram uma nova era, sustentando, por seu poder financeiro, uma potência
econômica formidável, cujas cariátides serão
as fábricas plantadas nos campos, os armazéns com incalculáveis
valores, as cidades debruçadas à margem dos rios nervosos
e barrentos. As estradas de ferro comunicarão os afluentes entre
si e porão em contato os reservatórios de riquezas,
que se prolongam do Rio Branco aos campos-gerais do Madeira [...] (94)
As críticas
que Álvaro Maia empreende no mesmo discurso à falta de um
trabalho efetivo de cultivo da terra são assinaladas também
pelo narrador do romance ao destacar uma “[...]
terra em que não
se plantava, não se criava, importando-se sempre e destruindo as
reservas naturais.”(95)
Outros pontos de confluência que também podemos notar é
a exaltação do nordestino, o “nobre
bandeirante do nordeste”,
apontado como herói do desbravamento, e a denúncia do descaso
governamental em relação ao Estado. Tanto a crítica
quanto a exaltação presentes no discurso justificam plenamente
a arquitetura de uma personagem como Fábio, um nordestino que demonstra
amor à terra para a qual se transplantou, que constrói e
administra sua propriedade com base na racionalidade, que ao invés
de inimigo se transforma num parceiro daqueles que para ele trabalham.
A idéia da cooperação entre patrões e empregados
que podemos depreender da postura de Fábio, patrão que se
solidariza com seus trabalhadores, está em afinação
com a política trabalhista do Estado Novo que, como lembra Santos,
postulava “a
ausência
dos conflitos entre patrões e trabalhadores [...].”(96)
Figurando sempre
como oponente, o seringalista não teve na ficção do
ciclo o status de protagonista. A nomeação de protagonista
em relação à personagem Fábio deve ser estabelecida
a partir de algumas considerações. Ela pode ser tomada como
uma figura central por ter destaque em relação às
demais personagens, especialmente no que diz respeito à história
principal, sendo Beiradão uma narrativa que se divide em muitas
histórias paralelas. No que diz respeito ao herói como um
ser problemático que enfrenta adversidades e busca entender-se no
mundo ou numa sociedade de que faz parte, Fábio representa uma categoria
e não um ser individualizado, pois não enfrenta situações
que o ponham em choque com forças opostas as suas e não ostenta
maiores transformações de sua personalidade. Sendo assim,
não tem oponentes mas contrapontos como Segadais e Padre Silveira,
personagens com posturas diferentes da sua, mas com as quais não
entra em conflito. Mesmo em relação aos seringalistas de
papel oposto ao seu, não se cria um antagonismo, uma vez que admira
sua função de desbravadores. Em síntese, Fábio
é um modelo ideal de seringalista em contraponto a um modelo errôneo.
Desde o princípio do romance, sua personalidade já está
traçada para atender a esse modelo.
A criação
de Fábio como um modelo ideal de seringalista não leva a
uma tendência generalizada da bonomia de todos os seringalistas apresentados
no romance. O autor não assume uma defesa intransigente do seringalista,
propõe uma faceta alternativa para o patrão dos seringais.
A indicação
dada no romance de que o seringalista rude, sem visão e planejamento,
é responsável pelo fracasso do ciclo econômico, torna
claro o papel alternativo desempenhado por Fábio e está exemplificada
na personagem do coronel Moreira endividando-se e não prevendo a
crise ou em Valério Liras,
[...] exportador
de toneladas de borracha e centenas de hectolitros de castanha, sem uma
escola, uma assistência médica, sem educar um filho de seringueiro.
Viagens, luxo, larguezas, mesa com vinhos, e nada para os pobres. Somente
sol, frio, nudez, barraca escura. Lendo pouco, tivera coragem, faro canino
para negócios e pouco ligava à defesa da terra. Não
incentivava roçados, agricultura, porque lhe prejudicava os lucros
nas compras de farinha do Pará. Dava-lhe o dinheiro influência
política, e as autoridades locais se curvavam aos seus arrotos de
mandão. (97)
O seringalista
cruel não desaparece no romance e o seu perfil vingativo e por vezes
sádico é ressaltado em tipos como Arsênico, que queima
vivo o seringueiro causador de prejuízo, ou de caciques políticos
como o coronel Moreira, capaz de pôr em prática vingança
sumária contra os seus desafetos. Na posição posta
no romance sobre o seringalista, há distinção entre
o mau e o bom, evitando generalização, conforme se
nota neste diálogo entre Fábio e Padre Silveira, em que o
primeiro busca um consenso e o segundo não acredita numa recompensa
à postura justa do explorador:
- Quer dizer
que você estabelece diferenças entre eles?
- Sim, como
em todos os períodos de conquista. Bons e maus latifundiários,
bons e maus pioneiros e seringueiros. Os pioneiros das selvas, vamos dizer
assim, impunham a sua vontade com um 44 à ilharga. Se fraquejassem,
estariam mortos. Rezavam a Deus e levavam o demônio por dentro. Sorriam
uns para os outros, pensando que tinham uma quicé à ilharga.
Também se arrojavam às cachoeiras para salvar um trabalhador,
expondo a própria vida.(98)
Conquanto o
romance esteja voltado para a temática do ciclo, notamos uma descentralização
dos tópicos tornados exclusivos em outras obras. O mapeamento detalhado
do dia-a-dia do seringal, com suas situações peculiares,
sofre um desvio que favorece um leque maior de sub-temas da vida interiorana.
As relações políticas figuram como um desses acréscimos,
fornecendo uma visão às vezes irônica como a dos eleitores
famintos, do período da crise, que prometem votos a candidatos adversários
a fim de melhor lucrarem com o banquete oferecido em virtude da eleição:
- Dizem que
vai haver carne na eleição de outubro. Vem um homem oferecer
boi e vinho pra votar no doutor de Manaus, que fala bonito. Mas o coronel
tem espia. A gente não diz nada, vota no coronel, que é de
casa e come a carne dos dois lados.(99)
As críticas
que o autor faz no romance em relação ao governo são
fruto de sua atividade política. Mesmo sendo um político
conservador, ligado ao Estado Novo, Álvaro Maia não
contém o tom de denúncia, apontando o descaso e a falta de
assistência governamental. É preciso destacar, no entanto,
que o romance foi escrito em 1958, no período em que esteve desligado
dos cargos públicos, retirado em sua residência no seringal “Goiabal”
e que como político
enfrentou denúncias em relação ao recrutamento e assistência
aos nordestinos na campanha da batalha da borracha, realizada durante sua
interventoria, sob os desígnios da política do Estado Novo.
O episódio é comentado por Santos:
Após
1946, proliferaram as críticas dos adversários de Álvaro
Maia, no Diário da Tarde, formuladas contra a “batalha
da borracha” e a desorganização
da imigração de nordestinos para os seringais. Nesse empreendimento,
a interventoria de Álvaro Maia consumiu enormes esforços,
o que acarretou um desgaste político ao Partido Social Democrático
e seus líderes. O esquema institucional montado durante o Estado
Novo para implementar a “batalha
da borracha”, recebeu denúncias
na imprensa local e nacional em decorrência de sua improvisação,
carência organizacional e desordem administrativa.(100)
A utilização
de motivos à margem dos tópicos abordados na ficção
da borracha, empreendida por Álvaro Maia em Beiradão, também
se origina do viés político. As narrativas colhidas nos repertórios
nordestino e caboclo, propiciadoras do conjunto de histórias paralelas
ao enredo principal do romance, e que, nas palavras de André Araújo,
dão a conhecer a “[...]
gleba, a estrada, a dietética,
os hábitos, o lendário, o místico, a vida social,
a criminologia, as revoltas, as fugas de dentro das florestas, a fé,
o amor, as técnicas, o trabalho, a medicina caseira, o caçador,
o regatão, o banditismo, a politicagem [...]”,
(101)
configuram o enfoque que o autor dá aos textos produzidos durante
o afastamento da política e que já estava caracterizado em
seus discursos, artigos e conferências publicados na década
de 1920, os quais tinham ressonância no movimento denominado glebarismo,
através do qual eram defendidas idéias regionalistas. (102)
Desse modo,
Álvaro Maia apresenta-se, desde o início de sua carreira
política e de sua atividade no magistério, como um defensor
da glória dos heróis do passado, o que se constata em sua
conferência “Pela
glória
de Ajuricaba”
na qual eleva essa personagem histórica
a símbolo do Amazonas. No artigo intitulado “O
elogio do caboclo”, Maia
procura, por sua vez, desmistificar o perfil negativo em relação
a esse ser, acusado de indolência e covardia, e o aponta como o guia
ideal dos pioneiros e desbravadores, estes também alçados
à categoria de heróis:
Esses homens
rudes, que sentem no espírito a adustão de seus sertões
e a agitação de seus males, transmudam-se em valentes, ao
contato sarcástico dos caboclos, desvendam o labirinto de nossas
terras e, no momento preciso, se metamorfoseiam em soldados para morrer
ou vencer, cantando pelo orgulho de sua pátria. Velos-eis, em Porto-Acre,
pelejadores em nome do Amazonas e do Brasil, contra um exército,
bater uma nação: velos-eis enfrentar, em fronteiras indefesas,
invasores imprudentes; velos-eis no Rio Branco e no Madeira, no Javari
e no Negro, como sentinelas, conservando no coração o culto
da terra e da gente [...] (103)
Além
do enfoque no elemento humano que, a exemplo dos textos mencionados,
também se dá em Beiradão, o romance apresenta uma
percepção do ambiente amazônico distinta daquela das
obras da primeira fase do ciclo ficcional. Ainda que Beiradão evoque
o determinismo do meio em personagens como Padre Silveira, o qual tem o
comportamento alterado pelo ambiente amazônico, levando-o à
concupiscência, a natureza não é retratada pelo estigma
do “infernismo”
que caracterizou,
segundo Mário Ypiranga Monteiro, a produção ficcional
em torno do “ciclo
da borracha”. Importa mencionar que
Álvaro Maia reprovou, em carta aberta ao presidente Washington Luís
sob o título “Em
Nome dos Amazônidas”,
a denominação “inferno
verde”,
estampada no livro de Alberto Rangel e propôs,
ao invés, a expressão “Paraíso
verde”.
Os desequilíbrios
no ambiente expressos em Beiradão são dados como resultado
do processo de desbravamento tal se pode notar por esta passagem do romance:
Redimiam-se
os seringalistas da triste fama de criminosos, explicável pela violência
dos pioneiros, na arrancada para vencer o índio e dominar o desconhecido,
uma pequena parte desse desconhecido [...] A conquista prosseguia em capítulos
verídicos,
inscrevendo os nomes daqueles homens audazes entre os que empurraram o
Amazonas para a frente, espalhando barracas e caminhos, cadáveres
e heroísmos nos meridianos coloniais [...] (104)
A justificativa
apresentada no romance de que a violência e a espoliação
são conseqüências de uma “sociedade
em formação”
afina-se com a concepção
do historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, para quem esses mesmos
fatores são resultados naturais de um processo de colonização
ou de um “meio-sociedade
em formação”.
A redenção
é também destacada pelo historiador: “[...]
Os anos de rigor,
da fase de decadência dos seringais, ferindo seringalistas,
aviadores e seringueiros, tiraram-lhes muito daquele sentimento de voracidade,
de apetite insofrido que os levou àqueles excessos por demais lamentáveis.”
(105)
Nesse diapasão,
os “pecadilhos”
de Padre Silveira são postos como perdoáveis porque ele realiza
a tarefa pioneira de oferecer assistência religiosa aos interioranos.
Padre Silveira e Fábio são dois exemplos de que a carreira
sacerdotal sofre um abalo numa natureza virgem, o primeiro, tendo chegado
ordenado ao Amazonas, exerce o sacerdócio pela metade e o segundo,
ao se deparar novamente com o seminário na volta ao Ceará,
perde a vocação em virtude da estada nos bamburrais amazônicos.
A natureza
em Beiradão seduz e deixa na alma do pioneiro uma marca indelével: “[...]
Estas margens,
estes aguaceiros, estes sofrimentos gravam-se na gente para sempre e cozinham
os dias em saudade permanente.”
(106) No romance, a atração
exercida pelo meio ocorre de forma extensiva, atingindo o arrivista e o
abnegado.
O que motivou
a diversificação na abordagem de Beiradão quanto ao
papel do seringalista foi menos um diálogo com os ficcionistas da
borracha do que uma proposta política de alternativa econômica
para a região. Durante a década de 1930, quando governava
em sua primeira interventoria, Álvaro Maia já pedia providências
ao governo federal para minimizar a crise e sugeria o amparo à lavoura,
através da divisão de terras pertencentes ao Estado entre
pequenos proprietários, como forma de conter o êxodo rural
ocorrido com a desvalorização da borracha. Por outro lado,
Santos observa que, como interventor, Maia não abandona a idéia
da valorização da borracha e que tanto essa valorização
quanto o apelo à implantação de um meio econômico
alternativo atendiam aos interesses das classes conservadoras amazonenses
e das populações interioranas.(107) A cooperação
entre o proprietário e o extrator, a necessidade de fixação
do homem à terra que marcam o procedimento da personagem Fábio,
em Beiradão, faziam parte do programa populista desenvolvido por
Vargas e igualmente assumido por Álvaro Maia.
Vemos que a
percepção do escritor no romance pouco diverge dos postulados
políticos que defendeu toda a vida, que podem ser mapeados em seus
artigos, discursos e conferências, mesmo tendo o romance sido escrito
durante a fase de afastamento da política.
---------------------------------------
62) Eloína
Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro
Maia, p. 22-3.
63) A
estréia de Álvaro Maia no mundo das letras se deu em 1904,
aos onze anos, quando foi publicado num jornal infantil o poema “Cabelos
negros”, de sua autoria. Em 1925,
foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses no concurso promovido
pela revista Redenção. Tendo tido seus textos poéticos
publicados em jornais, só veio a reuni-los em livro em 1958, sob
o título Buzina dos paranás. Durante as décadas de
1950 e 1960, publica os livros contendo narrativas e o romance Beiradão.
O autor colaborou com a fundação da Sociedade Amazonense
de Letras, posteriormente denominada Academia Amazonense de Letras.
64) Em
Gente dos seringais, Álvaro Maia esclarece que as narrativas que
compõem o livro se passam na região do Médio Madeira
na confrontação com os rios Maici, Machado e Jamari, à
margem direita, e com os rios menores como o Puruzinho e o Mucuim, à
margem esquerda. Depreende-se nas demais obras a mesma localização.
65) Álvaro
MAIA. Introdução, In: Gente dos seringais, p. 14.
66) Ibid.,
p. 15.
67) Jean-Paul
SARTRE, O que é literatura?, p. 104.
68) Jean-Paul
SARTRE, O que é literatura?, p.105.
69) Walter
BENJAMIN, O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai
Leskov. In:Walter BENJAMIN, Magia e técnica, arte e política
(ensaios sobre literatura e história da cultura), p. 201.
70) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 23.
71) Ibid.,
p. 161.
72) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 28-29.
73) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 90.
74) Ibid.,
p. 72.
75) Neide
GONDIM. Dos bamburrais aos beiradões. In: Álvaro MAIA,
Beiradão, p. 19
76) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 174.
77) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 160.
78) Ibid.,
p. 171.
79) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 178-9.
80) Ibid.,
p. 181.
81) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 223.
82) Ibid.,
p. 266.
83) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 266.
84) Ibid.,
p. 288.
85) Ibid.,
p. 293.
86) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 291-2.
87) Ibid.,
p. 304-5.
88) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 344.
89) Ibid.,
p. 364.
90) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 152.
91) Ibid.,
p. 180.
92) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 200.
93 Ibid.,
Beiradão, p. 199.
94) Álvaro
MAIA, Canção de fé e esperança. In: Revista
UBE-Amazonas (Álvaro Maia –
Poliantéia),
p. 150.
95) Idem,
Beiradão, p. 193.
96) Eloína
Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro
Maia, p. 114.
97) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 329.
98) Ibid.,
p. 330.
99) Álvaro
MAIA, Beiradão, p. 337.
100)
Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política
cabocla: Álvaro Maia, p. 130.
101)
André ARAÚJO, Traços de uma sociologia na obra de
Álvaro Maia. In: Revista da UBE–Amazonas
(Álvaro
Maia –
Poliantéia),
p. 69.
102)
A esse respeito, Eloína Monteiro dos Santos destaca: “[...]
As idéias
regionalistas defendidas pelo glebarismo nesse momento articulam-se com
aquelas peculiares às do Partido Revisionista [...]”
(Uma liderança
política cabocla: Álvaro Maia, p. 40).
103)
Álvaro MAIA, “Canção
de fé e esperança”.
In: Revista da UBE-Amazonas
(Álvaro Maia –
Polianteia),
p. 153.
104)
Álvaro MAIA, Beiradão, p. 369.
105)
Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro, p. 178.
106)
Álvaro MAIA, Beiradão, p. 148.
107)
Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política
cabocla: Álvaro Maia, p. 87-90.
VOLTAR
|