HYSTERIA - Peça Teatral
Texto desenvolvido pelo Grupo XIX de Teatro.
Direção: Luís Fernando Marques.
Espetáculo de rara beleza e sensibilidade, resultado de um trabalho de pesquisa feito pelo grupo XIX de Teatro, tendo como foco principal as relações sociais da mulher brasileira no fim do século XIX. As dependências de um hospício feminino carioca são o pano de fundo para que cinco personagens, diagnosticadas como histéricas, revelem seus desvios e contradições.
ENDEREÇO: Sítio Morrinhos. Rua Santo Anselmo, 102 (travessa da Av. Brás Leme), Jardim São Bento, 6236-6121.
APRESENTAÇÕES: De 3ª a 6ª (apresentações somente para escolas municipais); sábados e domingos, às 16h (público em geral).
IMPORTANTE: ENTRADA GRÁTIS
COMENTÁRIOS
(Fonte: Estadão -
http://www4.estado.com.br/editorias/2002/04/24/cad027.html )
HYSTERIA - O trabalho do Grupo XIX de Teatro trata da condição feminina usando uma perturbadora premissa. Baseada na pesquisa de documentos de hospícios femininos do século 19, a trupe costurou, em processo de criação coletiva, quatro histórias de mulheres encerradas em manicômios. Ao mergulhar nesse universo, o diretor Luiz Fernando Marques e as atrizes Gisela Millás, Janaina Leite, Juliana Sanches, Raíssa Gregori e Sara Antunes traçaram um desenho que passa pela pressão familiar, pela repressão social e pela introjeção de fantasmas opressivos e desestabilizadores.
Resulta daí que, se olharmos com atenção, essa pintura, apesar do feminismo e das conquistas todas do século 20, ainda é aplicável a um grande número de mulheres no planeta. Basta lembrar o número de mulheres submetidas a restrições de todo tipo em função de leis religiosas ou de costumes seculares para que os casos narrados em Hysteria ganhem extraordinária vibração. São histórias secretas de vidas frementes que aspiram à liberdade.
O trabalho de Marques e de suas atrizes é envolvente. Homens e mulheres são separados na entrada. A eles cabe uma arquibancada ao fundo. A elas, bancos em uma área próxima das atrizes. Hysteria é interativo. De modo muito delicado, e dirigido apenas para elas, não para eles. A bem da verdade, não há espectadora que não se deixe seduzir pelas tramas pungentes. E muitas saem do teatro aos prantos.
A cumplicidade feminina é a pedra de toque da montagem. As figuras de Hysteria, quatro internas e uma enfermeira que também tem sua história para contar, pinçadas de documentos verídicos, escritos há um século e meio, trazem à tona frustrações milenares, aspirações tão antigas quanto irrealizadas. Perceber a atualidade do que dizem essas atrizes talvez seja o susto maior do público ao contatar o mundo docemente amargo da montagem.
As cinco atrizes, trabalhando em uma linha realista de suaves contornos e aguçadas idéias, atingem um grau intenso de comunicação com a platéia. Montagem de simplicidade franciscana, Hysteria mostra que uma nova geração de talentos está emergindo. E vem com força, disposta a tratar de problemas polêmicos, como a condição feminina no começo do novo século e milênio, quadro que tem em um extremo o ápice da emancipação, e no outro, a da excisão do clitóris a que milhares de mulheres ainda são submetidas. Vindos da ECA/USP, Luiz Fernando Marques e sua trupe de talentosas e belas intérpretes desembarcam no palco profissional com muito a dizer. A partir de Hysteria, será forçoso ouvi-los.
HYSTERIA - a máxima da expressão feminina
Danielle Callas
(Fonte:
http://www.revistaautor.com.br/artigos/2003/W22/DGC_22.shtml)
"Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado
emancipação da mulher -, nossa débil voz se levanta
na capital do império de Santa Cruz, clamando: educai as mulheres!
Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados!
Governo, que vos dizeis liberal!
Onde está a doação mais importante dessa civilização,
Desse liberalismo?"
(Nísia Floresta, Opúsculo Humanitário, 1853, in Escritoras, escritas e escrituras - História das Mulheres no Brasil, Norma Telles)
Do tema
HYSTERIA foi o nome dado à peça desenvolvida por um grupo de estudantes da Escola de Arte Dramática da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Se pegarmos a raiz da palavra poderemos prever que se trata de uma peça especialmente feminina, pois a histeria foi fisiologicamente diagnosticada como uma moléstia sofrida pelas mulheres. Se consultarmos o dicionário Aurélio hoje, encontraremos a seguinte definição: afecção mental cujos sintomas se baseiam em conversão, caracterizada por falta e controle sobre atos e emoções, ansiedade, sentido mórbido de autoconsciência, exagero do efeito de impressões sensoriais e por simulação de diversas doenças.
A proposta abrangente do grupo é abordar o papel e a condição da mulher no final do século XIX. A peça baseou-se também no trabalho realizado pelo psiquiatra francês Dr. Charcot, que apresentava suas pacientes histéricas nos palcos do Teatro Municipal de Paris para toda a alta sociedade de sua época.
Grande convite à reflexão histórica, um espetáculo de interpretação e sentimentos.
Do texto propriamente
Para elaboração do texto da peça foram utilizados os mais diversos materiais de pesquisa, entre eles: depoimentos (história oral), notícias de jornal, boletins de ocorrência, relatos médicos de casos psiquiátricos e estudos antropológicos.
Como absolutamente toda platéia feminina é convidada a interagir de forma ativa com falas próprias (em sua maioria respostas momentâneas às questões feitas pelas atrizes) e reações às provocações, cada apresentação torna-se única. Tecnicamente, essa estrutura chama-se dramaturgia híbrida.
Da performance das atrizes
Tal interatividade evidencia o potencial de cada uma das 5 atrizes - Janaína Leite, Raissa Gregori, Juliana Sanches, Sara Antunes e Gisela Millás - pois o trabalho realizado supera o de interpretar um texto escrito e hermético. Além disso, existe todo o trabalho de expressão corporal. Para cada sentimento e manifestação de uma histérica, há um movimento cuidadosamente apresentado por cada uma das atrizes - ao mesmo tempo, tudo muito natural e, de certa forma, comovente e encantador.
Então temos 5 atrizes para 5 perfis de histeria. Janaína Leite, interpreta Clara - uma jovem analfabeta abandonada no hospício. E com ela, tanto os homens como as mulheres da platéia, sentem a dor de não conhecer seu passado. O que lhe resta? Se apegar a um Deus - tido como excelência do amor e esperança de atingir a perfeição - e esperar seu fim.
Juliana Sanches, interpreta o verídico caso de "M. J. , 29 anos, branca, brasileira, casada, multípara, internada na casa de saúde Dr. Eiras em 27 de maio de 1896". E, assim, fora abordada a questão da sexualidade feminina - o sentir-se e ser mulher, que têm desejos sexuais repreendidos, que busca o prazer e o conhecimento das reações físicas de seus hormônios. Sem falar da repreensão sofrida em uma sociedade onde não se falava do prazer feminino. Fora diagnosticada como histero-epiléptica e submetida a cirurgia de curetagem. Vivenciando estórias imaginárias de amantes, foi sendo transferida de casas de saúde até falecer. Conselho de M.J.: "o coito é necessário".
Outro caso verídico - o de Maria Tourino , interpretada por Sara Antunes. Falamos daquela mulher dócil, que teve toda a educação necessária (bordar, costurar,....) para que a família que negociasse um bom marido. "Boa esposa" com cinco filhos. Seu fim: surpreendente. Passou o resto de seus dias, vivendo de memórias do passado, e remoendo uma vida fictícia. A interatividade com a platéia feminina é constante. Mas, em certo momento, com Maria Tourino, fica nítida o contraste entre o comportamento da mulher da virada do século XIX/XX e da mulher do século XX/XXI, com relação à sua educação, sua estrutura familiar e o casamento. Conselho de Maria Tourino: "Ores para que tua família te arranje um bom marido".
Raissa Gregori - vive Hercília. Perfil típico da mulher "avançada" para o momento histórico vivido. É visionária, culta - aquela com vocação para poetisa e mulher das Letras. Sofre por viver no tempo errado e por não aceitar os valores da sociedade. Pode ser vista como a mais rebelde, a que reage, a que não e cala. Para ela uma única solução: o hospício, pois longe dele poderia contaminar as mulheres com seus maus exemplos. Impressionantes são as declamações da atriz!
Nini, interpretada por Gisela Millás, sofre em silêncio e não somente reprime as demais histéricas como se auto-reprime. É exemplo da mulher solteira que procura viver da maneira mais politicamente correta possível e que abre sua verdadeira alma somente com seu diário, denominado "caderno-goiabada" por Lygia Fagundes Telles. Surpreendente é seu momento de "explosão" sentimental".
Ainda, misturam-se entre essas 5 histéricas pelo menos mais 20 histéricas da era moderna, que são convidadas a liberar seus instintos histéricos, além de se identificarem com os personagens.
Da platéia
A platéia é controlada para que haja, vamos dizer, um "equilíbrio hormonal" na sala de apresentação. Se, temos espaço físico para 40 espectadores, teremos 20 mulheres, que acabam fazendo o papel de cenário e atrizes coadjuvantes amadoras, e 20 homens espectadores, que como na vida real, passam o tempo a analisar e entender as atitudes femininas, sobretudo nos momentos de surtos histéricos pelos quais todas descobrem ter passado um dia. Mesmo o espectador que habitualmente não se sente confortável com momentos de interatividade em uma peça teatral, gostará de assistir essa peça mais de uma vez!
Do tempo e da História
Ao abordar o papel da mulher na sociedade do final do século XIX a peça acaba por retratar outras cenas marcantes da História como o êxodo urbano, fase transitória onde a movimentação econômica rural passa para a agitada vida urbana e conseqüentemente, novos 'males' psicológicos passam a atacar a sociedade com a aceleração contínua do ritmo de atividades. Além disso, politicamente vivemos o momento de instauração da República e, com ela, novos ideais eram defendidos como os princípios de liberdade e igualdade herdados da revolução francesa, que sobretudo questionavam a situação feminina e dos negros.
Falamos também de um tempo onde as vontades e decisões femininas, no seio familiar, eram secundárias perante a posição tomada pelo chefe da família. Assim, as mulheres acabavam por repreender (principalmente através da cultura da religião católica) e esconder suas vontades e seus desejos reais. Falamos de um momento de extrema repreensão feminina, onde o hospício vinha a ser uma punição e não um tratamento para o bem-estar. Situação essa favorável aos surtos histéricos, que também nos leva a defender a idéia de que existe muita verdade atrás da histeria. Como cita Breton Aragon; "A histeria não é um fenômeno patológico e pode ser considerada, em todos os sentidos, um meio supremo de expressão".
Não poderíamos ignorar também o período de avanços dos estudos relacionados à medicina/ psiquiatria. Foram propostos procedimentos cirúrgicos como solução para os surtos histéricos. A polêmica gira em torno dos tratamentos propostos e dos procedimentos de internação.
Dez mandamentos da mulher:
1. Amai a vosso marido sobre todas as coisas.
2. Não lhes jureis falso.
3. Preparai-lhe dias de festa.
4. Amai-o mais do que a vosso pai e vossa mãe.
5. Não o atormenteis com exigências, caprichos e amuos.
6. Não o enganeis.
7. Não lhe subtraias dinheiro, nem gasteis este com futilidades.
8. Não resmungueis, nem finjais ataques nervosos.
9. Não desejeis mais do que um próximo, e que este seja o teu marido.
10. Não exijais luxo e não vos detenhais diante das vitrines. Estes dez mandamentos devem ser lidos pelas mulheres doze vezes por dia, e depois ser bem guardados na caixinha de toillete.
(Jornal do Comércio, 1888)
Da montagem cênica
Espaço: A peça se passa supostamente em um hospício.
O leitor pode não compreender minha afirmação, mas a verdade é que essa não é uma peça para palco e sim uma peça que precisa de uma casa. Sim, casa com paredes, portas, janelas e quintal. Todo esse espaço é imprescindível para a interatividade com o público e para expressão corporal das atrizes.
Em outras palavras, lhes basta uma sala com paredes brancas - um espaço ideal para a retomada da dita "memória espacial".
Cenário: bancos de madeira (e nada mais se faz necessário, considerando que estamos dentro de uma casa). Podemos dizer que a própria platéia feminina, que compartilha com as atrizes o mesmo espaço, também é parte integrante do cenário, uma vez em que permanecemos todas expostas à platéia masculina. Dessa forma, torna-se absolutamente dispensável qualquer outro ornamento de cenário.
Músicas que inspiram os ensaios: Cantadas pelas próprias atrizes: Brejeira (Ernesto Nazareth), Choro em Sol (João Pernambuco), Estou voltando (Conjunto Galo Preto), Machucando (Adalberto de Souza), Mariana (Yamandú Costa) e Mimoso (João Pernambuco)
Iluminação técnica: Dispensável. Luz Natural
Figurinos: Trajes do século XIX.
*Todas as citações desses artigos foram extraídas do folhetim elaborado pelo Grupo XIX de Teatro, cabendo ao grupo o mérito da pesquisa de preciosidades literárias e jornalísticas.
Ficha Técnica – Peça Teatral "HYSTERIA"
GRUPO XIX DE TEATRO
Criação, Pesquisa de texto, elementos cênicos e figurinos
Grupo XIX de Teatro
Elenco
Janaína Leite, Raissa Gregori, Juliana Sanches, Sara Antunes, Gisela Millás
Direção e Dramaturgia Luiz Fernando Marques