Biografia

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Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu a 22 de setembro de 1945 no Rio de Janeiro - mais exatamente: no morro de São Carlos, bairro do Estácio.

Filho de uma dançarina e cantora do Dancing Brasil chamada Odaléia Guedes dos Santos, que mal chegou a conhecer pois morreu tuberculosa aos 20 anos, e de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião que, a princípio, limitou-se a registrá-lo e a visitá-lo esporadicamente, o moleque Luizinho foi criado por Dina e “Seu” Xavier, seus padrinhos, com muita dificuldade mas também com muito amor.

Gonzaguinha cresceu na favela, conviveu com a marginalidade mas não se corrompeu. O dia-a-dia no morro firmou no moleque uma consciência ética, solidária. As primeiras letras Gonzaguinha aprendeu numa escola local, mas as verdadeiras lições de vida recebeu pelas ladeiras do morro. Carregava sacolas na feira, batalhando algum trocado e, mais tarde, sairia do morro para estudar - Gonzaguinha formou-se em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes - e poder lutar pelo povo que tão bem conhecia: os oprimidos, os marginais, os rejeitados.

Moleque Luizinho – seu apelido de infância, ia aprontando das suas. Pipas, peladas, bolinha de gude, pião e os acidentes da infância. Como as três vezes em que furou o olho esquerdo. Na primeira, com uma pedrada, depois, com um estilingue e, na quina da cama, com isso perdeu 80% da visão desse olho.

No carnaval fugia com Pafúncio, um vendedor de caranguejos que morava nas redondezas e era membro da ala de compositores da Unidos de São Carlos, a partir daí, o samba estaria definitivamente em sua vida. Nas ruas do Estácio, Gonzaguinha ia crescendo, entre a malandragem dos moleques de rua e o carinho da madrinha.

Do pai, recebia o nome de certidão, dinheiro para pagar os estudos e algumas visitas esporádicas. Imerso no dia-a-dia atribulado da população, Gonzaguinha ia aprendendo a dureza de uma vida marginal, a injustiça diária vivida por uma parcela da sociedade que não tinha acesso a nada.

O aprendizado musical se fez em casa mesmo, ouvindo o padrinho tocar violão e tentando fazer o mesmo: "Sempre toquei um instrumento e poderia chegar a tocar bem, sendo um músico profissional, coisa que não sou. Sou um compositor e um intérprete que também toca violão, mais não sou músico nem tenho intenção de me arvorar a sê-lo" (Gonzaguinha)

Quando pequeno, Gonzaguinha ouvia Lupicínio Rodrigues, Jamelão e as músicas de seu pai. Gostava de bolero e era assíduo freqüentador de programas sertanejos. Ouvia também muita música portuguesa, pois D. Dina sua madrinha e mãe adotiva, era filha de portugueses e manteve-se ligada às tradições familiares.

Aos catorze anos, Gonzaguinha escrevia sua primeira composição: Lembranças da Primavera. Pouco mais tarde , compôs Festa e From U.S of Piauí, que seu pai gravaria em 1967.

Em 1961, Gonzaguinha, que estava completando 16 anos,  o "moleque" foi morar com o pai em Cocotá. Xavier e Dina não podiam dar estudos para o garoto, que queria estudar economia, o "Rei do Baião" - que estava se dispondo a custear seus estudos.

Neste ano Gonzaguinha estudou muito, desde então jamais repetiu um ano, lia todos os jornais e guardava tudo num saco de estopa, ele dizia que esses jornais podiam ajudar ele nos estudos. Só depois de formado é que ele jogou tudo fora.

Trancado no quarto, estudava economia e tocava violão. Quando saía, ia para a praia jogar futebol, sua outra paixão. Como já fizera no morro de São Carlos, esquecia dos horários e nunca vinha almoçar.

Em dezembro de 61, ocorreu o primeiro acidente automobilístico de sua vida, em viagem com o pai e uma amigo, a caixa de mudança do carro enguiçou, isso ocorreu no Rio, em direção a Miguel Pereira, Gonzagão ficou um mês hospitalizado, e Gonzaguinha só sofreu um grande susto.

Infelizmente, os desentendimentos com Helena, esposa de Gonzagão, fizeram com que o menino acabasse sendo interno em um colégio. Talvez tenha sido a partir daí que o "homem" Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior tenha começado a se delinear. Não só concluiu o Curso Clássico, como ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes (Rio de Janeiro). Aquele que tinha tudo para não dar em nada, começava a mostrar o cidadão consciente social e politicamente.

O começo da amizade com Ivan Lins e alguns outros teve iníicio na rua Jaceguai, na Tijuca onde morava o psiquiatra Aluízio Porto Carrero, um homem que gostava de levar pessoas a sua casa para longas conversas, jogos de cartas ou uma roda de violão. Foi ele quem pagou seu último ano de estudos na Faculdade de Economia. Gonzaguinha foi meio que "adotado" pelo psiquiatra.

Foi nesta casa que Gonzaguinha conheceu Ângela, sua primeira esposa, mãe dos seus dois filhos mais velhos, Daniel e Fernanda .

Das rodas de violão na casa do psiquiatra nasceu o M.A.U. (Movimento Artístico Universitário) e dele faziam partes nomes como Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio, César Costa Filho. "Éramos um Grupo com pretensões de romper as barreiras do mercado de trabalho, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém" (Ivan Lins). O MAU acabaria sugado pela TV Globo que em 1971 lançava o programa "Som livre exportação". O suposto herdeiro dos baiões de Luiz Gonzaga surgia nos festivais letras urbanas que retratavam as cidades grandes com suas profundas diferenças sociais.

Nos primeiros dois meses as coisas caminharam bem e o grupo fez grande sucesso. Passando esse período, na hora da renovação do contrato, a Globo só queria Ivan Lins, Gonzaguinha e César Costa Filho. No início eles procuraram manter-se unidos , "na base do ou assina todo mundo ou ninguém assina". Passados os primeiros dias, as grandes somas envolvidas, as diferenças pessoais e outros fatores cindiram o grupo. O programa continuou por mais algumas semanas, comandado por Ivan Lins, que foi o que mais vacilou na defesa do grupo.

"Não era uma questão de eu ser mais ou menos forte que o Ivan. É uma questão estrutural. Só isso. A minha imagem de antipatia não permitia que as pessoas tentassem me cooptar. Isso me deixava muito distante. (Gonzaguinha)

Foi nessa época que se difundiu a imagem de Gonzaguinha como um artista agressivo, chegando um jornalista a chamá-lo de "cantor rancor". Para o compositor, sua agressividade foi criada pelo sistema para ele vender mais.

Em 1973, Gonzaguinha participou do programa Flávio Cavalcanti apresentando a música Comportamento Geral num dos concursos promovidos pelo programa. Os jurados ficaram apavorados com a letra que dizia "Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado/ São palavras que ainda te deixam dizer por se homem bem disciplinado/ Deve pois só fazer pelo bem da Nação tudo aquilo que for ordenado". Muita polêmica, uma advertência da censura mas, em compensação, o compacto gravado pelo compositor, que estava encalhado nas prateleiras das lojas, esgotou-se em poucos dias e logo Gonzaguinha pulava do quase anonimato para as paradas de sucesso na Rádio Tamoio e era convidado para gravar um novo disco.

Como era de se prever naqueles anos de chumbo, a execução da música logo foi proibida em todo o território nacional e Gonzaguinha "convidado" a prestar esclarecimentos no DOPS. Seria a primeira entre muitas visitas do compositor ao órgão público. Para gravar 18 músicas, Gonzaguinha submeteu 72 à censura - 54 foram vetadas!

Apesar de toda a perseguição, Gonzaguinha nunca deixou de divulgar seu trabalho: quer seja em discos onde driblava os censores com canções alegóricas, quer seja em shows onde, além de cantar as músicas que não podiam ser tocadas nas rádios, Gonzaguinha não se continha e exprimia suas opiniões e sua preocupação com os rumos que a Nação tomava.

Em 1975, Gonzaguinha dispensou os empresários e essa atitude foi fundamental para sua carreira, segundo Gonzaguinha a vantagem de trabalhar independente dos empresários está nos contatos que o artista mantém com várias pessoas, o que concorre para recuperar se a base humana do trabalho.

O ano de 1975 foi particularmente importante na vida do compositor: tendo contraído tuberculose, Gonzaguinha viu-se obrigado a passar oito meses em casa e aproveitou o tempo para meditar e refletir sobre si mesmo. Neste período acabou chegando a algumas conclusões importantes.

"Achei que devia retomar toda uma espontaneidade em termos de apresentação, de estar no palco como se estivesse em qualquer outro lugar" (Gonzaguinha)

O ano de 1975 também marcou o início das suas excursões pelo Brasil, em que rodou todo o país de violão. Com isso, conseguiu solidificar as bases nacionais de sua arte e descobriu a importância de seu pai, na música popular brasileira.

Aos poucos o moleque rebelde pareceu perceber que suas letras herméticas não atingiriam a camada da população para a qual maior era a sua necessidade de se fazer ouvir. Com o disco Começaria Tudo Outra Vez Gonzaguinha, em 1976, marcou uma virada em sua carreira. O "maldito" tornava-se popular. O disco, de acordo com o próprio autor, representou a capacidade de voltar ao início da carreira, retomar a espontaneidade perdida e "assumir a coerência de um trabalho que vem se estendendo há muito tempo"

Depois disso, sua carreira constituiu um coleção de sucessos, tanto nas apresentações ao vivo como nos diversos LPs que lançou, entre os quais Gonzaguinha da vida (1979), Coisa Mais Maior de Grande (1981), Alô, Alô Brasil (1983), em toda essa trajetória, Gonzaguinha tem demonstrado, ao lado de qualidades artísticas indiscutíveis, uma grande coerência de idéias sobre a arte, a vida e a dimensão política do homem.

A mudança na carreira refletiu-se em sua vida pessoal (ou teria sido o contrário?). Gonzaguinha passou a se aceitar melhor, a gostar mais de si mesmo. O homem amargo que se internou durante meses no quarto de empregada para tratar-se de uma tuberculose, profundamente deprimido, acreditando que teria o mesmo fim que sua mãe - morrer tuberculosa ainda jovem - surpreendia fazendo piada com o que antes fora motivo de enorme complexo: sua magreza. Hábitos de vida mais saudáveis, letras românticas, canções mais alegres. Tudo isso ajudou a consolidar sua carreira e torná-lo um dos mais disputados compositores entre intérpretes como Maria Bethânia, Elis Regina, Simone.

Parecia ter descoberto o caminho das pedras amarelas: era querido, admirado, suas músicas executadas em todas as rádios, convidado para os principais programas de televisão. E assim, entre o lirismo de versos como "Começaria tudo outra vez/ se preciso fosse, meu amor/ A chama em meu peito ainda queima, saiba/ nada foi em vão" Gonzaguinha perguntava "Quem me dirá onde está/ Aquele moço: Fulano de Tal/ Filho, marido, irmão, namorado/ que não voltou mais?". Compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ivan Lins também se utilizavam desse expediente - mensagens políticas embaladas em canções que aparentemente só falavam de amores perdidos, desilusões sentimentais. Foi a forma encontrada pelo moleque para passar suas mensagens. Até tema de abertura em novela da Rede Globo queria o Moleque. Ao som das Frenéticas, Gonzaguinha ironizava: "Dez entre dez brasileiros preferem feijão/ esse sabor bem Brasil/verdadeiro fator de união da família". O que ele queria dizer era que dez entre dez brasileiros precisavam comer mas que, pesquisas da época, indicavam que apenas um entre dez brasileiros tinha condições de ter "feijão" à mesa diariamente, confessaria mais tarde o compositor.

Seus últimos 12 anos de vida, Gonzaguinha passou-os ao lado de Louise Margarete Martins - a Lelete. Desta relação nasceu Mariana, sua caçula, afilhada de Fagner, amigo e parceiro em músicas que permanecem inéditas. Até hoje Lelete e Mariana vivem em Belo Horizonte, cidade onde Gonzaguinha viveu durante dez anos. A vida em Minas, mais calma, com longos passeios de bicicleta em torno da lagoa da Pampulha, marcou um período mais introspectivo de sua carreira. O músico dedicava-se a pesquisar novos sons dividindo-se entre longos períodos em casa e demoradas turnês de shows pelo país.

A mais importante dessas turnês talvez tenha sido com o show "Vida de Viajante", ao lado do pai Luiz Gonzaga, em 1984. Não apenas um show, "Vida de Viajante" selou o reencontro de pai e filho, a intersecção de dois estilos, o Brasil sertanejo do baião encontrando o Brasil urbano das canções com compromisso social e uma só paixão - o palco.

Se "Todo artista tem de ir aonde o povo está", lá estavam pai e filho deixando mágoas, desavenças, ressentimentos na poeira das estradas. Viajando juntos por quase um ano, mais do que se perdoaram - tornaram-se amigos. Não houve reconciliação, houve compreensão.

Sua carreira parecia entrar em nova fase áurea, quando um acidente de carro o mata em 1991.

Seus filhos estão dando continuidade à tradição musical da família. Daniel, cantor e compositor, emociona pela semelhança com o pai, tanto facial quanto de timbre de voz, apesar de desenvolver um trabalho de estilo bem diverso. Afilhado de Ivan Lins, o jovem Daniel tem tudo para ser a terceira geração de "Gonzagas" que deixa marcas na MPB. Fernanda e Amora (filha de seu relacionamento com Sandra Pera : ex-Frenética) fazem parte de um grupo vocal "Las Chicas" com repertório bastante variado mas sempre com interpretações que demonstram o talento à flor da pele, ou melhor, na corrente sangüínea.

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