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O rebelde se
vai
Domingo, Renato Russo, com um fiapo de voz
fala ao telefone para o ator Marcelo Berê que queria ter notícias suas: "Estou
mal e eu não posso mais nem falar". Sexta seu corpo já seria transportado de seu
apartamento para o cemitério do Caju, onde, conforme as instruções que dera a
família, seria cremado no sábado. Morreu a 1h15 da madrugada de sexta-feira,
vítima de complicações pulmonares e renais decorrentes da Aids, aos 36 anos de
idade. Vendeu 5 milhões de discos.
Ele desenvolveu uma notável habilidade
para traduzir as emoções e a inquietude dos jovens brasileiros de mais de uma
geração. Em suas letras e interpretações, falava de amor como os jovens
gostariam de saber falar. Bradava contra a miséria familiar como seu público
gostaria de fazer na sala de jantar de casa. E, quando virava seu olhar para o
governo e os políticos, enunciava opiniões às vezes ingênuas, mas sempre
raivosas. Esse era o segredo de sua popularidade.
Soube que era portador do
vírus da Aids em 1989, mas a doença só começou a se manifestar este ano ( 1996 ).
Foi internado várias vezes com hepatite e males respiratórios. Em maio, começou
a ingerir o coquetel de AZT e outros medicamentos que hoje costumam ser
ministrados aos pacientes terminais. Costumava dizer: "Quando tomo, é como se eu
estivesse comendo um cachorro vivo e ele me comesse por dentro".
Renato nunca
tornou pública sua doença. Quatro meses antes de sua morte, concluiu as
gravações do disco "A Tempestade", que foram as lojas apenas três semanas antes
do óbito. Recusou-se a posar para fotos de divulgação do disco ou a conceder
entrevistas - a essa altura, já havia perdido 20 dos 65 quilos que sempre pesou.
Passou as últimas semanas em casa. Era acompanhado por enfermeiros e seu pai,
Renato Manfredini, alto funcionário aposentado do Banco do Brasil.
Solitário,
poucas vezes saía do quarto. Precisava de ajuda para andar e vomitava quase tudo
que comia. Apesar disso, tentava reagir e estava compondo o que anunciava ser
uma ópera.
Na última terça, recebeu a visita do músico Dado Villa-Lobos (
guitarrista da banda ) e seu empresário, Rafael Borges. Disse a eles que não
estava bem, mas recusava-se a falar da doença. "Sua saúde vinha definhando nos
últimos três meses, mas na última semana, ele piorou muito" diz o médico Saul
Bteshe, um dos que assinaram o atestado de óbito do compositor.
Dois meses
antes da morte de Renato, o jornalista Geraldinho Vieira, 37 anos esteve em seu
apartamento. Ele era casado com Lea Coimbra, artista plástica que inspirou a
personagem Mônica de "Eduardo e Mônica" do disco Dois ( 1986 ). Disse
Geraldinho: "Ele estava magro, muito cansado, mas o cérebro funcionava bem".
Renato explicava que queria aproveitar ao máximo esse momento aprender com a
própria vida e com a morte. Dizia isso de forma tranqüila e triste. Esboçando
uma espécie de balanço da própria vida e também da carreira, disse que "o
sucesso faz aparecer muita gente em volta de você. Empresários, artistas. Mas me
sinto só".
No fim das gravações de "A Tempestade" dizia-se bem melhor. Tinha
parado de beber e já tinha saído de uma clínica. Renato dizia: "Vou escrever um
livro quando chegar aos 50", e mais alegre disse: "No fundo eu quero ser
imortal".
O primeiro show da banda em Brasília, cidade onde a Legião foi
formada, terminou em quebra-quebra e com Renato xingando a platéia. Em 1990 o
cantor desmaiou no palco e teve de cancelar outras apresentações.
Renato era
alcoólatra desde a adolescência, freqüentou até os Alcoólicos Anônimos. Russo
também teve experiências amargas com as drogas, inclusive com a mais devastadora
delas, a heroína.
Até 1989 ele se declarava
heterossexual, no ano seguinte
declarou-se homossexual e a escolher apenas parceiros do mesmo sexo. Disse que
mantinha relações com mulheres apenas para satisfazer a família e a sociedade,
mas desde a adolescência sentia tração por homens.
Em 1990 conheceu Robert
Scott, seu parceiro mais duradouro. Foi embora em 92. Russo entrou em profunda
depressão e tentou suicídio. Ele já tinha tentado em 84 e em 89 quando soube que
era portador do vírus HIV.
Renato deixou um filho de 7 anos ( na época da
reportagem, 1996 ), de nome Giuliano. A mãe do menino, Renato não contava,
sabe-se que ela morrera quando o menino tinha apenas 1 ano. Giuliano mora com os
pais de Renato Russo.
Renato Manfredini Junior
nasceu no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador. Dos 7 aos 10 anos morou em New
York. Voltaram para o Rio e três anos mais tarde foram para Brasília. Após
alguns anos formou o Grupo Aborto Elétrico, embrião do Legião Urbana.
O
Legião era do contra - vendeu 5 milhões de discos sem depender dos procedimentos
recorrentes da indústria fonográfica.Jamais quis tocar em festivais patrocinados
por grandes empresas. Raríssimas vezes compareceu a programas de
auditório.Raramente fazia shows e dava de ombros para os gêneros musicais em
voga no mercado. Sem desmantelar o Legião, gravou dois discos de sucesso, o
primeiro "Stonewall Celebration" em inglês de 94. Metade daquilo que o disco
faturou foi doado à campanha de Betinho contra a fome. Em 95, lançou "Equilíbrio
Distante", em italiano, que vendeu 544 mil cópias.
(Resumo da reportagem de Veja
de Samuel Brasil e Marcelo Camacho. 16 de Outubro de
1996)
