
Em poucas palavras, considero o KISS a maior
banda do mundo, quem discordar que vá escutar Hanson e Back
Street Boys. Pretendo ampliar esta página, mas enquanto não
consigo tempo, vou deixar algumas reportagens de 1983, quando o
KISS esteve no Brasil pela primeira vez. A primeira reportagem
que deixo saiu no jornal O ESTADO DE S. PAULO, do dia 27/06/1983.
P.S.: Não citarei nomes de reporteres (se é
que as criaturas são realmente repórteres...), para não
envergonha-los da tamanha merda que tiveram a capacidade de
escrever.

No Morumbi, um
show sem surpresas
O primeiro show que o grupo KISS faria no
Brasil seria em São Paulo. Porém, como se sabe, a chuva fez
inverter totalmente a agenda dos seus shows pelo País. Assim,
quando o grupo americano entrou no palco, rigorosamente dentro do
horário previsto, a platéia já sabia do sangue sintético
usado nas brincadeiras de Gene Simmons ("o
linguarudo"), dos tiros de canhão, da fumaceira colorida,
dos fogos de artifício. Mesmo assim, havia uma boa disposição
do público - estimado em 60 mil pessoas, segundo o comando
policial presente - para a festa.
A recepção ao grupo foi das masis
simpáticas, com os tradicionais piscar de isqueiros e fósforos
acesos no estádio escuro. Nesta hora, quem havia conseguido
vender as camisetas com a estampa do conjunto (dois mil cruzeiros
na entrada, um na saída) e comprar ingressos já estava lá
dentro. As dezenas de reproduções da pintura de Gene Simmons,
Eric carr, Vinnie Vincent e Paul Stanley eram agora encobertas
pelo original, ao vivo no palco. Oswaldo, um escriturário do
bairro da liberdade, com maquiagem à Simmons, confessava não
conhecer nenhuma das músicas do grupo e apenas ostentar ali a
sua pintura de tinta plástica que demorou horas para fazer
"porque o visual deles é d-e-m-a-i-s".
De binóculo na mão, Oswaldo tentava ensaiar
uns passinhos de dança, mas desistiu chegando a conclusão de o
som não estava mesmo agradando. Na verdade, como ele, uma boa
parte do público da pista, o local mais próximo das centenas de
caixas de som, limitava-se a ficar de braços cruzados esperando
por um grande momento que afinal nem aconteceu. O som que o Kiss
apregoava ser a sua marca registrada - "somos a mais
barulhenta banda de rock do mundo e quem não gostar é porque
está velho" -, estava baixo demais, opaco, ruim até mesmo
nas tentativas de aproximação com a platéia. Num esforço e
com a voz rouca, Simmons gritava "we love you" e
recebia alguns aplausos de volta.
Simpatia
O entusiasmo não passava das
pessoas mais próximas ao palco. E mesmo assim foi muito difícil
aguentar os solos fraquíssimos de cada um dos rapazes do grupo
que, em vez de despertar ira, animou o humor de alguns garotos
que pediam a presença do grupo Herva Doce, que abriria o show.
Algumas vaias começaram a espoucar no meio do público ou então
os pedidos irônicos de "rock and roll". Como explicava
Rufino, ex-baixista do Made in Brazil, agora no grupo Aeroplano,
"o KISS é como um grande circo e acho legal estar aqui, mas
pelo acontecimento. Eles são 80% de visual, 20% de som alto e
pauleira e sem qualidade musical. Quem gosta de rock não curte
isso" (Nota pessoal: Megadeth, Anthrax, Helloween, White
Zombie, Foo Foghters, Nirvana, entre outros, será que esses
caras não sabem o que é rock and roll? Cade essa merda de Made
in Brazil e Aeroplano?).
Pouco Entusiasmo
Por volta de 8 horas da noite,
o KISS recebeu, nos bastidores, o seu disco de ouro pela vendagem
do último LP. Ali, se ficou sabendo que o grupo brasileiro Herva
Doce não abriria mais o espetáculo, e, no local reservado para
os promotores, a Arteshow, ninguém arriscava uma explicação
oficial, mas corria o boato de que entre participar do show ao ar
livre na praça Charles Miller, no Pacaembu, com Oswaldinho e
Jorge Ben, entre outros, e abrir o do KISS, o grupo preferiu a
opção nacional (Nota pessoal: como bem
digo, foda-se, onde está está banda Herva Doce? Deve tá mais
atolada na merda do que o Jorge Ben... ou melhor, tá fazendo
compania à banda Aeroplano...).
Comparação
O referencial de uma boa parte do público,
quanto a espetáculos de bandas de rock por aqui, era o do grupo
Queen. E, numa votação rápida, o grupo inglês ganhava
disparado porque, "sem prometer som alto, tocou o
suficiente; "nao prometendo pirotecnias deu um verdadeiro
baile na iluminação muito mais bonita e eficiente" (Nota
pessoal: lógico que a iluminação do Queen tava melhor, a
alfandega barrou metade do palco do KISS na entrada... ai,
produto nacional, principalmente naquela época...). É claro,
existiam os fãs incondicionais, como dois rapazes da Mooca que
atravessaram a cidade com as pesadas maquiagens, as botas altas
(que poucos imitadores arriscavam repetir), mas que pretendiam
não mais que "faturar algum", vendendo miniaturas de
plástico das guitarras de Simmons e Stanley. Ou um adolescente
gorducho, com tira na cabeça, este um dos poucos que conheciam
músicas do grupo, mas que quase em transe, não parava de
"tocar" uma invísivel guitarra e entortar pés e
pernas numa coreografia única. Ronaldo, vendedor de cachorro
quente, dizia que o movimento ali estava "meio devagar"
e que ele mesmo não gostava muito do KISS (Nota Pessoal: Não
idiota, os vendedores tem de ser fãs das bandas quando vão
vender num show, santa ignorancia). Era mais fã de funk,
"mas, como diz o Tim Maia, vale tudo".
Decepção
Os rapazes do Desafio Jovem Peniel, que
distribuíam panfletos pedindo aos jovens que dispenssassem o
"satanismo" do KISS em troca de uma opção religiosa,
também devem ter-se decepcionado. O comando de Polícia, sob o
controle do major Durval Sampaio Pontes, dizia que o contigente
deslocado para lá era normal, com 450 policiais, entre Batalhão
de Choque, Polícia Feminina, policiais de Trânsito e Polícia
Montada. E atendeu ocorrências apens rotineiras.
No posto médico, passaram não mais que casos
de intoxicação por bebidas alcoólicas na maioria das vezes, o
que fez circular o boato de que a inflação atingiu também esse
setor. No Juizado de Menores, os números eram fornecidos pelos
juízes Mário fabrício e Carlos Segreto: passaram por ali pouco
mais de 60 menores, por consumo de tóxicos e álcool, e alguns
poucos por questões diversas, do tipo pular muros, brigar e
outras coisas menores. 42 documentos, entre carteiras de
trabalho, carteiras de escola e de identidade, foram retidos.
Invariavelmente, serviam para aumentar a idade da garotada.
Uma boa definição da noite paulista do KISS,
foi dada pelo estudante Carlos Alberto, vindo de Campinas com um
grupinho de amigos: "Prometeram para a gente um grande circo
de rock, só que este não tem lona, portanto está sujeito à
chuva e ao frio e não tem sequer o som legal para a gente
dançar". No palco, havia um visível esforço por agradar,
mas ou os rapazes estavam numa noite muitíssimo infeliz, ou
realmente tocam muito mal. Gene Simmons, com suas botas
dantescas, tinha a leveza de um mastodonte e, nas suas caretas e
aberturas de pernas que faziam pressupor a dificuldade do solo
conseguia arrancar risos. Eric Carr, ilhado em cima do canhão ou
como um vulto atras da fumaça .
Bis espontâneo
Como a distância entre a maior parte do
público (nas númeradas e arquibancadas) era muito grande,
ninguém viu o tal sangue sintético que jorrava da boca do
baixista, por mais que este botasse a língua para fora. Uma
observação da platéia, no alto do Morumbi, demonstrava, lá
pela metade do espetáculo, uma quietude desoladora, apenas
quebrada durante a apresentação de Rock'n'roll All Night ou no
início de cada canção . Era mais ou menos assim: como a
introdução sempre vinha carregada da vontade de brilhar, o
público se contagiava, levantava, aplaudia, gritava e ia
esmorecendo até o silêncio, diante da obviedade de cada solo e
da anemia das melodias. Quando o espetáculo acabou, depois de
uma hora e quarenta de fumaça, lança chamas, tiros de canhão e
pouco rock, uma cascata pirotécnica encobriu o enorme letreiro
com a palavra KISS. Nas rampas de saída do gramado a massa já
se comprimia, na busca da condução de volta aos bairros. Aí,
surpresa: o grupo voltou ao palco. O público parou onde estava.
Só então houve a quebra da guitarra - não a que foi usada
durante o show - e mais alguns efeitos visuais durante a
repetição de Rock'n'roll All Night. Foi o primeiro bis
espontâneo da história do rock.

Bom, essa foi a primeira das várias
reportagens que tenho da época. Penso que muitos fãs vão ficar
um tanto quanto revoltados pela ignorancia e pela falta de ética
dessa besta ambulante que se intula reporter e elaborou este
texto, mas era isso que rolava pelos jornais da época...
Rodrigo Santos de Oliveira
