Scenes fala de transcendência, da capacidade que a natureza possui, e nos concede, de fazer com que a raça se perpetue, com que nossa herança (genética, cultural etc.) se faça presente em nossa descendência, dando-lhe um carater de permanência, de imanência, até, que nos tornaria, de certo modo, eternos.
Outra das manifestações humanas que pode conceder eternidade é a arte, uma vez devidamente registrada, produzida, distribuída e disseminada - algo que vá ao ar no rádio uma única vez, por exemplo, viaja pelas estrelas eternamente, sem limites físicos.
O único limite é a não criação, o medo de ousar, a falta de iniciativa, enfim uma arte que não se faça presente no contexto contemporâneo de sua existência (pode até ser descoberta, tempos depois, mas aí já não terá sido o artista criador aquele responsável pela sua própria cria lançada).
As partes musicais: o texto por trás da letra
Part 1: A Son to Live On
Uma chance é dada a quem está prestes a procriar: a de melhorar como ser humano. Por isso, a vida nos apresenta renovadas oportunidades e chances de novamente crescer espiritualmente. Oportunidade de afastar-se da prática de ações erradas que nada de bom trouxeram, numa corrida solitária do nada a lugar nenhum.
O caminho ideal a ser trilhado pelo futuro pai seria necessariamente o da virtude, idealmente, sem a necessidade de apegos religiosos, de modo a voar, livre, de acordo apenas com a própria natureza, instado pela premência dum ato tão forte dessa mesma natureza quanto é a existência de descendência. O renovado brilho do sol após cada noite, a extração de cores da luz solar através do prisma de chuva seriam como exemplos de que o caminho natural existe e é belo, pleno.
Com toda a vontade (um dos sentidos substantivos do termo “will”), se é confrontado com a doçura de um filho, e, além do moinho da vida, que muitas vezes nos tritura as esperanças, começamos a sondar acerca de qual será o destino a ser por nós criado, dado e compartilhado com aquela criança.
Durante a sua vida (dele), muitos irão e virão - assim como foi nas nossas -, por vezes surgirá tristeza, insegurança, mágoa e até desespero. De qualquer maneira, a natureza do tempo é fazer com que o crescimento ocorra e que nós, pais, o possamos acompanhar até um dado limite - o de nossas próprias vidas. Em circunstâncias normais, um filho terá necessariamente mais tempo que o pai.
Uma das coisas que a descendência faz conosco é nos confrontar com nosso próprio processo de envelhecimento - quanto mais ele cresce, mais nos aproximamos do fim (ele idem, decerto). As vezes não sabemos como lidar com isso, como lidar com nossa autodependência e ainda com mais alguém a depender inteiramente de nós. Não haveria um único caminho, a atenção à dialética do processo seria aquilo que melhor nos poderia preparar para lidar com isso com alguma desenvoltura. Afinal, mais dia, menos dia, nosso filho irá partir para sua própria aventura na vida, tenhamos nós errado com ele ou não.
O “testamento” (ou “legado”, outro dos sentidos substantivos de “will”) está escrito pela natureza: o legado da vida será, eternamente, o único que todos os pais de todos os tempos terão deixado, deixam e deixarão aos seus filhos. E a ele, filho, foi dada vontade, decisão, determinação (outros dos sentidos da palavra “will”) para que nalgum dia ele se vá, por si só, para lidar com a própria vida como tal.
Part 2: Walk of Life (instrumental):
A levada desse trecho tem uma atitude de caminhada, com altos e baixos, desencontros, pequenos tropeços, quedas e retomadas. Culmina numa dramática introdução ao que seria a parte seguinte.
Part 3: Chase from Death (instrumental)
A levada dessa parte é característica de uma certa aceleração, na tradução de uma ansiedade no trato com a inexorabilidade de nosso destino comum - como idas e voltas, em círculo, na tentativa de evitar a chegada a um único e inevitável destino.
Part 4: Final Rest (Instrumental)
O destino final, traduzido em totais paz e quietude.
Part 5: A Doubt to Live in
Ao mesmo tempo que concede o desfrute da vida em seu decorrer, o tempo mede a extensão desse decurso. Eterno, como entidade universal, encerra-nos em si, encerra-se para nós e permanece imutável em seu decurso infinito, sem nele um ponto qualquer cuja existência nele aponte qualquer modificação. O tempo ignora-nos por completo, é como uma ave de rapina, à espreita da transformação de vida em morte. Reza-se para que seja extenso o tempo a nós concedido pelo Tempo, mas sabe-se que este não poderá ir além do limite determinado pelo momento em que não mais possamos acompanhar o seu decorrer - e este decorrer, portanto, já não mais nos afete em nada. Para que rezar, então?
Existe uma dúvida razoável acerca da continuidade da vida após a morte (vida eterna), sendo esta eternidade uma presunção cuja razoabilidade não iria além de mera expectativa favorável. Contudo, essa extensão é tudo aquilo em que se pensa quando se está no limiar (ou o tempo todo, porque nunca sabemos quando a foice nos abaterá). A Eternidade “humana” se faz através dos filhos e realizações. Daquilo que legamos e realizamos.
No fim, quando a vida é confrontada com a morte, tudo que ocorreu enquanto perdurou esvai-se e se evanesce em um átimo, passando a fazer parte de um registro não efetuado, abandonado além do tempo e da matéria. Além da maia humana.
IV - SCENES OF WONDERING BEYOND
(Cenas de considerações no além )
Assim como a The Gate , a Babel Tower possui duas conotações: Uma social e outra de ordem filosófica. Para a visão social podemos tomar duas situações: A visão bíblica convencional e uma visão social moderna. Não importando qual das três situações o ouvinte preferir “escutar”, o discurso musical procura representar as tensões, dúvidas, buscas, encontros e desencontros, reencontros, a vivenciação individual e social, a evolução dos processos sociais e individuais.
As partes musicais: O texto por trás da música
Part 1: Questions?
Os questionamentos individuais. A solidão do Um no Grupo. A busca do veículo de expressão e intercompreenção. A auto procura. A busca de seus pares. A tentativa de entendimento: Lei Imutável ou o Eterno Ciclo de Evolução Induvidual?
Part 2: Thounsand Minded Dark City
Os questionamentos do grupo, da sociedade. A solidão do Todo no Grupo. As tensões e pressões sociais.
A Torre de Babel social. Se cada um possui um idioma próprio, como integrar? Como entender o “idioma”
do todo?
Part 3: Human Abstraction
O ser humano e o eterno reencontro. A busca e o entendimento das Verdades Eternas. A abstração da Individualidade.
V - BABEL TOWER
(Torre de Babel - Instrumental)
Esta suite foi concebida através da montagem de 5 partes onde a primeira e a última (inicio e fim) seguem fielmente a partitura de Uma Noite em Monte Calvo de Modest Mussorgsky, que baseou-se em um conto popular sobre uma noite especial do ano onde todas as bruxas, gnomos, duendes, seres da noite, se reuniriam em uma montanha (Monte Calvo) com o objetivo de realizar um enorme sabbath. A idéia musical apresenta o confrontro entre o Bem e o Mal em toda a sua fúria, que porém, com a chegada do Dia (parte 5), a Luz, que a tudo invade de forma plácida porém definitiva, de forma suave porém irrevogável, dissolve todos os miasmas deixados pelo terrível sabbath, afasta todas as sombras deixadas pela Escuridão, faz brotar a Vida das cinzas da Morte.
As partes 2 e 4, Night Tale e Night Tale Reprise, são de composição de Jim Cuomo do Fire Ballet, banda progressiva canadense da década de 70 que gentilmente nos autorizou a sua execução. É talvez uma ilustração musical da trajetória de um cavaleiro Cruzado, que com o auxílio de um feiticeiro evoca para si os poderes mísiticos dado aos soldados de Camelot, antes de ele viajar para conduzir o ofício sagrado e ele atribuído, que foi aceito e honrado para levá-lo a países distantes apenas para ver-se envolvido em muitas lutas, até que um embate o vê derrotado e morto por seu inimigo mouro.
A parte 3, A Catedral Submersa de Claude Debussy, também usada por Cuomo entre as duas partes de Night Tale, por possuir uma conotação musical diversa das demais, poderia à primeira vista parecer filosoficamente destoante das mesmas, não fosse pelos poderosos conceitos de plasmação e transmutação que apresenta na sua estruturação musical. Filosoficamente, os embates entre a Escuridão e a Luz carreiam, antes de mais nada, estes dois principios fundamentais. A forma como foi apresentada por Cuomo na Night Tale parece sugerir que a alma do guerreiro morto poderia estar a encontrar seu descanso durante esse trecho.
VI - A NIGHT ON BALD MOUNTAIN
(Uma noite em Monte Calvo)
A SÍNTESE: INNER VOYAGES BETWEEN OUR SHADOWS
(Viagens Interiores entre nossas Sombras)
O que a primeira vista pareceria um disco com várias músicas independentes é na verdade um CD conceitual, cujos valores explorados progridem, de faixa para faixa, visualizados musicalmente sob diversas óticas.
E seriam estas óticas, algumas viagens interiores entre as nossas sombras.
Sombras do passado, de uma vida que foi.
Ao mesmo tempo, sombras do presente, sombras surgidas à luz do meio-dia, que se fazem presentes mas não podem ser percebidas por quem se ilumina à plena luz.
Sombras sob as quais nos escondemos ao buscarmos o lado mais soturno de nossa índole.
Sombras individuais sob as quais as máscaras da Babel da vida caem e nos entre encontramos, em busca da fraternidade e da amizade, da compreensão e do entendimento.
Sombras do conhecimento, onde as dúvidas que pairam sobre nossos corações e mentes, fazem-nos continuamente aventurar pelo desconhecido em busca das respostas e explicações para o inusitado.
Sombras deixadas por cada um e por todos, marca indelével de nossa presença, em tudo que nos cerca, e que permanecem muito tempo após nós mesmos, através de nossas gerações e realizações.
E, claro, as sombras fugazes de momentos únicos, leves e ligeiras, por nós captadas no éter (aether), que tentamos conseguir ilustrar e eternizar neste registro que efetuamos.
1 - Prayer for a New Meeting - 14:00
2 - The Gate - 9:15
3 - Forgiveness - 11:36
4 - Scenes of Wondering Beyond - 12:06
5 - Babel Tower - 7:26
6 - A Night on Bald Mountain - 19:29
“INNER VOYAGES BETWEEN OUR SHADOWS” - UM LIBRETO