Artigo do Expresso 22/8/98
Silence 4
A banda dos 4
Canhoto , o baixo dos silence 4 , nunca perde de vista o seu instrumento esquerdino , fabricado prepositadamente «para tocar ao contrário» , nem se esquece da escova de dentes que utiliza relegiosamente antes de cada concerto . «Não tem nada a haver uma coisa com a outra , mas não me dá geito tocar com os dentes por lavar . Parece que o som não me sai bem» , comenta Rui Costa , 29 anos , para o resto dos participantes , ao jantar , fazento humor com os seus tiques de hegiene . No canto oposto da mesa do restaurante , David Fonseca , 25 anos a estampa vocal dp grupo - , monta os pequenos aviões de plástico que comprara horas antes na papelaria de um restaurante de estrada: «gosto de brinquedos!» , concede .
A banda de Leiria está um bocado atarantada com o sucesso que lhe bateu à porta neste verão . Davis , apesar de ser o único elemento do grupo com o instinto do palco e do espectáculo , só agora aprendeu a reagir aos comentários do público feminino . Mas ainda fica atónito se duas jovens de mini-saia como aconteceu no estádio do Varzim lhe entram pelo camarim antes do enício do concerto que deram juntamente com os GNR e os Xutos & Pontapés . O vocalista não se furta a dar beijinhos da praxe na maquilhagem pegajosa das fãs poveiras mas não tem resposta quando uma lhe diz :«Tens uns lábios » Coloca-as for a do camarim , diplomaticamente , e desabafa : «Um homem ouve cada coisa ! eu até sei que elas dizem isso porque eu tenho olhos verdes e esta cara.»
A frequente repetição destes comentários provoca-lhe um incómodo sentimento de lisonja . «Já passei por todas as fases . Já lidei pior com isto , mas também já achei mais graça a estas cenas.» Prefere o contacto com as fãs adolescentes , que ficam com lágrimas nos olhos quando têm oportunidade de tirar uma fotografia com os elementos da banda . Algumas horas antes , no estádio do Varzim ouviu-se uma menina recomendar à amiga «Ó Ana , não chores » , de tão emocionada que se encaontrava por ter oportunidade de conhecer os músicos .
Quem prefere que David seja o centro das atenções é o baterista , Tozé Pedrosa , 27 anos . Fechado como uma ostra , até deve agradecer esta circunstaância aos seus deuses protectores . Tozé pertence àquela categoria de pessoas que gosta de canminhar descretamente por entre os pingos da chuva , o observar o exterior sem dar nas vistas . gentil e contido , só parece ter vontae de sair da concha quando mergulha numa brincadeira de gestos intimistas e tranquilos com as suas baquetas de madeira americana Pro Mark 717 .
Sofia Lisboa , 21 anos , a única voz feminina da banda , acaba por ser a mascote do grupo . Rejeita o estatuto , mas a verdade é que os colegas, o «manager» e os técnicos a tratam com especial carinho. Apesar disso , Sofia diz que que sente a «falta de uma companhia feminina » , durante a «tourné». David dá-lhe o mimo que pode a acompanha-a às lojas de Visela e da Póvoa do Varzim na busca de um biquini perfeito , para usar na Zambujeira . Não o encontra . «Sempre são duas peças para conjugar », mas aproveita a ternura do amigo , porque «ele é muito querido , quase um irmão mais velho» . Além disso , os Silence 4 são uma espécie de família , «muito unida, o que nos faz sentir quase como se estivéssemos em casa neste período de tournée em que vivemos de hotel em hote» comenta o baixo canhoto , cheio de saudades da sua gata : «Bichos dão trabalho em digressão.»
A chegada à Povoa foi atribulada . Eram 5 da tarde de sábado (8 de Agosto) , havia um nervoeiro cerrado , e os músicos anseavam por um banho e uma cama onde pudessem descansar umas horas antes do concerto daquela noite no estádio do Varzim . Setiam a ressaca do estectáculo da jornada anterior (em Francelos), que acabara às 4 horas da manhã . Dos cinco quartos inicialmente reservados quatro duplos para os homens da banda e equipa técnica , e um «single» para a Sofia- , o hotel Luso-Brasileiro só possuia um aposento disponível. O quarto 304 , sombrio, tinha nas camas desconfortáveis leçóis de «terylene» . O promotor do espectáculo resolve o incómodo, recambiando a banda de volta para pernoitar no Porto , onde já tinham dormido a última noite .«Pelo menos ficamos mais perto so Sudoeste» (festival na Zambujeira onde iriam tocar no dia seguinte), desabafa um deles.
Estes contratempos criam algum «stress» na banda . A vida de artista exige rodagem . E disciplina . AS luzes e os efeitos especiais no palco escondem as tiradas de 700 quilómetros feitas num só dia e as mazelas provocadas pelo desconforto das «pensões como aquela onde ficamos em Vizela». Sofia , leitora militante da BD «Cathy» , é uma menina da província que , de repente , se viu a cantar nos mesmos palcos onde actuam nomes consagrados internacionalmente , dos Portishead a P. J. Harvey , como no festival do Sudoeste.
Ao pé destas bandas , os Silence são meninos de coro . Têm a frescura de quem descobre um novo caminho , deslumbram-se com a reacção do público , mas, por enquanto, não se levam demasiado a sério : «Tocamos porque gostamos» , diz Rui , o único da banda com «formação (em música) clássica» .
A banda surgiu no ócio dos afectos , numa época (1995) em que «andávamos meio perdidos. As nossas tristezas começaram a fazer sentido, e começamos a ensaiar sem nenhum objectivo comercial». As letras de David , escritas em inglês , agarraram esta brecha e transformaram as palavras num veículo sem ruídos inquietantes. No projecto dos Silence 4 a palavra é um espaço que liberta e cura . A língua inglesa filtra a intensidade dos sentimentos, «porque é difícil dizer as coisas tão pessoais em português». Se a dor existe , há que tenter mante-la dentro do seu próprio território .
Para Além da sonoridade da língua inglesa , parece mais fácil inventar um alter-ego que diz «I was so lost im my pain.Fear was melting my brain» do que confessar cruamente «Eu estava perdido na minha dor. O medo consumia-me o cérebro» .
David caminha através das palavras coma mesma facilidade com que brinca com os aviões de plático comprados numa loja de estrada. Ocupam-lhe as mãos e emprestam-lhe a sensação de despreocupada leveza. Infantil e rebelde. Que o consegue manter imune ao sucesso que os apanhou de surpresa este verão e o obrigou, com mais três amigos (que apenas gostavam de se juntar paara tocar), a assumir uma disciplina quase militar. Comer a horas, dormir a horas e tocar a horas, sob a batuta do «manager» Luís Coradinho.
Coradinho criou-lhes o esteio da profissão, faz de pai e de mãe da banda, apesar de ser quase da mesma idade que os quatro músicos. «Gosto que eles jantem pelo menos duas horas antes de actuarem por causa da digestão», comenta, irritado, quando vê que estão a sair directamente do restaurante para o concerto, no estádio do Varzim. Entram para o camarim, daí passam para o palco. Duas ou três entrevistas às rádios da região e a relação com as fãs que conseguem furar a barreira se segurança asseguram-lhe o contacto com estranhos. Quanto ao resto, comunicam com o mundo por telemóvel. «Se não me telefonasssem a contar os ffilmes nem sabia o que andava por aí. Quase só falava com estes gajos», diz David.
O «manager» também é condutor da Renaut «Espace» que o grupo alugou para a «tounée» de Verão e onde percorre milhares de quilómetros, aos ziguezagues, pelo país. Os músicos descançame Luís aproveita o estatuto de motorista para controlar a intensidade do ar condicionado no interior do veículo. Sofia manifesta regularmente os seus protestos contra o sistema de refrigeração que lhe «dá cabo da voz».
A viagem para do Porto para a Zambujeira (entre as 10h30 e as 18 horas de domingo) deixa-os estafados. Entram nas trazeiras do palco do festivalcom uma nuvem de pó atrás e dirigem-se para dois contentores transformados em camarins que lhes estão reservado. Os vizinhos a frente são os Placebo, batidos nestas andanças. Ricardo Prestes, um dos «roadies» do grupo que dormira durante todo o caminho, acorda finalmente. Refila porque o frigurífico dos Placebo tem red Bull (uma bebida energética) e o deles não tem. Só água mineral, cerveja, Coca-Cola, e Seven-Up. O namorado de Sofia, acampado numa das tendas no exterior do festival, liga-lhe para o telemóvel. Durante cinco minutos, irrita-se e dicute com o «manager» porque este diz: «Quero toda a gente aqui às 21 horas para jantar.» Sofia percebe que não tem muitas hipóteses de passar um bocado com o namorado, apesar de já não ver à vários dias. Riu diz que quer tomar um banho: «Não aguento o meo próprio cheiro.» O baterista ensaia movimentos irreqietos das baquetas contra o ar pastosos do entardecer alentejano. Só vão actuar à 1h30 da manhã e estão assustados com a responsabilidade de encerrar o festival.«Não fomos nõs que escolhemos. Os Portishead é que têm de sair cedo», justifica-se Sofia. Sobretudo a si própria.
Aguardam ansiosamente pela actuação nos contentores abafados, que mais parecem uma casa num bairro degradado numa cidade sul-americana do que um camarim. Um dos homens da assistência, em tronco nu, fio e medalha de ouro ao peito, entrega-lhes uma cesta de fruta e uma tábua de queijos. David e Riu, mais serenos e traquejados, afinam as guitarras. Para o resto da banda a tensão só começa a baixar quando pisam o palco. Há um ano eram uma banda de Leira que gravava uma versão dos Erasure - «A little respect» - no CD colectivos Sons de Todas as Cores. Este Verão, a rádio gastou-lhes os temas «Borrow» e «Breeders» do promeiro album, «Silence Becomes It», e a bola de neve do sucesso começou a formar-se no alto da montanha. A editora Polygram apostou na divulgação do grupo e os organizadores dos festivais e concertos de Verão coresponderam aos desejos da editora. A banda dos quatro amigos de Leiria terra com poucas tradições nesta área começou a desbravar o caminho da profissionalização, antes de ter tido tempo de se habituar ao amadorismo.
No fecho do Festival do Sudoeste, o público aplaude-os e aguenta-os. São 2h45 da manhã. A banda dos 4 quer descansar. Quarta-feira vão tocar em Vila Nova de Milfontes, e na Quinta-feira no Armazém F, em Lisboa, no espectáculo de entrega do seu Disco de Ouro. Nessa noite, rudi Steenhuisen, director-geral da Polygram em Portugal, irá anunciar que«esta grande aposta» da editora já vendeu «40 mil discos, atingindo a platina». Sexta-feira têm uma folga inesperada : o concerto de Tomar foi cancela à última da hora e os Silence 4 dão pulos de contentes. Até Tozé, o mais silencioso dos quatro, brinca com a situação: «Há um ano andávamos sempre à espera de concrtos. Agora já gostamos de ter uma folga.»
Do trabalho. Das luzes de palco. Do silêncio em que cada um se encerra. Por agora, vão continuar a cantar palavras que elogiam o lado sagrado do silêncio, do não dito, e fluem numa articulaçãod e sons que mais não são do que um «remake» de projectos antecessores.