Reportagem jornal Blitz - Setembro 98


A música moderna portuguesa está cada vez mais bem escrita. E, não só a correcção ortográfica se encontra em muito boa forma, também cada vez maior cuidado tem sido empregue na produção de texto no que aos conteúdos morfossintácticos e semânticos diz respeito. O aperfeiçoamento da construção poética nacional quando conotado com música é notório e indicia um futuro sorridente para as novas bandas, conquanto provoca no ouvinte uma exigência lírica cada vez maior. O Blitz, ao longo de uma série de semanas e através da descodificação da poesia fabricada por algumas das mais significativas bandas da actualidade, tem tentado obter uma perspectiva mais interior e esclarecedora de como se realiza o processo de escrita, quais as fontes inspiradoras de cada « músico-poeta » e como é que tudo isso, bem ou mail, é depois condensado em poema cantado (ou dito dependendo do estilo). Os casos omissos, apesar de pelos quais me perdoar adiantadamente, justificam-se pelo processo de escolha, que não foi de todo aleatório: os candidatos responderam a provas-critério de qualidade, pertinência, coerência e qualidade musical inerente. Porque não se pode negligenciar a importância do suporte, não fosse este um jornal de música e as coisas andaram, nestes casos, sempre ligadas. Pretende a análise seguinte, portanto, depois de questionados sete autores- Pacman (Da Weasel), Miguel Guedes (Blind Zero), Darin Pappas (Ithaka), Ace (MC dos Mind Da Gap), Jorge Cruz (Superego), Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) e Xana - obter a visão alargada do letrista responsável pelos poemas do mais bem sucedido grupo português da actualidade, os Silence 4, de modo a traçar o retracto, mais ou menos fiel, como se quiser, daquilo que este dito país de poetas tem produzido e aplicado na música. Estilo e modas à parte.

SILENCE 4- A tristeza, o silêncio, a poesia David Fonseca, homem da frente do colectivo Silence4, vocalista e autor da maioria das letras e das músicas, manteve com o BLITZ uma conversa sincera, humilde e descontraída, que o próprio apelidou de « difícil », pela complexidade dos assuntos a tratar. De qualquer forma, « Silence becomes it », o único trabalho da banda até à data, foi dissecado até ao íntimo possível da sua substância a partir de trechos exemplificativos, tentando, de uma forma o menos teórica possível, descobrir o que é que as letras de David Fonseca (e Bruno Urbano e Sérgio Godinho) têm de tão único que conseguiram derrubar Netinho (e a legião de brasileiros que o seguem) do primeiro lugar do top nacional de vendas. « When was the last time your eyes saw me? I don't remember, was I on my sleep? You're dragging me down for what I am, maybe I never was what you planned. Soon I'll be dead, my words in your head will now be a shadow. All my feelings are broken, love just can't be spoken. No use in pretending sorrow, where will i be tomorrow? » (em « Goodbye Tomorrow » ) « O que escrevo são canções, não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Mas não há uma fórmula de escrever música, e muito menos canções, não existe um passo-a-passo, nenhum guia. As canções surgem de mil e uma maneiras. Por vezes tenho já uma letras escrita para a qual faço uma música, por vezes tenho já a música feita e faço uma letra, outras vezes não tenho num uma nem outra e surgem as duas ao mesmo tempo... Não existe de facto nenhuma maneira. E ainda por cima não sei música, o que torna as coisas um pouco mais fáceis, a meu ver. O que escrevo torna-se um pouco intuitivo, tanto em música como em letras. Em relação à temática , digamos que é o produto da minha imaginação na minha experiência pessoal. Costumo dizer muitas vezes que as experiências que eu relato nas letras destas músicas têm a ver com a minha vida, com o ambiente circundante, mas são por vezes um pouco ampliadas; ampliadas para as tentar perceber. Faço uma espécie de cirurgia à situação. E esses ambientes que descrevo, essas relações entre as pessoas são levadas um pouco aos termos do exagero, porque talvez seja essa a melhor forma de descrever o que realmente sinto, em relação às pessoas ou ao ambiente, porque senão ficar-me-ia pela descrição vaga do que se passa à minha volta e o que eu gosto de fazer é dar a minha percepção daquilo que realmente sinto. Por isso é que por vezes tento aprofundar mais um dos lados da situação (apenas um), para poder compreender aquilo como meu, como uma coisa que tem a ver comigo. E no fundo a temática toda da banda é a dor da perda, talvez o maior tema dos Silence 4 seja a perda, porque está implícito em 80 por cento das músicas. O amor e a dor da perda. Perda de alguém, perda do sentido, perda do sentido da realidade... quando falo em perder é num sentido muito generalizado, porque é mais fácil a pessoa sentir-se um perdedor que um ganhador. Quando uma pessoa perde fica mais frágil, fica mais triste e a tristeza é ainda um grande fonte de inspiração, para muitas pessoas, inclusive eu. Se estiver feliz não escrevo, é raro. Não escrevo sobre as coisas boas que se passam, essas gosto de as viver, as más gosto de as escrever. Talvez tenha um pouco a ver com o exorcismo de tudo o que é mau, para passar para outra fase... Quando se perde alguma coisa, e pode ser tudo (não se perdem só pessoas, perdem-se situações quando se fica sozinho, quando se é o último), uma pessoa sente um pouco a solidão de tudo isto e entende muito as coisas; por isso gosto de descrever a situação que se passa à minha volta porque assim é mais fácil entendê-la. Lidar com essa percepção é uma coisa um pouco brusca e violenta e daí nasce, então, a tristeza de tudo isto.» « in this room they're talking about love/ in this room they're talking about pain » (frases impressas no livreto de « Silence Becomes It») « Podia agora dizer mil e uma razões mas, muito sinceramente, não há nenhuma razão específica para o facto de eu escrever em inglês. Porque gosto. Mas pode, no entanto, haver uma explicação: escrevi um tema em inglês (?!?) para este álbum, que foi o «Eu Não Sei Dizer» e senti-me brutalmente chocado quando tive de o apresentar aos outros elementos da banda. E então percebi que se calhar é por causa disso que escrevo sempre em inglês, porque funciona como uma espécie de máscara, daquilo que eu de facto quero dizer e assim o que estou a dizer parece-me menos óbvio. Tive uma imensa dificuldade para apresentar aquele tema aos membros da banda, quanto mais gravá-lo em disco. Penso que talvez isso tenha a ver, mas é basicamente porque gosto muitoda língua , da sonoridade, e sinto-me muito à vontade a escrever em inglês. » « I don't want to burn them/ I don't want to read them/ Old Letters/ I don't want to read them/ But I do/ And I burn/ for you » (em « Old Letters» ) « O problema da exposição é algo que nunca passou pela minha cabeça. O que de facto eu quero fazer ( e quando escrevo música, escrevo sozinho é escrever sobre aquilo que quero e gosto, nunca penso se vai haver exposição, escrevo sobre aquilo que me apetece escrever, não há nada que me impeça. Só depois é que percebo que há uma certa exposição, mas isso não me preocupa: a exposição, no fundo, é muito leve... o álbum não e um diário aberto à minha vida, até pelo contrário, são pequenos fragmentos. É mais fácil para mim falar de coisas que têm a ver comigo que falar dos tais produtos da imaginação com os quais só me identificaria na minha imaginação, não se passam de facto. A melhor maneira que tenho de fazer música com a qual me identifico e sobre a qual possa sentir que é minha e tem a ver com o meu universo, é de facto falar sobre as coisas que me rodeiam, e que falam sobre mim. O « Old Letters» é um desses casos, que fala, ainda que superficialmente, daquilo que se passou em certa alguma comigo. O objectivo nunca é a exposição, nem é sequer , através da exposição, ir buscar alguma intensidade. Tem a ver é com franqueza: eu sou muito franco, nas letras que escrevo...ás vezes franco demais... Isso aponta, é óbvio, para alguma fragilidade em mim. Quando uma pessoa é muito verdadeira e explica as coisas de uma forma muito crua e real é óbvio que isso fragiliza: fragiliza-me mais do que se eu tivesse contado mentiras no álbum todo. Só que de mentiras já estava eu farto e penso que se queria fazer uma coisa que tivesse a ver comigo mais valia pôr para fora alguma parte de mim com a qual me pudesse identificar mais tarde. » « Everything is worth while, I regret the times I didn't spend, watching the flowers grow; It doesn't seem to matter anymore who's up or who's losing, and my children look so strang. Our problems start when we don't die young » (Em « Dying Young», letra de Bruno Urbano) « O Bruno é um amigo meu há anos e foi devido a ele que eu comecei a escrever. Ele gostava de escrever e deu-me algumas letras para eu fazer músicas se quisesse. Podemos dizer que o primeiro processo foi esse, tinha as letras e depois fazia as músicas para elas. Duas dessas são as que estão no álbum, que são o "Breeders" e o "Dying Young". Ele escreve ainda muito para os Silence4 e quando os universos se cruzam, e eu sinto-me muito identificado com muitas das coisas que ele escreve, gosto de cantar as letras dele porque acho que ele escreve muito bem, de maneira diferente como eu acho que escreveria, e eu gosto disso, senão era tudo igual., tornava-me num viciado no meu próprio mundo e isso não quero. Quando li a letra pela primeira vez achei que era fantástica, tinha muito a ver comigo. "Dying Young" é uma ironia, e a forma como a própria música foi feita, estrita e assumidamente pop, muito alegre... costumo dizer que é uma música de Verão... Este tema é talvez a ironia mais forte de todo o disco. Penso, na maneira como interpreto essa música, que quanto mais se progride mais uma pessoa se enterra na própria vivência, na própria vida. Quero com isto dizer que tudo piora quanto mais velhos somos... é muito difícil falar nisto muito directamente porque é um tema um pouco vago, mas a minha percepção do tema é que quanto mais para trás for na minha vida, mais simples as coisas me parecem. Há cinco ou dez anos a minha vida era em tudo muito mais simples, muito fácil... mais inocente. E quando se perde um pouco a inocência, começam então a vir os problemas... "Our problems start when we don't die young". Acho que se todos morrêssemos novos nunca teríamos problemas, não haveria essa fobia do tempo e do envelhecimento, e da percepção da realidade , a perda da inocência, do avançar lento, a perda das possibilidades físicas....é um conjunto de coisas que pioram com a idade, isto de uma maneira muito negativa. E foi por isso que quis que a música fosse assim, tão alegre, porque é um tema que gostava que fosse visto como uma ironia ao próprio sentido da toda a vida, um pouco uma questão sobre o que é essa vivência e o representa ela para cada um de nós.» «Should I get clinical ou should I speak louder? » (Em «Angel Song») « Essa música é das mais difíceis de falar, para mim, porque é, não tenho qualquer dúvida, a música mais pessoal de todo o disco. Não sei o que será mais fácil, e eu já estive nas duas fases, a clinical one e a louder one. Do que falo nessa parte da música e na música inteira é de uma espécie de luta entre dois eus próprios, entre duas pessoas dentro de mim, o certo e o errado, o que é certo a fazer numa situação de limite em que uma pessoa segue os seus sentimentos, a sua alma e o seu coração, coisas que quando nos guiam nos deixam destruírmo-nos facilmente. Não é fácil falar mais alto, ter essa atitude, porque quanto mais alto se fala também com mais intensidade vem essa esposta, seja ela negativa ou positiva. Penso que seja mais fácil a parte clínica da questão, uma espécie de acomodamento, embora não seja aquilo que pessoalmente faria: geralmente tento tudo antes de chegar a alguma parte. Mas sei que há partes da minha vida (e isso acontece a toda a gente) em que é mais fácil lidar com os problemas e com as dificuldades por que passa uma relação (e este tema fala de uma relação), quando se chega a um certo ponto... digo nessa música que estava a tentar sobreviver, ficar vivo, mas apercebo-me de que não, de que estou morto. O que é que seria mais fácil, a pessoa tentar sobreviver a tudo o que se passa de mau na vida e depois chegar a uma altura em que, depois de experimentar e lutar, chega à conclusão de que já não vale a pena porque já padeceu há muito tempo? Será mais fácil de uma maneira, será melhor da outra ? (pausa) É muito difícil para mim falar disto, sinceramente, porque para mim é muito claro do que estou a falar, se calhar para ti não é... (longa pausa) Também nessa música digo "should I close my eyes for years and wait for the strongest feeling out of all the feelings to raise from you". O "close my eyes for years" tem um pouco a ver com essa decisão de acomodamento, de facilidade, visto que a violência e a turbulência e o facto de gritar mais alto e tentar mudar por vezes não resulta e caí-se facilmente na vaga esperança de que algo mude pela apatia, o que é uma mentira. Mas quando se trata de assuntos tão frágeis como estes é fácil cair tanto na apatia como no desespero. Há várias barreiras fáceis de transpor e de facto não sei, se tiver de dizer a alguém o que fazer... sou um péssimo conselheiro, não sei de facto qual é a melhor escolha: "should I get clinical ou should I speak louder ?" é uma pergunta e eu não sei qual é a resposta, não faço a mínima ideia.» « I guess I was trying to keep me alive but once I was dead there was nothing to do beside picking me up and lying me down, waiting for some angel to wake me and say to me "Hello. Don't be scared. I want you to know you're not dead"» (Em «Angel Song»); « I thank God for my good good friendes. But where's this God that I mention where is he right now, as I die as slowly as I can» (em « My Friends»). «Não tenho medo da morte e encaro a ideia da minha morte muito bem. Como dizia a minha avó Gertrudes ( que é das pessoas que eu mais admiro por ter passado na vida tantas contrariedades e ser uma pessoa forte), a úncica coisa que temos certa na vida é a morte. E eu não vejo isso como uma fatalidade, como uma coisa horrível, ou um abismo porque sei que é o mais normal, não é algo estranho como ter um acidente de automóvel. A morte é inevitável. O que acontece nesses momentos de desespero é que se vê a morte como uma saída fácil, o que é obviamente, uma ideia um pouco suicida. O que eu acho que se vê nas letras é que, apesar de eu perceber a morte como uma maneira fácil de resolução do desespero, não é o meu caminho, não a entendo como um caminho. Amo a vida mais do que qualquer coisa, não há como fugir a isso. E, no fundo, os pensamentos que me assaltam são os mesmos que toda a gente. Houve alturas, e há alturas, em que as coisas não foram muito fáceis para mim e se revêem nessa fragilidade, que é o fugir para uma solução óbvia e fácil que resolveria tudo de uma vez por todas, mas chego sempre à conclusão de que essa não é a minha solução, não é o meu caminho. Nas minhas letras existe sempre, de facto, algo À volta desse assunto, porque me mostra como tudo é tão vago, como falar na morte reduz um pouco a importância de tudo, do desespero, do significado que damos às coisas, sabendo que pode tudo acabar a qualquer momento. Penso que se toda a gente encarasse a vida como se só tivesse mais uma semana, faria as coisas de forma diferente. E gosto por vezes de ter essa ideia perto de mim para me manter fidedigno àquilo que quero ser e construir. Se tiver a diea da morte perto de mim, e é uma ideia calma, talvez não caia em erros, coisas que me arrependerei mais tarde; talvez faça as coisas com os olhos mais abertos, com a alma mais aberta. » « É por tudo o que em nós corre que se vive e que se morre. Eu toco, eu fujo, eu volto, eu passo, giro nos meus seis sentidos. Eu desço à terra e subo ao espaço, agarrado aos seis sentidos. » (em « Sextos Sentidos» letra de Sérgio Godinho). « O Sérgio Godinho é um dos melhores escritores que temos no nosso país, e em termos de canções, é, para mim, o melhor escritor em língua portuguesa. Identifico-me no geral com os temas dos Sérgio Godinho, porque ele tem a capacidade de escrever sobre temas como a perda, o amor, a dor, de uma forma como mais ninguém consegui. A maneira como escreve e canta, a forma como articula as palavras nas canções... é um verdadeiro escritor de canções, um "songwriter". E identifico-me com ele pela fragilidade que revela nos temas que escreve, as situações que descrevo no mundo em que se movimenta, tudo isso me é um pouco familiar, a mim e penso que a toda a gente. Um dos grandes fascínios da música do Sérgio Godinho é isso, ser tão universal, ser intensa para cada um de forma diferente. » «She and me we don't talk much it's true; we just don't talk, that isn't new» ( em «We») ; Instead of the usual small talk we just stayed there and waited» (no texto da contracapa do liverto de «Silence Becomes It»); « No words, No pain» (no livreto) «Se eu fosse obcecado por alguma ideia, penso que seria a ideia do silêncio não o silêncio como o contrário de barulho mas como forma de calma, de articulação entre gestos, palavras e música. Para mim, o silêncio é base fundamental do que se passa à minha volta. Por vezes penso que é tão fácil magoar-mo-nos uns aos outros com palavras... é a coisa mais fácil do mundo. O silêncio, a própria ausência de palavra e de discurso poderia fazer com que se tornasse mais fácil entender aquilo que está mal, aquilo que está bem e aquilo que me é doloroso e o que não é sem haver essa troca de palavras. Seria tudo mais fácil, verdadeiro, não haveria enganos, não haveria enganos, não haveria o problema de dizer as palavras no momento errado. Se numa relação as pessoas não se conseguirem entender pelo silêncio muito dificilmente se conseguirão entender por palavras, esta é a ideia que eu tenho. Existe uma música, que dá o título a este álbum, "Silence Becomes It", que diz "with no words no one can get hurt": o silêncio é realmente a melhor forma de haver uma comunicação mais verdadeira sem mentiras- as palavras soam-me logo a mentiras. »

 


Mónica Guerreiro