ESSES MULEQUE É BRABO, VÉIO!!

Ricardo Franzin


Hoje, o Raimundos é uma das mais bem-sucedidas bandas brasileiras. A consagração definitiva do quarteto de Brasília deu-se no último Monsters Of Rock, evento no qual foram ovacionados pela platéia presente, uma recepção de dar inveja a quase todas as outras atrações internacionais do festival. Para agradecer o carinho que vem recebendo do público desde o lançamento de seu primeiro álbum, o Raimundos está lançando o presente de Natal ideal para quem é fã da banda: um pacote, chamado Cesta Básica, que inclui um CD com faixas inéditas, ao vivo e covers, um vídeo e uma história em quadrinhos sobre o grupo, desenhada por Angeli. Rodolfo (vocal) Digão (guitarra) e Canisso (baixo) falaram à ROCK BRIGADE sobre Cesta Básica e sobre sua grandiosa (embora polêmica) apresentação no Monsters de 96.

RB - Queria que vocês explicassem o que é esse Cesta Básica?
RODOLFO - É um pacote que a gente vai lançar agora, com material pra galera. A gente sempre lança álbum de ano e meio em ano e meio, saca? O Lavô Tá Novo a gente trabalhou pra caralho, e chegou uma hora que a galera estava pedindo mais coisa do Raimundos, mais material. Mas a gente nao está com plano de lançar disco novo ainda, só lá pelo meio do ano que vem. E a gente tinha esse material aí encalhado, tava a fim de fazer uns covers, tocar essas "peãozisses", sempre quisemos tocar essa música aqui (aponta para Essa É Sua na capa do CD) em inglês...

RB - E qual foi o critério para a escolha dos covers e das outras músicas?
RODOLFO - A gente ia tocar também uma do Suicidal (How Will I Laugh Tomorrow), só que ficou ruim demais. Ruim, ruim demais. Não tem jeito, a gente não sabe tocar pra tocar Suicidal. Aí tocamos essas aí mesmo, que são mais toscas. Tinha mais músicas que a gente podia colocar, da época em que a gente era mais banda de cover, quando era o Digão na bateria, eu na guitarra e o Canisso no baixo. Daí, quando entrou o Fred (bateria), nós viramos banda mesmo. E esses são covers remanescentes da época. As ao vivo a gente colocou as que a gente sente que a galera gosta mais. Puteiro (em João Pessoa) a gente não colocou porque já tinha a versão remixada. Colocamos algumas músicas que não foram muito trabalhadas, tipo Palhas do Coqueiro, que nós só fizemos um videozinho meio boca...
CANISSO - E tem músicas que a gente fez algumas alterações, que a gente toca diferente, que a gente gravou de um jeito e que, com o tempo, fomos dando uma interpretação nova, inventando umas paradas. E algumas que têm participação do público também. Em Esporrei (na Manivela) a gente mostra bem a participação do público, com o Rodolfo largando os vocais, só no triangulozinho, com aquele clima bem ao vivo mesmo.
RODOLFO - E também não tinha como a gente lançar esse material num CD só com isso. Como a gente já estava com o vídeo engatilhado, uma coleção de quase 40 fitas, foi uma oportunidade boa de juntar tudo.

RB - O que é esse vídeo exatamente?
RODOLFO - Basicamente, são imagens da gente na estrada, tipo quando a gente foi pra Los Angeles, essas babaquices, a gente queimando o filme lá, cenas de estúdio, tem um monte de porra, vários shows. A mulher dele (do Canisso) vai junto e filma um monte de coisa. E tem o clip de Puteiro, que a gente não lançou pro primeiro disco, a gente fez o clip agora. E tem todos os nossos clips. Tem a gente na Espanha, ah, tem um monte de coisa.

RB - E o lance da historinha do Angeli?
DIGÃO - Foi idéia do nosso empresário botar o Angeli. Eu fui lá e deia a idéia mais ou menos do que ele devia fazer.

RB - E vai sair tudo num pacotinho?
CANISSO - É, tudo num pacotinho bonitinho, edição limitada. Vai ser um lance pra brodagem, só pra quem aprecia realmente. Eu acho que é uma boa idéia pra um presente de Natal.

RB - Houve uma certa celeuma a respeito da inclusão do Raimundos no cast do Monsters Of Rock deste ano. Tem muita gente que achou um absurdo vocês terem tocado depois do Helloween e do Mercyful Fate.
DIGÃO - Cara, as pessoas que falam isso, na boa, são pessoas que usam..
CANISSO - (interompendo) Não, 'brother', eu entendo, eu entendo. Mas isso é treta de empresário, a banda nunca tem nada a ver com isso. Se o empresário do cara já não tem mais tanta...
DIGÃO - (interrompendo, depois de já ter tentado várias vezes) Mas eu só digo uma coisa: pergunta pra quem tava lá qual foi a banda que mais agitou o público, qual a banda que fez mais neguinho pular. Foda-se se é o Helloween, qual é o problema? Os caras respeitam... (Canisso tenta interromper). [Para Canisso] Cala a sua boca que eu tô falando! Se você quiser, você divide, Canisso e Digão, pára de me encher o saco, velho.
CANISSO - Pô, você tá falando isso pra uma revista especializada em heavy metal...
DIGÃO - Vou falar mesmo, cara, vou falar o que eu penso, sacou? Daí você fala o que você pensa. Eu não tenho direito disso? A coisa é dividida, então não enche o meu saco, 'brother'. (volta-se para o entrevistador) Qual o problema disso então? A gente toca porrada também, a gente tocou porrada lá e todo mundo gostou. A gente mostrou que a gente atua em qualquer área, não tem essa de delimitação, ah, metal...
CANISSO - Mas não é culpa da gente, é treta de empresário.

RB - É que o pessoal tem dito que foi um desrespeito às bandas de fora.
CANISSO - Você quer ver um lance de desrespeito que eu acho horrível, mas que é treta de empresário também? Mothörhead tocar antes do Skid Row. Na minha concepção, Mothörhead tinha que fechar a noite de um jeito ou de outro, até mais do que o Iron Maiden. Porra, Mercyful Fate abrindo para a banda do King Diamond? Tinha que ser o contrário, é uma questão de hierarquia. Mas nunca rola assim, o que rola é a hierarquia dos empresários.
DIGÃO - Eu tava lá tocando e tinha UM cabeludo com a camisa do Iron Maiden mandando dedo pra mim, enquanto tinha 200 mil pessoas se amarrando.
CANISSO - Tipo, eu adoraria ver o Ratos de Porão, o Dorsal Atlântica, o Overdose e, sei lá, o Sepultura pra fechar a noite. Não precisa de nenhuma atração gringa, precisa? Mas eu acho que a gente deu sorte de chegar num ponto em que a gente vai se encontrar com esse público de Iron Maiden em vários shows e eles vão curtir, porque as nossas influências são as mesmas, a gente, em detrimento de ganhar dinheiro e adaptar o nosso som pra uma proposta mais pop ou virar uma bandinha engraçadinha, investe cada vez mais no som, cada vez mais em tentar tocar rápido e pesado.

RB - Mas, na verdade, não é bem isso o que se discute. O que se discute é que vocês estão tocando toda hora em todos os lugares do Brasil, enquanto uma banda como o Helloween, que nunca veio para cá, tocou menos tempo.
CANISSO - Mas isso é coisa de momento também. Na época em que o Helloween estava no ápice, nunca se interessou em vir tocar aqui. Se a gente for analisar a fundo, vai ver que são bandas que, de repente, já trocaram vários membros. E eu acho que no momento que a gente entrou no palco junto com aquelas caras, só a gente, tínhamos toda a responsabilidade. Afinal de contas, a gente tinha sido o único que passou nos requisitos, quer dizer, eu acho que tem um monte de bandas que deveriam estar no nosso lugar ou do nosso lado. A gente já tem três festivais grandes em menos de dois anos e pudemos aumentar pra caralho o nosso público. A gente dá show todo fim de semana, é como se a gente tivesse "reensinando" as pessoas a respeitarem som pesado, por isso, vamos abraçar todas as chances com unhas e dentes. Ao meu ver, tinha que ter mais bandas tocando com a gente. O Ratos de Porão... eu não sei qual é o problema, se é treta de empresário. Na Espanha, os caras são reis. A gente tocou com eles lá e sabe quem abriu pra eles? O Exploited.
DIGÃO - E é fácil falar, mas nunca uma banda brasileira tem o mesmo tratamento das gringas nesses festivais. Nesse, a gente quase conseguiu, mas sabe como? Na briga, na porrada. Tive que chamar um produtor pra porrada lá, não queriam deixara a gente passar o som. É por isso que eu falo, eu tô com o saco cheio desses gringos, cara. Pôm o Iron Mainden não queria deixar as outras bandas usarem 'intellabean' [N. do R.: tipo de luz computadorizada], que é um equipamento que já tem uns 20 anos. Aí neguinho vem me dizer que foi um desrespeito ao Helloween? Desrespeito o caralho! Os caras não agitaram ninguém.
RODOLFO - Eu acho que, nesse negócio de festival, claro, tem sempre aquele negócio de quem vai tocar primeiro, quem vai tocar depois porque não dá pra tocar todo mundo ao mesmo tempo. Tem público pra todo mundo e, se for pra uma banda agitar a galera, vai agitar tocando em primeiro, tocando em segundo.

RB - E o que foi que rolou de treta entre vocês e o pessoal da produção?
DIGÃO - Foi o seguinte: metade da produção nacional e os gringos fizeram uma puta pressão pra cima da gente, fodida, fodida. Eu fico triste que a parte nacional, que devia ter orgulho de ter uma banda brasileira fazendo bonito ali no meio dos caras... Pô, a gente é humilde pra caralho, sempre queremos ajudar. E o que aconteceu? A nossa passagem de som atrasou duas horas. Tudo bem, velho. Se neguinho tá com problema, vamos ajudar. Esperamos e, quando foi a nossa vez, faltava uma música pra gente passar o backing vocals. E o cara não queria dar três minutos pra gente. Ele entrou no meio do palco, falando que tinha acabado, e a gente tocando a música. Então, cara, a gente não teve nenhum tipo de regalia.

RB - Voltando ao Cesta Básica, ele continuará disponível ou é uma edição limitada apenas para o Natal?
CANISSO - Depende, está em aberto. Eu tenho a impressão de que, depois do Natal, eles (a gravadora) devem desmembrar e, se rolar uma procura, vender tudo separadamente. Porque isso é uma coisa meio nova. Acho que ninguém teve essa idéia, ninguém tinha feito esses lance de caixa antes.


DISCOGRAFIA

Raimundos (94), Lavô Tá Novo (95), Cesta Básica (box especial/96)


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