LAPADAS* SOFISTICADAS

EM LOS ANGELES, RAIMUNDOS GRAVAM DISCO "AMADURECIDO" E SEM PARAIBADA

por JOSÉ EMILIO RONDEAU


Tarde quente e pegajosa de verão em Panorama City, subúrbio nos cafundós-do-judas do Vale de São Fernando, o cinturão de freeways e smong que abraça a parte norte de Los Angeles. Nas paredes do estúdio Sound City, discos de ouro atestam o nobre currículo do local: foi ali que o Fleetwood Mac burilou Rumours, um dos marcos pop dos anos 70; lá mesmo o Nirvana arquitetou o clássico Nevermind. Tom Petty, Rage Against The Machine, Red Hot Chili Peppers, a lista de artistas que trabalharam no Sound City é extensa. E agora inclui também Raimundos, na área preparando seu novo disco, Lapadas do Povo, novamente produzido pelo inglês Mark Dearnley. O estúdio é pequeno, mas a sala de gravação inclui uma mesa de pingue-pongue, na qual a banda, nas horas vagas, joga "squash de mesa" ou "pingue-pongue de teto". O ambiente informal, entretanto, contrasta com a verdadeira atitude dos músicos: concentração, sintonia fina, trabalho duro.

Os Raimundos não são mais os mesmos, e isso é mais que natural: trabalham diferente - e soam diferente. Mais sofisticado que os anteriores, o novo disco traz letras repletas de bem sacados jogos de palavras (como "Andar na Pedra", "Nariz de Doze" e "Ui, Ui, Ui", esta uma composição de Martinho Lutero, da banda brasiliense Filhos de Mengele) e uma sonoridade compacta que, mesmo pesadíssima ("Véio, Manco Gordo"), suinga também ("Baile Funk"). Lapadas do Povo possui a mesma importância na carreira dos Raimundos que Selvagem? teve na dos Paralamas: é um disco redefinidor.

E representa a primeira vez que todos os Raimundos compuseram e gravaram todo um álbum juntos e no estúdio. "Os quatro juntos mesmo, sacou?" reforça Rodolfo, vocalista e letrista. "Nos outros discos neguinho vinha com a música separada, sacou?". O baterista Fred completa: "Antes o Rodolfo compunha a maior parte das coisas e dava pra gente. Dessa vez o Digão compôs pra caralho".

O guitarrista elabora: "Tinha umas coisas que eu já ficava viajando quando eu morava sozinho. Tinha a viola lá, todo dia acordava, fumava um e aí começava a pirar nuns timbres, uns lances de fica tocando em ré, sacou? Eu juntei um monte de coisa, uns riffzinhos, e deu em 'Baile Funk', 'Andar Na Pedra'..."

O consenso geral é de que a banda está bem diferente daquela que se apresentou ao mundo com "Puteiro em João Pessoa". "Todo mundo muda", diz Rodolfo. "O tempo passa. Você aprende muito, né?".

"A diferença vem na forma de trabalho", adiciona Fred. "Rola um senso de responsabilidade. Ainda tem muita molecagem por trás. É saudável não perder a atitude antiga e não bater continência quando passar por um empresário ou pelo produtor. Isso não, neguinho ainda é moleque, mas a forma de trabalho mudou. É bom fazer música, a gente gosta, mas é emprego. Você tem que fazer, tem disco para lançar".

Outro detalhe no novo álbum é a virtual ausência de palavrões, sempre associados ao trabalho do grupo. "Desde o início a gente deixou bem claro que o palavrão era usado dentro do contexto", explica Rodolfo. E não queira chamar a música dos Raimundos de forró-core. "Esse negócio de colocar forró nas músicas, a gente não está nem aí pra isso. A gente tá levando o nosso som. No disco novo tem até uma música que lembra forró, mas é peso, não tem essa busca, saca?". "Uma música que, aliás, se chama 'Samba'", acrescenta Digão, antes de Fred emendar que "Samba" e só "apelido, a gente ainda não achou nome pra ela".

Fred admite "uma pitada de culpa do grupo" na associação com o rótulo forró-core. "A gente gostava, achava maneiro", completa Digão. "Eu odiava!", lembra Rodolfo, rindo. "Desde o começo a gente deixou claro que Raimundos é uma banda de rock", intercede Fred. "Aquele negócio de forró-core quase ninguém mais fala. A gente está se firmando como uma banda de rock. As músicas que mais tocaram do último disco foram as mais pesadas. Ponto para a gente".

Durante os dois meses passados em L.A., quando não trabalhavam, os músicos estavam fazendo ginástica no hotel onde se hospedaram. "Isso trouxe união. Pra caralho", decreta Rodolfo, enfatico. "Nos outros discos, numa hora dessas estaria cada um para o seu lado, cansado. Nesse, todo dia estamos juntos. O Raimundos nunca esteve tão unido", assegura Fred. "Também, não tem para onde fugir!", brinca Digão. "A gente está malhando e nadando. Muito mais saudável do que se estivesse no Brasil".

Entre as lapadas do novo disco, há pelo menos uma tentativa de fazer carreira internacional cantando em inglês: um cover de "Oliver's Army", do repertório de Elvis Costello. Pera lá: Raimundos gravando Elvis Costello? "Era uma música cheia de floreios, a gente penou e depenou ela toda", pondera Canisso, recém-chegado do aeroporto, onde foi buscar a mulher e os dois filhos. "A gente fez uma versão rápida, meio ska. Com certeza Joey Ramone escuta Elvis Costello. Essa é a ligação", mata Digão. A sugestão, na verdade, veio do produtor Mark Dearnley. "Ele é louco para gravar a gente em inglês desde o Lavô Tá Novo. Dessa vez, chegou logo perguntando qual das nossas músicas poderia ser traduzida. Mas para fazer a versão tem de ser um americano escrevendo com a mesma malícia, só que com as coisas daqui", pondera Rodolfo, sabiamente.

A um mês de concluir Lapadas do Povo, os Raimundos já estavam loucos para voltar pra casa. Mesmo porque Los Angeles, onde estiveram mixando Lavô Tá Novo, não é das cidades favoritas da banda. "É meio nojenta, né?", diz Canisso. "Todo mundo quer aparecer, todo mundo é star. Até as garçonetes". O baterista Fred completa: "Chega de estúdio. Estou louco pra tocar ao vivo".


* Lapadas? O Aurélio ensina: pauladas, cacetadas, pedaços alongados de alguma coisa, bofetadas, pedradas, lambadas... O povo grosso já sabe: pequenos golpes aplicados com o pênis, bastante comuns em filmes pornôs.


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