MAIS POVÃO QUE NUNCA!
Fernando Souza Filho
Quebrou a cara quem esperava que o Raimundos iria adocicar seu
som por causa do sucesso que os caras alcançaram nos últimos
dois anos. Lapadas Do Povo, o novo álbum, traz a banda mais
porrada que nunca, com várias faixas altamente hardcore (veja
resenha no final desta matéria). Rodolfo (vocal), Digão
(guitarra), Canisso (baixo) e Fred (bateria) encontraram com a
BRIGADE para mais um bate-papo, no início de outubro, para falar
do disco novo, da treta do Monsters of Rock 96, da temporada na
Califórnia etc.
ROCK BRIGADE - É mais do que óbvio que todo
mundo esperava o Raimundos mais leve para esse álbum. No
entanto, vocês fizeram justamente o contrário. O que aconteceu?
CANISSO - A banda já tem nome, um público
assegurado, poderíamos escolher fazer algo mais 'soft', de fácil
digestão. No entanto, somos parte dessa galera que vai nos ver,
que curte som pesado, que vai ao show de Pantera e Sepultura.
Esse álbum é uma forma de respeitar essa galera, o gosto dela.
Fizemos esse disco para esse pessoal, não importa quantos discos
vá vender. Não queremos vender um milhão de CDs, ninguém aqui
quer virar Skank. Temos consciência de onde viemos e temos muito
respeito pelo nosso público.
RB - Esse peso todo é reflexo da atual fase
criativa da banda ou das circunstâncias da gravação do álbum?
RODOLFO - Até o Lavô Tá Novo, conseguimos
fazer os discos em dois meses, pois metade deles já estava
composta. Para esse novo, quando entramos em estúdio, não
tínhamos nada pronto. Antes, estávamos ensaiando e compondo no
estúdio que está sendo montado na casa do Canisso. A bateria
era uma eletrônica do Fred e não tinha equipamento nenhum para
o vocal. Eu cantava 'ao vivo', sem nada.
RB - Vocês gravaram tudo nesse estúdio?
CANISSO - Parte da gravação foi feita lá e a
maioria das músicas nem tinha letra ainda.
RODOLFO - Tem música que a gente ainda nem
tocou junto! (risos) Só que, sinceramente, nunca mais eu faço
isso, pois, se não fosse a colaboração de todos, não sei como
isso iria sair não. A banda toda compôs nesse disco.
CANISSO - Se a gente tivesse mais tempo, sairia
ainda mais porrada. Várias vezes a gente chegou a achar que não
iria dar tempo, mas fomos em frente e cumprimos tudo que estava
programado.
RB - O fato de finalizar o trabalho em Los
Angeles, isolado de tudo, ajuda ou atrapalha?
RODOLFO - Para a gente se concentrar, ajuda
muito, pois só pensamos na música o tempo inteiro. Nós
passamos três meses em Los Angeles e não saímos quase nunca à
noite. Uma vez fomos num show do Suicidal (Tendencies) e outra
fomos ver o Ozz-fest. O resultado disso tudo foi que esse disco
é muito sincero.
RB - Isso se refletiu também nas letras?
CANISSO - Com certeza. Se você prestar
atenção, vai ver que não tem mais palavrão gratuito. Ainda
tem um pouco de nossa sacanagem habitual, mas isso já faz parte
da gente.
DIGÃO - Esse disco nem tem palavrão!
CANISSO - Tem "cagar",
"peidar", "merda", "filho da
puta"... Uns palavrões mais "leves" (risos), mas
inseridos num contexto.
RB - (P/ Digão) Você gravou as partes de
guitarra com equipamento do Steve Vai. Como rolou esse lance?
DIGÃO - O som que eu estava tirando lá (no
estúdio de Los Angeles) não estava saindo muito legal. Aí, o
cara que trabalhava no estúdio conversou com o Steve Vai e disse
que uma banda brasileira estava gravando e o equipamento não
estava respondendo muito bem. Foi então que o Vai emprestou um
SansAmp e um 'speaker simulator'.
RODOLFO - Quando o Digão testou o equipamento
ele até tremeu! (risos) Ele emprestou sem cobrar nada!
RB - Isso gerou uns riffs absurdamente pesados
no CD.
DIGÃO - E gravei só uma dobra!
CANISSO - E depois comprou uma guitarra igual à
do Cheap Trick (risos).
RB - Como é que foi essa história?
DIGÃO - Foi uma Explorer, da Hamer, que só tem
200 exemplares no mundo. A gente passou uma tarde na Guitar Shop
(loja de instrumentos musicais de Los Angeles) testando
guitarras, até encontrarmos a que eu queria.
CANISSO - Eu comprei um baixo igual ao do cara
do Green Day, que passei quase dois meses "namorando"
até decidir comprar. Eu comprei quando a loja fez uma grande
promoção e o preço caiu para menos na metade.
RB - As famosas "faixas de trabalho",
aquelas que rolam nas rádios, normalmente são as mais leves do
álbum. Só que Andar Na Pedra, que está nas rádios rock, é
bem porrada para os padrões de "faixa de trabalho". A
escolha dessa música foi de vocês?
DIGÃO - Foi escolha nossa e do Muniz
(empresário da banda).
RODOLFO - Essa música tem uma história
interessante. Há muito tempo, eu e o Digão fomos para uma
fazenda e fizemos Puteiro, Cintura Fina (ambas do primeiro álbum
do Raimundos) e Andar na Pedra, que só agora estamos usando.
DIGÃO - Essa música retrata bem o caminho que
o Raimundos percorre, pois seria facil nós cairmos para o lado
comercial da coisa...
CANISSO - Mas não queremos seguir fórmulas
manjadas de reggaezinho, rock engraçadinho, etc.
DIGÃO - Por isso, mesmo que nossos pés estevam
doendo, preferimos percorrer o caminho das pedras.
RB - A música Bonita tem um pique mais
"Ramones-de-rádio", daquelas que a galera canta junto
nos shows. Ela não seria também uma boa faixa "de
trabalho"?
DIGÃO - A Bonita é linda, né cara? (risos)
FRED - O Rodolfo compôs num momento de saudade,
quando estava em Los Angeles. Todo mundo tinha levado alguém da
família ou namorada, só ele que não.
RODOLFO - (meio sem graça) Tá certo que houve
essa "inspiração" sim, mas nós já tínhamos
intenção de fazer a música desse jeito.
RB - A letra de O Toco fala de umas situações
estranhas que parecem ter sido realmente vivenciadas por vocês.
Elas são baseadas em fatos verídicos?
RODOLFO - Uma vez, saindo de um show, tinha uma
galera correndo atrás da van em que a gente ia. Estava escuro, o
motorista dirigindo rápido, passava por portões e mais gente
aparecia. Pareciam mortos-vivos de filme B! (risos) Depois, o
Fred teve um sonho esquisito que não conseguia lembrar direito.
Resolvemos juntar as duas coisas e fazer uma história só, como
se ele tivesse sonhado a "fulga dos zumbis".
RB - Como pintou a escolha do cover do Elvis
Costello (Oliver's Army) que, a princípio, não tem nada a ver
com o Raimundos?
CANISSO - A gente só ouviu essa música duas
vezes...
FRED - Desde o Lavô Tá Novo que o Mark (Dearnley,
produtor) insistia pra gente gravar essa faixa, pois ele
"ouvia" na cabeça dele a gente tocando essa música do
nosso jeito.
RODOLFO - A gente ouviu e sacou que aquilo ali
era Ramones puro, rock'n'roll básico. Aliás, eu não consigo
deixar de ser cover de Ramones mesmo! (risos)
FRED - Quando eu ouvi essa música pela primeira
vez, pensei: "O Joey (Ramone) deve ser fã de Elvis
Costello". E era mesmo! Hoje, acontece até o contrário,
pois o cara se tornou grande fã do Joey.
RB - Falando de Ramones, a versão para Ramona,
batizada de Pequena Raimunda, ficou excelente, com uma letra
muito divertida.
DIGÃO - E se alguém vier falar que parece com
Mamonas (Assassinas), quero lembrar que essa música foi feita em
1988!
FRED - Essa música foi feita antes de eu entrar
na banda, por isso não tinha meu nome no primeiro verso.
RODOLFO - Era assim: (cantando) "Olha só o
Rodrigo (...) Rodolfo e Canisso". Nessa paradinha do meio,
nós encaixamos o nome do Fred. Essa música a gente já cantava
na época que éramos Ramones Cover (nessa hora, a banda sem
querer "entrega" outra versão em português para outro
som do Ramones, possivelmente Sheena Is a Punk Rocker, que deve
estar num futuro álbum). Algumas vezes, fui gravar Pequena
Raimunda quando estava deprimido e triste, por isso, cheguei a
detestá-la. Hoje, gosto muito dessa música.
RB - No final dessa música, tem aquela
entradinha de Surfin' Bird, que era a música seguinte no disco
original do Ramones. Como pintou a idéia de deixar essa
introdução?
RODOLFO - Toda vez que acaba Ramona, a gente
fica esperando pela entrada de Surfin' Bird. É automático.
FRED - Quando a gente estava escutando essa
música pra tirar, sempre sobrava essa entrada de Surfin' Bird na
fita. Resolvemos gravar assim também.
RB - Em Baile Funky, a bateria está
pesadíssima, cheia, altamente metal mesmo...
FRED - (interrompendo) É a mesma bateria de
Andando Na Pedra. Eu estava escutando um disco do Primus e fiquei
impressionado com a bateria, especialmente uma música que era
bem "ambiente", bem cheia. Falei com o Mark e acabamos
usando algo naquela linha em Baile Funky e Andar na Pedra.
RB - A última faixa é um amontoado de barulhos
intitulada Bass Hell. Qual o motivo de incluí-la?
RODOLFO - Ela tem um propósito específico. Mas
vai ser surpresa.
FRED - Quando começamos a fazê-la, o Digão
sugeriu colocar aquele bumbo do Kiss (de I Love It Loud) com um
refrão gritando "Vamos gravar essa merda". Ficou muito
legal.
RB - Nos agradecimentos de Lapadas do Povo,
vocês lembram o pessoal que está longe do Brasil, tentando
ganhar a vida em outro país. Isso foi resultado do contato com
brasileiros na Califórnia?
RODOLFO - Quando fomos mixar o Lavô Tá Novo,
em Santa Bárbara (Califórnia), visitamos alguns amigos de
infância que estavam morando lá. Foi muito legal, estavam todos
felizes...
CANISSO - O único problema é a falta do
feijão com arroz, pois neguinho lá só come hambúrguer.
RODOLFO - Agora, quando voltamos lá pra
trabalhar no disco novo, os caras estavam morando em lugares
menores, mais apertados, sem mulher, com neguinho há oito meses
sem saber o que era beijar na boca! (risos) Uma ralação! Por
isso, colocamos aquilo no encarte.
RB - O que mudou na vida de vocês desde os
tempos de Ramones Cover até hoje, que vocês são reconhecidos
nacionalmente?
CANISSO - No lado pessoal, a gente não mudou
nada.
RODOLFO - Mas, profissionalmente, aprendemos
muita coisa. Estamos sempre melhorando, evoluindo, tentando não
dar as mesmas cabeçadas.
CANISSO - O que está diferente mesmo é que
mudamos de Brasília para São Paulo e hoje somos paulistas,
(imitando o sotaque paulistano) certo? (gargalhadas gerais)
RODOLFO - Estamos levando outra vida. Tá todo
mundo sossegado.
RB - No palco mudou bastante também, pois tive
oportunidade de ver show do Ramones Cover em Brasília e, hoje, o
Raimundos é bem mais profissional.
RODOLFO - Sem dúvida. A gente foi aprendendo
com o tempo, mas ainda temos muita coisa para melhorar. Hoje, eu
curto bem mais estar num palco do que antes.
RB - No 'Philips Monsters of Rock' de 96, houve
uma polêmica entre os leitores da RB, que não acharam justo
bandas como Helloween e Mercyful Fate, que nunca tocam no Brasil,
se apresentarem à tarde, enquanto o Raimundos subiu no palco à
noite, com quase 100% da luz e do som. Como a banda vê esse
episódio agora, um ano e meio depois do acontecido?
RODOLFO - Essa história pode ser vista de duas
formas diferentes. As bandas gringas têm toda uma estrada e
merecem estar tocando no final. Por outro lado, as bandas
nacionais nunca tiveram essa chance, a não ser Sepultura e
Paralamas. Nos anos 90, acho que foi a primeira vez que um grupo
nacional tocou com toda aquela iluminação. Me desculpe quem
achou que não deveríamos tocar nessa condições por
"respeito" aos conjuntos estrangeiros, mas isso deveria
ser motivo de orgulho pro Brasil.
CANISSO - Além do mais, se o lance é a ordem
que as bandas tocaram, não foi junto deixar o Mercyful Fate
tocando de tarde, no sol, e o Skid Row à noite. Não estou nem
falando do Raimundos. A merda do Skid Row foi literalmente
enxotado do palco, mas tocou em melhores condições que o
Mercyful Fate.
RB - Nesse dia, vocês também tiveram problemas
com a passagem de som, certo?
RODOLFO - Os caras foderam a gente na passagem
de som.
CANISSO - Na época que demos aquela entrevista
pra ROCK BRIGADE (ver nº125), ainda estávamos com aquele
episódio todo muito fresco em nossa cabeça.
FRED - A gente está acostumado a tocar em
qualquer situação, não subimos ao palco pensando se estávamos
abrindo ou fechando para alguma banda gringa.
RODOLFO - Hoje, quando vejo vídeos daquele
show, fico até emocionado de nos ver tocando naquele palco do
Iron Maiden.
RB - Vocês ainda mantêm contato com o pessoal
contemporâneo de vocês, como Little Quail, Os Cabeloduro, DFC
etc.?
FRED - Aonde a gente vai, acaba encontrando com
o pessoal do Little Quail. É incrível! Também estamos tendo
bastante contato com a galera dos Cabeloduro, pois eles também
estão morando em São Paulo. Minha casa em SP já foi uma
espécie e embaixada brasiliense. Teve época que tinha 15
neguinhos na casa! (risos)
RB - Como rolou a apresentação no programa da
Xuxa?
FRED - Quem não tem o sonho de conhecer a Xuxa?
RODOLFO - Em matéria de marketing, isso não
significou muito pra nós porque nosso público não assiste a
Xuxa. Foi mais uma realização nossa mesmo. Inclusive, a segunda
vez foi ela quem nos chamou.
LAPADAS DO POVO
(Wea - nac.)
O primeiro disco foi uma pérola, o segundo caiu no gosto do
povão, o terceiro foi um box especial, o quarto tinha tudo para
vir mais comercial e fazer do Raimundos uma banda de 'Domingão
do Faustão'. Pois os caras goiabaram e fizeram exatamente o
contrário. Lapadas Do Povo é o álbum mais porrada do conjunto,
com algumas faixas beirando o hardcore puro que se fazia na
primeira metade dos anos 80. Faixas como Véio Manco E Gordo, CC
De Com Força, Crumis Odamis e Wipe Out são de uma velocidade
incrível, chegando mesmo a lembrar um pouco o Ratos de Porão
dos tempos do Crucificados Pelo Sistema. Dá pra crer? Mas a
banda não esqueceu suas raízes "ramônicas" e destila
o estilo em Poquito Más, Bonita, Nariz de Doze e, para quem
tinha dúvidas das influências da banda, fazem uma versão
maravilhosa para Ramona, batizada de Pequena Raimunda. O disco
tem ainda outro cover, Oliver's Army, de Elvis Costello, que o
Raimundos conseguiu deixar com cara própria. O CD fecha com duas
músicas interessantes: primeiro, a pesadíssima Baile Funky, que
parece um daqueles grupos thrash cadenciados dos anos 80,
acrescido de triângulos típicos dos Raimundos e backing vocais
hardcore. Depois, vem Bass Hell, uma barulheira esquisita cheia
de samples, scretches e palavrões. Desnecessária, mas
divertida. Resumindo: Lapadas Do Povo é nada menos que um dos
melhores lançamentos de 1997, Dúvida? Então, ouça.
(FSF)
DISCOGRAFIA
Raimundos (94), Lavô Tá Novo (95), Cesta Básica (Box
especial/96), Lapadas do Povo (97).
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