O OURO DOS RAIMUNDOS
Uma banda brasileira que prima pelo intenso barulho das suas
músicas, usa e abusa de palavrões nas letras e faz uma mistura
estranha de hardcore com música nordestina normalmente estaria
fadada a circular apenas em guetos alternativos. Com os Raimundos
a história foi diferente.
Embalada pela canção erótico-porno-gráfica "Selim",
a banda estourou de norte a sul do país, dominando as paradas
das rádios e tornando-se o maior fenômeno musical de 94. As 120
mil cópias do primeiro disco, lançado pelo selo independente
Banguela e distribuído pela gravadora Warner, esgotaram-se
rapidamente nas lojas e são a melhor prova de que o cenário
pop, o público e os formadores de opinião estão mudando.
Os Raimundos arremataram todos os prêmios dados pela mídia no
ano passado. Mas a coroação definitiva veio agora. Na votação
dos leitores, a banda se consagrou como a grande vencedora do
prêmio BIZZ 94.
Os Raimundos venceram nas categorias melhor grupo, disco e clipe
nacionais batendo nomes consagrados como Sepultura e Legião
Urbana.
O sucesso do grupo, lançado pela BIZZ em 93, é fácil de
explicar. A zoeira dos quatro garotos de Brasília chegou para
revelar uma nova geração. Sem sotaque americano e resgatando
uma brasilidade esquecida no cenário pop nacional, os Raimundos
se transformaram na grande ponta de lança de um novo momento do
jovem no Brasil. Entendendo o que está cantando e contagiado
pelo bom humor e irreverência das letras do grupo, o público -
com telefonemas e cartas - colocou na marra os Raimundos nos
primeiros lugares das FMs de massa que, até então, praticamente
só cediam seus espaços ao bate-estacas americano.
No meio dessa revolução raimunda, Fred, Digão, Canisso e
Rodolfo riem. No entanto, é fácil perceber na personalidade dos
caras que, mesmo que as coisas não estivessem indo tão bem,
estariam rindo do mesmo jeito.
Faz parte do espírito de cada um deles, uma molecagem roqueira
que não se vê por aí. Talvez por isso não se ache boas bandas
de rock em cada esquina.
A história conta que o sucesso de alguns grandes nomes do
showbiz estão vinculados - além do talento, é claro - a um
trinômio básico: prêmios, escândalos (sexuais de
preferência) e problemas com a justiça. Os Raimundos em
pouquíssimo tempo conseguiram tudo isso. Parece que o caminho da
banda começa a ser traçado.
Num flat simples (pago do próprio bolso) próximo ao centro de
São Paulo, os Raimundos estão reunidos no apartamento do
baterista Fred. Eufóricos, eles contam as histórias que viveram
no primeiro ano em que saíram em busca do seu ouro e rodaram
mais de 30 mil quilômetros pelo Brasil fazendo shows. Ao todo
foram sessenta em sete meses. "Eu já sabia que o Brasil é
grande, mas conhecer via terrestre... São várias etnias num
mesmo país, mas no fundo é mundo igual. Tem uma música do Bob
Dylan que diz que só existem doze tipos de pessoas no planeta. O
resto são repetições dessas doze. Eu acredito nisso, viaja
Canisso.
A trajetória dos Raimundos em 94, como toda banda que se preze,
foi praticamente toda na estrada. Em alguns casos, até em
ônibus de linha,. como a turnê pelo Nordeste. No melhor estilo
pau-de-arara, a rodada pelo país enriqueceu a vida de cada
Raimundo e aumentou consideravelmente o número de experiências
sexuais de cada um.
Sem o menor constrangimento, eles revelam que o relacionamento da
banda com as fãs vai muito além de apenas dar autógrafos.
"A gente vem conhecendo muita mulher e...", tenta falar
Fred. "A verdade é que estamos comendo adoidado e isso é o
bicho!", entrega Rodolfo. "Acho que o músico de rock
só toca por causa disso mesmo. Dinheiro? Vem o governo e
rouba". completa.
Entre casos com mulheres, lembram com orgulho de um show em
Curitiba em que um batalhão de meninas insistia em colocar a
mão por baixo da bermuda deles. "Meu irmão, a gente tava
no palco e as garotas ficavam pegando na rola da gente".
conta Rodolfo. "O palco era pequeno e várias garotas
estavam sentadas na primeira fila. Elas iam chegando perto,
metendo a mão por dentro da calça...", descreve Digão.
"Não dava para cantar!", interfere Rodolfo. "Em
compensação, depois do show foi uma festa". "As
groupies são as melhores coisas que acontecem na estrada. Elas
invadem os hotéis, dão pra todo mundo e fazem a alegria da
galera. Elas são extremamente gente boa e se não fossem elas
não existiria rock'n'roll. Teve uma vez que foi maravilhoso. Eu
já tinha transado a noite inteira, fui dar uma passada no quarto
de um roadie e tinham mais sete meninas me esperando",
continua Rodolfo, e filosofa: "Tem coisas na vida que nada
te tira, uma experiência bem-sucedida é uma delas.
Trepada e tatuagens, por exemplo, são coisas eternas e nenhuma
repõe a outra. Aproveite todas aquelas que estiverem no seu
caminho".
O vocalista Rodolfo, segundo a própria banda, é o mais ativo
sexualmente falando. Ele se manifesta com empolgação quando o
assunto é sexo. É quase um obcecado pelo assunto. "Eu ouvi
a minha vizinha dando ontem. Só que no apartamento moram só
duas mulheres. Fico achando que elas são lésbicas. De qualquer
forma, a janela do meu banheiro dá para o banheiro
delas...". revela. Não é preciso dizer mais nada.
As sacanagens que você ouve em letras como "Selim".
"Puteiro em João Pessoa", entre outras, são
absolutamente espontâneas e fluem normalmente no espírito
moleque do grupo. "A gente não fala essas putarias a
sério, é tudo tiração de sarro. Algumas mulheres pensam que
somos machistas, não temos senso de humor", comenta Fred.
"Pelo amor de Deus! Os Raimundos são uma grande brincadeira
de moleques de 13 anos". indigna-se Digão.
Essa indignação, porém, transformasse em piada entre eles,
quando o problema fica supostamente sério e as
"baixarias" de "Selim" e cia, são
praticamente censuradas em rede nacional. Na verdade, o grande
rolo em torno do conteúdo pesado das letras dos Raimundos ainda
está dando muito pano para manga, principalmente no sul do
país. Na cidade de Santo Angelo, no Rio Grande do Sul,
"Selim" foi proibida de ser executada nas rádios
depois de determinação do juiz de menores local. Em outras
cidades brasileiras, "Selim" recebeu na rede
Transamérica um bip quando eram pronunciadas as palavras
"vagina" e "bunda". Segundo a direção da
rádio anunciantes no sul do país estavam reclamando da
linguagem chula usada nas músicas executadas na emissora.
Esse "palavreado pornográfico", para a professora
Maria Aparecida Machado, pedagoga da Escola Estadual Presidente
Costa e Silva em Porto Alegre, é prejudicial à educação dos
adolescentes e distorce valores como o amor e o carinho,
transformando-os em pura pornografia. "O descobrimento do
corpo e do sexo no adolescente é a causa do interesse nessa
espécie de música.
Não é uma forma de amor consciente. "As moças podem ficar
grávidas e os moços não assumem nada depois", defende a
professora. "O grupo nos chamou a atenção porque todo o
colégio canta as músicas, inclusive os filhos dos
professores."
Os Raimundos acham graça disso tudo. Antes de assinarem contrato
com o selo Banguela, a banda recebeu várias propostas de outras
gravadoras. Segundo diz a lenda, numa reunião com os cabeças da
Sony Music, os quatro Raimundos deixaram os executivos da
companhia falando sozinhos quando foi colocado que, para fechar o
acordo com a multinacional, os Raimundos teriam que abrandar o
conteúdo das letras e diminuir a intensidade do seu som.
Para o diretor artístico do Banguela, Carlos Eduardo Miranda, o
grande trunfo do Raimundos é exatamente a irreverência.
"Eles são autênticos ao extremo. Quando eu ouvi pela
primeira vez, chapei na hora. Os Titãs e o Jack Endino (produtor
de Titanomaquia e de Bleach do Nirvana) também", lembra.
"A sacanagem e a surpresa são fundamentais para os
Raimundos. O "Selim" originalmente não ia entrar no
disco, foi gravada às pressas na última hora. Na versão
acústica, os Raimundos são só o Rodolfo e o Nando Reis
(Titãs)", revela.
A polêmica e tão falada "Selim" surgiu num rolé que
a banda dava no Fusca do Canisso na autovia W3 em Brasília.
"Um dos melhores programas no Planalto Central é sair no
final da tarde pelas pistas livres, dirigindo devagar e fumando
maconha", conta Canisso. "A visão era maravilhosa. O
sol se pondo e aquelas gostosas andando de bicicleta. Um amigo
nosso começou a cantarolar o comecinho e o resto veio
rapidinho", lembra Digão. "Tem um vídeo do começo da
trajetória dos Raimundos que retrata tudo isso. É meio que um
arquivo secreto da banda", anuncia Fred.
Brasília ainda traz saudades e lembranças aos Raimundos. A
cidade, considerada um pólo carente em entretenimento, é
defendida pelos quatro filhos do planalto que preferem ver só o
lado bom da capital. "Brasília é um liqüidificador
cultural e isso é muito legal para a população da cidade. É
criado um estigma que na cidade não há nada para fazer. É
mentira!", fala Fred.
Como se imagina, a adolescência dos Raimundos foi mesmo bastante
movimentada. Eles dividiam seu tempo entre música, colégio e
diversão. O item diversão inclui casa de amigos gringos, cinema
e acidentes de carro. "As pessoas se matam no trânsito em
Brasília. Eu e o Rodolfo capotamos o meu extinto Fuscão e
depois fomos ao cinema", lembra Canisso. "Eu tava
ensinando o Rodolfo a dirigir e entrei no pau numa curva, para
mostrar como é. Dei uma rodada animal e capotamos de uns cinco
metros de altura. Como saímos ilesos do tombo e tínhamos
combinado com o Digão no cinema, fomos para lá", conclui.
"Eu tava no cinema vendo o filme quando escuto:
"Digão! Tô aqui. Capotei o carro", diz Digão.
A perda total do Fusca e a grana do ferro velho deram origem ao
baixo que Canisso usou até o fim do ano passado.
Até o reconhecimento do público no meio de 94, os Raimundos
praticamente não receberam o apoio da família. Ao contrário, o
fato de os filhos se ocuparem numa banda de rock não era bem
visto pelo familiares. "É engraçado que no começo só o
meu pai é quem dava apoio", lembra Fred. "Agora tá
todo mundo feliz... O Canisso ganhou até um superbaixo Fender
Jazzbass do pai dele." "Tem mais: teve época que eu
achava que ninguém gostava de mim na família deles. Tinha
certeza que neguinho ficava: 'pô, qual é a desse cara que fica
levando a sério essa história de banda de banda de rock' ,
conclui Fred.
Com grana emprestada e um punhado de fitas demo na mão, os
Raimundos vieram para São Paulo em meados de 93.
As fitas rapidamente foram divulgadas e tal; os mais descolados
disputaram a tapa os primeiros exemplares de música raimunda
gravada.
A mistura esporrenta de Luiz Gonzaga com Ramones, segundo a
banda, é fruto dos genes paraibanos de Rodolfo. "Meus pais
são paraíbas e deu para assimilar alguma coisa". Os 2 mil
quilômetros que ligam Brasília a Paraíba eqüivalem
proporcionalmente à distância percorrida pelos
espermatozóídes do saco do meu pai até o óvulo da minha
mãe", define o paraibinha.
Teorias à parte, a verdade é que a novidade chamada Raimundos
chamou a atenção dos cúmplices do cenário pop brazuca e a
banda pouco depois já estava tocando no Rio e em São Paulo.
Como migrantes que vêm tentar a vida na capital, os Raimundos,
em vez de trouxas de roupa, traziam no ombro guitarras e
amplificadores. "Ficamos assustados com o tamanho de São
Paulo. Me dava urticária pensar na dimensão da cidade",
lembra Fred. "O que a gente mais gosta daqui é o espírito
de concorrência. A obrigação de ter que fazer sempre o
melhor", completa Digão.
A casa do hoje diretor artístico e produtor de Raimundos, Carlos
Eduardo Miranda, virou o Q.G. raimundo na ocasião. "Não
tinha muito espaço e dormíamos no chão da casa do Miranda. A
janela tava quebrada, entrava o maior vento", conta Fred.
"Era época de frio, junho, e parecia que a gente tinha que
passar por aquele carma pra saber como as coisas são
difíceis", fala Canisso. "Mas a maior dificuldade
mesmo, foi nos acostumarmos com os pernilongos mutantes do bairro
de Pinheiros", brinca Rodolfo. "Desenvolvemos uma
técnica para poder dormir", conta Fred, e com uma camiseta
na mão demonstra: "Primeiro colocasse a camisa sem os
braços. Pega o que sobra, cobre a cabeça e põe uma das mangas
na altura do nariz". "É feita uma espécie de tromba
para poder respirar. Fica tudo coberto e o bafo que sai da boca
não deixa os mosquitos chegarem perto", conclui Rodolfo.
A experiência dos Raimundos em instalações, digamos, estranhas
vai desde hotéis mal-assombrados a cabanas praticamente no meio
da floresta amazônica. "Durante a gravação do disco,
ficamos num hotel em que todo mundo sonhava com fantasmas,
assassinato e o diabo. O Otto, percussionista do Mundo Livre,
quando passou por lá viu um velho andando do armário até o
banheiro durante a noite", diz Canisso. "Em Belém,
ficamos numas cabaninhas a uns 15 quilômetros da cidade. Eu
fiquei me achando o Tarzã. Era mato para todos os lados, não
tinha ninguém, aí eu resolvi sair pelado pela floresta",
conta Rodolfo. Atualmente, a banda procura uma casa para alugar
onde possa e ensaiar com mais comodidade e sem interferência de
regras de condomínio.
"Precisamos de um pico para criar as músicas sem encheção
de saco. Aqui no flat volta e meia alguém reclama", diz
Digão, imitando uma velha: "o som tá muito alto, tem um
cheiro estranho entrando no apartamento do vizinho...''
O dinheiro raimundo arrecadado até agora com os shows e a venda
do disco, segundo a banda, ainda não dá para grandes aventuras.
"Tem gente pensando que os Raimundos estão milionários.
Só tá se dando pra pagar o aluguel", diz Fred. "Se a
banda terminasse agora, tava todo mundo fodido. Ninguém tem
porra nenhuma", revela Canisso.
O contrato com o Banguela prevê para a banda uma porcentagem
proporcional à venda do disco. Até 40 mil cópias vendidas, os
Raimundos recebem 8% por cada disco. Dos quarenta em diante, vai
para 10%. Passados 100 mil discos vendidos, o grupo recebe 15%.
O próximo grande passo na carreira da banda é resolver sua vida
com as gravadoras. O acordo com o Banguela termina em março e
só pode ser renovado caso o grupo assuma um compromisso com o
selo por mais três anos.
A gravadora Warner, já fez uma proposta para que a banda passe a
constar no cast da multinacional. Mas a princípio tudo indica
que os Raimundos não vão mudar de emprego. "A major quer
um artista que sempre venda mais de 100 mil cópias. As coisas
podem mudar e aí é a maior pressão. Na gravadora independente
não tem isso", fala Fred, o raimundo mestre que resolve
assuntos burocráticos. "Não acredito que a Warner pegue os
Raimundos. Se eles quiserem podem pegar, mas não é legal. Vai
enfraquecer o Banguela ", sentencia Carlos Eduardo Miranda.
Com tanta movimentação, até agora os Raimundos ainda não
prepararam o repertório do próximo disco, que deve ser lançado
no começo do segundo semestre. "Fizemos uma música chamada
'Tora Tora Tora"'. É o sentido ao pé da letra, do que
você entende por isso", conta Rodolfo. "É sem
vaselina, sacou?", "No nosso processo de criação,
pensamos num tema, aí geralmente saem três letras e três
ritmos. Misturamos tudo e pronto", conta Canisso.
"Raimundos é a banda que não está preocupada com
convenções e regras. Todo mundo interfere em tudo e é por aí
que o resultado fica legal", diz Fred.
Buscando sempre o novo, dando ao seu rock uma característica
realmente brasileira, os Raimundos são o maior expoente entre os
grupos nacionais que buscam em elementos brasileiros a chave para
dar personalidade à sua música. Quem faz a atual cena pop no
Brasil, percebe que o quanto mais nacional se é, mais
internacional será. Essa é a velha nova ordem mundial.
Fred, Digão, Rodolfo e Canisso, antes inconscientemente e hoje
totalmente conscientes, sabem disso. Mas apesar da
"responsabilidade profissional" recém-adquirida, o tal
sangue roqueiro que corre nas veias dos caras contínua
borbulhando diversão e tesão, movido pelo poderoso afrodisíaco
que se chama sucesso.
Robet Halfun
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