PEDRADA! RAIMUNDOS NO NORDESTE
DOIS SHOWS, UM NO RECIFE, OUTRO EM FORTALEZA, FECHARAM UMA MINITURNÊ QUE O RAIMUNDOS FIZERAM
EM JANEIRO, COM UM GÁS ANIMAL, DEPOIS DE UM FIM DE ANO DE PEDRAS PONTUDAS, ELES LAVAM A ALMA,
PISAM FIRME E FAZEM RACHAR O CHÃO NO NORDESTE, DERRETENDO SOB O SOL QUE CASTIGA AS TERRAS DE
CHICO SCIENCE E PADRE CÍCERO, NOSSOS REPÓRTERES ESTAVAM LÁ.
Reportagem: Alex Menotti
A nossa missão: em pouco menos de três dias, assistir a dois shows dos Raimundos em duas capitais nordestinas; à noite, conferir o retorno dos rapazes e, durante o dia, fuçar as cidades.
Um fim de semana pauleira no auge do verão. A miniturnê começara uma semana antes da nossa chegada no Recife, em Porto Seguro, depois seguiria para Maceió e Salvador. Recife e Fortaleza seriam as últimas cidades. Com a produção de show ainda por finalizar e secos para voltar aos
palcos, os Raimundos aproveitariam para fazer um aquecimento e testar os efeitos do novo repertório. Com um novo CD gravado em Los Angeles, Lapadas do Povo, em que deixaram de lado a mistura de hardcore, metal e ritmos nordestinos que os consagrou, a banda retomava a turnê interrompida após a tragédia de Santos, São Paulo, em novembro passado, em que a superlotação e outros
fatores irresponsáveis provocaram o terrível saldo de oito mortos e mais de 70 feridos na saída
do show no Clube de Regatas Santista. Desde então, cada raimundo foi pro seu canto. Só voltaram
a se encontrar na Bahia.
RECIFE
A FREVURA DA MALTA
Desembarcamos no Recife na sexta à tarde, munidos de protetor solar, chapéu de palha e muita
ansiedade. Calor senegalês, 36 graus. Um breve descanso no hotel e saímos pela cidade.
Na Avenida Marquês de Olinda, no centro, paramos no Gambrinos, o bar mais antigo no Recife,
segundo o letreiro. Uma saborosa carne-de-sol à matura (carne-de-sol, arroz, feijão, farofa e
manteiga de garrafa) e algumas cervejas incrivelmente geladas elevam a moral. Seguimos até a
Casa de Cultura, no centro também. No prédio de arquitetura neoclássica que funcionou durante
118 anos como presídio, as antigas celas transformaram-se em lojas de artesanato, espaços para
exposições e um simpático botequim. Do lado de fora, uma espécie de mestre-de-cerimônias entremeia as danças de uma apresentação de frevo. Ele conta que houve tempo em que os capoeiristas
saíam às ruas para jogar e as pessoas diziam "lá vem a malta com essa frevura!". Antes do fim
de tarde, com o calor ainda infernal, encontramos P.T., o manager da banda Horário - meia-noite - e local - Circo Maluco Beleza - confirmados, credenciais na mão. Tudo em cima. De volta ao
hotel, tempo para pouco mais que uma ducha.
UMA PORRADARIA ATRÁS DA OUTRA
Onze da noite. Tomamos o taxi até o Circo Maluco Beleza. Com o público sedento pelos Raimundos, a banda de abertura, Dona Margarida Pereira & Os Fulanos, manda bem uma mistura insana de
rap e guitarreira. Logo depois, os Raimundos entram. E entram forte, chutando tudo com "Baile
Funk". E seguem detonando com "O Toco" e "Opa Peraí Caceta". A trinca de abertura deixa claro
que Lapadas do Povo é o disco mais pesado da banda. O show está em ponto de bala. Uma porradaria atrás da outra. A dobradinha "Pequena Raimunda/ Surfin´ Bird" alucina a platéia. O gás que
os Raimundos mostram no palco é impressionante. O público contribui. Parece saber todas as letras de cor e não liga para o calor do cão que derrete o repórter. O mais legal: não rola treta. A moçada agita na boa, sem pancadaria. Digão mostra uma camiseta do Chico Science e o povo
delira. "E Ramones lá e Raimundos aqui!", grita alguém na orelha do repórter. Do lado do palco,
cena família: mãe, pai, irmão, filho, primos e um casal de tios do vocal Rodolfo curtem a sonzeira. O set list fecha com "Putêro em João Pessoa" e todo mundo pede mais. Fred e Canisso saem
do palco. Durante um breve intervalo, Digão e Rodolfo permanecem e tiram de saideira uma rapinha de "Santeria", do Sublime. No camarim, a banda comemora a receptividade animal dos pernambucanos e saldo positivo dos shows pelo Nordeste. Digão, Canisso e Rodolfo espremem o suor das
camisetas e fazem a maior molhadeira.
CADÊ ROGÊ?
Depois do show, repórter e fotógrafo estão no gás, pra sair de rolê pelo Recife e ver qual é
a da noite de uma das cidades mais fervilhantes do país. Mas os Raimundos estão no osso, querem
ir pro hotel. Sem vocação para entrevistar e fotografar artistas dormindo, optamos pelo agito.
O fotógrafo manda a boa: a noite do povo do Recife rola no Soparia. Mais dez minutos dentro de
um taxi e chegamos. O lugar parece perfeito. Despojado, cerveja gelada e sonzeira da hora. Três
da manhã e o negócio continua quente. Bactéria, tecladista do Mundo Livre, chega junto e apresenta a flora local. Um maluco conta que o bar era freqüentado por Chico Science. E os malungos
da Nação Zumbi estão sempre na área. A música "Macô" fala do lugar, cujo proprietário é o Rogê,
citado na letra, que não estava no bar. Perto do balcão, uma jukebox ("...pega uma ficha aí /
bota lá na radiola", cantava Chico) de CDs toca The Who no talo. "Substitute" no Recife. Nada
mais animal para fechar um dia corrido e uma noite hardcore. Já meio no osso, a reportagem se
mistura aos locais. Artistas plásticos, cineastas, músicos, belas meninas, rastas e outros seres dançam à vontade. Às cinco e meia da manhã, detonados, com os pés doendo, voltamos ao hotel. Foi um dia longo e ainda tínhamos o sábado em Fortaleza e mais um show dos Raimundos pela
frente.
FORTALEZA
METAL BIRUTA
O vôo para o Ceará estava marcado para as 11h45 da manhã. Todos no aeroporto, acabados. Banda, roadies e, no embalo, repórter e fotógrafo. Um boato de que estariam responsabilizando o
público pela tragédia de Santos deixa Fred indignado.
"Se fizerem isso, vou botar a boca no mundo!" uma hora depois, na chegada a Fortaleza, um
grupo de fãs afoitos aborda os rapazes. Todos da banda se mostram extremamente solícitos e simpáticos. O calor, que já era punk em Recife, toma proporções dantescas. Do aeroporto, os Raimundos seguem para o hotel. Uma partida de futebol em que iríamos aproveitar para trabalhar foi
desmarcada. Raimundos no prego, hotel, cama. Canisso chega junto e nos recomenda uma barraca na
Praia do Futuro, chamada Biruta. "A primeira vez que viemos pra cá, estávamos andando pela
praia e ouvimos Metallica numa dessas barraquinhas! A gente parou e começou a conversar com o
cara. Ele era dono também dessa barraca Biruta e acabou ficando amigo da galera". Saímos pela
tangente e fomos conferir a birutagem. Na praia, a barraca é classe, um quiosque gigante, repleto de mesas e cadeiras na areia. Alto-falantes no máximo rolam reggae, rock e MPB. A mulherada dourada desfila, soberbamente. Às seis da tarde, fomos à passagem de som na Casa do Farol.
Novamente, show à meia-noite. A banda deveria estar lá acertando os últimos detalhes. Ligamos
para o hotel e problemas. O equipamento, que estava sendo transportado do Recife para Fortaleza
de caminhão, numa viagem de cerca de 13 horas, ainda não chegara. Um atraso geral no esquema
era iminente. No bode, quase delirando de insolação, nos jogamos no hotel. Não sem antes acertarmos que iríamos para o show na van da banda, lá pelas nove e meia da noite.
FRED MULDER NA ÁREA
Algumas duas horas de descanso mal aproveitados e saímos no horário marcado. Do hotel até a
Casa do Farol, mais de meia hora. No caminho, Canisso engata um papo sobre a colonização de
Marte. Fred entra numas de Fox Mulder e se recusa a acreditar que a sonda Pathfinder tenha mesmo chegado ao planeta vermelho. Nós nos aproximamos da Casa do Farol - mais de dez da noite.
Uma multidão aguardava na entrada, ansiosa. O caminhão chegara há pouco. Roadies e equipe técnica se desdobram para armar o barraco da maneira mais rápida e perfeita possível. A banda passa o som rapidinho com "Tora-tora", do segundo álbum, Lavô tá Novo. Mesmo com o som no pau, é
possível escutar o povo do lado de fora gritando, impaciente, querendo entrar. Os acertos finais são feitos. Perto da meia-noite, a banda parece adquirir novo fôlego, deixando o esgotamento de lado. Era o último show da turnezinha pelo Nordeste e os rapazes não paravam quietos,
entusiasmados. "Tá sendo massa começar por aqui!", exclama Rodolfo. Opinião compartilhada por
Canisso. "É importante sentir o carinho do Nordeste. Aquilo que ocorreu em Santos nos abalou
muito, porque temos uma ligação muito forte com o público. Nós nos sentimos pessoalmente atingidos. Por isso ficamos dois meses sem tocar, não tinha clima. Viemos pra cá loucos pra dar
show, mas não sabíamos qual seria a reação das pessoas. E se os pais não deixassem seus filhos
virem aos shows? Mas tá tudo dando certo, graças a Deus!"
"VOCÊS SABEM POR QUE EU GOSTO DESSE TRIÂNGULO?"
Com uma hora de atraso, os Raimundos sobem ao palco adrenalizados. O público urra quando vê
os ídolos. A banda dá o sangue e a platéia é ainda mais animal que a do Recife. Digão dá a
deixa: "Aí, vocês estão do caralho, agitando, mas se comportando legal! Vamos continuar assim!" Mensagem decodificada e o resultado é um show escroto - muito bom, na gíria local -, sem
tretas. Na introdução de "Esporrei na Manivela", Rodolfo pega o triângulo e pergunta, com a
resposta na ponta da língua: "Vocês sabem por que eu gosto disso aqui? Porque lembra uma buceta!", e o povo delira. Na seqüência, pra destruir de vez, "Puteiro em João Pessoa" e "Andar na
Pedra". A banda deixa o palco. Os fãs pedem mais. Uma rápida conversa nos bastidores e os Raimundos decidem voltar. Detonam duas covers - "Bodies", dos Sex Pistols, gravada no Cesta Básica, e "Blitzkrieg Bop", da influência suprema, Ramones. A turnê nordestina termina em alta octanagem. "A gente já esperava que fosse bom, era até meio previsível", confessa Fred nos bastidores. E é esse o show que vai rolar pelo país neste primeiro semestre? "Talvez a gente inclua
mais algumas músicas e mude o cenário, já que não deu tempo de aprontar tudo para esses shows
por aqui. Mas o básico é isso", conta o batera.
LAPADAS OF THE PEOPLE
Rodolfo ainda revela alguns planos da banda para breve. "Como tudo é carnaval em fevereiro,
tudo pára. A gente tá a fim de fazer clip. Não decidimos ainda qual música. Será alguma que não
toque no rádio pra poder trabalhar simultaneamente", afirma o vocalista e aproveita para adiantar uma nova tacada. "Temos também intenção de lançar uma parada lá fora, um apanhado dos nossos trabalhos. Tudo com muito cuidado, pois esbarramos nas letras. Temos de ver quem fará as
versões em inglês. Queremos que passe o mesmo que passa aqui, sacou?" Vai ser meio difícil explicar pros gringos o significado de Lapadas do Povo, "Eu Quero Ver o Oco" e outras pérolas
raimúndicas. Os caras dão um tempo, descansam e resolvem se mandar para o hotel.
"EU, PAI?!?"
Fazemos o mesmo. No domingo, esperamos o povo acordar para a derradeira seção de fotos antes
de voltarmos, fotógrafo e repórter, para São Paulo. Os rapazes dormem até o bico e se atrasam.
Quando aparecem, resta-nos pouco mais de cinco minutos para fazer as fotos. Vamos até umas pedras perto do hotel, cenário ideal. Rui faz tudo na agilidade. No final, abraços calorosos e
despedidas gerais. No relógio, 14 horas. Dali a 55 minutos nosso avião sairia fora. Voamos para
o aeroporto e chegamos em cima da hora. Enquanto eu acertava com o taxista, Rui foi marcar os
assentos. No balcão é informado que o vôo já era. "Pelamordedeus, põe a gente nesse avião. O
cara ali vai ser pai a qualquer momento", xaveca o fotógrafo. O cara ali era o repórter. Conseguimos embarcar, sob os olhares tortos dos demais passageiros. Durante a viagem, me dou conta
de algo incrível: um fim de semana inteiro no Nordeste sem escutar um segundo sequer de axé
music ou similares. Perfeito. Missão cumprida. A. M. 89
"Os americanos não chegaram a Marte. Foi tudo feito em estúdio, usaram trucagens. Mesmo aquela
primeira pisada do homem na lua foi falsa. Os astronautas não iam conseguir chegar na data marcada, então o governo americano produziu aquilo pra exibir na TV"
FRED, batera
"Meus pais? Agora eles gostam, porque a gente consegue se manter sozinho (risos). Mas no começo
era uma desgraça... eu também nem poderia cobrar muito isso. lance é entender as gerações"
RODOLFO, vocal e guitarra
"Você pensa que no Nordeste neguinho só ouve forró, axé? Que nada! Tem uma galera forte que
curte rock. Em todo lugar do Brasil é assim. A galera aqui se sente ilhada, carente, e quando
rola show ela é raivosa, irada"
DIGÃO, guitarra
"No show de Maceió, passei mal e vomitei por causa de hipoidratação. show estava marcado para
as 11 e eu, 10h30 da noite, tomando soro no hospital! Mesmo assim, foi do caralho! Todos esses
shows estão sendo!"
CANISSO, baixo
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