RAIMUNDOS 'MUDA PARA SER O MESMO'
Grupo lança 'Lavô Tá Novo', primeiro CD em uma grande gravadora, mantendo fórmula que já vendeu 180 mil discos
LUIZ ANTÔNIO RYFF
Da Reportagem Local

Disco: Lavô Tá Novo
Banda: Raimundos
Gravadora: WEA
Quanto: R$ 18 (o CD, em média)

Depois de vender 180 mil cópias de seu disco de estréia, e por um selo independente (Banguela), o grupo de rock Raimundos retorna com "Lavô Tá Novo", agora pela WEA - uma grande gravadora multinacional. A fórmula é basicamente a mesma - som pesado e muito palavrão nas letras. Ou, como preferem os quatro integrantes do grupo, "mudamos mas continuamos os mesmos".

O vocalista Rodolfo, 23, acha que o disco está mais pesado e mais comercial. A simples menção da palavra "comercial" causa arrepios e controvérsia nos outros Raimundos. Alguns minutos de discussão entre os integrantes da banda sobre o que mudou de um disco para outro não chega a consenso.

"No terceiro acorde já vê que é Raimundos. A gente não pensou para fazer esse disco", afirma Fred, 23, baterista da banda. "Lavô Tá Novo" foi gravado entre julho e setembro, com a mãozinha do produtor inglês Mark Dearnley - que já trabalhou com Black Sabbath e AC/DC_ para dar uma polida no som do grupo.

Os Raimundos não queriam mudar uma receita de sucesso. Um sucesso que não mudou muito a vida dos quatro integrantes da banda - Fred, Rodolfo, Digão, 24 (guitarra) e Canisso, 29 (baixo). Ninguém faz extravagâncias com o dinheiro recebido pelas vendas do primeiro disco. "Comprei dois triângulos, e toco os dois ao mesmo tempo", exulta Rodolfo. Exagero do vocalista. Dá para gastar mais. Digão e Fred compraram um carro cada um. Canisso continua andando no mesmo fusca metálico 1985, movido a álcool, de antes da fama. O que lhe vale o apelido de "surfista prateado" _herói de história em quadrinhos. Mas Canisso vê vantagens no velho fusca. "Como o carro é de Brasília, as multas nunca chegam", ri. Enquanto isso, ele junta dinheiro no cofrinho para comprar uma casa e abrigar mulher e filhos.

O sucesso só deu mais tranquilidade à banda. Todos puderam se dedicar à música. O que provoca um certo alívio. "Se não tivesse dado certo eu ia ter que trabalhar", diz Rodolfo.

Mamonas Assassinas
Fora a menção da palavra trabalho, pouca coisa chateia os Raimundos. Uma delas é a comparação com os Mamonas Assassinas - banda de Guarulhos que aposta no besteirol pornográfico. "Não gosto quando comparam a gente. Não tem nada a ver. A gente quer fazer um som legal, tocar uma porrada, fazer uma zoeira, não fazer o público rir", diferencia Rodolfo. O vocalista diz, contudo, que os Mamonas têm méritos, dentro da lógica "se vendeu é bom". Para fugir da comparação, eles tentam encontrar outro boi de piranha. "Eles parecem mais com o Falcão (compositor brega-cult). Só que o Falcão é mais inteligente", afirma Digão. O único integrante da banda que gosta dos Mamonas é Canisso. "Também, ele gosta da música de qualquer um de quem fica amigo", ironiza Rodolfo.

Hollywood Rock
Agora a banda se preocupa com a participação no Hollywood Rock 96, que acontece nos dias 19, 20 e 21 de janeiro, no estádio do Pacaembu (São Paulo) e dias 26, 27 e 28, na praça da Apoteose (Rio).

"Vai ser a melhor coisa depois de ter tocado com Ramones e Sepultura", afirma Fred. Apesar disso, a banda critica o elenco escalado para o festival. Principalmente a ausência do Metallica e do White Zombie _que, como o Metallica, teve a vinda ao Brasil especulada por parte da imprensa. Nem Robert Plant e Jimmy Page escapam às farpas. "Estão velhos", na opinião do grupo.

 


CD une som pesado e humor
Da Reportagem Local


Os Raimundos odeiam qualquer comparação com o mais novo queridinho dos adolescentes das grandes cidades, o grupo paulista Mamonas Assassinas. Besteira. São farinha do mesmo saco. O mesmo moleque que compra o álbum de um tem na estante o disco de outro. O que a garotada quer é essa transgressão infantilóide que mistura letras escatológicas e pornográficas com um humor rasteiro.

Há diferenças entre os dois grupos - pequenas, embora não sejam sutis. Os Mamonas apostam mais no humor e menos no peso das guitarras. Os Raimundos preferem a pornografia emoldurada por arranjos hardcore.

E, o que a princípio pode soar como desimportante, esses são melhores músicos do que aqueles. Nove das 12 letras de "Lavô Tá Novo" têm alguma palavra de baixo calão. É pouco para um grupo que profere palavrão em nove entre dez frases que falam em uma entrevista. É uma pena. As letras estragam a consistência sonora da banda.

No instrumental, o grupo também mantém a fórmula do disco anterior: o som pesado com alguma influência nordestina. A levada de "Eu Quero É Ver o Oco" é ótima. Bem como "Opa! Peraí, Caceta", com um sessão de metais bem costurada na pauleira do grupo.

Os Raimundos preferem, contudo, a via pornográfica e o humor rasteiro.
(LAR)


Letras são pornográficas e falam de maconha
Da Reportagem Local


A mudança de gravadora não influiu no som dos Raimundos. Segundo a banda, a WEA não reclamou nem das letras, quase todas pornográficas. Talvez porque os últimos grupos envolvidos com escândalos tenham obtido muita publicidade e boa vendagem. Em todo caso, a multinacional fez vista grossa para músicas como "Esporrei na Manivela", versão de uma música infantil com letra impublicável. A maioria das músicas do grupo, contudo, é composta pelo vocalista Rodolfo, 23.

Segundo eles, as canções são "crônicas" feitas em cima de experiências vividas pelo grupo ou histórias contadas por amigos. "A gente olha uma bundinha e resolve fazer uma música", diz Canisso para explicar a origem de "Bestinha". As outras canções também têm origens prosaicas, como "Sereia da Pedreira". "Foi uma broxada que dei com uma amiga quando fui comer ela dentro da kombi", conta Rodolfo. A kombi em questão é a responsável pelos deslocamentos dos Raimundos. Também conhecido como "kombão da queimação", o automóvel deu origem a outra música: "Pitando no Kombão", que faz alusão à maconha. Não é a única. "Herbocinética" é direta: "Então acenda essa maconha pr'eu ficar doido doidão". "São histórias. Não é um lance em que o bagulho tinha que tá lá", diz Rodolfo.

A droga não é uma unanimidade na banda. "Na hora do ensaio tem que parar toda hora para fumarem um, é um saco", reclama Fred. Até por não haver concordância, o grupo afirma que não faz apologia do uso da maconha. "A banda tá zen, triatleta, todo mundo corre, pedala e nada. Descobrimos os benefícios da alimentação natural e de acordar cedo", afirma Canisso, enquanto acaricia a pança protuberante. (LAR)

 

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