RAIMUNDOS DE NATAL
QUASE SÉRIOS, OS PARAÍBAS FAZEM CRÍTICA SOCIAL, ASSUMEM QUE
SÃO GROSSEIROS, MAS DIZEM QUE NÃO QUEREM AGREDIR NINGUÉM.
por ROBERT HALFOUN
Os raimundinhos estão felizes a cantar em ritmo de "Jingle
Bell": "Feliz Natal, feliz Natal, pega no meu
p..." O motivo da cantiga natalina em versão pornô é o
lançamento de Cesta Básica, o novo CD com direito a uma cover
dos Ramones, outra dos Sex Pistols, quatro músicas ao vivo e
três inéditas - entre elas, "Infeliz Natal" composta
há quase dez anos, quando o guitarrista Digão fazia parte da
banda punk Filhos de Menguele. "Esse negócio de Natal é a
maior hipocrisia. As pessoas se odeiam, mas ficam se abraçando,
fazendo aqueles votos ridículos, enquanto tem um monte de
crianças morrendo de fome... Pô, é uma festa comercial acima
de tudo!!! Então resolvemos sacanear, né?", explica o
indignado Digão. "Este disco é meio Simone, saca?",
ironiza o baixista Canisso, referindo-se ao disco de Natal
lançado pela ex-jogadora de basquete no final do ano passado.
Rodolfo redefine: "É um presente para os nossos fãs".
Os fanáticos que saírem na frente à procura de Cesta Básica
vão se dar muito bem. Os primeiros oito mil CDs fabricados fazem
parte de uma edição limitada em formato de caixa que inclui o
HQ Puteiro em João Pessoa, criado pelo cartunista Angeli (veja
quadro na página seguinte) e um home vídeo de 48 minutos
idealizado, filmado e editado por Canisso. Com a palavra, o pai
da matéria: "Sempre ando com uma câmera na mão e registro
o agito dos bastidores. Quis mostrar a intimidade da banda e
aproveitamos para contar toda a história do grupo",
discursa o videomaker amador. No esta-é-a-sua-vida raimunda, o
baterista Fred lembra de quando a banda mudou de estilo, em 1990,
dissolveu-se e só voltou a tocar dois anos depois.
"Tínhamos a ilusão de que precisávamos tocar direitinho.
Chamamos um guitarrista e um baixista bons pra caramba, mas
perdemos totalmente a identidade". Rodolfo completa:
"É, ficou parecendo som de boiola!!! Era aquela época que
o metal estava na moda, sabe? Ficou muito estranho..." O
vocalista solta a frase morrendo de rir, enquanto o resto da
galera faz cara feia.
Os Raimundos agora estão mais sérios, como na contracapa de
Cesta Básica, clicada pelo fotógrafo Rui Mendes, um dos feras
do staff de SHOWBIZZ. "Sempre ponho esses caras fazendo
macaquices. Desta vez mudamos e mostramos uns Raimundos que
ninguém conhece", explica Rui. "Também tem tudo a ver
com o conceito crítico do disco. Gostei de parecer meio
diferente, estranho...", reforça Digão.
CADA VEZ MAIS POPULARES, OS RAIMUNDOS ESTÃO HERDANDO OS FÃS
DOS MAMONAS
Diferente mesmo é o repentino ataque de puritanismo: "Põe
aí, põe aí", pede Rodolfo, apontando para o bloco de
anotações do repórter. "Sei que somos grosseiros... Mas
não queremos agredir ninguém. Só falamos o que passa pela
cabeça da molecada", anuncia o vocalista, referindo-se ao
conteúdo chulo das letras raimundas, um dos fatores
responsáveis pela total identificação dos adolescentes com o
grupo. "Sacanagem é a banheira do Gugu e esse negócio de
'Segura o Tcham'. Perto daquela mulher transando com uma garrafa,
somos uns coroinhas" defende-se Rodolfo. Canisso conclui:
"Não temos a intenção de ser violentos". O
surpreendente sinal de carolice tem explicação. Com a morte dos
Mamonas Assassinas, boa parte do público infantil que se
deliciava com as bobagens de Dinho e cia. migrou para as
apresentaçãoes dos Paraíbas. "Véio, é impressionante a
quantidade de crianças que pinta nos shows", revela Digão.
"Devemos isso aos Mamonas", agradece Rodolfo. E se a
platéia é superjovem, as tietes são... virgens!!! "Cara,
é a maior correria. As meninas querem perder a virgindade com a
gente. E, obviamente, saímos fora. Não dá pra brincar com esse
tipo de coisa", escapa Rodolfo, cheio de responsabilidade.
Quem vê não reconhece. Falando manso e com um ar quase adulto,
os Raimundos não parecem mais aqueles moleques aloprados que
tinham acabado de chegar de Brasília, sem um Real furado no
bolso. Embora continuem com o mesmo visual despojado, as calças
caídas que deixam aparecer a cueca, agora mostram,
displicentemente, chaves do carro e telefones celulares.
"Estamos trabalhando pra caramba e está dando pra tirar um
dinheirinho, sim", revela o gordo Digão.
Da cobertura do prédio onde fica a gravadora WEA Music, em São
Paulo, o mesmo Digão admira a vista cheia de edifícios e viaja
nos planos de consumo da banda. "Ali é o Brooklin. Esse
bairro é alucinante, véio. Vamos comprar uma casa ali, montar o
nosso estúdio e alugar baratinho para as bandas que estão
começando", diz, apontando para o horizonte. E lembra do
perrengue do início da carreira. "Era foda, cara... Agora
melhorou, ainda não estamos ricos, mas vamos indo muito
bem", respira aliviado. "Afinal, tenho família pra
sustentar", brinca o casadão Canisso, pai de dois filhos.
Falando em mulher... Rodolfo, quem diria, até segunda ordem,
está amarradinho da silva; Fred também. Sobrou para Digão o
cargo de galinha da banda. E ele adora. "Namorada? Não
quero saber disso não!!!", desconjura. Digão só
compartilha com o resto da banda a ansiedade para gravar o
próximo álbum. "Começamos a gravar no meio do ano que vem
e o disco sai até dezembro de 1997", conta. O repertório?
"Já temos muitas idéias, mas não dá pra adiantar nada.
As coisas mudam muito e algumas músicas são feitas durante os
ensaios, no meio da loucura", diz Rodolfo. "'Eu Quero
Ver O Oco' foi assim. O Canisso entrou no estúdio putão,
gritando o refrão que hoje todo mundo conhece. Aí foi fácil.
Fizemos a música em minutos. Daqui a uns meses você vai lá no
ensaio ver alguma coisa", completa e convida.
Até lá, os Raimundos vão pitando no Kombão, pensam em fazer
um acústico de botequim e sonham em tocar no Carnaval baiano
(!!!). Tudo não necessariamente nessa ordem. "Tô querendo
tocar um forrózão acústico num desses botecos da paraibada.
Triângulo, zabumba e o escambau... o legal é não avisar a
ninguém e pegar a rapaziada de surpresa", delira Digão.
Rodolfo, em outra sintonia, quer um pouco mais de calor humano.
"Já pensou na detonação que seria, a gente tocando num
trio elétrico..." Digão retoma, pensando em sacanagem, é
claro. "Não posso esperar para ver de perto a dança da
garrafa..." A galera se liga no rebolado... E os olhos dos
raimundinhos brilham feito bola de árvore de Natal...
OS ESCROTINHOS
Era uma vez um Rodolfinho Raimundo que não saía do quarto e
vivia com a barraca armada. Solução para o garoto, cheio de
calos nas mãos: afogar o ganso no Roda Viva, o melhor puteiro da
Paraíba. Idéia dos aloprados Primo Justo (Digão), Sacana
(Fred) e Cabeça Gorda (Canisso), que, transbordando boas más
intenções, arrastam o moleque para a zona.
O argumento do H.Q. Puteiro Em João Pessoa (que só pode ser
encontrado na edição limitada do novo disco Cesta Básica) é
dos próprios Raimundos; a criação é do cartunista Angeli.
Famoso pela extinta revista Chiclete Com Banana e pai de
personagens hilariantes como Bob Cuspe, Rê-Bordosa e Os
Escrotinhos, ele é o cara perfeito pra desenhar os paraíbas.
Palavra de Raimundo: "Tenho toda a coleção da Chiclete Com
Banana... Bob Cuspe é meu ídolo! Foi uma honra ser desenhado
pelo Angeli", conta Rodolfo, deixando a baba escorrer.
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