A mágica da ciência (Folha de São Paulo 16/09/01)

Nova obra do historiador Paolo Rossi investe contra a idéia muito difundida de que a pesquisa moderna não se diferenciaria fundamentalmente da magia e do misticismo

 

alquimista Henning Bran reza após descobrir, em 1669, o elemento fósforo, em quadro pintado em 1771 pelo britânico Joseph Wright

Flávio Dieguez (free-lance para a Folha)

 

O último livro do italiano Paolo Rossi, da Universidade de Florença, um dos maiores historiadores da ciência da atualidade, tem pretensões aparentemente modestas. Não traz tese inédita, não apresenta dados novos nem contesta as idéias em vigor em relação ao tema que discute (que, não por acaso, é a sua especialidade): o nascimento da ciência no século 17. Trata-se, na verdade, de um texto de encomenda, escrito para fazer parte de uma coleção abrangente, patrocinada por um pool de grandes editoras européias, cujo objetivo é repassar a história desse continente em todos os seus aspectos, da economia ao povoamento, da religião às artes e da política à ciência. O nome da coleção, "Fazer a Europa", dá o tom dos ensaios que a compõem: o plano é vasculhar o passado como meio de orientar o futuro que os europeus desejam para si mesmos. Dentro desses limites, Rossi fez um trabalho exemplar, produzindo um delicioso receituário de antídotos contra equívocos comuns - muito mais frequentes, de fato, do que seria desejável - a respeito da história da ciência. Um dos seus alvos centrais é a noção de que, só porque muitos dos "pais" da ciência eram místicos, não haveria distinção radical entre o pensamento científico e o misticismo ou a magia.

Contra Koestler
Um dos primeiros a investir tempo e neurônios nessa direção foi o escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983). Em 1956, Koestler escreveu um livro extraordinário ("Os Sonâmbulos - A História das Idéias do Homem sobre o Universo"), tentando demonstrar que as descobertas do alemão Johannes Kepler (1571-1630), um dos fundadores da astronomia, se deviam menos à sua confiança no método científico do que à sua admiração pelas idéias herméticas do filósofo grego Pitágoras (cerca de 580-500 a.C.) -para quem os números eram a única realidade verdadeira e o restante, uma simples ilusão dos sentidos. O ponto que Koestler queria demonstrar era que, em vez de se guiar pela observação sistemática das coisas e pela experimentação, os cientistas, na verdade, chegam a suas descobertas meio às cegas, guiados por sentimentos e ideais difusos. Como sonâmbulos, para ficar com a metáfora do autor. De 1956 para cá, essa visão não perdeu nem um pouco de sua inegável popularidade. Volta e meia aparece alguém convencido de que o físico inglês Isaac Newton (1643-1727) não era tão científico assim, só porque passou boa parte de sua vida investigando assuntos esotéricos, como o sonho alquimista da transmutação do chumbo em ouro. Rossi mostra, no entanto, que as interpretações como a de Koestler são estreitas e simplistas. Segundo ele, não existe a menor dúvida de que as idéias e os conceitos medievais estavam presentes, e com muita força, nas mentes dos criadores da ciência moderna. Mas isso não os impediu de, no final das contas, suplantar e destruir os valores medievais.

Magia e superstição
É um engano achar que a ciência surgiu depois de derrotar a magia, a superstição e outras tradições que se opunham a ela, ou que a ascensão do pensamento científico coincidiu com o declínio dos modos de conhecimento que o precederam. Ao contrário, a nova mentalidade cresce junto com eles e a despeito de eles também estarem se fortalecendo. A magia, lembra Rossi, ressurge bem no início da chamada revolução científica, no final do século 15, conquista um grande número de adeptos ao longo do século 16 e preserva uma influência considerável até meados do 17, quando o pensamento científico já estava solidamente fundado e consolidado. Nesse período, espalham-se pela Europa diversas correntes afins à magia, no sentido de que defendiam a existência de uma realidade transcendental, além da que percebemos, e que podia se tornar fonte de conhecimento ou de benefícios por meio de simpatias, rituais ou fórmulas secretas. Ressuscitam, assim, o vitalismo, o animismo e as modalidades variadas de misticismo. Rossi chama a atenção para dois livros importantes para todas essas correntes: o "Secreta Secretorum", geralmente atribuído a Aristóteles, no século 3 a.C., e o "Corpus Hermeticum", supostamente de autoria de Hermes Trimegisto, do século 2. Ambos foram editados por volta de 1460, se difundiram largamente pelo continente -e com certeza influenciaram muitos dos protagonistas da revolução científica. A situação é mesmo confusa, concorda Rossi, que dedica vários capítulos, muito divertidos, por sinal, ao trabalho de pinçar resquícios dessa influência sobre a mentalidade de cada um dos grandes fundadores da ciência. Ele conta, por exemplo, que o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) escreveu um livro que, apesar de se chamar "Ciência Experimental", está carregado de linguagem hermética e terminologia da alquimia. Kepler, profundo conhecedor do "Corpus Hermeticum", seguia o misticismo platônico, acreditando que decifraria as órbitas dos planetas empregando apenas elucubrações numéricas e geométricas. Sua mãe era bruxa, obrigando o filho a empatar grande parte de seu tempo e de sua energia em esforços para livrá-la de acusações horríveis, entre as quais a de assassinato por meio de rezas e maus-olhados.
Vitalismo, lulismo, cabala
O astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) invocava a autoridade de Hermes Trimegisto em apoio à sua herética tese de que era o Sol, e não a Terra, o centro do Universo. O físico inglês William Gilbert (1544-1603), um dos pioneiros no estudo do magnetismo, visualizava a força dos ímãs como um poder transcendental, nos moldes do vitalismo, e usava argumentos de Zoroastro para corroborar sua opinião. O alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) e o francês René Descartes (1596-1650) eram adeptos do lulismo mágico, uma forma obscura de misticismo. A lógica de Leibniz, segundo Rossi, tem pitadas da cabala. Isaac Newton, enfim, teria dedicado mais de 1 milhão de palavras de sua obra à alquimia.

"A verdade não está ligada à autoridade de quem a enuncia, somente à evidência dos experimentos e à força das demonstrações"


Nesse cenário caótico de idéias, Rossi argumenta que a dificuldade de muitas pessoas em compreender a transição para o pensamento científico se deve, em parte, à própria sociedade que emergiu no lugar do mundo medieval. É que, tendo saído vitoriosa de um confronto muito duro com o regime feudal, ela pintou os derrotados do pior modo possível. Tanto que até hoje persiste a imagem da Idade Média como uma era de trevas e decadência, embora a Europa no século 11 fosse mais rica do que Roma em seu apogeu -com a vantagem de reunir uma população dez vezes maior. "A Idade Média deixou catedrais magníficas, descobriu e explorou a força dos moinhos de vento e criou uma rede admirável de universidades a partir do século 12", enumera Rossi. Mesmo na área da ciência, apesar de a palavra não existir no sentido que ela teria mais tarde, produziu-se muito. As primeiras contestações à autoridade científica de Aristóteles não aparecem com os italianos Galileu Galilei (1564-1642) e Giordano Bruno (1548-1600), no século 16, mas com estudiosos das universidades medievais em Paris ou Oxford, nos séculos 12 e 13. Aliás, foi ao perceber esse fato que diversos historiadores da ciência, nos anos 70, levantaram a tese polêmica do "continuísmo", segundo a qual não teria havido ruptura relevante na passagem do pensamento medieval ao científico. Rossi cita, de passagem, o francês Pierre Duhen como um dos defensores desse ponto de vista. Mas não concorda: "O continuísmo é somente uma medíocre filosofia da história sobreposta na história real", escreve. Para se convencer disso, propõe Rossi, é útil fazer uma lista dos pressupostos do pensamento medieval e compará-los com os ideais científicos. A trajetória de Kepler é um exemplo esclarecedor porque, embora tenha se apoiado na numerologia platônica enquanto tentava adivinhar a forma exata das órbitas dos planetas, nem por isso deixou de comprovar suas hipóteses por meio da observação sistemática do céu com o telescópio. Dito de outra maneira, fossem quais fossem as suas inclinações filosóficas pessoais, ele aderia firmemente ao requisito da ciência de que toda descoberta ou teoria deveria ser escrita em linguagem tão clara quanto possível e comprovada por observações ou experiências que pudessem ser repetidas por qualquer um, sempre que necessário. Essas normas foram criadas e disseminadas pelos próprios cientistas, ao mesmo tempo em que faziam as grandes descobertas que marcaram a eclosão do conhecimento científico. Como salienta o sociólogo israelense Joseph Ben-Davi no livro "O Papel do Cientista na Sociedade", eles tiveram de organizar suas regras de conduta e seus critérios de verdade na prática, como meio de se fortalecer face aos modelos antigos de conhecimento. A luta da ciência, diz Ben-Davi, "foi uma luta pelo método exato, paulatino e operacional do cientista".

A autoridade do experimento
Segundo Rossi, as regras da ciência estão descritas nos estatutos de todas as instituições erigidas pelos novos pensadores, como academias, liceus e sociedades científicas. Assim, um texto da Sociedade Real de Ciência, na Inglaterra, pedia que seus membros dessem "preferência à linguagem dos artesãos e dos comerciantes, em lugar da linguagem dos filósofos", e exigia "postura crítica em relação às afirmações de quem quer que seja", pois "a verdade não está ligada à autoridade de quem a enuncia, somente à evidência dos experimentos e à força das demonstrações".
Os cientistas, naturalmente, cometeram deslizes contra seus próprios princípios, mas os escorregões e os conflitos gerados por eles são uma prova de que a ruptura era para valer e não tinha retorno. Veja-se o famoso debate entre Newton e Leibniz em relação à gravidade. Leibniz e os seguidores de Descartes diziam que a atração gravitacional era enigmática porque o Sol atraía a Terra sem que houvesse ligação material, concreta e palpável entre os dois corpos. Leibniz chegou a acusar Newton de condescender com a lógica dos milagres.
Em sua resposta, porém, o inglês revela claramente de que lado estava, pois reconhece que realmente não havia ainda conseguido estipular as "causas" da gravitação. Mas defende a sua adoção porque havia inúmeras demonstrações práticas, embora indiretas, de sua existência: a mais conhecida são as marés, que puderam ser calculadas com exatidão apenas considerando que eram provocadas pela atração gravitacional da Lua.
Se Newton não aceitasse o método científico, nem precisaria se defender, já que, como diz Rossi, o conhecimento mágico era mesmo misterioso. "Não é por acaso que vinha formulado numa linguagem metafórica e quase incompreensível", diz o historiador. No fundo, esse tipo de conhecimento não era para ser compreendido, mas sim apreendido, pois suas verdades seriam inacessíveis à razão. É nesse aspecto que se deve procurar a ruptura envolvida no surgimento da ciência.
Rossi ilustra a diferença de mentalidade citando dois depoimentos. O primeiro vem de um alquimista italiano do século 15, Bono de Ferrara: "O alquimista não fala de ouro real ou enxofre real porque acredita que todo objeto é algo mais do que ele próprio; é, também, o receptáculo de uma realidade transcendente". O segundo depoimento é um texto do metalurgista alemão Georg Agricola (1494-1555): "Há escritores que não chamam as coisas pelos nomes e vocábulos próprios, mas com nomes estranhos e inventados, o que considero um sinal de que não sabem do que estão falando".


O nascimento da ciência moderna na Europa de Paolo Rossi
494 págs. R$ 45,00 Edusc (r. Irmã Arminda, 10-50, CEP 17044-160, Bauru, SP, tel. 0/ xx/14/ 235-7111).