|
TEORIA DAS LONGAS ONDAS E OS CICLOS DA INDÚSTRIA MUNDIAL |
Prof. Hindenburgo F. Pires (Dep. Geografia UERJ)
1. Teorias dos Ciclos segundo: Kondratieff
Entre os vários
precursores dos estudos sobre os Longos Ciclos ou Longas Ondas (GOLDSTEIN,1988),
merece ser destacado o economista marxista russo Nicolai
Kondratieff, fundador da Teoria do Investimento
de Capital, para ele os longos ciclos no sistema capitalista resultam de sólidos
investimentos ou de sua depreciação em infra-estrutura, como: ferrovias,
portos, canais, indústrias, saneamento básico, eletrificação, construção
civil, etc. Nestes ciclos a fase de expansão é caracterizada por
superinvestimentos em bens de capital e, na fase de depressão, por um processo
de depreciação. Os ciclos representavam, para ele, épocas do desenvolvimento
do capitalismo. Em 1926, Kondratieff foi o primeiro a antever a idéia dos
longos ciclos de 55 anos de duração. Sua intenção não era constituir ou
colocar os fundamentos de uma Teoria apropriada dos longos ciclos, mas somente
de provar a sua existência a partir de evidências empíricas presentes e
expressas na história da economia mundial. Com esse propósito, ele catalogou
informações e dados de quase todos os países, principalmente da França,
Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, procurando demonstrar empiricamente que
os mecanismos e leis que condicionam as longas ondas, são provenientes de:
Modificações Técnicas; Guerras e Revoluções; Assimilação de Novos Países
dentro da Economia Mundial e Flutuações na Produção de Ouro
(KONDRATIEFF,1944).
Para fundamentar suas hipóteses, Kondratieff procurou
examinar o comportamento de variáveis econômicas e sua dinâmica, efetuando,
ao longo dos anos, a análise do movimento médio das séries e indicadores de:
preços de mercadorias; taxas de juros; investimentos de Bancos; salários dos
trabalhadores em atividades agrícolas e industriais; alterações populacionais;
importação e exportação; depósitos e poupanças bancárias; total de comércio
exterior; consumo e produção de carvão; produção de ferro gusa; produção
de cereais por acres e produção líder. Considerando impossível fixar
exatamente os anos que assinalam o momento decisivo dos longos ciclos,
Kondratieff, recorrendo a um método estatístico para analisar esses dados,
constatou que suas tentativas de periodização incorriam num erro de 5 a 7 anos
na determinação dos anos de tais tendências (V.Quadro I), e concluiu que os
limites destes ciclos podiam todavia ser representados como sendo aqueles mais
prováveis:
Quadro I:
Longos Ciclos de Kondratieff
|
LONGOS CICLOS |
FASES A (1a Expansão); B (2a Declínio) |
| Primeira longa onda |
1a A expansão durou do fim dos anos de 1780 ou começo dos anos de 1790 até 1810-17; |
|
2a O declínio durou de 1810-17 até 1844-51; |
|
| Segunda longa onda |
1a A expansão durou de 1844-51 até 1870-1875; |
|
|
2a O declínio durou de 1870-75 até 1890-1896; |
| Terceira longa onda |
1a A expansão durou de 1890-1896 até 1914-20; |
|
|
2a O declínio provável começa nos anos de 1914-20. |
Fonte: KONDRATIEFF (1944:32) In The Long Waves in Economic Life.
Ao examinar a natureza dos longos ciclos, do ponto de vista das modificações nas técnicas de produção, Kondratieff observou que as regularidades do processo ajudam a estabelecer algumas regras empíricas para o movimento das longas ondas. E dentro desta perspectiva, em um curto mas importante trecho, Kondratieff revelou o papel das modificações nas técnicas nos longos ciclos:
"Modificações nas técnicas têm sem dúvida um papel muito influente sobre o curso do desenvolvimento do capitalismo. Mas ninguém provou que elas têm uma origem acidental e externa.
Modificações nas técnicas de produção presume (1) que relevantes descobertas e invenções científicas foram feitas, e (2) que é economicamente viável usá-las. Seria um erro óbvio negar o elemento criativo das descobertas e invenções científico-técnicas. Mas de um ponto de vista objetivo, ocorreria ainda um grande erro se alguém acreditasse que a direção e a intensidade destas descobertas e invenções fossem meramente acidentais; é muito mais provável que a direção e a intensidade sejam uma função das necessidades da vida real e do desenvolvimento precedente da ciência e da técnica.
Invenções científico-técnicas por si mesmas, portanto, são insuficientes para trazer uma mudança real na técnica de produção. Elas podem se manter inefectivas tanto quanto as condições econômicas favoráveis de suas aplicação estiverem ausentes. Isto está revelado no exemplo das invenções científico-técnicas do século XVII e XVIII que foram usadas em larga escala somente durante a revolução industrial e início do século XVIII. Se isto é verdade, então a suposição de que as modificações técnicas são de caráter aleatório e não de fato a fonte nascente de necessidades econômicas perde o seu peso. Nós vimos antes que o desenvolvimento das técnicas em si é parte do ritmo das ondas longas." (KONDRATIEFF,1944:35-36)
Para Kondratieff, as modificações
técnicas representam o mecanismo desencadeador do desenvolvimento tecnológico
(HALL,1985:13) capaz de criar novas oportunidades econômicas e deste modo,
gerar a expansão econômica dos setores produtivos com mercados saturados ou em
recessão. Para ele ainda, de igual modo, as guerras e as revoluções são
conseqüências dos longos ciclos e resultam da luta por mercado e matéria
prima, da distribuição dos frutos do crescimento e da expansão econômica.
No Brasil a maior expressão da Teoria dos ciclos longos
foi Ignácio RANGEL, que em 1957, no Texto publicado pelo ISEB: A Dualidade Básica
da Economia Brasileira foi o primeiro economista a introduzir as idéias de
N. Kondratieff para o exame da economia brasileira (MAMIGONIAN,1987; BRESSER
PEREIRA & REGO,1993).
2. Teorias dos Ciclos segundo: J. Schumpeter
Para J. Schumpeter --- economista austríaco e professor da Universidade de Harvard, formulador da teoria da Inovação (SCHUMPETER, 1989:62-77) --- os longos ciclos resultam da conjugação ou da combinação de inovações, que cria um setor líder na economia, ou um novo paradigma, que impulsiona o crescimento rápido desta economia (KLEINKNECHT,1990:89). Este setor promove, antes de consolidar a sua hegemonia, uma avalanche de transformações e de destruições criativas, ou seja:
"O Capitalismo, então, é, pela própria natureza, uma forma ou método de mudança econômica, e não apenas nunca está, mas nunca pode estar estacionário. E tal caráter evolutivo do processo capitalista não se deve meramente ao fato de a vida econômica acontecer num ambiente social que muda e, por sua mudança, altera os dados da ação econômica; isso é importante e tais mudanças (guerra, revoluções e assim por diante) freqüentemente condicionam a mudança industrial, mas não são seus motores principais. Tampouco se deve esse caráter evolutivo a um aumento quase automático da população e do capital ou dos caprichos dos sistemas monetários, para os quais são verdadeiras exatamente as mesmas coisas. O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre de novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria....
A abertura de novos mercados -- estrangeiros ou domésticos -- e o desenvolvimento organizacional, da oficina artesanal aos conglomerados... , ilustram o mesmo processo de mutação industrial... que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial do capitalismo. É nisso que consiste o capitalismo e é aí que têm de viver todas as empresas capitalistas." (SCHUMPETER,1984:112-113).
Todavia, quando as tecnologias introduzidas pelo setor líder se tornam praticamente incorporadas ao sistema de produção ou se difunde por quase todos os setores, o retorno dos investimentos tendem a diminuir e a economia caminha para um processo de acomodação, que é seguido por uma depressão, nesta última fase são encorajados os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, fazendo ressurgir uma nova era de inovações. Em 1936, Joseph Schumpeter além de refinar e aprofundar a teoria de Kondratieff (HALL,1985:06), analisou a depressão de 1930, baseando-se nas depressões ocorridas em 1825 e 1873, e formulou uma Teoria sobre os Ciclos dos Negócios, lapidando-a a partir dos conceitos de: inovação, revoluções técnicas, setor líder da economia, novas firmas, novas formas organizacionais, mudanças institucionais, oceano competitivo, destruição criativa, racionalização do trabalho. Segundo Henrique RATTNER numa versão adaptada dos ciclos de negócios de Schumpeter, os ciclos podem ser retratados da seguinte maneira:
Quadro II:
Longos Ciclos Adaptados de Schumpeter
|
FASES |
DECOLAGEM |
EXPANSÃO |
RECESSÃO |
DEPRESSÃO |
|
CICLOS |
A |
B |
C |
D |
|
1o |
1770-1785 |
1786-1800 |
1801-1813 |
1814-1827 |
|
2o |
1828-1842 |
1843-1857 |
1858-1869 |
1870-1885 |
|
3o |
1886-1897 |
1898-1911 |
1912-1925 |
1926-1937 |
|
4o |
1938-1952 |
1953-1973 |
1974-1985 |
1986... |
Fonte: RATTNER (1988:63).
Cada longa onda de expansão, que é comandada por um setor líder ou um novo paradigma técnico econômico (PEREZ,1985:442), estava associada com uma base tecnológica histórica particular (GOLDSTEIN,1988) ou tecnologias fundamentais (STOFFAES,1991). O Quadro II, abaixo, apresenta a perspectiva teórica oferecida por Schumpeter e seus seguidores (MENSCH, VAN DUIJN, FREEMAN) para a reconstituição dos longos ciclos e suas tecnologias fundamentais.
Quadro III:
Longos Ciclos e Tecnologias Fundamentais
| Longos Ciclos da Economia Mundial | Tecnologias Fundamentais e Setores Líderes Industriais | Inovações (Quant.) |
|
1790-1847 (1o Longo Ciclo) |
Máquina a Vapor, Tear, Madeira e Ferro; |
15 |
|
1848-1893 (2o Longo Ciclo) |
Carvão, Fundição, Estradas de Ferro, de Ferro, Materiais de Construção; |
46 |
|
1894-1945 (3o Longo Ciclo) |
Aço, Eletrônica, Motor à Combustão Interna, Mecânica, Química Mineral e Produção de Gás; |
72 |
|
1946-1973 (4o Longo Ciclo) |
Petroquímica, Pequeno Motor Elétrico, Radiofonia, Televisão, Computador Eletrônico, |
|
|
Fase A |
Energia Nuclear, Satélites, Aviação Comercial, Transístor, Semicondutor; |
27 |
|
1974-1993 (4o Longo Ciclo) |
Microeletrônica e o Chip, Telecomunicações, Robótica, Química Fina, Biotecnologia, |
60* |
|
Fase B |
Fibras Óticas, Novos Materiais, etc. |
Baseado em: STOFFAES (1990:337 e 362); GOLDSTEIN (1988:94).
(*)Obs.: Número Aproximado de Inovações.
Este novo paradigma técnico-econômico,
que representa um "conjunto de orientações do senso comum para decisões
tecnológicas e de investimento" (PEREZ,1985:443), quando eclode,
emerge de forma demolidora, transformando as formas de organização, distribuição
e realização da produção. Às vezes a semente deste novo paradigma é
consubstanciada em condições de hegemonia e decolagem (take-off) do
antigo modelo de produção (ou do velho paradigma). A idéia evolucionista de
nova e velha competição, fartamente utilizada na atualidade (BEST,1990; FERRAZ,
RUSH & MILES, 1992ab), surgiu desses enunciados. Para Schumpeter, a inovação
é um conjunto de novas funções evolutivas que alteram os métodos de produção,
criando novas formas de organização do trabalho e, ao produzir novas
mercadorias, possibilita a abertura de novos mercados através da criação de
novos usos e consumos.
Dentro ainda desta perspectiva evolucionista, Schumpeter
praticamente generalizou as diferentes formas de concorrência, como se elas
ocorressem em igualdade de condições para todos os concorrentes em qualquer
parte do mundo e, praticamente, deixou de elucidar os impactos negativos da
"destruição criativa da inovações" sobre o trabalho vivo e
abstrato. Para ele sobrevive os mais aptos, a falência é uma forma de sanção
(STOFFAES,1990) aos que não souberam ser "criativos ou inovativos".
Efetuando uma crítica a essa idéia da concorrência, desenvolvida por
Schumpeter, Robert KURZ coloca:
"Marx nunca deixou de ver o lado positivo, progressista, emancipatório da concorrência, chamando-o de "missão civilizatória do capital". Quase admirado observa Josef Schumpeter que Marx, apesar de sua crítica fundamental do capital, apesar de pronunciar sua "sentença de morte", deu no fundo uma "descrição quase entusiasmada dos resultados que trouxe o capitalismo" (Schumpeter, 1980[1942], pp.23 ss.)
Na verdade, a crítica da economia política de Marx somente tem em conta a ambigüidade da dinâmica capitalista. Apesar de sua força destrutiva frente aos homens e à natureza, a máquina da concorrência é ao mesmo tempo emancipação negativa, por alcançar inevitavelmente, mediante desenvolvimento ininterrupto das forças produtivas, o ponto de uma "abolição do trabalho", isto é, do trabalho de produção abstrato, repetitivo, somente destinado a "criar valores"; com isso, no entanto, suprime também sua razão de ser, fazendo-se obsoleta a si mesma. O entrelaçamento dos conteúdos da reprodução num sistema global de socialização direta opõe-se às categorias da mercadorias, aperfeiçoado até trazer seu fim em sim mesmo, que cria essa penetração das ciências e esse entrelaçamento, fazendo nascer, ao perseguir inconscientemente seu objetivo limitado, "sem sentido", seu próprio antagonista. A concorrência trabalha, sem saber e sem querer, na destruição de seu próprio fundamento.
Em outras palavras: a abolição do trabalho no invólucro do sistema produtor de mercadoria, não nasce como alegria e felicidade, mas somente em forma negativa, como crise, e finalmente como crise absoluta da reprodução realizada dessa forma, situação que já se anunciou por uma seqüência histórica de crises de ascensão relativas da sociedade de trabalho moderna....
Até a segunda metade do século XX, o desenvolvimento empírico não forneceu nenhum indício que dessa razão à crítica de Marx, cuja lógica precisamente por isso parecia obscura. O desenvolvimento das forças produtivas não tinha alcançado aquele ponto a partir do qual se torna obsoleto o princípio básico da sociedade do trabalho. Por isso a crítica da concorrência permanecia ainda durante muito tempo dentro do horizonte da sociedade do trabalho, parecendo duvidosa. Na base dessa concepção era impossível reconhecer o lado emancipatório da concorrência." (KURZ,1992:80-82).