A ESCRITURA AFIRMA EXISTIR SÓ O DEUS VERDADEIRO EM OPOSIÇÃO A TODOS OS DEUSES CRIADOS PELA SUPERSTIÇÃO DOS HOMENS

  1. A DOUTRINA BÍBLICA DE DEUS COMO CRIADOR
  2. Pelo fato de havermos ensinado que o conhecimento de Deus se evidencia, de modo não obscuro, sob outro aspecto na estrutura do universo e em todas as suas criaturas – e que esse conhecimento se desdobra mais íntima e vividamente na sua Palavra –, agora compensa verificar se o Senhor, nas Escrituras, se apresenta a nós do mesmo modo como o vimos descrito em suas obras.

    O assunto é bastante longo, se quisermos tratá-lo com mais diligência. Eu me darei por satisfeito, no entanto, apresentando-o como um resumo – que ajude as mentes piedosas a saberem que é que devem investigar a respeito de Deus, nas Escrituras –, dirigindo-se ao exato objetivo de sua indagação. Não faço referência ao pacto especial por meio do qual Deus distinguiu a raça de Abraão de outras gentes (Gn 17.4). Ora, quando por graciosa adoção recebeu como filhos àqueles que eram inimigos, mostrou-se, então, seu Redentor. Nós, no entanto, até aqui nos movemos neste conhecimento que se limita à criação do mundo e nem chega a Cristo, o Mediador. Ainda que mais adiante seja necessário citar algumas passagens do Novo Testamento – visto que dele também se pode provar não só o poder de Deus, como Criador, mas também sua providência na preservação da natureza primária –, quero, contudo, que os leitores, devidamente avisados, não vão além dos limites estabelecidos, quanto ao que me proponho agora a fazer. Em suma, que seja suficiente agora aprender como Deus, o Criador do céu e da terra, governa o mundo que Ele criou. Na verdade, nas Escrituras, celebra-se repetidamente não só a bondade paternal de Deus, mas também a sua vontade inclinada à beneficência, oferecendo-se também, nas Escrituras, exemplos de severidade de Deus, exemplos que mostram ser Ele vingador dos feitos iníquos, especialmente onde sua tolerância nenhum proveito traz aos obstinados.

  3. A BÍBLIA E A CRIAÇÃO ATESTAM, IGUALMENTE, OS ATRIBUTOS DIVINOS
  4. Realmente, em algumas passagens da Bíblia apresentam-se descrições mais vívidas, nas quais se exibe a verdadeira face de Deus, vista como imagem. Assim, Moisés, ao descrevê-la, parece ter desejado claramente compreender, de forma sumária, tudo quanto era próprio ser conhecido pelos homens a respeito de Deus. Diz Moisés: "Senhor, Deus misericordioso e claramente paciente e de muita compaixão, e veraz, Deus que guardas a misericórdia para com milhares e que removes a iniqüidade e as transgressões, Deus, diante de quem o culpado não será inocente, e que aos filhos e netos atribuis a iniqüidade dos pais." (Ex 35.6-7). Notemos que aí se proclama, repetindo-se duas vezes, o nome magnífico de Deus – que traduz a eternidade (=aquele que tem existência própria).

    Em seguida, suas virtudes são evocadas e, com base nelas, descreve-se não quem é Deus, em si mesmo, porém, sim, quê Ele é para nós, de maneira que este conhecimento que passamos a Ter dEle consista mais de viva experiência que de vazia e inútil especulação. Na verdade, vemos, nas Escrituras, serem enumeradas as mesmas virtudes que reconhecemos brilharem no céu e na terra, ou seja, vemos a clemência, a bondade, a misericórdia, a justiça, o juízo e a verdade. Sim, porque virtude e poder estão contidos no nome Elohim (=Deus).

    Os profetas, aliás, caracterizaram a Deus com esses mesmos epítetos (=nomes), quando querem realçar plenamente o seu santo nome. Para que não sejamos obrigados a fazer uma lista de muitas referências, contentemo-nos, por agora, com o Salmo 145, no qual se enumera, de modo preciso, a súmula de todas as virtudes de Deus e nada parece ficar omitido. No entanto, nada se diz nesse Salmo que não possa contemplar nas criaturas. Portanto, guiados pela experiência, como nossa mestra, sentimos que Deus é exatamente como a Palavra diz que Ele é.

    No profeta Jeremias onde Deus diz que de modo quer ser conhecido como nós, o Senhor faz uma descrição não tão completa como a do Salmo 145, descrição que, no entanto, acaba sendo praticamente a mesma: "Quem se gloria, diz o Senhor, glorie-se nisto: Em me conhecer e saber que eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo, e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor." (Jr 9.24). Certamente, nos é necessário conhecer estas três coisas: A misericórdia, na qual repousa a salvação de todos nós; o Juízo, que todos os dias se exerce contra os malfeitores, reservando-se-lhes, ainda mais severamente, a ruína eterna; a justiça, pela qual Deus preserva os fiéis e os assiste benignamente. Conhecendo essas três coisas, a profecia nos assegura que temos matéria suficiente para nos gloriarmos em Deus. Contudo, nem desse modo pode-se deixar de considerar em Deus a verdade, o poder, a santidade e a bondade, pois de que modo se poderia evidenciar o conhecimento que se requer da justiça, da misericórdia e do juízo divino, a não ser que esse conhecimento estivesse calcado na sua verdade inflexível? E como poderíamos crer que Deus governa a terra em juízo e justiça, se não reconhecêssemos que Ele tem poder? E de onde tiraria Ele a misericórdia, senão da bondade? Se, finalmente, todos os caminhos de Deus são misericórdia, juízo e justiça, eminente também, nesses caminhos, é a santidade.

    Portanto, o conhecimento que as Escrituras nos apresentam a respeito de Deus, não tem outro objetivo senão aquele que brilha gravado nas escrituras, ou seja, é o conhecimento que, em primeiro lugar, nos convida ao temor de Deus; em seguida, convida-nos a cofiar nEle para, na verdade, aprendermos a cultuá-lO não só com perfeita inocência de vida, mas também com não fingida obediência e, desse modo, aprendamos a depender totalmente de sua bondade.

  5. . DIANTE DA NOÇÃO QUE TEMOS DO DEUS ÚNICO, OS IDÓLATRAS NÃO TÊM DESCULPAS

Nosso objetivo, porém, é fazer uma síntese da doutrina geral. Observemos, primeiro, que as Escrituras, para dirigir-nos ao Deus verdadeiro, exclui e rejeita expressamente a todos os deuses inventados pelos homens, visto que, por quase todos os séculos, a cada passo, a religião foi adulterada. Certamente, é verdadeiro o fato de que o nome do Deus único tem sido conhecido e celebrado por toda parte, pois mesmo aqueles que adoravam grande multidão de deuses, falaram freqüentemente de acordo com o próprio sentido da natureza, usando simplesmente o nome de Deus, como se apenas um Deus único fosse suficiente. E isso Justino, o mártir, com muita propriedade, compondo, para este fim, um livro intitulado A Monarquia de Deus no qual, por meio de muitas testemunhas, mostra que a unicidade de Deus está impressa no coração de todos. Tertuliano também, com base na linguagem comum, prova a mesma coisa.

Mas, em decorrência do fato de todos serem arrastados ou impelidos pela vaidade a falsas invenções, e assim terem embotado os seus sentimentos, tudo quanto pensaram do Deus único – em bases naturais – nada lhes valeu, senão que se tornassem indesculpáveis. Até mesmo os mais sábios de todos eles põem à mostra a divagação errante da própria mente, quando anseiam pela assistência de um Deus – qualquer que seja ele –, por isso, em suas preces invocam divindades incertas. Acrescente-se a isso que, pelo fato de imaginarem que a natureza de Deus é múltipla – ainda que o seu sentimento, em relação à divindade, fosse menos absurdo do que o sentir do vulgacho em relação a Júpiter, Mercúrio, Vênus, Minerva e outros deuses –, mesmo os mais sábios não escaparam das enganosas sutilezas de Satanás. E como já dissemos em outro lugar (nesta obra), todos e quaisquer artifícios que os filósofos imaginaram com argúcia, não diminuem o seu crime de apostasia, mas tornam evidente que a verdade de Deus foi corrompida por todos eles.

Por essa razão, o profeta Habacuque, onde condena a todos os ídolos ordena que se busque a Deus no seu templo (2.20), para que os fiéis não admitissem outro Deus, a não ser aquele que se revelou por Sua Palavra.

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Desde 31/10/99