O CATECISMO DE
HEIDELBERG
IntroduçãoP. 1. Qual é o teu único conforto na vida e na morte?
É que eu pertenço - corpo e alma, na vida e na morte - não a mim mesmo, mas a meu fiel Salvador, Jesus Cristo, que com o seu precioso sangue pagou plenamente todos os meus pecados e me libertou completamente do domínio do Diabo; que ele me protege tão bem, que sem a vontade de meu Pai no céu nenhum cabelo pode cair da minha cabeça, na verdade, que tudo deve adaptar-se ao seu propósito para a minha salvação. Portanto, pelo seu Santo Espírito, ele também me garante a vida eterna e me faz querer estar pronto, de todo o coração, a viver para ele daqui por diante.P.2. Quantas coisas deves conhecer para viveres e morreres na bem-aventurança dessa consolação?
Três. Primeiro, a grandeza do meu pecado e miséria. Segundo, como sou libertado de todos os meus pecados e de suas conseqüências miseráveis. Terceiro, que gratidão devo a Deus por essa redenção.
Parte I
Da Miséria do HomemP.3. Onde aprendes acerca do teu pecado e das suas miseráveis conseqüências?
Na Lei de Deus.P. 4. Que requer de nós a Lei de Deus?
Jesus Cristo ensina tudo isto em resumo em Mateus 22,37-40: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas".P.5. Podes observar perfeitamente tudo isto?
Não, pois por natureza sou inclinado a odiar a Deus e ao meu próximo.P. 6. Criou Deus o homem assim mau e perverso?
Não. Ao contrário, Deus criou o homem bom e à sua imagem, isto é, em verdadeira justiça e santidade, a fim de que ele conhecesse corretamente a Deus seu Criador, o amasse de todo o coração e vivesse com ele em eterna bem-aventurança, louvando-o e glorificando-o.P.7. De onde vem, então, esta corrupção da natureza humana?
Da queda e desobediência de nossos primeiros pais, Adão e Eva, no Jardim do Éden; pelo que a nossa vida humana foi de tal modo envenenada que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado.P.8. Mas somos nós de tal forma pervertidos que nos tornamos totalmente incapazes de praticar o bem e inclinados ao mal?
Sim, se não nascermos de novo pelo Espírito de Deus.P.9. Não é Deus injusto exigindo do homem, em sua Lei, aquilo que ele não pode praticar? Não, pois Deus criou o homem de tal forma que ele poderia ter feito isso. Mas o homem, sob a instigação do Diabo, por desobediência deliberada, defraudou-se desses dons a si mesmo e a todos os seus descendentes.
P.10. Permite Deus que fique impune tal desobediência e apostasia do homem?
Certamente que não, pois a ira de Deus se revela do céu, tanto contra os nossos pecados originais, como contra os nossos pecados atuais, e ele os punirá segundo o seu justo juízo no tempo e na eternidade, como declarou: "Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da Lei, para praticá-las".P. 11. Não é Deus também misericordioso?
Deus na verdade é misericordioso, mas é também justo. É sua justiça que exige que o pecado cometido contra a suprema majestade de Deus tenha a punição máxima, isto é, o castigo eterno do corpo e da alma.
Parte II
Da Redenção do HomemP. 12. Desde então, que pelo justo juízo de Deus viemos a merecer castigo temporal e eterno, como podemos escapar desse castigo e retornar à graça e reconcilar-nos com Deus?
Deus quer que a sua justiça seja satisfeita; portanto, ou por nós mesmos ou por outrem importa que se dê satisfação plena à sua justiça.P.13. Mas podemos nós, por nós mesmos, dar essa satisfação?
De modo nenhum. Pelo contrário, aumentamos o nosso débito a cada dia.P. 14. E pode qualquer simples criatura dar por nós tal satisfação?
Nenhuma. Antes de mais nada, Deus não quer punir nenhuma outra criatura pelo débito do homem. Além disso, nenhuma simples criatura pode suportar o peso da ira eterna de Deus contra o pecado e dela livrar os outros.P. 15. Então, que espécie de mediador e redentor devemos buscar?
Alguém que seja verdadeiro homem e homem justo, e, contudo, mais poderoso que todas as criaturas, isto é, alguém que seja, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus.P. 16. Por que deve ele ser verdadeiro homem e homem justo?
Porque a justiça de Deus exige que a natureza humana que pecou pague pelo pecado, mas o homem, que é pecador, não pode pagar por outros.P.17. Por que deve ser ele Deus ao mesmo tempo?
Para que assim, pelo poder da sua divindade, possa suportar, como homem, o peso da ira de Deus e recuperar por nós e restaurar para nós a justiça e a vida perdidas.P. 18. Quem é esse mediador, que é, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem e homem justo?
Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos é dado livremente para total redenção e justiça.P. 19. De onde sabes isto?
Do Santo Evangelho, que o próprio Deus revelou no princípio no jardim do Éden, depois proclamou por meio dos santos patriarcas e profetas, prefigurou através de sacrifícios e outras cerimônias da Lei, e finalmente cumpriu por meio do seu próprio Filho bem-amado.P. 20. Serão então todos os homens salvos por meio de Cristo, como eles se perderam em Adão?
Não. Somente aqueles que, pela verdadeira fé, são incorporados a ele e aceitam todos os seus benefícios.P. 21. Que é fé verdadeira?
Não é apenas certo conhecimento pelo qual aceito como verdadeiro tudo o que Deus nos revelou em sua Palavra, mas também uma sincera confiança que, pelo Evangelho, o Espírito Santo cria em mim, de que Deus concedeu. não apenas aos outros mas também a mim, perdão de pecados, justiça eterna e salvação, exclusivamente pela graça, só por causa da obra salvadora de Cristo.P. 22. Que é, então, que o cristão deve crer?
Tudo o que nos é prometido no Evangelho, que nos é em resumo ensinado nos artigos do Credo dos Apóstolos, nossa confissão de fé universalmente reconhecida.P. 23. Quais são esses artigos?
Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor; o qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; no terceiro dia ressurgiu dos mortos; subiu ao céu, onde está sentado à direita de Deus Pai, Todo-poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo; na santa Igreja católica; na comunhão dos santos, na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; e na vida eterna.P. 24. Como são divididos estes artigos?
Em três partes. A primeira diz respeito a Deus, o Pai, à nossa criação; a segunda, Deus, o Filho, e à nossa redenção; a terceira, a Deus, o Espírito Santo, e à nossa santificação.P.25. Se há um só Ser Divino, por que falas de três, Pai, Filho e Espírito Santo?
Porque Deus assim se revelou em sua Palavra, de modo que estas três pessoas distintas são um só Deus, verdadeiro e eterno.
De Deus, o Pai
P. 26. Que é que crês, quando dizes: "Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra"?
Que o eterno Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do nada criou o céu e a terra com tudo que neles há, que também os sustenta e governa pelo seu eterno conselho e providencia, é - por causa de Cristo seu Filho - meu Deus, e meu Pai. Confio nele tão completamente que não tenho nenhuma dúvida de que ele proverá de todas as coisas necessárias ao corpo e à alma. Além disso, seja qual for o mal que me envie nesta vida conturbada, ele o mudará em bem para mim, pois ele pode assim fazer, sendo Deus onipotente e estando determinado a agir dessa maneira, como um Pai fiel.P. 27. Que é que entendes por providência de Deus?
O poder onipotente e sempre presente de Deus, pelo qual, como se fosse pela sua própria mão, ele sustenta o céu e a terra, juntamente com todas as criaturas, e a governa de tal modo que folhas e relva, chuva e seca, anos frutíferos e infrutíferos, alimento e bebida, saúde e doença, riquezas e pobreza e tudo o mais nos vêm, não do acaso, mas da sua mão paternal.P. 28. Que vantagem resulta do reconhecimento da criação e providência de Deus? Aprendemos que precisamos ser pacientes na adversidade, gratos no meio das bênçãos e confiantes em nosso fiel Deus e Pai quanto ao futuro, seguros de que nenhuma criatura nos separará de seu amor, visto que todas as criaturas se encontram tão completamente em suas mãos que, sem sua vontade, nem sequer podem mover-se.
De Deus, o FilhoP. 29. Por que é o Filho de Deus chamado "Jesus", isto é, "Salvador"?
Porque ele nos salva de nossos pecados e porque a salvação não pode ser buscada ou encontrada em nenhum outro.P.30. Realmente crêem no único Salvador Jesus os que buscam sua salvação e bem-estar nos "santos", pelo seu próprio esforço ou por outros meios?
Não. Antes, por essas ações negam a Jesus, o único Salvador e Redentor, ainda que se vangloriem de pertencer a ele. Segue-se, pois, que ou Jesus não é Salvador perfeito, ou aqueles que recebem este Salvador com verdadeira fé devem nele ter tudo o que é necessário à sua salvação.P. 31. Por que é ele chamado "Cristo", isto é, "Ungido"?
Porque ele foi consagrado por Deus o Pai e ungido com o Espírito Santo para ser nosso supremo Profeta e Mestre, revelando-nos plenamente o propósito secreto e a vontade de Deus sobre a nossa redenção; para ser nosso único Sumo Sacerdote, havendo-nos redimido pelo sacrifício único do seu corpo e intercedendo sempre por nós junto ao Pai; e para ser nosso eterno Rei, governando-nos pela sua Palavra e pelo seu Espírito, e defendendo-nos e sustentando-nos na redenção que para nós conquistou.P. 32. E por que és chamado cristão?
Porque mediante a fé participo de Cristo e assim da sua unção de modo que posso confessar o seu nome, apresentar-me como sacrifício vivo de gratidão a ele, e lutar contra o pecado e o Diabo com consciência boa e livre durante toda esta vida, e depois reinar com ele, na eternidade, sobre todas as criaturas.P. 33. Por que é ele chamado FILHO UNIGÊNITO DE DEUS, se nós também somos filhos de Deus?
Porque só Cristo é o Filho eterno de Deus, ao passo que nós, por sua causa, e pela graça, somos recebidos como filhos de Deus.P. 34. Por que o chamas "nosso Senhor"?
Porque, não com ouro ou com prata, mas pelo seu precioso sangue, ele nos remiu, corpo e alma, do pecado e de todo o domínio do Diabo, e nos comprou para sermos seus.P.35. Que significa «Foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria»?
Que o eterno Filho de Deus, que é e permanece verdadeiro e eterno Deus, tomou sobre si a nossa verdadeira humanidade, da carne e do sangue da Virgem Maria, pela operação do Espírito Santo, de modo que fosse também a verdadeira semente de Davi, em tudo igual a seus semelhantes, exceto no pecado.P.36. Que benefícios recebes da santa concepção e do nascimento de Cristo?
Que ele é nosso Mediador e, com a sua inocência e sua perfeita santidade cobre os meus pecados, em que fui concebido, para que estes desapareçam diante de Deus.P. 37. Que entendes pela palavra "sofreu"?
Que durante toda a sua vida na terra, e especialmente no fim dela, ele suportou no corpo e na alma a ira de Deus contra os pecados de todo o gênero humano, de modo que, pelo seu sofrimento, como o único sacrifício expiatório, ele redimisse o nosso corpo e a nossa alma da maldição eterna, e para nós conseguisse de Deus a graça, a justiça e a vida eterna.P. 38. Por que sofreu ele "sob Pôncio Pilatos"?
Para que ele, inocente, fosse condenado por um juiz terreno, e assim nos libertasse do juízo de Deus, que devia cair sobre nós com toda a sua severidade.P. 39. Há, no fato de ter sido crucificado, alguma coisa mais do que se tivesse sofrido algum outro tipo de morte?
Sim, porque por isso estou seguro de que ele tomou sobre si mesmo a maldição que pesava sobre mim, porque a morte de cruz era amaldiçoada por Deus.P. 40. Por que teve Cristo de padecer a morte?
Porque a justiça e a verdade de Deus são tais que nada mais podia fazer reparação pelos pecados senão a morte do Filho de Deus.P. 41. Por que foi ele sepultado?
Para confirmar o fato de que ele estava realmente morto.P. 42. Então, se Cristo morreu por nós, por que devemos nós também morrer?
Nossa morte não é reparação pelos nossos pecados, mas somente um morrer para o pecado e uma entrada para a vida eterna.P. 43. Que outro benefício recebemos do sacrifício e da morte de Cristo na cruz?
Que pelo seu poder nosso homem velho é com ele crucificado, morto e sepultado, de modo que as más paixões da carne não mais reinem em nós, mas nós nos ofereçamos a nós mesmos a ele como sacrifício de ação de graças.P. 44. Por que se acrescenta: "desceu ao Hades"?
Para que em minhas mais duras tribulações eu esteja certo de que Cristo, meu Senhor, me redimiu das ansiedades e dos tormentos infernais pelas indizíveis angústias, dores e terrores que padeceu em sua alma, tanto na cruz como antes.P. 45. Que benefício recebemos da ressurreição de Cristo?
Primeiro, pela sua ressurreição ele venceu a morte para tornar-nos participantes da justiça que nos obteve pela sua morte. Segundo, nós também somos agora, pelo seu poder, ressuscitados para uma nova vida. Terceiro, a ressurreição de Cristo é, para nós, seguro penhor de nossa bendita ressurreição.P. 46. Como entendes as palavras: "subiu ao céu"?
Que aos olhos dos seus discípulos Cristo foi elevado da terra para o céu e ali permanece para nosso bem, até que volte de novo para julgar os vivos e os mortos.P. 47. Então, não está Cristo conosco até o fim do mundo como nos prometeu?
Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Segundo a natureza humana, ele não se encontra mais na terra, mas em sua divindade, sua majestade, sua graça e seu Espírito, nunca está ausente de nós.P. 48. Não ficam, assim, as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra, se a humanidade não se encontra onde está a divindade?
De modo nenhum; pois, se a divindade é incompreensível e está presente em toda parte, segue-se que ela está, na verdade, além dos limites da humanidade que ela assumiu, e, contudo, sempre se encontra também naquela humanidade, e permanece pessoalmente unida a ela.P. 49. Que benefício recebemos da ascensão de Cristo ao céu?
Primeiro, que ele é nosso Advogado na presença de seu Pai no céu. Segundo, que temos nossa carne no céu como penhor seguro de que ele, como a Cabeça, nos levará também a nós - seus membros - para si mesmo. Terceiro, que ele nos envia seu Espírito como contra-penhor, por cujo poder buscamos o que é de cima, onde Cristo está sentado à direita de Deus, e não as coisas que são da terra.P. 50. Por que se acrescenta: "E está sentado à direita de Deus"?
Porque Cristo subiu ao céu para que pudesse manifestar-se lá como o Cabeça de sua Igreja, por quem o Pai governa todas as coisas.P. 51. Que benefício recebemos desta glória de Cristo, nosso Cabeça?
Primeiro, que pelo seu Santo Espírito ele derrama dons celestiais sobre nós, seus membros. Segundo, que pelo seu poder nos defende e nos protege contra todos os nossos inimigos.P. 52. Que conforto a volta de Cristo "para julgar os vivos e os mortos" te oferece?
Que em toda aflição e perseguição posso esperar, de cabeça erguida, o verdadeiro Juiz do céu, que já se submeteu ao julgamento de Deus por mim e de mim removeu toda a maldição; que ele lançará todos os seus e os meus inimigos na condenação eterna, mas, juntamente com todos es eleitos, me tomará para si mesmo na alegria e glória celestial.
O Espírito SantoP. 53. Que é o que crês a respeito do "Espírito Santo"?
Primeiro, que com o Pai e o Filho é ele igualmente Deus eterno; segundo, que ele me é dado também, e, mediante a verdadeira fé me faz participante em Cristo e de todos os seus benefícios, que ele me conforta e ficará comigo para sempre.P. 54. Que é o que crês a respeito da "santa Igreja católica"?
Creio que, desde o princípio do mundo até o fim, e de entre toda a raça humana, o Filho de Deus, pelo seu Espírito e pela sua Palavra, reúne, protege e preserva para si mesmo, na unidade da verdadeira fé, uma congregação escolhida para a vida eterna. Além disso, creio que eu mesmo sou e para sempre permanecerei membro vivo dela.P. 55. Que é o que entendes por "comunhão dos santos"?
Primeiro, que todos os crentes e cada um deles, como membros do Senhor Jesus Cristo e de todos os seus tesouros e dons, têm uma comunidade. Segundo, que cada um deve saber que está obrigado a usar seus dons livremente e com alegria para benefício e bem-estar dos outros membros.P. 56. Que é o que crês sobre "a remissão dos pecados"?
Que, por causa da obra reconciliadora de Cristo, Deus não se lembrará mais dos meus pecados ou da maneira pecaminosa contra a qual tenho de lutar durante toda a minha vida, mas que ele graciosamente imputa a mim a justiça de Cristo, de modo que eu jamais virei a ser condenado.P. 57. Que conforto te oferece "a ressurreição do corpo"?
Que, depois desta vida, minha alma será imediatamente elevada a Cristo, seu Cabeça, e que esta minha carne, ressuscitada pelo poder de Cristo, será unida de novo com minha alma e assumirá a forma do santo corpo de Cristo.P. 58. Que conforto te dá o artigo concernente "à vida eterna"?
Que, se agora eu sinto em meu coração o começo da alegria eterna, entrarei na posse, depois desta vida, da perfeita bem-aventurança, que nenhum olho jamais viu, nem ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem, e por isso louvarei a Deus para sempre.P. 59. Mas, como é que isto te ajuda, agora que crês todas estas coisas?
Que sou justo em Cristo, diante de Deus, e herdeiro da vida eterna.P. 60. Como és justo perante Deus?
Somente pela verdadeira fé em Jesus Cristo. Apesar das acusações de minha consciência de que tenho pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus e não ter observado nenhum deles, e ainda de eu ser sempre propenso a tudo que é mau, todavia Deus, sem nenhum mérito realmente meu, ele me concede, apenas por sua graça, os benefícios da perfeita expiação de Cristo, imputando-me sua justiça e santidade, como se eu nunca tivesse cometido um simples pecado ou jamais tivesse sido pecador, tendo cumprido, eu mesmo, toda a obediência que Cristo executou por mim, se somente aceito tal favor com um coração confiante.
P. 61. Por que dizes que és justo somente pela fé?
Não porque eu agrade a Deus em virtude do valor da minha fé, mas porque somente a satisfação, a justiça, e a santidade de Cristo são minha justiça diante de Deus, e porque posso aceitá-las e torná-las minhas, só e exclusivamente pela fé.P. 62. Mas, por que nossas boas obras não podem ser nossa justiça diante de Deus, ou pelo menos parte dela?
Porque a justiça que se pode apresentar perante o juízo de Deus deve ser absolutamente perfeita e inteiramente de conformidade com a Lei divina. Entretanto, todas as nossas obras, inclusive as melhores delas são, nesta vida, imperfeitas e maculadas pelo pecado.P. 63. Não tem as nossas boas obras nenhum mérito, mesmo quando é propósito de Deus recompensá-las nesta vida, bem como na vida futura?
Essa recompensa não é dada por mérito, mas pela graça.P. 64. Mas, não torna esse ensino as pessoas descuidadas e pecaminosas?
Não, pois é impossível que aqueles que estão enxertados em Cristo pela verdadeira fé não produzam os frutos da gratidão.
Os Santos SacramentosP. 65. Se é só a fé que nos faz participantes de Cristo e de todos os seus benefícios, de onde é que se origina?
O Espírito Santo cria-a em nossos corações pela pregação do Santo Evangelho e confirmada pelo uso dos santos Sacramentos.P. 66. Que são os sacramentos?
São os sinais e selos santos e visíveis instituídos por Deus para que, pelo seu uso por nós, ele possa, de modo mais completo, revelar-nos e selar a promessa do Evangelho, por causa do sacrifício único de Cristo realizado na cruz, ele, de graça, nos concede o perdão de pecados e a vida eterna.P. 67. São a Palavra e os Sacramentos destinados a orientar nossa fé para o sacrifício único de Jesus Cristo na cruz como a base exclusiva de nossa salvação?
Sim, realmente, pois o Espírito Santo ensina no Evangelho e confirma pelos santos Sacramentos que a nossa salvação total se enraíza no sacrifício único de Cristo oferecido por nós na cruz.
P. 68. Quantos Sacramentos instituiu Cristo no Novo Testamento?
Dois: o santo Batismo e a santa Ceia.
O Santo BatismoP. 69. Como o santo Batismo te recorda e te garante que o sacrifício único de Cristo na cruz te é útil?
Desta maneira: Cristo instituiu este lavar externo com água e por ele prometeu que me encontro tão seguramente lavado com seu sangue e com seu Espírito das impurezas de minha alma e de todos os meus pecados, como lavado externamente com água que é usada para remover a sujeira do meu corpo.P. 70. Que é que significa ser lavado com o sangue e o Espírito de Cristo?
Significa termos de Deus o perdão dos pecados, mediante a graça, por causa do sangue de Cristo, derramado por nós em seu sacrifício na cruz, e também sermos renovados pelo Espírito Santo e santificados como membros de Cristo, de modo a podermos, mais e mais, morrer para o pecado e viver consagrada e irrepreensivelmente.P. 71. Onde promete Cristo que somos tão certamente lavados com seu sangue e seu Espírito como com a água do Batismo?
Na instituição do Batismo, nestes termos: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo." "Quem crer e for batizado será salvo, quem, porém, não crer será condenado." Esta promessa é também repetida onde as Escrituras chamam o Batismo "a água do novo nascimento" e o lavar dos pecados.P. 72. Lava dos pecados o simples lavar externo com água?
Não, pois só o sangue de Jesus Cristo e o Espírito Santo nos purificam de todo pecado.P. 73. Então por que chama o Espírito Santo ao batismo "água do novo nascimento" e "lavar dos pecados"?
Deus não fala desta maneira a não ser por uma forte razão. Ele não só nos ensina pelo Batismo que exatamente como a sujeira do corpo é removida pela água, assim os nossos pecados são removidos pelo sangue e pelo Espírito de Cristo; no entanto, mais importante ainda, pelo divino penhor e sinal ele quer assegurar-nos que somos tão verdadeiramente lavados dos nossos pecados, espiritualmente, como nossos corpos o são com água.P. 74. Também as crianças devem ser batizadas?
Sim, porque elas, assim como seus pais, estão incluídas na aliança e pertencem ao povo de Deus. Desde que tanto a redenção do pecado pelo sangue de Cristo como o dom da fé pelo Espírito Santo são prometidos a estes filhos não menos que a seus pais, as crianças também são, pelo Batismo, como sinal da Aliança, incorporadas à Igreja cristã e distinguidos dos filhos dos incrédulos. Isto foi feito na Velha Aliança pela circuncisão, na Nova Aliança foi instituído o Batismo para tomar seu lugar.
A Santa CeiaP. 75. Como és relembrado e assegurado, na Santa Ceia, de que participas do sacrifício único de Cristo na cruz e de todos os seus benefícios?
Desta maneira: Cristo me ordenou a mim e a todos os crentes comer deste pão partido e beber deste cálice em memória dele. Por esse meio ele prometeu que o seu corpo era oferecido e partido na cruz por mim, e o seu sangue era derramado por mim tão certamente como vejo com meus olhos que o pão do Senhor é partido para mim e que o cálice é partilhado comigo. Prometeu, também, que ele mesmo tão seguramente alimenta e nutre minha alma para a vida eterna com seu corpo crucificado e sangue derramado, assim como eu recebo das mãos do ministro e efetivamente provo o pão e o cálice do Senhor, que me são dados como sinais seguros do corpo e do sangue de Cristo.
P. 76. Que é que significa comer o corpo crucificado de Cristo e beber seu sangue derramado?Não é apenas abraçar, de coração confiante, toda a paixão e morte de Cristo, e por ela receber o perdão dos pecados e a vida eterna. É também estar cada vez mais unido a seu bendito corpo pelo Espírito Santo, o qual habita tanto em Cristo como em nós de modo que, embora esteja ele no céu e nós na terra, somos carne de sua carne e osso de seus ossos, sempre vivendo e sendo governados por um Espírito, como os membros de nossos corpos são governados por uma alma.
P. 77. Onde prometeu Cristo dar aos crentes a comer o seu corpo e a beber o seu sangue quando eles comem do pão partido e bebem do cálice?
Na instituição da Santa Ceia, onde se lê: "O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós, fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha." Essa promessa é também repetida pelo apóstolo São Paulo: Quando abençoamos "o cálice de bênção", não é ele o meio de participar do sangue de Cristo? Quando partimos o pão, não é ele o meio de participar do corpo de Cristo? Porque há um pão, nós, muitos como somos, somos um só corpo; pois, é de um só pão que todos nós participamos.P. 78. Transformam-se o pão e o vinho na verdade corpo e sangue de Cristo?
Não, pois assim como a água no Batismo não se muda em sangue de Cristo, nem se torna a remissão de pecados por si mesma, mas é somente um sinal divino e confirmação dele, assim também na Ceia do Senhor o pão sagrado não se torna o corpo de Cristo, embora, de acordo com a natureza e o uso dos Sacramentos, seja ele chamado o corpo de Cristo.P. 79. Por que, então, chama Cristo ao pão seu corpo, ao cálice seu sangue, ou a Nova Aliança em seu sangue, e por que chama o apóstolo São Paulo à Ceia "participação" do corpo e do sangue de Cristo?
Não é sem forte razão que Cristo fala dessa maneira. Ele quer ensinar-nos desse modo que, assim como o pão e o vinho sustentam a vida temporal, assim o seu corpo crucificado e o seu sangue vertido são o verdadeiro alimento e bebida de nossas almas para a vida eterna. Ainda mais, ele quer assegurar-nos, por esse sinal e penhor visíveis, que participamos do seu verdadeiro corpo e do seu sangue pela obra do Espírito Santo tão realmente como ao recebermos na boca estes santos símbolos em memória dele, e que todos os seus sofrimentos e a sua morte propriamente são nossos, como se nós mesmos tivéssemos sofrido e dado satisfação em nossas próprias pessoas.P. 80. Que diferença existe entre a Ceia do Senhor e a missa papal?
A Ceia do Senhor testifica-nos que temos completo perdão de todos os nossos pecados mediante o sacrifício único de Jesus Cristo, que ele mesmo realizou na cruz uma vez por todas; (e que pelo Espírito Santo somos incorporados em Cristo, que agora se encontra no céu com seu verdadeiro corpo à mão direita do Pai, e lá está para ser adorado). Mas, a missa ensina que os vivos e os mortos não têm perdão de pecados mediante os sofrimentos de Cristo a não ser que Cristo seja de novo oferecido por eles diariamente pelo sacerdote (e que Cristo está corporalmente sob a forma de pão e vinho e deve, por conseguinte, ser adorado neles). Portanto, a missa não é, fundamentalmente, outra coisa que uma completa negação do sacrifício oferecido uma vez por todas e da paixão de Jesus Cristo, (e como tal uma condenável idolatria).P. 81. Quem deve aproximar-se da Mesa do Senhor?
Aqueles que estão descontentes consigo mesmos por causa dos seus pecados, e que contudo confiam que estes lhes foram perdoados e que a sua fraqueza remanescente é coberta pela paixão e morte de Cristo, e que também desejam mais e mais fortalecer sua fé e melhorar sua vida. Mas, os impenitentes e hipócritas comem e bebem para si mesmos julgamento.P. 82. Devem os que se mostram incrédulos e inimigos de Deus pela sua confissão e vida ser admitidos a esta Ceia?
Não, pois então a aliança de Deus seria profanada e provocada a sua ira contra toda a congregação. Segundo a ordem de Cristo e dos seus apóstolos, portanto, a Igreja Cristã está obrigada, pelo ofício das chaves, a excluir tais pessoas, até que elas emendem suas vidas.P. 83. Qual é o oficio das chaves?
A pregação do santo Evangelho e da disciplina cristã. Por estes dois meios o reino do céu se abre para os crentes e se fecha para os incrédulos.P. 84. Como é o reino do céu aberto e fechado pela pregação do santo Evangelho?
Desta maneira: O reino do céu se abre, quando é proclamado e abertamente testemunhado aos crentes, a todos e a cada um, segundo o mandamento de Cristo, de que, todas a vezes que aceitarem a promessa o Evangelho com verdadeira fé, todos os seus pecados lhes são efetivamente perdoados por Deus, em virtude da obra graciosa de Cristo. Ao contrário, a ira de Deus e a condenação eterna caem sobre todos os incrédulos e hipócritas, enquanto não se arrependerem. É segundo este testemunho do Evangelho que Deus julgará uns e outros nesta vida e na vida futura.P. 85. Como é o reino fechado e aberto pela disciplina cristã?
Desta maneira: Cristo ordenou que aqueles que ostentam o nome cristão de um modo não cristão, pela doutrina ou pela vida, sejam admoestados fraternalmente. Se não abandonarem seus erros ou seus maus caminhos, deve ser notificada a Igreja ou os que foram por ela ordenados para esse fim. Se não se mudarem depois da advertência, são proibidos de participar dos santos Sacramentos e assim excluídos da comunhão da Igreja e, pelo próprio Deus, do reino de Cristo. Contudo, se prometerem e mostrarem que realmente se emendaram, são de novo recebidos como membros de Cristo e de sua Igreja.
Parte III
GratidãoP. 86. Se somos libertados de nossa miséria e de suas conseqüências miseráveis pela graça por meio de Cristo, sem qualquer mérito nosso, por que devemos praticar boas obras?
Porque, no momento em que Cristo nos redimiu com o seu sangue, ele nos renovou também pelo seu Espírito segundo a sua própria imagem, para que, com toda a nessa vida nós nos mostremos gratos a Deus pela sua bondade e para que ele seja exaltado por nós; e mais ainda, para que nós mesmos estejamos seguros da nossa fé pelos seus frutos, e pelo nosso reverente procedimento ganhemos os nossos semelhantes para Cristo.P.87. Podem ser salvos os que não se convertem para Deus, deixando sua vida impenitente e ingrata?
De maneira nenhuma! A Escritura diz: "Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus."P. 88. Quantas partes há no verdadeiro arrependimento ou conversão do homem?
Duas partes: a morte do homem velho e o nascimento do novo.P. 89. Que é a morte do homem velho?
Tristeza de coração pelos nossos pecados e crescente ódio a eles e fuga deles.P. 90. Que é o nascimento do homem novo?
Alegria de coração em Deus através de Cristo e um forte desejo de viver segundo a vontade de Deus em todas as boas obras.P. 91. Mas, que são boas obras?
Somente as que são praticadas de verdadeira fé, de acordo com a Lei de Deus e para sua glória; não as que se fundamentam em nossa própria opinião ou nas tradições dos homens.P.92. Que é a Lei de Deus?
Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão."Primeiro mandamento: "Não terás outros deuses diante de mim."
Segundo mandamento: "Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto, porque eu sou o Senhor teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos."
Terceiro mandamento: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão."
Quarto mandamento: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou: por isso o Senhor abençoou o dia de sábado, e o santificou."
Quinto mandamento: "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá."
Sexto mandamento: "Não matarás."
Sétimo mandamento: "Não adulterarás."
Oitavo mandamento: "Não furtarás."
Nono mandamento: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo."
Décimo mandamento: "Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo."P. 93. Como se dividem estes mandamentos?
Em duas tábuas, a primeira das quais ensina-nos, em quatro mandamentos, como devemos proceder em relação a Deus; a outra, em seis mandamentos, o que devemos ao nosso próximo.P. 94. Que é que Deus requer no primeiro mandamento?
Que eu, pelo perigo de perder a salvação da minha alma e a bem-aventurança, evite e fuja a toda idolatria, magia, encantamentos, invocação dos santos ou de outras criaturas. E que eu reconheça devidamente o único verdadeiro Deus, confie somente nele, com toda humildade e paciência espere somente dele todas as coisas, que eu o ame e tema e honre de todo o meu coração. E também que eu prefira renunciar a todas as criaturas a fazer a menor coisa contra a sua vontade.P. 95. Que é idolatria?
É imaginar ou possuir alguma coisa em que depositar confiança, em lugar do verdadeiro Deus, ou paralelamente a ele, que se revelou a si mesmo em sua Palavra.P. 96. Que é que Deus requer no segundo mandamento?
Que não o representemos ou adoremos de nenhuma outra maneira que ele não tenha ordenado em sua Palavra.P. 97. Não devemos, então, em hipótese alguma, fazer nenhuma imagem?
Deus não pode e não deve ser representado de maneira nenhuma. Quanto às criaturas, embora possam na verdade ser representadas, Deus proíbe fazer ou ter qualquer semelhança delas, com o fim de adorá-las, ou usá-las para servi-lo.P. 98. Mas, não podem ser tolerados os quadros nas igrejas como se fossem livros para o povo ignorante?
Não, pois não devemos pretender ser mais sábios do que Deus, que não quer que o seu povo seja ensinado por meio de ídolos sem vida, mas pela pregação viva da sua Palavra.P. 99. Que é que se requer no terceiro mandamento?
Que não profanemos o nome de Deus, nem dele abusemos pela maldição, pelo perjúrio ou por juramentos desnecessários. E que não participemos de tão horríveis pecados, ficando quietos e assim consentindo pelo silêncio. Numa palavra, que usemos o santo nome de Deus, senão com temor e reverência, para que possamos confessá-lo e dirigir-nos a ele como se deve e glorificá-lo com todas as nossas palavras e obras.P. 100. É, assim, tão grande o pecado de blasfemar contra o nome de Deus pela maldição e pelo juramento, que está Deus irado também com aqueles que não se esforçam o tanto quanto podem para prevenir e coibir tal coisa?
Sim, na verdade; pois não há pecado maior ou que mais provoque sua ira do que a profanação de seu nome. Eis por que ele ordenou que a sua punição seja a morte.P. 101. Mas não podemos nós, de modo piedoso, fazer juramentos em nome de Deus?
Sim, quando as autoridades civis o exigem de seus súditos ou quando, por outro lado, ele se torna necessário para manter e promover a fidelidade e a verdade, para a glória de Deus e o bem-estar de nosso semelhante. O fazer juramento se fundamenta na Palavra de Deus e, portanto, foi corretamente usado pelo povo de Deus sob o Velho e o Novo Testamento.P. 102. Podemos jurar, também, pelos santos ou outras criaturas?
Não; pois o juramento legítimo é invocação de Deus, como o único sondador de corações, para dar testemunho da verdade e para punir-me se eu jurar falso. Nenhuma criatura merece tal honra.P. 103. Que é que Deus requer no quarto mandamento?
Primeiro, que o ministério do Evangelho e a educação cristã sejam mantidos e que eu freqüente diligentemente a igreja, especialmente no dia do Senhor, para ouvir a Palavra de Deus, para participar dos santos Sacramentos, para invocar publicamente o Senhor e para prestar serviço cristão aos que estiverem em necessidade. Segundo, que eu cesse a prática de minhas obras más todos os dias de minha vida, permita que o Senhor opere em mim pelo seu Espírito, e assim. comece nesta vida o descanso eterno.P. 104. Que é que Deus requer no quinto mandamento?
Que eu tribute honra, amor e fidelidade a meu pai, a minha mãe e a todos os que foram colocados em autoridade sobre mim; que me submeta com respeitosa obediência a toda cuidadosa instrução e disciplina deles; e que também suporte com paciência suas falhas, pois que é da vontade de Deus governar-nos pelas mãos deles.P. 105. Que é que Deus requer no sexto mandamento?
Que eu não abuse do meu próximo, não o odeie e prejudique ou o mate - por pensamentos, palavras ou gestos, e muito menos por obras quer seja por mim mesmo ou por meio de outrem, mas remova todo desejo de vingança; e que eu não cause dano a mim mesmo, ou voluntariamente me exponha ao perigo. Esta a razão por que as autoridades estão armadas dos meios para prevenir assassínios.P. 106. Então, trata este mandamento somente de matar?
Proibindo o assassínio, Deus deseja ensinar-nos que ele aborrece a raiz do assassínio, que é a inveja, o ódio, a ira e o desejo de vingança, e que ele considera todos estes como assasínios secretos.P. 107. Será bastante, então, se não matarmos os nossos semelhantes por nenhum destes processos?
Não; pois, quando Deus condena a inveja, o ódio e a ira, ele requer que amemos nosso próximo como a nós mesmos, que mostremos paciência, paz, gentileza, misericórdia e amizade para com ele, que previnamos dano a ele na medida do possível, e também que façamos o bem aos nossos inimigos.P. 108. Que é que nos ensina o sétimo mandamento?
Que toda falta de castidade é condenada por Deus, e que, portanto, devemos, de coração, detestar tal coisa e viver vidas castas e disciplinadas, seja no santo matrimónio ou na vida de solteiro.P. 109. Nada mais proíbe Deus, neste mandamento, que o adultério e semelhantes pecados graves?
Se tanto nosso corpo como nossa alma são o templo do Santo Espírito, é vontade dele que conservemos ambos puros e santos. Portanto, ele proíbe todos os atos, os gestos, as palavras, os pensamentos impuros, e tudo o que a eles incitar outra pessoa.P. 110. Que é que Deus proíbe no oitavo mandamento?
Proíbe não somente o furto e o roubo, que as autoridades civis punem, mas classifica também como roubo todos os artifícios e esquemas ímpios, pelos quais procuramos apropriar-nos, para nós mesmos, dos bens do nosso próximo, seja pela força ou sob pretexto de direito, tais como falsos pesos e medidas, anúncios ou mercadorias enganosas, dinheiro falso, juros exorbitantes, ou quaisquer outros meios ilícitos. Proíbe também a cobiça, bem como o mau uso e o desperdício dos seus dons.P. 111. Mas, que é que Deus requer de ti neste mandamento?
Que eu trabalhe para o bem do meu pr6ximo em qualquer lugar em que possa e deva, que trate com ele como desejaria que outros me tratassem e, que faça bem o meu trabalho para que eu seja capaz de ajudar os pobres em suas necessidades.P. 112. Que é que se requer no nono mandamento?
Que eu não dê falso testemunho contra ninguém, ne torça as palavras de ninguém, ou seja mexeriqueiro ou difamador, ou condene alguém levianamente sem ouvi-lo. Antes, exige-se de mim que, sob pena da ira de Deus, evite toda mentira e engano como obras do próprio Diabo. No judiciário e em todas as demais questões devo amar a verdade, falar a verdade e confessá-la honestamente. Realmente, na medida da minha capacidade, eu devo defender e promover o bom nome do meu próximo.P. 113. Que é que se requer no décimo mandamento?
Que jamais entre em nossos corações nem mesmo a menor inclinação ou pensamento contrário a qualquer mandamento de Deus, mas sempre odiemos o pecado de todo o nosso coração e encontremos satisfação e alegria em toda a justiça.P. 114. Mas, podem os que se converteram a Deus, quardar perfeitamente estes mandamentos?
Não, pois mesmo os mais santos deles conseguem apenas um pequeno início de obediência nesta vida. Entretanto, começam com o sério propósito de se conformarem não só com alguns, mas com todos os mandamentos de Deus.P. 115. Por que, então, quer Deus que os dez mandamentos sejam pregados tão rigorosamente, já que ninguém pode guadá-los nesta vida?
Primeiro, para nos tornarmos, durante toda a nossa vida, cada vez rnais conscientes da nossa pecaminosidade, e assim buscarmos mais ardentemente o perdão dos pecados e a justiça, em Cristo. Segundo, para podermos, constante e diligentemente orar a Deus pela graça do Espírito Santo, para podermos ser mais e mais renovados segundo a imagem de Deus, até atingirmos o alvo da plena perfeição depois desta vida.
OraçãoP. 116. Por que é a oração necessária ao crístão?
Porque ela é a principal parte da gratidão que Deus requer de nós, e porque Deus dará sua graça e o Espírito Santo somente àqueles que sinceramente lhe suplicam em oração incessante, e que lhe rendem graças por esses dons.P. 117. Qual é o conteúdo de uma oração que agrada a Deus e é por ele ouvida?
Primeiro, que sinceramente invoquemos o único verdadeiro Deus, que se nos revelou a si mesmo em sua Palavra, a favor de tudo o que ele nos mandou pedir-lhe. Depois que reconheçamos completamente nossas necessidades e nossa condição má, de modo que nos humilhemos na presença de sua majestade. Terceiro, que descansemos seguros de que, a despeito de nossa indignidade, ele certamente ouvirá nossa oração, por causa de Cristo nosso Senhor, como nos prometeu em sua Palavra.P. 118. Que é que Deus nos mandou pedir-lhe?
Todas as coisas necessárias à alma e ao corpo, que Cristo, o Senhor, incluiu na oração que ele mesmo nos ensinou.P. 119. Qual é a Oração do Senhor?
"Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém."
A Oração de Nosso SenhorP. 120. Por que ordenou Cristo que nos dirigíssemos a Deus, chamando-o «Pai nosso»?
Para que logo no começo de nossa oração ele desperte em nós a reverência e a confiança como de uma criança para com Deus, que deve ser a motivação da nossa oração, e que não é outra senão que Deus se tornou nosso Pai mediante Cristo, e não há de negar-nos o que lhe pedimos com fé, assim como nossos pais humanos não nos recusarão as coisas terrenas.P. 121. Por que se acrescenta: «Que estás nos céus»?
Para não termos concepção terrena da majestade celestial de Deus, mas esperamos do seu poder onipotente todas as coisas necessárias ao corpo e à alma.P. 122. Qual é a primeira petição?
«Santificado seja o teu nome.» Isto é: Ajuda-nos, primeiro que tudo, a conhecer-te corretamente, santificar-te, glorificar-te e louvar-te em todas as tuas obras, pelas quais brilham o teu poder onipotente, a tua sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade. E de tal modo disciplina toda a nossa vida, no que diz respeito a pensamento, palavras e obras, que teu nome nunca seja blasfemado por nossa causa, mas seja sempre honrado e louvado.P. 123. Qual é a segunda petição?
«Venha o teu reino,» Isto é: Governa-nos, pela tua palavra e pelo teu Espírito, de tal maneira que mais e mais nos submetamos a ti. Sustenta e faze crescer a tua Igreja. Destrói as obras do Diabo, todo poder que se levanta contra ti a todos os ímpios esquemas planejados contra a tua santa Palavra, até a vinda completa do teu reino, em que tu serás tudo em todas as coisas.P. 124. Qual é a terceira petição?
«Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.» Isto é: Concede que nós e todos os homens renunciemos à nossa própria vontade e obedeçamos sem queixa, à tua vontade, que com exclusividade, é boa, para que assim todos dêem, cumprimento ao seu dever e à sua vocação, tão espontânea e fielmente como os anjos nos céus.P. 125. Qual é a quarta petição?
«O pão nosso de cada dia nos dá hoje.» Isto é: Digna-te suprir todas as nossas necessidades corporais, a fim de que, por esse motivo, reconheçamos que és a única fonte de tudo o que é bom, e que sem tua bênção nem nosso cuidado e trabalo, nem os teus dons podem proporcionar-nos qualquer bem. Consequentemente, que retiremos a nossa confiança de todas as demais criaturas e a ponhamos somente em ti.P. 126. Qual é a quinta petição?
«Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores.» Isto é: Digna-te, por causa do sangue de Crísto, não nos cobrar a nós, miseráveis pecadores, nossas muitas transgressões, nem o mal que ainda se apega a nós. Encontramos também este testemunho da tua graça em nós, que é nossa sincera intenção de perdoar, de coração, ao nosso próximo.P. 127. Qual é a sexta petição?
«E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.» Isto é: Visto que somos tão fracos que não podemos subsistir por nós mesmos por um momento sequer, e além disso, visto que os nossos inimigos blasfemos, o Diabo, o mundo e o nosso próprio pecado incessantemente nos assaltam, digna-te preservar-nos e fortalecer-nos pelo poder do teu Santo Espírito, para podermos, assim, permanecer firmes contra eles e não ser derrotados nesta guerra espiritual, até obtermos vitória completa.P. 128. Como encerras esta oração?
«Pois, teu é o reino, o poder e a glória para sempre.» Isto é: Pedimos-te tudo isto porque, como nosso Rei, queres e podes dar-nos tudo o que é bom, pois tens poder sobre todas as coisas, e dessa forma não sejamos nós glorificados, mas o teu santo nome para sempre.P. 129. Qual é o significado da pequena palavra «Amém»?
Amém significa: Verdadeira e certamente assim será. Pois a minha oração é com muito mais certeza ouvida por Deus, do que eu estou persuadido em meu coração de que desejo tais coisas dele.
Desde
31/10/99