6. Pregação e edificação Além desses exercitamentos que pretendem desenvolver a vida cristã dos estudantes, é necessário que os professores se preocupem com aquilo que seus alunos vão precisar quando se tornarem pastores. Por exemplo, treine-se o estudante a instruir os ignorantes, consolar os enfermos e, especialmente, preparar bons sermões. Seja-lhes mostrado que, no sermão, todas as coisas devem convergir para um propósito. Como Sexta proposta, a fim de que se encorage a Igreja Evangélica a buscar melhores condições, eu diria que o sermão deve estar voltado para esse propósito, e alcance o coração do ouvinte da maneira mais eficaz possível. Há provavelmente poucos lugares em nossa Igreja nas quais não haja muitos sermões sedo pregados. Porém, as pessoas piedosas reconhecem que pouco se tem aproveitado de tais prédicas. Existem pregadores enchendo-se de tantas informações, que convencem os ouvintes de que são homens muito instruídos, contudo, os que os ouvem não conseguem entender o que dizem. Incluem nelas muitas palavras estrangeiras, embora, possivelmente, nenhum ouvinte conheça tais línguas. Muitos pregadores não se preocupam com o assunto escolhido e em desenvolvê-lo de tal modo que, pela graça de Deus, a congregação possa dele aproveitar para a vida e a morte. Pelo contrário, preocupam-se com a introdução, com sua boa forma e com um clímax de efeito, e que as partes sejam tratadas de acordo com as regras da oratória e cheias de beleza, etc. Isso não pode acontecer. O púlpito é um instrumento divino para a salvação das pessoas. Por isso, nele todas as coisas devem ser direcionadas para esse propósito. As pessoas comuns, das quais a comunidade é composta em sua grande maioria, não podem ser esquecidas pelo pregador preocupado em agradar os letrados que são poucos e, geralmente, não comparecem ao culto. O Pequeno Catecismo, de Lutero (1529), que contém os primeiros rudimentos do Cristianismo e do qual as pessoas aprenderam a fé, deve continuar a se usado, só que mais diligentemente na instrução das crianças e também dos adultos (a kinderlehre era a reunião para estudos do catecismo, dirigido especialmente para as crianças, feita no Domingo à tarde). O pregador não pode abandonar essa prática. Pelo contrário, deve lembrar às pessoas, em seus sermões, aquilo que aprenderam no catecismo. Não precisa envergonhar-se de fazer isso. Deixo de lado alguns comentários adicionais a respeito dos sermões. Considero isso como fundamental: a nossa religião cristã é composta de homens regenerados, cujas almas estão repletas de fé e expressam-se em frutos da vida. Assim, o sermão não pode Ter outro objetivo a não ser cultivar a fé e seus frutos. Por outro lado, os preciosos benefícios de Deus, dirigidos ao homem interior, devem estar presentes de forma que a fé se fortaleça cada vez mais. Por outro lado, não podemos contentar-nos em afastar as pessoas dos vícios exteriores e levá-los à prática de virtudes exteriores, coisa que a ética dos pagãos também pode fazer. Nosso objetivo é despertar e cultivar a fé e seus frutos. Tudo aquilo que não proceder desse fundamento é mera hipocrisia. Devemos, pois, acostumar as pessoas a voltarem-se para as coisas interiores (amor a Deus e ao próximo) e depois procurarem agir corretamente. Enfatize-se que o significado divino da Palavra e sacramentos se relacionam no homem interior. Então, não é suficiente ouvir a Palavra com o ouvido exterior. Ela deve penetrar em nosso coração para que possamos escutar o Espírito de Deus. Em outras palavras, o Espírito fala ao nosso coração na medida em que nele faz morada. O homem sente vibrante emoção e conforto no selo do Espírito (Ef 1.14; 4.30) e no poder da Palavra. Igualmente, não é suficiente ser batizado, pois o homem interior (onde Cristo é colocado no ato do batismo Gl 3.27) deve conservar e testemunhar Cristo na vida exterior. Tampouco, não é suficiente receber a Santa Ceia exteriormente, mas o homem interior deve ser, em verdade, nutrido com aquele alimento abençoado. Da mesma maneira, não é suficiente orar de modo superficial, só com a boca, pois a melhor e verdadeira oração vem do homem interior; ela tanto pode expressar-se com palavras, como pode permanecer muda no fundo da alma. No último caso, Deus encarregar-se-á de achá-la e levá-la ao seu trono. Finalmente, não é suficiente adorar Deus num templo exterior, pois o homem interior adora melhor a Deus em sua alma, aconteça isso num templo exterior ou não (1 Co 3.16). Concluindo, convoco insistentemente o gracioso Deus e doador de todas as boas coisas, que no passado permitiu que a boa semente de sua Palavra fosse semeada por seus fiéis servos, e que poderosamente abençoou muitas daquelas sementes, caídas em corações piedosos, para que dessem muitos frutos; [...] que muitos, com corações piedosos, busquem a sua edificação, nos domingos, nesses sermões e nas Escrituras Sagradas; possam, finalmente, entregar a Deus os frutos produzidos, com ação de graças. Oro, também, para que os pastores sejam reavivados em suas pregações e voltam-se ao coração do Cristianismo [...] com simplicidade e poder. Tudo seja para a glória de Deus e o progresso de seu Reino, por amor de Jesus Cristo. Amém.
Frankfurt am Main, 24 de março de 1675.
SPENER, Pilipp Jakob.
Pia Desideria: um clássico do pensamento protestante.
São Bernardo do Campo: Imp. Metodista:
Programa Ecumênico de Pós Graduação em Ciências da Religião, 1985.
Desde
31/10/99