O PROBLEMA HUMANO "Por isso Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seus próprios corações, para desonrarem os seus corpos entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém." - Romanos 1.24,25
Convido-os hoje a compartilharem comigo do estudo da primeira carta de Paulo aos Romanos, não somente por ela ser um documento histórico importantíssimo, como também por ser um "folheto sobre a atualidade". É a leitura de Romanos, mais do que qualquer outra parte da Bíblia, que mais freqüentemente tem despertado a Igreja a se levantar e sair do meio dos erros e da apatia. A grande reforma da Igreja no século dezesseis remonta historicamente ao momento em que Lutero começou a estudar e expor a carta aos Romanos. Foi nessa leitura que descobriu, primeiramente para si mesmo, e depois para ensinar a igreja, a doutrina evangélica da justificação pela fé. Lutero disse que ao perceber esta verdade sentiu que a Bíblia assumira para ele novo significado. Foi o ensino de Paulo acerca da justificação pela graça, recebida mediante a fé, que abriu a porta do caminho ao Céu para Lutero. Dois século mais tarde, com a igreja mais uma vez espiritualmente morta, surgiu um grande movimento, cuja origem, segundo as pesquisas dos historiadores, encontra-se na conversão de João Wesley. Seu próprio testemunho quanto ao acontecido, registrado no seu Diário, é bem conhecido à maioria dos cristãos. Wesley anotou no seu Diário, no dia 24 de maio de 1738: "Fui certa noite, e muito constrangido, à uma reunião na Rua Aldergaste, onde havia alguém lendo o prefácio de Lutero à epistola aos Romanos. Cerca de quinze minutos antes das nove horas da noite, enquanto descrevia a mudança que Deus operava no coração mediante a fé em Jesus Cristo, eu senti um estranho calor no meu coração. Senti que realmente tinha confiado em Cristo somente, para receber a salvação, e recebi a certeza de que Ele levara os meus pecados, até os meus, e que me salvara da lei do pecado e da morte". Daquele momento em diante, Wesley, juntamente com outros, espalhou pela igreja a doutrina da justificação pela fé, que a mesma igreja deixara cair em esquecimento, e o grande despertamento veio a ser uma realidade em ambos os continentes. (A Europa e a América do Norte Nota do Tradutor). Estes são dois exemplo, apenas, do que tem acontecido na igreja após Ter havido uma volta ao evangelho histórico da graça de Deus em Cristo Jesus, conforme acha-se plenamente descrito por Paulo na carta à Igreja em Roma. Sem dúvida, há centenas de outras ocasiões em que tem havido semelhante derramamento de graça e paz na igreja, que surgiram especificamente através da pregação e do ensino do evangelho conforme ele nos é revelado nesta carta inspirada. É minha esperança e oracão que, enquanto estudamos juntos esta porção da Palavra de Deus, ela faça para nós o que tem feito para outros. Nunca existiu uma época em que houvesse tanta necessidade de a igreja ser despertada da sua apatia, frieza e indiferença, dos seus erros, e da sua confusão e ignorância do evangelho, como nos dias atuais. Uma das razões que explicam a tremenda influência que esta carta cristã tem exercido no decurso dos séculos é que foi escrita por um homem que conhece e entende o evangelho e que confia nele. Já o viu em ação, e por esse motivo diz triunfantemente: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação detodo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé." (Romanos 1.16,17). Esta declaração ressoante do poder do evangelho é o tema da carta. Começamos neste ponto o nosso estudo. Depois de declarar o seu tema que o evangelho é o poder de Deus para a salvação Paulo começa no v.18 a parte principal da carta. Primeiro demonstra a necessidade que todos têm da salvação: "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" (v.18). Aqui, aprendemos onde realmente jaz o problema humano. Sabemos quais são os problemas individuais: temo-los às dúzias; parece até que tudo quanto procuramos fazer se transforma em problema. No entanto, uma das razões pelas quais nossos problemas sociais e pessoais estão se multiplicando é que, em última análise, nunca realmente enfrentamos o problema propriamente dito. O principal problema do ser humano é a sua alienação de Deus. Esta é a primeira coisa que aprendemos acerca do evangelho na carta aos Romanos; surge diante de nós a condição e a necessidade do homem. Evidentemente, uma boa parte da pregação do evangelho cai sobre ouvidos surdos. A ineficácia de tão considerável porção da pregação em nossos dias deva-se talvez ao fato de apresentarmos a resposta antes que as pessoas tenham-se apercebido do problema. Triunfantemente proclamamos a solução para uma dificuldade que muitas pessoas da nossa era nunca sentiram nem tomaram conhecimento. Jesus disse: - "Os sãos não precisam de médico", e não se pode esperar que alguém preste atenção ao remédio que o evangelho de Cristo oferece para curá-lo, até que realmente se sinta doente. Ao pregar a Palavra de Deus em nossos dias, devemos começar onde Jesus começou, e onde começou Paulo. Devemos partir da necessidade do homem, que carece da salvação. O problema do homem é estar alienado de Deus. Rejeitou a Deus, o que é um desastre para ele, porque é em Deus que ele vive, se move e existe. Segundo Paulo, quando os homens rejeitam a Deus, tornam-se nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato (v.21). Tornam-se loucos por terem transferido a glória do Deus imortal às imagens que se assemelham a homens mortais, bem como aves, animais ou répteis. Desta forma, trocaram a verdade acerca de Deus, por mentiras, servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito para sempre (v.25). Paulo aqui fala a respeito dos pagãos do mundo do primeiro século, época em que pregava o evangelho de Cristo. Referia-se à mentalidade contemporânea de sua época, mas quem poderia ler suas palavras sem pensar nos tempos de hoje? Não será que, também, nós mudamos a verdade de Deus em mentira? E que adoramos e servimos a criatura, em lugar do Criador? Certamente, estas palavras descrevem os dias em que vivemos, e são uma descrição exata do pensamento moderno e da sua respectiva prática. Esta rejeição a Deus, de que Paulo fala, não é primária nem exclusivamente intelectual. É moral e prática. É por falta de entender isto que a teologia moderna é tão estéril e improdutiva. Os teólogos modernos são brilhantes, cultos e possuem grandes recursos; no entanto, ventilam apenas um único lado do problema da proclamação e comunicação do evangelho: tratam-no como se a única dificuldade fosse a intelectual. A moderna rejeição do evangelho é muito mais profunda do que isso. Não é apenas intelectual: é moral e espiritual, como sempre tem sido, em todas as épocas. A pregação do evangelho de Jesus Cristo encontra sempre uma barreira: a oposição, e esta oposição surge sempre da parte de homens e mulheres que rejeitam a Deus. Visando agora melhor compreender nossa própria época, e nossos próprios corações, examinemos a análise que Paulo fez da rejeição a Deus por parte dos pagãos no primeiro século. Salienta três pontos na sua análise. Primeiro: Essa rejeição a Deus é indesculpável, pois Deus pode ser conhecido. "Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou" (v. 19). Paulo nos ensina que Deus pode ser conhecido através do universo criado: "Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis." (v. 20). Levantava sempre este ponto quando pregava o evangelho aos pagãos, como se percebe da leitura das suas cartas e do discurso que fez em Atenas perante os filósofos do mundo helenístico (Atos 17). Podemos portanto asseverar que, se a ignorância dos pagãos e sua rejeição a Deus era indesculpável no primeiro século, quanto mais atualmente! Precede-nos longa história e herança de pensamento cristão. Aprendemos a entender o universo mais eficientemente do que os antigos, e muitos dos mais destacados cientistas de nossos dias têm testificado, vez após outra, que há na natureza uma ordem, um desígnio, e outras evidências que juntamente indicam a existência de um Criador. Mas, mais do que isto, temos conhecimento de Jesus Cristo. Os vinte e sete documentos do Novo Testamento foram submetidos, no decurso destes últimos cem anos, ao mais cuidadoso escrutínio da parte de estudiosos pertencentes a todos os ramos de fé, e por aqueles que não têm fé alguma, e foram pronunciados historicamente fidedignos, e autênticos. É aqui, pois, nestes documentos do primeiro século, que temos a revelação de Jesus Cristo. Cristo é um fato, uma realidade. Deus pode ser conhecido e visto em Cristo Jesus, que é a Palavra de Deus. Temos, outrossim, a Bíblia. Deus pode ser conhecido e visto através das Escrituras. A Bíblia é a palavra de Deus. Quero perguntar-lhe, você já leu a Bíblia de maneira realmente séria? Foi através da leitura das Escrituras, especificamente de uma passagem de Romanos, que Agostinho se converteu. Diz-nos ele, nas suas Confissões, que no momento em que apanhou a Bíblia e começou a lê-la, Deus lhe falou. Mencionando uma passagem em Romanos 14, Agostinho disse: "Não senti vontade de ler mais nada; já não era necessário. Instantaneamente, no fim da frase lida, uma luz clara inundou o meu coração e todas as trevas da dúvida dissiparam-se." Isto pode acontecer a você. A ignorância do homem moderno, e sua rejeição a Deus, bem como sua negação de Deus, são indesculpáveis, porque Deus pode ser conhecido. O segundo ponto que Paulo ressalta, no que diz respeito a esta rejeição a Deus, é que ela é feita deliberadamente. Diz ele: "Portanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças." (v. 21). Mais adiante diz: "por haverem desprezado o conhecimento de Deus..." (v. 28). A questão de acreditar em Deus hoje em dia não é tão completamente científica e objetiva quanto muitos queriam que pensássemos. Noutras palavras, não é puramente intelectual. A rejeição a Deus não é inadvertida ou acidental. Em todos os debates modernos acerca de Deus, é evidente que se fala não meramente de um deus, e sim do próprio Deus. Isto se percebe pelo fato de que até mesmo os que dizem que Deus está morto ainda escrevem "Deus" com letra maiúscula. É o Deus vivo, o Deus da Revelação, que está sendo rejeitado. Paulo está dizendo exatamente o mesmo que Jesus dissera. A descrença é moral e deliberada. Muitos hoje dizem que não podem crer; a Bíblia diz que se recusam a crer. O Deus que fala aos homens através da natureza, da história e da consciência, através da Bíblia e de Jesus Cristo é deliberadamente rejeitado. O terceiro ponto salientado por Paulo, no que diz respeito à rejeição a Deus, é que ela é bastante maliciosa. Aqueles que consciente e deliberadamente rejeitam a Deus não se limitam apenas em rejeitá-lo: pelo contrário, promovem ateísmo de maneira agressiva. Querem impedir a verdade. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" (Romanos 1.18). Isto demonstra, mais do que qualquer outra coisa, que a questão da existência de Deus é realmente moral e espiritual, e não primariamente intelectual. Se fosse só e inteiramente uma questão científica e intelectual, logo os que fizessem a seua decisão de não aceitar o fato de que Deus existe deixariam o assunto por isso mesmo. Talvez considerassem "piedosamente" as pessoas "ignorantes" que crêem em Deus e que procuram obedecê-lo, mas se fosse puramente objetiva e científica a questão, deixariam o assunto em paz. Não é porém exatamente o que acontece. Paulo analisou corretamente o mundo dos seus dias quando disse que os que negam a Deus envidam todos os seus esforços para abafar a verdade. Em nossos dias, a primeira e principal ilustração dessa verdade é o comunismo. Os comunistas são deste mundo, e eles mesmos o proclamam, mas eles, mais do que qualquer grupo em nossos dias, envidam todos os esforços possíveis para abafar a verdade. Suprimem toda a verdade. Não somente proíbem a liberdade da religião, como também a liberdade da imprensa, do rádio, da fala, e principalmente a liberdade do culto a Deus. [Nota: Este livro foi publicado no Brasil em 1974, e escrito anos antes; portanto, o comunismo e a guerra fria eram realidades contemporâneas ao autor.] O secularista moderno em nossa sociedade não está muito aquém em seus métodos, com relação aos comunistas. Não possui as armas e o poder político deles, mesmo assim, faz todo o possível para se opor à oração, à leitura da Bíblia, ao culto e à proclamação do evangelho através do rádio e da televisão. A rejeição a Deus, em última análise, é maliciosa, porque todos os ateus revelam-se afinal, como inimigos de Deus, da retidão e da verdade. Observemos agora quais as desastrosas conseqüências advindas da negação e rejeição a Deus. O primeiro resultado negativo da rejeição do Deus vivo é que os homens ficaram relegados aos seus próprios recursos. Paulo, nesta parte de Romanos 1, diz três vezes: "Deus os entregou" (vv. 24,26,28), ou seja, Deus os abandonou. É esta a terrível conseqüência da rejeição a Deus. C. S. Lewis, com profunda introspecção, diz que isto significa que Deus abandona os que O rejeitam à horrível liberdade que eles mesmos desejaram. O mundo sem Deus transforma-se num caos. Viver sem Ele no mundo é algo que inspira medo Deus os entregou às concupiscências de seus próprios corações, à impureza. Deus os entregou às paixões degradantes. Deus os entregou a uma mentalidade repreensível, à conduta imprópria. Ficaram plenos de todo tipo de degradação. (...) [Comentários sobre os países comunistas] A Segunda terrível conseqüência de se negar a Deus é que os homens depravaram-se. "Por causa disso os entregou Deus a paixões infames; porque até as suas mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas, por outro contrário à natureza; semelhantemente, os homens, também, deixando o contato natural da mulher, inflamaram-se mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza homens com homens, e recebendo em si mesmos a merecida punição do seu erro." (Romanos 1.26,27). Há muitos moralistas sinceros em nossos dias que crêem ser a moralidade essencialmente um problema social, e que acham possível controlar a conduta humana através da educação adequada, e que as pessoas que não têm nenhuma religião nem fé em Deus podem ser treinadas a viverem relativamente decentes. Tal idéia é falsa. A única base da moralidade é a religião, e sem a religião não há padrões morais supremos capazes de sustentar as pessoas dentro de algum tipo de decência e ordem social. A história nos ensina isto, e Paulo tira essa mesma lição do ambiente pagão que cercava os cristãos antigos; mais do que isso, porém, é uma lição que se evidencia profunda e patentemente em nossa sociedade, para qualquer pessoa que ainda conservou seus poderes de observação objetiva. Hoje em dia estamos viajando num tobogã moral: já gozamos a emoção da descida pelo encosto coberto de neve, mas não achamos nenhum lugar nivelado, que nos sirva de freio ao chegarmos lá embaixo. Não há mais ponto de parada. Uma vez que se rejeita a lei moral, a própria vontade de Deus, que é a base de toda a moralidade, não há absolutamente nenhum ponto de parada e fiscalização onde uma pessoa possa organizar as coisas segundo seus próprios desejos quanto à decência e à segurança. Os homens sem Deus estão aviltados; estão corrompidos; cogitam e praticam todo tipo de maldade que se possa imaginar. É este, pois, o problema humano. Os homens rejeitaram seu Criador, seu Redentor. Contra este terrível quadro de imoralidade, de corrupção e maldades de todo o tipo Paulo proclama o evangelho. Diz ele que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. Seja você quem for, caro leitor, nós lhe proclamamos esse mesmo evangelho. Através da fé em Jesus Cristo, você também pode conhecer este Deus, você também pode ser libertado das desastrosas conseqüências da impiedade e da injustiça.
Leia o Capítulo 2: Deus não tem favoritos.