NATAL À BRASILEIRA
Dia vinte e cinco,
noite estrelada
Maria, em parto, geme
na parada
Transeuntes da noite,
vêem e não fazem nada
Apenas contemplam e
dizem: coitada!
José, no INAMPS,
clama desesperado
A ambulância se
encontra em outra "emergência"
Pois já desde à
tarde, fato não registrado,
Saíra à serviço de
alguém da gerência.
José volta aflito e
encontra Maria
Transtornada de dor e
de tanta aflição
Apresenta no rosto
uma amarga alegria
Pois já tem em seus
braços o menino Tião.
Tião nasceu
prematuro, quase natimorto
Só mesmo um milagre
o manteve com vida
Raquítico, doente,
só em pele e osso
Amargo retrato da
mãe desnutrida.
Vivia, Tião, como os
garotos pobres
Se alimentando do
lixo da sua cidade
Se escondendo do
ódio de tantos herodes
Assassinos vestidos
de justiça e verdade
Apreenderam o Tião
em plena capital
Clamando por pão e
sedento de escola
O taxaram de ladrão
e de vil marginal
E o calaram com o
vinagre do ópio e da cola
Autódromos, metrôs
e obras faraônicas
Consomem os recursos
de um governo cruel
Mas deixa com fome as
nossas crianças
É Herodes matando os
filhos de Raquel
No calvário das ruas
das nossas cidades
Jazem as nossas
crianças em estado letal
E os que nada fazem
contra esta calamidade
Com Pilatos e Herodes
celebram o Natal
Samuel S. da
Mata
