A COTA DO DIA

Samuel S. da Mata

 

- Moço me dá um real.

 

Não era um pedido qualquer, deste que se houve todo dia. Era um clamor sincero, com expressão e sentimento, daqueles que fazem doer a alma de quem ouve.

Virei-me. Era uma garotinha ruiva , cabelos anelados, olhos cor de mel, que brilhavam no reflexo da luz sobre as lágrimas que brotavam nos seus olhos.

- Não chore menina! Você quer um prato de sopa?

- Quero sim, mas não posso comer aqui. O dono da venda não deixa a gente comer. Depois ele briga com a gente. Eu quero mesmo é um real.

- Vai deixar sim! Quem está pagando sou eu. Ora essa! Garçom, traga um prato de sopa de frango aqui para a garotinha.

Meio a contragosto, o garçom trouxe a sopa. Já era tarde, uma vinte e trinta horas.

- Quantos anos você tem? Perguntei, quebrando o gelo, enquanto a menina se afogava na sopa.

- Acho que vou fazer seis em setembro, minha mãe é quem disse.

- Por que ainda não foi para casa? Onde você mora?

- Moro na estrutural. Ainda não fui prá casa porque só fiz "sete real". Está dentro do short, senão os garotos tomam.

- Ora, se fez sete reais, por que não foi embora? Esta hora já é perigoso e ninguém vai te dar mais nada.

- É por isso que eu falei com o senhor. Eu só posso ir para casa depois que fizer "dez real". Ontem eu só fiz "seis real" e meu pai não deixou eu entrar em casa. Dormi do lado de fora na porta.

- Não é possível! E sua mãe não fez nada?

- Moço. Meu pai é muito brabo. Ele bebe muito e quando minha mãe fala alguma coisa ele esmurra e chuta ela. Ela está barriguda e doente.

Perdi o apetite. Paguei a conta, dei o troco para a menina e fui para casa revoltado. Não só com o acontecido mas, principalmente, por saber que amanhã ela voltaria e provavelmente com a exigência de uma cota maior.

 

 

 

 

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