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O episódio, contado aqui, numa folha de jornal ou num qualquer encontro de gente conhecida, tem sempre som de piada, acha-se-lhe um toque de anedota, não parece um assunto sério. Mas é.
Cá vai a história.
Hoje em dia, assaltar é uma actividade que está a dar. Vai sendo segura, poucas vezes dá aborrecimento ao assaltante e sempre vai rendendo alguma coisa. Que o diga, por exemplo, quem deitou a mão a quatro rodas (jantes de alumínio com pneus de baixo perfil) de um automóvel estacionado na primeira fila do parque do Hotel D. Luís, com vistas para a Avenida de Badajoz e para as bombas de gasolina, na madrugada do último sábado.
Verdadeiramente requintado é o episódio de estar fora de horas numa casa de espectáculos, passar pelo bar recolhendo o que ficou na caixa da noite anterior e, para dar de comer à fome, levar ainda um reforço para o caminho. Com nobreza, o assaltante ainda passa pelo |
Posto Policial e ajuda a autoridade com a informação que tinha sido ele a cometer a proeza. Atitude nobre e colaborante, não fosse dar-se o caso de haver desperdício de meios na busca de alguém que desse trabalho a localizar.
Mas… oh, surpresa máxima! A Polícia não pode actuar, porque aquilo é apenas uma confissão, o homem não foi apanhado em flagrante. O assaltante é nobre e colaborante, mas não é burro: já percebeu que, numa qualquer noite de maior aperto, pode repetir a façanha.
Tudo assim de acordo com a lei. De facto,, como se pode ser polícia com uma lei destas, tão protectora do laadrão?
Vão muito longe os tempos em que os latinos fizeram a sua frase que atravessou milénios, pelo que não nos resta mais do que encolher os ombros e adaptar para "A lei é mole, mas é lei", enquanto o legislador não puser fim a esta pouca vergonha.
Por Manuel Carvalho |