As Notícias de Elvas

Entrelinhas
© Linhas D'Elvas
nº 2408 de 27-6-97

by António F Góis


Muitos povos cometeram e continuam a cometer o erro crasso de não valorizar as suas próprias riquezas.
Quanto mais belo e imponente é o seu património maior é o desleixo.

Elvas adoptou esta máxima. Infelizmente

Um dos locais mais emblemáticos da nossa cidade é sem dúvida o Forte da Graça que juntamente com o ex-libris da cidade - o aqueduto da amoreira, as muralhas e o Forte de Santa Luzia constituem as peças mais brilhantes do nosso "Museu vivo".

O Forte de Nossa Senhora da Graça, implantado a norte, num monte da Graça a cerca de 1Km do centro da cidade, obra de arte da arquitectura militar mandada construir pelo Conde de Lippe, em 1763, depois das guerras da Restauração, demorou 29 (vinte e nove) anos a ser feita.
Foi chamado inicialmente Forte de Lippe, por associação ao nome do marechal-general ao serviço do Marquês de Pombal que teve como missão reorganizar o exército português, pois sob as ordens do Conde vindo de Inglaterra que a obra se iniciou. Mais tarde, Dª Maria I alterou-lhe o nome para o actual Forte de Nossa Senhora da Graça.

Em 1763, trabalhavam na obra 6 mil homens e 4 mil bestas e a sua direcção estava a cargo do engenheiro Francês Etienne que mais tarde foi substituído pelo coronel Guilherme Valleré, tendo sido exigido um esforço enorme à população da região, como se pode imaginar já que até as carretas dos lavradores chegaram a estar embargadas para serem utilizadas no transporte de pedras e madeiras. O custo total da Obra orçou em cerca de 768 mil réis, uma fortuna para a época.

Este forte foi durante quase dois séculos uma das peças mais valiosas na defesa da soberania e independência da nação, pelo respeito que às suas 144 bocas de fogo impunham, evitando a conquista do monte da Graça onde por várias vezes as linhas inimigas se colocavam nos cercos à cidade.

Estudado pelo mundo inteiro como uma das mais valiosas peças do género, tem servido para historiadores, arquitectos e engenheiros compreenderem e estudarem nos seus ramos científicos, considerada uma obra prima da arquitectura militar.

Tive a sorte de por lá ter passado algumas tardes (há mais de quinze anos) e confesso-vos que ainda hoje não me esqueço das muralhas da imponente porta de entrada com a casa amarela de telhado cónico pequeno bem lá no alto, da ponte entre a muralha e zona interior, dos grandes portões de madeira, da cisterna e obviamente dos seus quatro baluartes que são dignos de se ver. Lá bem no cimo, a distância que a vista alcança parece não ter fim. Cá de baixo, mais parece uma estrela do mar de grandes proporções que ali se deixou cair. Repito digno de ser visto

Mas, aí está uma das questões mais importantes. Quantos elvenses já lá se deslocaram? Já o viram e o observaram?
Não será difícil responder, já que não serão muitos.
Primeiro porque era um reduto militar, tendo sido mesmo usado durante muito tempo como presídio e por último de depósito disciplinar, logo interdito. Depois quando os militares de lá saíram, em 1 de Julho de 1989, ficou desprotegidamente ao alcance do selvagem e mais inqualificável vandalismo.

Hoje carece de merecidos cuidados.
Este nosso País que tanto quer apostar no Turismo deixa-se ficar pelas intenções sucessivos Governos das duas cores esquecem o mais valioso património e... vendem sol! Gastar rios de dinheiro em campanhas televisivas é fácil, mas não barato e muito menos nos dá milhões.
Para as autarquias fica o ónus de tratar das «pedras».
Não seria primeiro necessário apoiaar as Câmaras na restauração do património e na criação de condições para a sua manutenção. Ou não é mais barato manter que reconstruir.
Transformar o Forte da Graça (a mesma receita vale para o Forte de Santa Luzia) num Museu com actividades, tornando-o num "Museu Vivo", possibilitando também a implantação de um restaurante ou de uma estalagem/hospedaria de modo a construir um fonte de verbas que se podiam utilizar na manutenção e preservação do espaço.
Seja de que forma for, que o
Forte da Graça não continue em desgraça.

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