No início dos anos
trinta, a freguesia do Estreito não só constituiu motivo
de notícia e de especulação nos meios de informação
regionais, como, foi tema obrigatório de conversas entre a população
madeirense. No alvo das atenções esteve uma quadrilha denominada
da Ceroula Branca, responsabilizada por uma onda de criminalidade e violência
que não só colocou em pânico a população
local, como se reflectiu negativamente na imagem exterior da freguesia
do Estreito, criando medo entre aqueles que não residindo nela,
por qualquer razão a pretendiam visitar.
Contando com cerca de
28 indivíduos, na sua maioria com idades compreendidas entre os
20 e os 30 anos, os Ceroulas Brancas actuavam pela calada da noite e não
dando oportunidade a que se deixassem reconhecer ou a que fosse revelada,
publicamente, a sua identidade. Desta forma, a população,
pela manhã era confrontada com as consequências dos seus actos,
situação que era comentada "a boca pequena", não fosse
estarem em presença de algum dos seus membros e um comentário
menos oportuno pudesse desencadear uma atitude de retaliação.
Por outro lado, perante o desconhecimento da identidade dos seus autores,
estas acções eram envolvidas por um ambiente de grande mistério,
o que levava não só a especulações sobre a
identidade dos seus responsáveis, como ainda a se atribuir todo
o tipo de agressões ou roubos a esta quadrilha, que assim, via enriquecer
vertiginosamente o seu palmarés e a sua fama.
Desta forma, foi-se
criando à volta desta quadrilha um crescente mito de mistério
e terror que ultrapassou as barreiras geográficas da freguesia e
fazia, não só com que as suas vítimas, no caso de
reconhecerem alguns dos seus agressores, não revelassem a
sua identidade, como com que a generalidade das pessoas não se atrevesse
a andar na rua a partir do anoitecer, com medo de ser surpreendidos
numa das suas acções nocturnas e em que apenas ao padre,
ao médico, à parteira e quem, em caso de necessidade, os
fosse chamar, tinha privilégio de livre trânsito.
É aliás
através deste mistério em que os Ceroulas Brancas estavam
envolvidos que se explica uma certa dualidade de opiniões sobre
as motivações e dimensão das suas actividades e que
envolviam danificações de terrenos cultivados, arvores de
frutos, canteiros e vasos de flores e jardins, apedrejamento de residências
e algumas perseguições de pessoas e agressões.
Enquanto que para uns,
eles eram indivíduos perigosos e capazes das maiores atrocidades,
devido aos actos de agressão e assalto que cometiam aos transeuntes,
para outros, eles não passavam de indivíduos que juntos e
eufóricos com bebida se lembravam de, uma vez por outra, sobretudo
quando a alcoolémia era maior, de pregar a sua partida a qualquer
pessoa que passasse de noite pelos locais onde estivessem reunidos. São
aliás também estas as opiniões que o jornalista do
Diário da Madeira encontra, quando após a prisão,
em 1932, dos seus elementos vem ao Estreito para colher informações
sobre esta quadrilha e que o leva a afirmar não poder chegar a conclusões
positivas, visto não encontrar consenso relativamente à natureza
e fins dos Ceroulas Brancas. No entanto, independentemente das duas facetas
que na realidade pareciam apresentar, a verdade é que os resultados
ou consequências práticas da actuação dos Ceroulas
Brancas mostra claramente um predomínio da vertente criminosa, ainda
que haja a ressalvar o facto de nem todas as façanhas a eles atribuídas
terem sido por si protagonizadas.
Se as motivações
que levaram à constituição e à actuação
desta quadrilha eram as de diversão, o que poderá ser plausível
carência de meios de lazer, ambiente propício à eclosão
deste tipo aberrante de passar o tempo criado pelo convívio na venda,
num clima onde o jogo e o alcoolismo se misturavam o certo é que
alguns dos seus membros se revelariam em acções isoladas
indivíduos agressivos, situação que certamente condicionaria
o eclodir de alguns exageros na sua acção enquanto grupo.
Relativamente à origem da quadrilha dos Ceroulas Brancas os dados
disponíveis não são suficientemente claros. No entanto,
parece que o rompimento do noivado, por parte da noiva de um dos elementos
que viria posteriormente dar corpo juntamente com outros à quadrilha,
terá desencadeado, por parte deste, uma espécie de acção
de retaliação, para o que juntamente com alguns amigos, protegidos
pelas trevas da noite, foram até à casa da ex-noiva e aí
fizeram uma arruaça. Contudo, pelo caminho terão tirado,
por razões que se desconhece, ou então para não serem
conhecidos, as calças tendo ficado em ceroulas. Daí a denominação
dada à quadrilha, que depois se viria a formar, por junção
de outros indivíduos e cuja origem se inspiraria nesta primitiva
acção, para pregar partidas ou amedrontar as pessoas
Ainda que a freguesia
do Estreito ficasse com a fama, outras localidades também tiveram
grupos similares, nomeadamente Machico. Quem se der ao trabalho de ler
a rubrica "Há 50 anos" publicada no Jornal da Madeira de 13 de Janeiro
de 1998, verificará que no Caramachão havia sido descoberto
um grupo de cerca de 30 indivíduos que atacavam e batiam de noite
nos transeuntes e que pela descrição e actividades, não
deixa de se assemelhar aos Ceroulas Brancas .