Lenda da Coroa Real de Cedros
No tempo do domínio castelhano e mesmo já
anteriormente, os Açores eram, de certa maneira, esquecidos e os piratas aproveitavam
para, à sucapa e a coberto da noite, atacar e roubar as ilhas, principalmente as mais
desprotegidas.
Duma vez, um grupo de piratas, comandados pelo seu rei mouro, atacou a ilha do Faial. Mas
os faialenses deram-lhe luta e conseguiram vencer e fazer com que os piratas abandonassem
a ilha sem fazerem as pilhagens habituais. Ao fugir, o rei esqueceu a coroa. Era
magnífica, em prata, enfeitada ao redor com ramos lavrados.
Já em viagem o rei mouro deu por falta da coroa e lembrou-se que a tinha deixado na ilha
que tinham saqueado. O barco rumou novamente em direcção ao Faial em busca da preciosa
coroa.
Disfarçadamente, os piratas procuraram por onde puderam, indagaram junto de algumas
pessoas, mas nada encontraram e o rei mouro partiu em direcção às distantes terras dos
infiéis, abandonando a ilha para nunca mais voltar.
Ora uma mulher dos Cedros, que tinha encontrado e guardado a coroa, ao saber que os
piratas estavam de volta à procura do símbolo real, tratou de escondê-la o melhor
possível. Não vendo sítio mais seguro e, como era uma coroa aberta, sem hastes, do
feitio de um anel, emfiou-a numa perna como quem enfia uma aliança e aí a conservou até
ter a certeza que o rei se fizera ao mar, desistindo para sempre do precioso objecto.
Passado algum tempo a perna da mulher inchou e, quando quiseram tirar a coroa ela não
saía. Puxaram de um lado, puxaram do outro, lavaram a perna com água e sabão de cinza
para a pele ficar mais escorregadia, mas a coroa não saíu. Não vendo outro jeito, não
tiveram remédio senão cortar a coroa para a poderem tirar. Depois soldaram-na com muito
cuidado e o riquíssimo objecto ficou para a freguesia e passou a ser usado nas festas do
Espírito Santo. Tinha de altura 13cm e continha engastada uma gema de cor da qual se
ignora o verdadeiro valor.
Passados anos, com medo que aquela coroa tão rica desaparecesse ou se estragasse,
mandou-se fazer uma imitação para ser usada nas festas, mas a antiga coroa do rei mouro
continua a ser guardada todos os anos em casa do mordomo do Espírito Santo e pode ainda
ver-se, perfeitamente, num dos lados, o lugar onde foi cortada e soldada para poder sair
da perna da mulher que a tinha guardado cautelosamente.