,
NOME
PRINCIPAIS OBRAS
OUTROS TEXTOS
JEAN BAUDRILLARD
"O Sistema dos Objetos", "A Sociedade de Consumo", "O Espelho da Produção", "Simulacras", "O Crime Perfeito", [...]
Nenhum neste site | <Sobre Baudrillard> 'O Sistema dos Objetos' de Jean Baudrillard
@
Sobre o anônimo

DA ALIENAÇÃO CONTEMPORÂNEA
AO FIM DO PACTO COM O DIABO
JEAN BAUDRILLARD
Posfácio de "A Sociedade de Consumo [1970]", (Lisboa, Edições 70: 201-210)

   O Estudante de Praga
       O Estudante de Praga é um velho filme mudo dos anos 30, filme expressionista da escoal alemã. Narra a história de um estudante pobre, mas ambicioso, impaciente por viver mais à larga. Enquanto bebe uns copos numa tasca dos arredores de Praga, desenrola-se perto dali uma montaria, onde a alta sociedade da cidade se diverte o melhor que pode. Alguém domina esta sociedade e puxa os cordelinhos. Pode ver-se a manobrar a caça à vontade e a regular soberanamente os giros dos caçadores. Este indivíduo parece-se com eles: alto, com luvas, bengala com botão, já de meia-noite, certa barriga, a pequena pêra do início do século: é o Diabo. Prepara-se para extraviar uma das mulheres da caça - encontro com o estudante - paixão súbita - mas a mulher esquiva-s, porque é rica. Depois de regressar a casa, o estudante rumina a sua ambição e insatisfação, que assumiram giro sexual.
       Aparece então o Diabo no quarto miserável, onde se vêem apenas livros e um espelho da altura de um homem. Oferece ao estudante um montão de oiro em troca da sua imagem no espelho. Negócio fechado. O Diabo separa a imagem especular do espelho como um gravura ou uma folha de papel químico, enrola-a, mete-a no bolso e vai-se embora obsequioso e sardônico como lhe competia. Começa nesta altura o argumento real do filme. Graças ao dinheiro, o estudante caminha de sucesso em sucesso - evitando como um gato passar diante dos espelhos como que, infelizmente, se rodeia a sociedade mundana que frequenta. Ao princípio, contudo, não dá provas de excessiva má consciência, não lhe custa o facto de se não mirar. Mas, um dia, contempla-se em carne e osso. Frequentando o mesmo mundo que ele, interessando-se de modo visível por ele, o seu duplo persegue-o e não o deixa descansado. Está já a ver-se, o duplo é a sua própria imagem vendida ao Diabo, por este ressucitada e posta em circulação. como boa imagem que é, permanece ligado ao modelo; mas, como má imagem que se tornou, acompanha-o não só nos espelhos casuais, mas em toda a vida. A todo o instante, há o perigo de o comprometer, se os virem juntos. Produziram-se até já pequenos incidentes. Se se esquiva à sociedade para evitar a imagem, é ela que toma o seu lugar, levando ao fim os seus actos e desfigurando-os até ao crime. Um dia, causou um duelo e decidiu-se a pedir desculpas no próprio local; chega ao encontro pela madrugada: demasiado tarde - o duplo antecipara-se-lhe e o adversário já está morto. O estudante esconde-se. A sua iamgem persegue-o, como que para se vingar de ter sido vendida. Descobre-a por todo o lado. Aparece-lhe por detrás dos túmulos, à beira do cemitério. A vida social acabou, a existência tornou-se impossível. No meio do desespero, recusa até um amor sincero que se lhe oferecia e para pôr fim a tudo, concebe o projecto de matar a própria imagem.
      Uma noite, esta segue-o até ao quarto. Durante uma cena violenta entre ambos, acontece que ela passa diante do espelho donde saíra. Ao recordar a primeira cena, a nostalgia da própria imagem misturada com o furor do que sogre por causa dela leva o estudante à raia da loucura. Dispara contra a imagem, o espelho parte-se e o duplo, ao transformar-se no fantasma que era, volatiliza-se. Ao mesmo tempo, porém, o estudante cai, é ele quem morre. Matando a própria imagem, mata-se a si mesmo, já que insensivelmente fora ela que em seu lugar se tornara viva e real. No entanto, durante a agonia, agarra um dos fragmentos do espelho dispersos pelo chão e apercebe-se de que consegue contemplar-se de novo. O corpo espalha-se, mas, à custa do corpo, reecontra a efígie normal, precisamente antes de morrer.

      A imagem especular representa aqui simbolicamente o sentido dos nossos actos, que formam em redor de nós um mundo à nossa imagem. A transparência da nossa relação ao mundo exprime-se bastante bem pela relação inalterável do indivíduo ao respectivo reflexo no espelho: a fidelidade de semelhante reflexo testifica, de certa maneira, a reciprocidade real entre o mundo e nós. Simbolicamente portanto, no caso de a imagem nos vir a faltar, é sinal de que o mundo se torna opaco e os nossos actos nos fogem - encontrando-nos então nós sem perspectiva sobre nós mesmos. Sem esta caução, deixa de haver identidade possível: torno-me outro em relação a mim próprio, estou alienado.
     Tal é o dado primitivo do filme. Mas, este não se contenta com uma efabulação geral, apresentando em seguida o sentido concreto da situação: a imagem não se perdeu ou aboliu - poder-se-ia dizer - e é esse justamente o sentido da alienação social concreta. Depois, que o Diabo possa meter no bolso esta imagem como um objecto constitui igualmente a ilustração fantástica do processo real de feiticismo da mercadoria: a partir do momento em que são produzidos, o nosso trabalho e os nossos actos caem fora de nós, fogem-nos, objectivam-se, vão literalmente dar à mão do Diabo. Assim, em Peter Schlemihl, o Homem Que Perdeu a Sua Sombra, de Chamisso, a sombra separa-se também da pessoa por malefício, transforma-se em pura coisa, em vestido que pode esquecer-se em casa, se não houver cuidado, que pode ficar colada ao chão, se o ambiente arrefecer demasiado. Schlemihl, que perdera a sua, pensa em mandar desenhar outra por um pintor, a qual deveria, depois, andar atrás dele. As lendas egípcias referem que não deve caminhar-se demasiado perto da água, porque os caimões são gulosos das sombras que passam. As duas efabulações são idênticas: imagem ou sombra, é sempre a transparência da nossa relação a nós mesmos e ao mundo que se encontra partida; a vida, por consequência, perde o sentido. Mas, Schlemihl e o Estudante de Praga, ao contrário de muitos outros pactos com o Diabo, apresentam o traço forte de mostrarem o Ouro, ou só o Ouro, no centro da alienação - quer dizer, a lógica da mercadoria e do valor de troca.
       As duas fábulas evoluem porém de maneira diferente: com pouco rigor, em Schlemihl, onde Chamisso não tira todas as consequências de metamorfose da sombra em objecto. Adorna a narrativa com episódios fantásticos ou cómicos, como a perseguição na charneca batida pelo sol por uma sombra errante sem dono, que talvez, seja a sua, ou então, quando o Diabo lha entrega à experiência por algumas horas. Schlemihl, porém, nada sofre com a sua sombra alienada; sofre apenas devido à reprovação social de que é objecto por não ter sombra. Uma vez perdida, a sombra não se volta contra ele para se transformar em instrumento da perda do ser. Schlemihl vê-se condenado à solidão, mas permanece o o mesmo. Não lhe foram retiradas nem a consciência, nem a vida; só a existência em sociedade. Daí, o compromisso final, em que recusa estoicamente o segundo mercado proposto pelo Diabo de trocar a sombra pela alma. Perde a sombra, mas salva a alma.
       O Estudante de Praga segue uma lógica muito mais cerrada. Logo que foi vendida a sua imagem, isto é, vendida uma parte de si próprio, o estudante é por ela perseguido na vida real até à morte. Traduz-se aqui a verdade, nada adocicada, do provesso da alienação: o que se aliena de nós não ingressa num circuito indiferente, não entra num mundo exterior a cujo respeito ficaríamos livres - sofrendo apenas com cada espoliamento do nosso ter, mas continuando sempre a dispor de nós mesmos na esfera privada e permanecendo, no fundo, intactos quanto ao ser. Não é assim, porém: isto não passa da ficção tranquilizante do foro interior em que a alma se encontra longe do mundo. A alienação é mais profunda. À parte de nós mesmos que nos foge, não lhe escapamos. O objecto (a alma, a sombra, o produto de nosso trabalho transformados em objectos) vinga-se. Tudo aquilo de que somos desapossados permanece ligado a nós, mas de modo negativo, isto é, assedia-nos. A parte de nós, que foi vendida e esquecida, é ainda a nossa personalidade, ou melhor, é a sua caricatura, o seu fantasma e o seu espectro que nos persegue, nos prolonga e se vinga.
       Reencontra-se a ambiência inquietante da inversão do sujeito e do objecto, a feitiçaria da alteridade do idêntico nas expressões mais correntes: Seguia-o como a sua própria sombra. Assim, também com o culto dos mortos, culto de propiciação a uma parte de nós definitivamente alienada e da qual, por isso mesmo, só mal se pode esperar. Ora, há uma parte de nós mesmos pela qual nós, vivos, somos colectivamente assediados: é a força de trabalho que, depois de vendida, através de todo o ciclo social da mercadoria, volta para nos desapossar do sentido do próprio trabalho; é a força de trabalho que - por meio de uma operação social, e não diabólica - se transformou em objecto materializado com o fruto do trabalho. Tal é o processo simbolizado no Estudante de Praga pela súbita emergência viva e hostil da imagem e pelo longo suicídio - é a palavra apropriada - que ela impõe a quem a vendeu.
       De capital importância e que nos é revelado de modo dramático é o facto de o homem alienado não surgir apenas como homem diminuído, empobrecido, mas intacto na sua essência - de se manifestar ainda como homem revirado e transformado em inimigo de si mesmo e revoltado contra si próprio. Trata-se do processo que, noutro plano, Freud descreve no recalcamento: o elemento recalcado ressurge através da própria instância recalcante. É o corpo de Cristo na cruz que se transfigura em mulher para assediar o monge que jurou ser casto. Na alienação, são as forças vivas objectivadas do ser que a todo o instante mudam nele à sua custa, conduzindo-os à morte.
      Schlemihl acaba por atribuir sentido à vida e por morrer de morte natural, como um grande industrial americano solitário no instituto de beneficência que ele próprio fundara, nos tempos de rico. Salvou a alma, ao recusar o segundo contrato. Esta divisão da acção decorre necessariamente da ambiguidade do pensamento e a fábula perde todo o rigor.
     Em O Estudante de Praga, não há segundo mercado. O estudante morre inexoravalmente das squelas lógicas do primeiro. Tal facto quer dizer que, para Chamisso, é possível vender a própria sombra, isto é, estar alienado em cada uma das suas condutas e, apesar de tudo, salvar a alma. A alienação origina apenas um conflito na aparência social, que Schlemihl consegue superar abstractamente na solidão. O Estudante de Praga, porém, desenvolve a lógica objectiva da alienação com todo o rigor, mostrando que não há outra saída além da morte. Qualquer solução ideal de ultrapassamento da alienação vem cortada de raiz. A alienação não pode ser ultrapassada: constitui a própria estrutura do mercado com o Diabo. Revela-se como a autêntica estrutura da sociedade mercantil.

O fim da transcendência

     O Estudante de Praga é uma ilustração notável dos processo de alienação, quer dizer, do esquema generalizado da vida individual e social regulada pela lógica da mercadoria. O pacto com o Diabo, por outro lado, constitui, desde a alta Idade Média, o mito central de uma sociedade empenhada no processo histórico e técnico de domínio da Natureza, processo este que é sempre, de modo simultâneo, processo de domesticação da sexualidade. O aprendiz de feiticeira ocidental tematizou constantemente nas forças do Mal, indexado pelo Diabo, a imensa culpabilidade ligada ao empreendimento puritano e prometeico do Processo, de sublimação e de trabalho, de racionalidade e eficiência. Eis a razão por que o tema medieval do ressurgimento do que foi recalcado, de obsessão pelos elementos recalcados e da venda da própria alma (o pacto reflecte a irrupção dos processos de mercado na primeira sociedade burguesa) foi ressuscitado pelos românticos, logo desde os primeiros tempos da era industrial. Além disso, o tema evolui sempre (paralelamente ao milagre da técnica) por detrás da fatalidade da técnica. Impregna ainda hoje toda a ficção científica e toda a mitologia quotidiana, desde o perigo da catástrofe atómica (o suicídio técnico da civilização) até ao tema inúmeras vezes orquestrado do hiato fatal entre o progresso técnico e a moral social dos homens.
     É legítimo, portanto, afirmar que a era do consumo, em virtude de constituir o remate histórico de todo o prcesso de produtividade acelerada sob o signo do capital, surge igualmente como a era da alienação radical. Generalizou-se a lógica da mercadoria, que regula hoje não só os processos de trabalho e os produtos materiais, mas a cultura inteira, a sexualidade, as relações humanas e os próprios fantasmas e pulsões individuais. Tudo foi reassumido por esta lógica, não penas no sentido de que todas as funções, todas as necessidades se encontram objectivadas e manipuladas em termos de lucro, mas ainda no sentido mais profundo de que tudo é espectacularizado, quer dizer, evocado, provocado, orquestrado em imagens, em signos, em modelos consumíveis.
      Levanta-se então a pergunta: poderá ainda o esquema (ou o conceito) da alienação, na medida em que gira em torno da alteridade do idêntico (ou seja, à volta da essência alienada e desviada do homem), funcionar num contexto em que o indivíduo deixou de se confrontar com a própria imagem desdobrada? O mito do Pacto e do Aprendiz de Feiticeira é ainda um mito demiúrgico, mito do Mercado, do Oiro e da Produção, cujo objectivo transcedente se volta contra os próprios homens. O consumo não é prometeico, mas hedonista e regressivo. O seu processo não é processo de trabalho e ultrapassamento, mas processo de absorção de signos e de absorção através dos signos. Caracteriza-se, portanto - como diz Marcuse - pelo fim da transcendência. No processo generalizado de consumo, deixa de haver alma, sombra, duplo e imagem, no sentido especular. Já não existe contradição do ser, nem problemática do ser e da aparência. Dá-se apenas a emissão e a recepção de signos, abolindo-se o ser individual no interior desta combinatória e deste cálculo de signos... O homem do consumo nunca se encontra perante as próprias necessidades, como também jamais se vê diante do produtor do seu trabalho; também nunca se defronta com a própria imagem: é imagem aos signos que ordena. Acabou-se a transcendência, a finalidade, o objectivo: a característica de tal sociedade é a ausência de reflexão e de perspectiva sobre si própria. Também já não existe instância maléfica, à semelhança do Diabo, com quem se empenhar por meio de um pacto fáustico a fim de adquirir a riqueza e a glória, já que tudo é dado por uma ambiência benéfica e maternal, pela própria sociedade de abundância. Ou então, será preciso supor que foi a sociedade inteira, Sociedade Anônima, S.A.R.L., que concluiu contrato com o Daibo, vendendo-lhe toda a transcendência e toda a finalidade pelo preço da abundância, e encontrando-se doravante assediada pela ausência de fins.
       No modo específico do consumo, já não existe transcendência, nem sequer a transcendência feiticista da mercadoria; reina apenas a imanência à ordem dos signos. Assim como não existe separação ontológica, mas relação lógica entre o significante e o significado, também não há separação ontológica entre o ser e o respectivo duplo (a sombra, a alma, o ideal) divino ou diabólico; impera somente o cálculo lógico de signos e a absorção no sistema de signos. Na ordem moderna, deixou de haver espelho onde o homem se defronte com a própria imagem para o melhor ou para o pior; existe apenas a vitrina - lugar geométrico do consumo em que o indivíduo não se reflecte a si mesmo, mas se absorve na contemplação dos objectos/signos multiplicados, na ordem dos signifiicantes do estatuto social, etc., já não reflecte a si mesmo nela, mas deixa-a nela absorver e a abolir. O sujeito do consumo é a ordem dos sinais. Quer esta se defina estruturalmente como instância de um código ou, de modo empírico, como a ambiência generalizada dos objectos, a implicação do sujeito, de qualquer maneira, já não é a de uma essência alienada, no sentido filosófico e marxista do termo, ou seja, desapossada e readquirida por uma instância alienante, feita estranha para si mesma. Deixou de ser possível falar de Mesmo, de Sujeito, e até de alteridade do mesmo e de alienação, em sentido próprio. É o que ocorre em parte como no caso da criança que abraça a própria imagem no espelho, antes de ir para a cama: não se confunde inteiramente com ela, porque já a reconhecer. Mas, também não constitui um duplo estranho em que se reflicta - brinca, com ela, entre o mesmo e o outro. É o que também acontece com o consumidor: exerce a sua personalização de termo para termo, de signo para signo. Quer entre a criança e a sua imagem, quer entre os signos, não há contradição e oposição exclusiva: conclusão e implicação ordenada. O consumidor define-se pelo jogo de modelos e pela sua escolha, isto é, pela sua implicação combinatória em tal jogo. É neste sentido que o consumo é lúdico e que o lúdico do consumo tomou progressivamente o lugar do trágico da identidade.

De espectro para espectro

      Não possuímos, à semelhança do mito do Pacto ou do Aprendiz de Feiticeiro, que tematizava a contradição fatal entre o ser e o seu Duplo, nenhum mito actual que tematize a coexistência pacífica, sob o signo da declinação paradigmática, dos termos sucessivos que definem o modelo pessoal. A dualidade trágica (que os situacionistas restabelecem ainda no conceito de espectáculo, de sociedade espectacular e de alienaçã radical) possui os seus grandes mitos, relacionados com a essência do homem e com a fatalidade de a perder, com o Ser e como o seu espectro - porém, a desmultiplicação lúcida da pessoa num espectro de signos e de objectos, de matizes e diferenças, que constitui o fundamento do processo de consumo e redefine totalmente o indivíduo, não como substância alienada, mas como diferença móvel, processo este que é novo e não analisável em termos de pessoa (admirável anfibologia do termo! Já não há ninguém!) e de alteridade da pessoa, não achou mito equivalente, que delineasse a Metafísica do Consumo; não criou nenhum mito equivalente ao do Duplo e da Alienação para a ordem de produção. Semelhante ocorrência não é acidental. Os mitos, como a faculdade de falar, de reflectir e de transcrever, são solidários da transcendência - e desaparecem justamente com ela.

Consumo do consumo

     Se a sociedade de consumo já nã produz mitos é porque ela constitui o seu próprio mito. Em vez do Diabo que trazia o Oiro e a Riiqueza (pelo preço da alma) surgiu a Abundância pura e simples. E, vez do pacto com o Diabo, o contrato de Abundância. Por outro lado, assim como o aspecto mais diabólico do Diabo nunca foi existir, mas sugerir que existe - também a Abundância não existe, basta-lhe, porém, fazer crer que existe, para se transformar em mito eficaz.das satisfação materiais, mas igualmente agora na cultura de massas; a publicidade parodia-se cada vez mais a si própria, integrando a contrapublicidade na respectiva técnica publicitária. France-Soir, Match, a rádio, a TV, os discursos ministeriais possuem como re-citativo obrigatório a lamentação da sociedade de consumo em que os valores, os ideais e as ideologias se perdem em proveito apenas dos prazeres da quotidianidade. Não se esquecerá tão depressa o famoso arrebatamento de Chaban-Delmas, ao afirmar: Importa dominar a sociedade de consumo, insuflando-lhe um suplemento de alma!
    Este requisitório incessante faz parte do jogo: constitui a miragem crítica, a antifábula que coroa a fábula - a frase e a antífrase do consumo. Só o conjunto das duas vertentes é que constitui o mito. É preciso, portanto, atribuir ao discurso crítico e à contestação moralizante toda a sua verdadeira responsabilidade na elaboração do mito. É ele que nos encerra definitivamente na teologia mítica e profética da Civilização do Objecto; é ainda ele que, mais fascinado pelo Objecto que o bom senso comum ou o consumidor, o transfigura em crítica anti-objecto mítica e fascinada. Os contestários de Maio não escaparam à armadilha que consiste em super-reificar os objectos e o consumo, atribuindo-lhes valor diabólico e denunciando-os como tais, erigindo-os assim em instância decisiva. Aí reside o verdadeiro trabalho mítico: porque é que todas as denúncias , todos os discursos sobre a alienação, toda a zombaria da arte pop e da antiarte se recuperam com tanto facildiade senão porque se integram também no mito, a que dão o último retoque pela execução do contracanto na liturgia do Objecto, de que falávamos ao princípio? E tudo isto de maneira ainda mais perversa que pela adesão espontânea aos valores do consumo.
       Como conclusão, diremos que semelhante contradiscurso, pelo facto de não instituir qualquer distância real, é tão imanente à sociedade de consumo como qualquer outro dos restantes aspectos. O discurso negativo constitui a residência secundária do intelectual. Assim como a sociedade da Idade Média se equilibrava em Deus e no Diabo, assim a nossa se baseia no consumo e na sua denúncia. Em torno do Diabo era ainda possível organizar heresias e seitas de magia negra. A nossa magia, porém, é branca e a heresia é impossível na abundância. É a alvura profiláctica de uma sociedade saturada, de uma sociedade sem vertigem e sem história, sem outro mito além de si mesma.
       Eis-nos de novo em pleno discurso moroso e profético, caídos no laço do Objecto e da sua plenitude aparente. Ora, sabemos que o Objecto é nada; por detrás dele, estabelece-se o vazio das relações humanas, o desenho quimérico da imensa mobilização de forças produtivas e sociais que nele vêm reificar-se. Atingiremos as irrupções brutais e as desagregações súbitas que, de maneira tão imprevisível, mas certa, como em Maio de 1968, virão interromper esta missa branca.