Estado de São Paulo

3 de novembro de 2000

A cegueira diante dos fatos
 

Há uns 20 anos, esteve em evidência no Brasil um livro - A Marcha da Insensatez - em que a historiadora Barbara Tuchman demonstrava que ao longo dos últimos milênios muitas civilizações tiveram diante delas todas as evidências de que caminhavam para impasses insolúveis ou para o próprio desaparecimento - e ainda assim não mudaram seu comportamento, não alteraram sua trajetória.
O livro vem à memória com a divulgação, há poucos dias, do relatório em que o WWF e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) demonstram que o uso atual de recursos naturais no mundo já excede em 42,5% a capacidade de renovação da biosfera, considerados o consumo de alimentos, de materiais e de energia. Isso com a atual distribuição mais do que injusta, já que menos de 20% da população mundial, que vive nos países industrializados, responde por mais de 80% do consumo total. Enquanto isso, alguns países mais pobres parecem estar sendo varridos do mapa da História.
Se cada ser humano consumir recursos naturais e emitir dióxido de carbono nos níveis dos cidadãos norte-americanos, alemães ou franceses, diz o relatório WWF-Pnuma, seriam necessários pelo menos mais dois planetas com recursos equivalentes aos do nosso. Como eles não estão disponíveis, de quatro hipóteses, uma: 1) Vamos aceitar que a distribuição do consumo no mundo continue a ser cada vez mais injusta e mais concentrada - e ainda assim caminharemos para um impasse insuperável (já consumimos quase 50% mais do que o planeta suporta; só nos últimos 30 anos, o impacto ecológico sobre o planeta excedeu em 50% sua capacidade de regeneração); 2) vamos tentar ampliar para todos os habitantes do planeta o nível de consumo dos países industrializados - e chegaremos rapidamente à insustentabilidade total, pois nem há recursos disponíveis para isso, nem a Terra suportaria a devastação e a poluição; 3) vamos redistribuir todo o consumo no mundo, para que seja mais justo, mas sem reduzir os níveis - e chegaremos ao mesmo impasse por outros caminhos; 4) vamos reduzir o nível global de consumo e torná-lo eqüitativo.
É evidente que só a última hipótese faz sentido (a não ser para quem acredite obsessivamente em milagres da tecnologia). E o relatório mencionado deveria desencadear uma série de discussões e providências urgentes em nível global. Mas não é o que acontece. O estudo é tomado como algo acadêmico, abstrato, sem relação direta com a vida e as urgências que ela deveria despertar. E, no entanto, as confirmações práticas dessas advertências explodem todos os dias diante dos nossos olhos:
O buraco na camada de ozônio da Antártida atingiu este ano uma área três vezes maior que a superfície dos Estados Unidos; nos últimos 20 anos, a temperatura média no Alasca, na Sibéria e em partes do Canadá aumentou 4 graus centígrados; a camada de gelo no Ártico esteve, nos últimos meses, 40% menos espessa que em outros anos; a área ocupada pelo gelo polar foi 6% menor; e pela primeira vez um navio chegou à latitude 90 graus norte, onde se abriu um canal de l,5 quilômetro de largura; relatório preliminar do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, formado por cientistas de quase 200 países, reitera não haver mais dúvida de que as ações humanas são responsáveis pela maior parte do aumento da temperatura da Terra observado neste século e principalmente nas últimas décadas; a prosseguir o ritmo de emissão de poluentes da atmosfera, esse aumento poderá chegar no próximo século a até 6 graus centígrados, com conseqüências inimagináveis para o planeta e seus habitantes.
Todas essas informações e advertências - é preciso repetir - deveriam levar-nos a um sentido de urgência no planejamento de nossas ações, em todos os níveis, em todos os lugares. Mas não é o que acontece.
Para ficar em um só exemplo - e nosso -, pode-se tomar o da floresta amazônica. Avolumam-se as manifestações de preocupação com as "ameaças de internacionalização". Mesmo sem discutir minuciosamente o que pode haver de verdade ou fantasia em cada uma delas, cabe perguntar: e o que estamos fazendo de forma competente para evitar que se pense em internacionalizar a Amazônia? Que proteção estamos dando ou pretendemos dar ao bioma?
Outro relatório - do Banco Mundial e do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia - confirma o que estudiosos dizem há décadas: pelo menos 83% dos solos amazônicos são imprestáveis para o plantio de grãos e para a pecuária (há autores que colocam esse úmero em 98%); no Acre, diz a Embrapa que 50% das pastagens já estão degradadas; o abandono de áreas plantadas nas regiões mais úmidas já é superior a 20%; só no chamado arco do desmatamento há 165 mil km2 de áreas desmatadas e abandonadas; o retorno de capital nessa áreas não ultrapassa 4%, enquanto o manejo florestal competente daria pelo menos 33%.
Já revista Time (25/9) menciona estudos segundo os quais 75% do desflorestamento na Amazônia ocorre numa faixa de 50 km de largura paralela às grandes rodovias abertas.
Tudo isso deveria levar-nos a repensar os rumos. Mas não é o que está acontecendo. O megaprojeto "Avança Brasil" continua a prever a abertura de grandes eixos de penetração na Amazônia. Para quê? Para exportar soja e milho que vão alimentar o gado daqueles países que já respondem por mais de 80% do consumo no mundo. Com o custo ambiental sendo pago aqui, e não lá.
Talvez Barbara Tuchman deva ser relida.

 

 

Washington Novaes é jornalista E-mail: novaes@ih.com.br


Voltar