O governo do Elefante Branco
Carlos ChagasA história é velha mas continua atual e precisa ser repetida. O cidadão está tranquilamente sentado na poltrona, em casa, lendo jornal. Olha pela janela e vê, no jardim, um elefante branco. Ora, elefantes brancos não existem e ele nem se incomoda. Enquanto isso o bicho irrompe pelos canteiros, pisa nas rosas e acaba metendo a tromba pela janela. Começa a quebrar a cristaleira e os móveis. Só então o nosso plácido e incrédulo personagem se dá conta de que existem elefantes brancos, mas quando vai pear o telefone para chamar os bombeiros, a parede
rachou, o teto caiu e a casa desmoronou.Sem tirar nem pôr, é desse jeito que o governo Fernando Henrique está vendo a ascensão de George W. Bush à Casa Branca. Porque o novo presidente americano disse, alto e bom som, que os países pobres e emergentes com grandes dívidas externas não devem pagá-las com dinheiro, mas com suas riquezas. Falou em terras e foi mais adiante, citando "florestas tropicais". Só faltou referir-se explicitamente à Amazônia, algo perfeitamente dispensável, porque a Rússia, por exemplo, tem uma dívida externa igual à Brasileira, possui florestas aos montes, na Sibéria, mas, de quebra, também dispõe de bomba atômica. Essa situação explica o "tropical".
Não se verificou uma só reação, um mínimo comentário, sequer, do governo brasileiro. O ministro da Defesa ainda teve a desfaçatez, quando perguntado, de dizer que oficialmente o governo dos Estados Unidos não havia formulado qualquer ameaça, dispensando, assim, manifestações do nosso lado.
Pois agora faltam poucas semanas para a ameaça à Amazônia tornar-se governo. O elefante branco já põe a tromba pela janela e continua - perdão, o governo FHC continua - a ler jornal. Adianta muito pouco lembrar que primeiros ministros do mundo desenvolvidos, há mais de vinte anos, pisam no nosso jardim. Quem deu início a esse absurdo foi a dona Margaret Thatcher, quando lá de Londres propôs que os países pobres vendessem suas riquezas. Tanto as naturais quanto as arduamente conquistadas. Entregamos por meio das privatizações quase tudo o que tínhamos de riqueza pública, como as telecomunicações, a mineração o subsolo, a siderurgia, as
ferrovias e o sistema hidrelétrico, sem esquecer a alienação do sistema financeiro, em plena execução.O problema é que a bruxa não falou sozinha. De François Mitterrand a Felipe Gonzales e Mikail Gorbachev, na década passada, a Bill clinton, Al Gore e George W. Bush, agora, a cantilena é a mesma. Para não referir que boa parte de nossa mídia anda a serviço dos interesses internacionais, omitindo os perigos e fazendo coro com os assaltantes.
Agora chegou a hora das riquezas naturais, depois de demorada preparação. Ou não criaram, lá de fora, o conceito de nações indígenas para caracterizar os povos indígenas que habitam nosso território? Já existem ianomamis estudando na Holanda, prontos para retornar como um canudo debaixo do braço e proclamar-se presidente de uma república independente na fronteira com a Venezuela, que a ONU, a OEA e outros organismos internacionais logo reconhecerão. Por coincidência, onde se localizam as maiores reservas de nióbio.
Para fazer a cabeça da infância e da juventude no Hemisfério Norte, o Homem-Aranha, o Super-Homem e o Robocop, entre muitos outros heróis, volta e meia estão empenhados na "guerrilha da Amazônia", onde garimpeiros, fazendeiros e militares brasileiros são apresentados com imensas barrigas, vastos bigodes, barba por fazer e muita maldade, massacrando índios, devastando florestas e poluindo o meio ambiente.
Montes de organizações não-governamentais, umas sérias e ingênuas outras pérfidas e subsidiadas por multinacionais, espalham a necessidade da internacionalização da região para que seja preservado o "pulmão do mundo", como se os países ricos não se dedicassem, hoje como ontem, à verdadeira poluição gerada por suas indústrias.
Também estão atrás da água, que vai começar a faltar dentro de dez ou vinte anos em todo o planeta, riqueza bem superior ao petróleo que os árabes tanto valorizam. A pasmaceira nacional não se dá conta do valor, até em dólares, da bacia amazônica e de outras bacias.
Nenhuma imagem cairia melhor, neste alerta, que a do elefante, símbolo do Partido Republicano de mr. Bush. Estivessem as linhas cruzadas, e se, por hipótese, um presidente brasileiro às vésperas da posse houvesse sugerido a internacionalização da Flórida em nome da proteção dos jacarés, e, sem dúvida, já teríamos recebido incontáveis interpelações e protestos.
Antes mesmo da posse do novo presidente dos Estados Unidos começará o Plano Colômbia, com a presença de tropas americanas em nossa fronteira, combatendo o narcotráfico e os guerrilheiros lá incrustados. Armas químicas serão utilizadas para extirpar as plantações de papoula e de coca, do tipo desfolhantes, agentes laranja e até napalm, de triste presença no Vietnã. Para onde escorrerão os resíduos desses venenos senão, conforme a lei
da gravidade, para a bacia amazônica? E a defesa não só de nossa fauna e de nossa flora, mas de nossa água por onde anda? Ora, elefantes brancos são uma ficção. Não existem...