Estado de São Paulo

17 de fevereiro de 2001

Utopia científica ou internacionalização da Amazônia
 

Belém - Concebida originalmente para ser um grande braço da recém-criada ONU (Organização das Nações Unidas) para a educação e a cultura, a Uneco acabou se transformando em Unesco, incorporando um "s" de science, ciência em inglês. Era a vitória de uma ampla e ativa comunidade de cientistas, da qual Julian Huxley era o principal representante, chocada com um artefato produzido pela ciência: a bomba atômica americana, que destruiu Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Eles queriam uma ciência humanista e universal,independente de interesses governamentais e econômicos, empenhada em expandir o conhecimento do homem por novas fronteiras.

Uma das principais era a Amazônia. Quando selecionou quatro programas prioritários para seu primeiro ano completo de atuação, em 1947, a Unesco incluiu entre eles a instalação de um laboratório científico internacional em Manaus, a capital do Estado do Amazonas. Por trás dessa idéia estava um brasileiro inquieto, criativo no trabalho, o engenheiro químico carioca Paulo Berrêdo Carneiro (1901-1981).

Dois anos antes, ele tentara obter o patrocínio do governo brasileiro, ainda controlado por Getúlio Vargas, para um Instituto Internacional da Hiléia Amazônica. Não teve boa acolhida. Então voltou-se, com sucesso, para a Unesco, aproveitando-se dos seus anos de residência em Paris e do conceito que desfrutava em terras francesas - junto com o embaixador Souza Dantas, conseguiu mandar para o Brasil judeus que fugiam do nazismo.

Instalando um centro científico de vanguarda num local periférico como a selva amazônica, Carneiro imaginava incorporar a Amazônia ao País, para o qual ainda era uma ilustre desconhecida, através de uma “república universal dos cientistas”, uma extensão das utopias que ele já tentara criar junto aos índios (ao lado do marechal Cândido Mariano Rondon) e nos laboratórios químicos, onde estudava o guaraná e o curare, duas plantas essenciais na cultura primitiva brasileira.

Mas a “Hiléia Amazônica”, como o instituto ficou mais conhecido, provocou furor em Arthur Bernardes, presidente na República Velha, e em diversos grupos nacionalistas. Eles viam ali uma cunha através da qual penetraria a cobiça estrangeira, desnacionalizando a Amazônia, extirpando-a do território brasileiro, entregando-a a grupos internacionais. Desfecharam uma campanha verbal violenta contra o projeto, conseguindo apoio militar para suas críticas e, através dele, o arquivamento do projeto.

Mas havia mesmo o interesse internacional por trás do IIHA? A responder esta pergunta é que se dedica o cientista político Marcos Chor Maio, 45 anos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro. Tendo dedicado às repercussões nacionais da criação da Unesco sua tese de doutorado, ele desenvolve, desde o final de 1998, o projeto “Ciência na Periferia: a Unesco, a proposta de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e as origens do Inpa”, com financiamento da própria Fiocruz e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Maio, autor de livros e artigos sobre relações científicas e raciais, pretende demonstrar que o Instituto da Hiléia só pôde emergir no ambiente internacional propício que havia então, uma espécie de trégua, entre o final da Segunda Guerra Mundial, com a humanidade ainda chocada pelos horrores da carnificina, e o início da Guerra Fria, que polarizou o mundo entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Não havia mesmo governos nacionais ou multinacionais por trás da iniciativa da Unesco (os EUA não apoiaram e fizeram o que podiam para reduzir as dimensões do instituto proposto), mas cientistas com uma consciência moral e uma preocupação planetária, no meio dos quais se destacava Paulo Carneiro, um personagem ativo daqueles tempos, hoje mal conhecido. Apesar de incompreensões e erros, sobretudo por causa do eucentrismo na sede da Unesco, e na falta de sensibilidade dos próprios governos latino-americanos, que queriam tirar resultados imediatos da ciência, ao invés de estimular seu fortalecimento, Maio crê que a contribuição da “Hiléia” foi positivo.

Quando nada, porque surgiu, ainda que decorrente de uma reação dos que interpretaram pelo prisma geopolítico o que era um projeto de ciência pura, a segunda instituição de pesquisa científica da história da Amazônia, depois do Museu Emílio Goeldi, de Belém: o Inpa, de Manaus. Por ironia, criticado depois como um reduto de cientistas estrangeiros.

Num artigo publicado no ano passado na revista História Ciências Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz, Marcos Chor Maio já antecipou alguns dos resultados da longa pesquisa que realizou nos arquivos da Unesco, em Paris, e no valioso e praticamente inédito acervo da família Paulo Carneiro, no Rio, que será brevemente aberto à consulta pública. Na entrevista abaixo, ele fala sobre o significado do IIHA e as lições que oferece aos contemporâneos.

O projeto do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA) tinha mesmo um caráter “imperialista”, conforme a campanha contra ele deslanchada no Brasil, especialmente pelo ex-presidente Arthur Bernardes?

A extensa documentação pesquisada nos Arquivos da Unesco não revela qualquer indício de ameaça imperialista. Relatórios de funcionários da Unesco reclamavam da oposição ou indiferença norte-americana e inglesa pelos destinos do Instituto da Hiléia. Quando tornou-se objeto de controvérsia no Brasil, no final do ano de 1948, capitaneada por Arthur Bernardes, a proposta do IIHA, aprovada antes na 1a sessão da Conferência Geral da Unesco, em 1946, já se encontrava em descrédito no interior da agência intergovernamental. A “cobiça internacional” era fruto da obsessão nacionalista de Bernardes, em contexto de Guerra Fria, e de enorme desconhecimento acerca do projeto IIHA.

A idéia original de criá-lo foi brasileira ou estrangeira?

A idéia foi do engenheiro químico e representante do Brasil junto à Unesco por mais de duas décadas, Paulo Estevão de Berrêdo Carneiro, que pesquisou o princípio ativo do guaraná e do curare no Instituto Pasteur de Paris, e quase chegou ao Prêmio Nobel. Além disso, era um intelectual comprometido com a idéia de construção da nação. Em contextos chamados periféricos, um intelectual na vida pública, como Paulo Carneiro, assumia a missão universalista de inserir o Brasil no conceito das nações modernas. A Amazônia, na perspectiva euclidiana, inspirada em Euclides da Cunha, de Paulo Carneiro era a via privilegiada através da qual a ciência, como instrumento de civilização, superaria os localismos, o atraso, a fragmentação social, a dispersão, o desconhecimento, a miséria do suposto “paraíso perdido”.

A Unesco, por sua vez, dirigida na época por uma inteligência internacionalista, com nomes como os de Julian Huxley e Joseph Needham, e ainda sob o impacto dos resultados catastróficos da 2a Guerra Mundial, julgava que os afazeres científicos não deveriam continuar concentrados nos países desenvolvidos. Needham, a partir de sua experiência de cooperação científica na China durante a Grande Guerra, acreditava na possibilidade de realização do “princípio de periferia”, uma proposta de descentralização das atividades no plano da ciência, respeitando tradições científicas das chamadas zonas periféricas, como era o caso do Oriente. A Amazônia seria o “outro Oriente” a ser descortinado pelo “princípio de periferia”.

Quais as causas do insucesso do projeto?

Um dos pontos fortes de nossa pesquisa é precisamente a perspectiva de não analisarmos a proposta do IIHA a partir de atributos como êxito/fracasso. Assim, alcançamos uma visão mais rica e matizada dos esforços envidados para a criação de uma instituição científica na Amazônia no pós-2a Guerra Mundial. Afinal, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) emerge neste momento, como um efeito não previsto pelo mundo das contingências que permeou a tentativa de criação do primeiro laboratório científico internacional na Amazônia.

Sem dúvida, o Inpa, a despeito de seu “mito de origem”, como contraponto ao IIHA, incorporou diversas preocupações do projeto original da Unesco, como a ênfase na ciência básica e a necessidade de parcerias com instituições estrangeiras. Após a criação do Inpa, Arthur Bernardes o cunhou de “Nova Hiléia”. É curioso observar que ainda hoje há uma certa percepção sobre o INPA como “terra de estrangeiros”.

É possível dizer-se que entre a criação da Unesco e o desencadeamento da Guerra Fria houve um clima favorável a um internacionalismo científico, não atrelado a interesses governamentais ou empresariais?

O imediato pós-2ª Guerra Mundial foi um cenário em aberto, no qual as disputas no campo internacional ainda não tinham gerado efeitos definitivos como veio a ocorrer com a Guerra Fria. Acrescente-se o fato de que havia, desde, pelo menos, os anos 1930, uma tradição de cientistas, principalmente ingleses e franceses, de centro-esquerda, preocupados com a destinação social dos afazeres científicos e que tiveram importante papel na inserção da ciência na estrutura da Unesco. O principal líder dessas articulações era o bioquímico inglês Joseph Needham.

Needham nutria uma enorme desconfiança para com as relações entre ciência e Estado. O Holocausto e as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. mobilizaram essa rede de cientistas na busca do fortalecimento da autonomia da comunidade científica internacional em face dos interesses econômicos, políticos e militares. Com efeito, essa comunidade, munida de uma estrutura material sólida, seria o grande baluarte da paz. A Unesco deveria ser o locus privilegiado deste projeto. Podemos constatar, após mais de meio século, que a direção da Unesco estava investida de uma enorme dose de idealismo.

A criação do Inpa como alternativa ao IIHA resultou de uma aliança entre comunidade científica nacional e os militares?

A criação do Inpa encontra-se no contexto de diversas apostas no binômio ciência-desenvolvimento na Amazônia. Congresso Nacional, agências estatais, instituições científicas, sociedade civil, todas estavam voltadas para esse debate, inclusive associado à discussão da energia atômica, que teve papel decisivo, com a aliança entre militares e físicos, na criação do CNPq [Conselho Nacional de Pesquisas, hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Considero que a criação do Inpa foi a reedição da aliança entre militares (principalmente o Almirante Álvaro Alberto) e cientistas.

O discurso da segurança nacional foi associado a preocupações com o desenvolvimento da região amazônica. Todavia, os cientistas acreditavam que no bojo dessa discussão poderiam vir a fortalecer sua própria coletividade e ampliar a interlocução com a comunidade científica internacional.

Os cientistas dos grandes centros nacionais de pesquisa boicotaram o projeto por não liderarem-no? Teria sido possível um entendimento entre as partes, a internacional e a nacional?

Não se trata de boicote, tampouco de disputa pela liderança. Faltou maior diálogo entre a equipe da Unesco e as instituições científicas nacionais. Havia grande expectativa de que a instituição trouxesse recursos para pesquisas no Brasil. Existia, por outro lado, enorme desconhecimento acerca dos propósitos da Unesco e do projeto IIHA. A não ser na Conferência Científica de Belém, em agosto de 1947, com pouca repercussão nacional, quando foram convidados alguns cientistas para definir as linhas gerais das pesquisas a serem realizadas pelo Instituto da Hiléia, não ocorreu uma discussão mais permanente com a comunidade científica brasileira sobre o desenho da futura instituição.

Por que os Estados Unidos não apoiaram o projeto?

Os norte-americanos tinham acumulado uma série de insucessos econômicos na Amazônia. Consideravam o IIHA uma proposta de alto risco devido a magnitude do plano, que demandava vultosos recursos. Cabe ressaltar que o IIHA foi considerado um dos quatro principais projetos da Unesco em 1947 e recebeu 100 mil dólares para o ano de 1948, quantia nada desprezível para a época. Os EUA eram responsáveis por quase metade do orçamento da Unesco.

Quando o IIHA foi “antropofagizado”, ao ser concebido como um instrumento de desenvolvimento econômico da Amazônia, a partir de uma aliança entre representantes latino-americanos na Unesco, cientistas e elites políticas locais, o governo norte-americano reagiu. O IIHA seria tolerado se fosse mantivesse como uma tímida instituição de ciência básica. Em perspectiva colonialista, o governo norte-americano estava mais atento às matérias-primas estratégicas, como os minerais. Procurou assim limitar ao máximo a participação da Unesco no projeto IIHA. No contexto de acirramento das disputas internacionais, de reconstrução européia e de avanço do socialismo, a Amazônia ocupava plano secundário na política externa norte-americana.

Os erros na condução do Instituto foram mais um produto da centralização da Unesco em Paris ou dos dirigentes da entidade no Brasil?

Centralização, eurocentrismo, desconhecimento das instituições e da produção científica latino-americana, desconfiança da "intelligentsia" universalista unesquiana quanto aos interesses particularistas dos estados-membros, despreparo para um projeto de tal magnitude. A Unesco pretendia se constituir numa instituição “neutra” diante de um mundo em crescentes disputas internacionais e regionais.

Só a título de ilustração: Needham, um cientista com aguçada sensibilidade social, primeiro diretor do Departamento de Ciências Naturais da Unesco, com larga experiência de trabalho de intercâmbio na China, por meio da bem sucedida atuação do Escritório Sino-Britânico de Cooperação Científica, convidou o botânico Edred John Henry Corner, especialista em flora tropical, que se notabilizou pela preservação de uma série de coleções do Jardim Botânico de Cingapura durante a ocupação japonesa na 2a Guerra Mundial para dirigir o projeto IIHA.

Enquanto Needham tinha conhecimento da história cultural e científica da China e conhecia a língua chinesa, Corner não falava português ou espanhol e tampouco conhecia algum país latino-americano e sua cultura. Por ter estudado em Cambridge, como Needham, e supostamente por sua “heróica” atuação em Cingapura, Corner foi escolhido para dirigir os trabalhos de implementação do IIHA.

Houve uma grita geral dos representantes latino-americanos. Afinal, a Amazônia não era para principiantes e existiam instituições e cientistas brasileiros que poderiam assumir a direção do projeto IIHA, como, por exemplo, Carlos Chagas Filho, que teve papel de relevo na defesa da criação do IIHA nos fóruns da Unesco.

Acabou por prevalecer uma visão eurocêntrica. Ademais, o calor das discussões no Brasil em contexto de fortes apelos nacionalistas acabou por redirecionar o projeto IIHA, contribuindo assim para a introdução da Amazônia na agenda político-científica nacional.

O que mudou do final da década de 1940 para hoje em relação à Amazônia e às expectativas quanto aos benefícios da ciência?

Na Conferência Científica de Belém, em 1947, foi estabelecida uma agenda de pesquisas para a Amazônia, incluindo a necessidade de amplo inventário da fauna e da flora, a criação de reservas naturais, a descoberta e exploração de plantas de valor econômico, a cultura em terras inundáveis, a pesquisa dos conhecimentos etnobotânicos dos povos indígenas, a realização de pesquisas antropológicas sobre as comunidades da região e o fortalecimento de instituições científicas locais.

Parece haver consenso até hoje sobre a relevância desses temas e os avanços nessa agenda de pesquisa ainda são bastante limitados, levando em conta as várias décadas que transcorreram. Há um descompasso entre a importância mais recente que se atribui à Amazônia, dentro e fora do Brasil, e a limitada capacidade científica autóctone instalada na região. Apenas cerca de 500 doutores dos mais de quatro mil existentes no Brasil moram e trabalham na Amazônia, atualmente.

Ainda é possível fazer ciência pura na Amazônia, ou os imperativos geopolíticos e econômicos não deixam mais espaço para o que tentaram os fundadores da Unesco? O cientista acaba sendo usado como linha de frente das multinacionais?

Existe grande controvérsia em torno da questão. Há os que consideram a cooperação internacional no plano da ciência básica um manto protetor para a imposição de agendas científicas por parte das instituições dos países considerados centrais. Acho que essa perspectiva deva ser matizada. Faço parte de uma instituição – a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - que tem uma longa tradição de cooperação científica internacional e nem por isso se pode dizer que os cientistas foram ou são manipulados por interesses estranhos.

Acredito que os pesquisadores do Inpa não pensem de maneira distinta. Para uma visão conspirativa da história, essa atitude não passa de mera ingenuidade. O incremento dos estudos nos campos da história e da sociologia da ciência poderão apresentar balanços menos apaixonados sobre este tema.

É ainda possível “usar as técnicas avançadas em modelos autóctones” ao fazer ciência num local periférico, como a Amazônia, conforme reivindicava Carlos Chagas Filho?

A ciência tem uma linguagem universal. A comunicação dos resultados dos afazeres científicos faz parte da prática da interlocução no interior da comunidade científica internacional. A forma como uma coletividade de cientistas de um país denominado “periférico”, como o Brasil, estabelece essa comunicação sempre foi a partir de temas e problemas locais. O exemplo clássico é o das ciências biomédicas, com a experiência no enfrentamento de endemias e epidemias. Não é diferente em outros campos do conhecimento, como é o caso das ciências sociais. Os clássicos da sociologia são produtos do solo europeu, como Durkheim, Weber e Marx.

O exemplo de Florestan Fernandes é paradigmático: apesar de sua formação ser baseada no estudo desses clássicos europeus, ele dedicou-se a estudar o índio, o negro, a dependência, enfim, os problemas brasileiros – e ajudou a formar várias gerações de cientistas sociais igualmente comprometidos com temas brasileiros e igualmente versados em teoria sociológica clássica européia.

Quais as lições que ficaram da experiência do IIHA?

Os cientistas brasileiros, em geral, sempre foram muito ciosos dos interesses e necessidades do país e buscaram permanentemente a autonomia científica e uma sintonia fina com os avanços da ciência mundial. O projeto IIHA é um exemplo, entre muitos outros, de tradução local de um projeto internacional. Afinal, a criação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em 1952, gestado no interior do CNPq, criado apenas um ano antes, é uma prova irrefutável de que o “nacionalismo científico” foi um instrumento de pressão dos cientistas da época para se fazerem presentes com seus objetos e questões no interior da comunidade científica internacional.

Lúcio Flávio Pinto


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