Zero Hora
25 de março de 2001EUA já têm 20 guarnições na América do Sul
HUMBERTO TREZZI
A poderosa máquina de guerra americana já transformou boa parte da América do Sul em um campo de caça.
No cerco ao inimigo da hora, o narcotráfico, o terreno de batalha não se resume à Colômbia. Os Estados Unidos montaram em território sul-americano e em ilhas próximas, nos dois últimos anos, um cordão sanitário de 20 guarnições militares, divididas entre bases aéreas e de radar. A um custo estimado de US$ 337 milhões, elas abrigam ao todo 1,5 mil soldados. Das transparentes praias do Caribe ao mormacento Chaco paraguaio, a presença dos ianques é visível. Aviões-espiões e caças espalhados pela Amazônia, pelos Andes e pelas Antilhas embasam a nova estratégia. Uma iniciativa com cheiro de Vietnã, na opinião dos críticos.
Combater o narcotráfico, que gerou uma epidemia com 14 milhões de viciados nos EUA, virou prioridade militar para os americanos. A espinha dorsal dessa nova investida da mais formidável máquina de guerra do planeta em território sul-americano é formada por três bases aéreas: Manta (Equador, a cerca de 320 quilômetros da problemática Colômbia), Rainha Beatrix (Aruba) e Hato (Curaçao) as duas últimas em frente à costa da Venezuela e próximas ao Suriname, outro dos grandes corredores de exportação de cocaína. Juntas, as três bases contam com 665 militares americanos e consumiram US$ 116 milhões.
As três guarnições já abrigam aviões-espiões, aeronaves de transporte, modernos caças F-16 e se preparam para receber os sofisticados aviões-radar Awacs, de última geração em rastreamento eletrônico. As bases foram montadas nos dois últimos anos, em substituição à base Howard (no Panamá), desativada em 1999. A idéia é que, juntas, as três bases viabilizem 2 mil missões (vôos) anuais de rastreio e interceptação de aeronaves usadas por narcotraficantes.
O estrangulamento do narcotráfico idealizado pelas forças armadas americanas inclui também uma rede de 17 guarnições terrestres de radar. Destas, três ficam no Peru, quatro na Colômbia por motivos óbvios e o restante é móvel e em local secreto, como informa o Center of International Policy for Desmilitarization, uma ONG antimilitarista. Duas dessas bases móveis estão no Caribe colombiano. Essas bases de radar possuem pista de pouso para aviões de transporte (como a colombiana Letícia e a peruana Iquitos, próximas à fronteira brasileira) e efetivo de 45 militares cada uma, entre técnicos de radar e soldados encarregados da guarda.
Os 650 homens das bases de radar se somam a 161 conselheiros militares (Millgroup) espalhados pelas embaixadas sul-americanas e às guarnições das bases aéreas, totalizando cerca de 1,5 mil militares ianques na América do Sul. A atuação dos EUA inclui ainda seis pistas de pouso construídas pelos americanos no Peru, no Paraguai, na Bolívia, no Suriname e na Guiana Francesa.
A chegada dos rapazes do Tio Sam já é motivo de controvérsia internacional. Poucos duvidam que, além do narcotráfico, os americanos acabarão se envolvendo na repressão às duas principais guerrilhas comunistas da Colômbia as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN).
Só vamos saber disso quando o primeiro americano morrer diz um especialista consultado por Zero Hora.
Difícil, para os latino-americanos, é fugir da comparação com o que ocorreu no Sudeste Asiático. Na Colômbia, generais americanos já participam fisicamente do cerco a narcotraficantes como fizeram seus antecessores no Vietnã contra os vietcongs, em 1961. Foi um veterano do Vietnã, o general americano Peter Pace, quem supervisionou pessoalmente o garrote ao megatraficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar e a prisão do seu parceiro gaúcho Nei Machado em território colombiano, ocorrida em fevereiro. Beira-Mar conseguiu escapar até agora ao anel formado por 3,5 mil militares.
Pace, 55 anos, é fuzileiro naval e combateu no Vietnã entre 1968 e 1969. Depois de chegar ao generalato, foi guindado no ano passado à chefia do Comando Sul (Southcom) área responsável pelas operações militares dos EUA na América Latina.
No comando de 48 mil combatentes, o general Pace é o ícone fardado do Plano Colômbia, o mais ambicioso projeto contra o narcotráfico já montado pelos EUA. Ele prevê a injeção de US$ 1,3 bilhão dos cofres americanos na Colômbia e outras nações vizinhas, com o objetivo de enfraquecer o tráfico de drogas no nascedouro. Outros US$ 6 bilhões seriam aplicados por países da União Européia (UE) e Japão. Em pronunciamento feito no Senado americano no último dia 14, o secretário de Estado Colin Powel solicitou que o Plano Colômbia receba US$ 731 milhões extras. A verba seria distribuída entre a Colômbia, o Peru, a Bolívia, o Equador e a Venezuela e, nesta segunda fase, incluiria o Brasil (não contemplado no plano original).
O plano é basicamente militar. Dos US$ 860 milhões canalizados diretamente para a Colômbia, US$ 519 milhões vão para as forças armadas (ou 60%) e US$ 123 milhões vão para a polícia (14%). Apenas 4% da verba vai para a ajuda a refugiados, enquanto 8% ficam para alternativas de desenvolvimento o estímulo a que os agricultores troquem o plantio de coca por vegetais comestíveis, por exemplo. Tampouco se fala de programas de prevenção ao uso de drogas, discussão central de um dos filmes favoritos ao Oscar deste ano, Traffic.
UMA ESTRATÉGIA MOVIDA A DÓLARES
Os Estados Unidos vão aplicar US$ 1,3 bilhão na contenção do narcotráfico na Colômbia e em país es vizinhos. Há possibilidade de que a verba seja suplementada em US$ 731 milhõesVeja como será a distribuição do dinheiro:
Colômbia
Outros países Equador, Peru, Bolívia, Venezuela e Panamá
Incremento de agências americanas antinarcóticos:
US$ 860 milhões
US$ 180 milhões
US$ 223 milhões (65%)
(14%)
(17%)
As principais destinações da verba do Plano Colômbia:Militares US$ 519 milhões (60%)
Policiais US$ 123 milhões (14%)
Alternativas de desenvolvimento US$ 68 milhões (8%)
Ajuda a refugiados US$ 37 milhões (4%)
Incremento dos direitos humanos US$ 51 milhões (6%)
Reforma do Judiciário US$ 13 milhões (2%)Outras verbas
O Departamento de Estado dos Estados Unidos, por meio da International Narcotics Control, treina policiais no combate às drogas em seus países de origem. Confira a verba de cada país para este tipo de treinamento:
PAÍS
Em 2000
Colômbia US$ 50 milhões
Bolívia US$ 48 milhões
Peru US$ 48 milhões
Equador US$ 1,2 milhão
Brasil US$ 1,5 milhão2001
Colômbia US$ 35 milhões
Bolívia US$ 52 milhões
Peru US$ 48 milhões
Equador US$ 2,2 milhões
Brasil US$ 2 milhõesFonte: Center of International Policy for Demilitarization
Conquistando corações e mentes
O prefeito da cidade equatoriana de Manta, Jorge Zambrano, não cabe em si de contente. O motivo: o investimento de US$ 62 milhões feito pelos EUA para montar neste porto do Oceano Pacífico uma base aérea.
A base fica a apenas 320 quilômetros das maiores zonas produtoras de coca na Colômbia.
Somente em construção civil, Manta ganhou nos últimos meses 390 empregos, contabiliza o site da rede americana de TV CNN. Escolas de inglês são instaladas em cada esquina inclusive uma pertencente ao próprio prefeito. Lojas de computador, aluguel de carros e lancherias são abertas ao ritmo dos dólares ianques. A cidade parece uma ilha de prosperidade, em meio à maior crise econômica da história recente do Equador. A vinda dos ianques estimulou também a construção de um novo hotel cinco estrelas.
A base de Manta é a maior construída pelos EUA desde a desativação da base Howard, no Panamá, em 1999. O efetivo americano no aeroporto do Equador será de 400 homens. A base tem capacidade para quatro aviões de grande porte, sete de médio porte e oito caças. Já atuam ali os P-3 Orion, aviões de patrulha e espionagem eletrônica. O aeroporto civil da cidade também será beneficiado com uma pista mais ampla e capacidade para vôos internacionais.
Os ianques experimentam em Manta uma reedição da política de conquistar corações e mentes da população local lema celebrizado pelo general William Westmoreland, comandante militar americano no Vietnã. E não apenas no Equador ocorre esta estratégica aproximação com os habitantes locais.
Em Concepción, no Chaco paraguaio, 400 militares do exército americano realizam em abril exercícios com tropas paraguaias. Numa política de aproximação, os ianques vão construir quatro poços artesianos, dois postos de saúde, duas escolas e proporcionar treinamento de médicos e veterinários. A operação, denominada Nuevos Horizontes, reunirá soldados da Cavalaria e forças especiais. Faz parte de um programa de treinamento conjunto que incluirá, futuramente, treino de policiais antinarcóticos e antiterrorismo.
A CIA no Paraguai
Os EUA montaram em Assunção, capital do Paraguai, sua mais poderosa estação de rastreamento de sinais de rádio e espionagem eletrônica na América do Sul.
A informação é do pesquisador Anibal Miranda, especialista em geopolítica e autor do livro Dossier Paraguay: Los Dueños de Grandes Fortunas. Miranda diz que a estação foi montada pela Central Intelligency Agency (CIA, o serviço de inteligência americano), durante o governo do ex-presidente paraguaio Alfredo Stroessner, deposto em 1989 e hoje exilado em Brasília.
A estação monitorava emissões de rádio em todo o Cone Sul, reproduzindo-as para uso de serviços de inteligência dos diversos países. Miranda assegurou a Zero Hora que a estação ainda funciona, no prédio da embaixada americana em Assunção. Estaria voltada agora para troca de informações sobre o narcotráfico e repressão à crescente aliança entre narcotraficantes paraguaios e colombianos.
Brasil é o elo que falta ao plano
HUMBERTO TREZZI
O Brasil é um dos poucos países sul-americanos que não contam com bases, guarnições ou pistas de pouso americanas.
Uma explicação pode estar no fato de que a história das relações recentes entre militares americanos e brasileiros é a história de uma não-cooperação. O Brasil não deixa bases americanas se instalarem aqui, o Exército brasileiro não tem participado de manobras conjuntas com os EUA, o Brasil quase não recebe dinheiro americano para combater as drogas, salvo US$ 1,5 milhão no ano passado para repressão ao narcotráfico, contra US$ 48 milhões para a Bolívia.
O mais exitoso exemplo de cooperação mútua entre EUA e Brasil foi a II Guerra Mundial (1939-1945). Desde então, a relação teve mais baixos do que altos. Durante a ditadura militar, ocorreu bloqueio na venda de armas dos Estados Unidos às Forças Armadas do Brasil, por conta das violações de direitos humanos praticadas pelos militares brasileiros. O boicote também afetou outras ditaduras sul-americanas, mas o Brasil tentou escapar pela tangente, fortalecendo sua indústria bélica. Nos anos 80, as empresas de material militar brasileiras tornaram o país o quinto exportador mundial de armas.
As vendas de tanques, mísseis e aviões brasileiros resultaram em retaliações americanas, gerando um mal-estar que ainda perdura. Hoje, a maior resistência dos militares brasileiros é em relação à presença dos militares americanos no país, garante o especialista em questões militares Nelson Düring. Principalmente no Exército, historicamente fechado à participação externa e com sabidas tendências nacionalistas. É por isso que militares brasileiros vêem com preocupação a proliferação de guarnições americanas.
O Brasil tem relativa autonomia: é a única força militar da América do Sul com real capacidade de intervenção em outros países, por meio de divisões aerotransportadas. No Hemisfério Sul, só a Austrália nos supera pondera Düring, editor do boletim eletrônico http://www.defesanet.com.br/.
Outro foco de tensão entre militares brasileiros e os EUA é a base de lançamento de foguetes em Alcântara, Maranhão. O governo brasileiro arrendou o terreno para que a Nasa (agência espacial americana) lance satélites dali. O contrato permite a presença de americanos guarnecendo a base, o que irrita profundamente os militares brasileiros.
O professor Fernando Sampaio, reitor da Escola Superior de Geopolítica e Estratégia com sede em Porto Alegre e voltada ao estudo de questões militares acredita que o Brasil não faz parte do anel militar montado pelos EUA no continente por uma razão simples.
É uma disputa por hegemonia regional. O Brasil tenta não ser mais um satélite nesta constelação bélica patrocinada pelos americanos opina.
Sampaio acha difícil que os americanos escapem de uma intervenção direta na Colômbia. Afinal, a presença ianque no Vietnã começou com cem conselheiros boinas-verdes e deu no que deu. O Plano Colômbia será discutido pela escola de geopolítica em reunião no Hotel Continental, no próximo dia 29, com participação do cônsul da Colômbia, Daniel Ortega.
A resistência dos militares brasileiros a participar do Plano Colômbia é ferrenha, mesmo que eles contem com o melhor sistema de vigilância da Amazônia, o Sivam. Esses radares integrados permitem rastrear tudo que se move a mais de 8 km/h. A cooperação com os americanos, neste caso, se restringiu à atividade comercial (o equipamento é fabricado nos Estados Unidos). Até por contar com essa aparelhagem, os brasileiros não têm intenção de permitir instalação de radares da força aérea dos EUA dentro do território brasileiro.
A não-adesão dos brasileiros ao Plano Colômbia é motivo de críticas de especialistas nos EUA. Em recente artigo para a revista Military Review, o coronel William Mendel analista de estudos militares estrangeiros do exército americano insinua que o grande perdedor será o Brasil, ao não aderir ao plano.
Há grande infiltração de bolivianos e peruanos na região de fronteira do Rio Solimões. Embora só existam 200 estrangeiros registrados, as autoridades estimam que 10 mil clandestinos vivam ali, ligados ao tráfico de drogas, extração de madeira e pesca e garimpo ilegais diz o artigo, publicado na edição do segundo trimestre de 2000.
Mendel lista quatro graves incidentes de fronteira, envolvendo brasileiros e colombianos, como prova da necessidade de adesão do Brasil ao Plano Colômbia.
País receberá mais recursos dos EUA para o combate às drogas
KLÉCIO SANTOS
Sucursal/BrasíliaOs EUA acenam com um acréscimo em 2002 no volume de recursos para o Brasil desenvolver programas antidrogas. Se a proposta de aumento do orçamento for aprovada no Congresso americano, a maior parte dos recursos cerca de 50% continuará sendo destinada para a Colômbia, maior produtor de cocaína do mundo. O restante, porém, será rateado de uma forma mais igualitária entre Peru, Equador, Bolívia e Brasil.
Entendemos que a guerra às drogas é um problema regional. A previsão é de que, em 2002, seja aprovado um maior equilíbrio na distribuição dos recursos garante o diplomata americano Terry Davidson.
Em 2001, o Brasil receberá dos EUA para desenvolver programas antidrogas US$ 2 milhões. O volume pequeno de verba também é fruto da política externa brasileira sobre o assunto. O país tem adotado uma postura mais independente em relação ao Plano Colômbia, recusando qualquer intervenção militar na região.
Apesar disso, o Brasil receberá outros US$ 3,5 milhões este ano para fortalecer a Operação Cobra, uma ofensiva da Polícia Federal (PF) para inibir o narcotráfico na região amazônica. O apoio de US$ 3,5 milhões dos EUA será destinado para equipar o efetivo da PF na região, principalmente com mais material de comunicação, barcos e lanchas.
Apesar do aparato montado para combater o narcotráfico na América do Sul, os EUA procuram minimizar sua presença militar na área.
Os países andinos precisam da ajuda americana. É uma ingerência bem-vinda afirma Davidson, que confirma apenas a presença militar dos EUA no Equador e na Colômbia.
O ministro da Defesa, Geraldo Quintão, não quis comentar a presença militar americana nesses países. Disse apenas que não há necessidade de nenhuma unidade americana no Brasil.
As Forças Armadas brasileiras possuem capacidade própria para cuidar da defesa do país, resguardando a soberania afirmou.