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07 de Abril de 2001Guerra anunciada na selva
Fernando Gabeira
Com 24 mil homens e uma fronteira de 11 mil quilômetros, o Comando Militar da Amazônia tem um grande teste pela frente: o Plano Colômbia, um esforço militar de U$ 1,3 bilhão, para derrotar os traficantes de coca e a guerrilha das Farc.
Um pouco esquecido pela mídia, o Plano Colômbia, no entanto, está vivo para os militares brasileiros, que o monitoram, de perto, para evitar que os problemas, e o tiroteio, cruzem a fronteira. O Brasil tem 20 postos avançados na fronteira, mas, no momento, a presença militar na região será testada na proximidade da Colômbia. Duas variáveis sustentam esse estado de alerta: a expectativa de uma ofensiva militar conjunta contra as Farc e a chegada de refugiados colombianos no Peru e Equador.
Quando Bush perguntou a FHC se o Brasil sofreria as consequências do Plano Colômbia, a resposta foi tranquilizadora. As plantações de coca estavam distantes mil quilômetros das fronteiras comuns. Para uma resposta rápida, até que foi bem precisa. No entanto, o estudo da situação mostra que, pelo menos, algumas medidas de cautela têm de ser tomadas. Existe um consenso de que as Farc dominam o tráfico de drogas e que, na verdade, o combate será também contra a guerrilha, que tem influência em quase metade do território colombiano.
Dentro desse quadro, o Brasil conta com a possibilidade de êxodo em massa e já contatou a Cruz Vermelha para que esteja a postos, em caso de necessidade. Esta medida brasileira revela também que o país não pretende ficar com os refugiados, mas redistribuí-los via Cruz Vermelha.
Uma outra preocupação brasileira, já revelada em debates na Assembléia do Amazonas, é a possibilidade de os americanos usarem o fungo Fusarium Oxysporum, com a finalidade de destruir as plantações de coca. Alguns rios importantes descem da Colômbia para o Brasil e, como não há informação sobre esse tipo de guerra, talvez seja preciso pedir aos americanos que se abstenham desse ataque biológico à floresta.
Em alguns pontos da fronteira colombiana, soldados da Farc têm entrado no território brasileiro para voltar um pouco adiante para a Colômbia. Esse movimento já foi detectado no Brasil. Esta realidade autoriza a possibilidade de choques armadas mais intensos antes do meio do ano. Norte-americanos e colombianos se preparam para isso.
De um ponto de vista de defesa da selva, a força militar brasileira é respeitável. Em Manaus, o centro de instrução de guerra na selva é considerado o melhor do mundo no seu gênero. Todos os postos têm soldados treinados para uma tática inevitável, caso se tenta conquistar a floresta: a guerra de emboscada.
Cerca de 30% dos soldados do posto de São Gabriel da Cachoeira são de origem indígena. Além de falarem a língua de seus parentes, conhecem a floresta e ajudam o trabalho de controle da área. No centro de Manaus, é possível ver uma exposição das frutas da mata que podem ajudar na sobrevivência: uchi, castanha de sapucaia, biribi, inga açu , para mencionar apenas algumas.
Pesquisas para o transporte na selva, um dos grandes problemas logísticos, utilizam bicicletas, a partir da experiência vietnamita, e tambem búfalos, que têm se mostrado uma boa alternativa. Não precisam levar sua comida, pois comem o que há no caminho. A idéia dos bufalos foi inspirada pela polícia montada da ilha de Marajó.
Embora já tenha incorporado o GPS, um novo e necessário instrumento, o armamento dos soldados na selva não é de última geração. Mas essa fator não é decisivo, diante do conhecimento da floresta, da adaptação ao clima e ao lugar e, sobretudo da preparação para o combate. O exemplo vietnamita é um exemplo radical dessa tese.
A entrada em cena do Sivam, um sistema de vigilância aérea da Amazônia, de US$1,4 bilhão, vai aumentar a potencialidade do controle da Amazônia, talvez mudando até o paradigma. Ao invés de se trabalhar por uma ocupação maciça da fronteira, estabelecer a vigilância eletrônica, com os dados on line do satélite e, de pelo menos, oito aviões.
As estações terrestres do Sivam já estão prontas em São Gabriel e na Serra do Cachimbo, dois lugares onde pude vê-las. No entanto, o equipamento ainda não chegou.
O sistema funcionará a partir de 2002 e o Plano Colômbia talvez fosse uma prova para ele. De qualquer forma, mais que um instrumento de vigilância, o Sivam pode ser o trunfo na diplomacia amazônica. Ele produzira mais informações do que necessitamos e poderia ser partilhado com os vizinhos.
Numa viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso ao Peru o tema foi levantado e o então governo Fujimori se mostrou interessado. Isso tem sido tratado de forma bilateral, mas poderia ser ampliado para o Pacto Amazônico.
Todos esses movimentos devem ser acelerados pelo Plano Colômbia, embora as questões estratégicas ligadas à floresta amazônica ainda estejam um pouco no limbo. O primeiro passo que o Brasil precisa dar é o de divulgar o que tem na fronteira com a Colômbia, para que se avalie mais amplamente se isso basta ou é preciso mais.
O Comando da Fronteira do rio Solimões, sediado em Tabatinga, tem pelotões em Palmeira do Javari.,Ipiranga, Vila Bittencourt e Estirnao do Equador. O comando de fronteira do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira tem pelotões em Yarutê, Querari, São Joaquim e Cucui.
Alguns desses postos são tão remotos que distam oito dias de barco da sede do comando. Muito em breve, entretanto, podem sair de seu anonimato. Todas as previsões, no entanto, são de que a luta se concentrará no sul da Colômbia, na fronteira com o Equador.
Para alguns observadores, o olho de furacão estará em Putmayo onde existe, ao lado da cocaína, um grande potencial petrolífero. Os EUA estão de olho nesse potencial e a Shell e Occidental Petroleum investiram pesado na área. Alguns ataques guerrilheiros já foram feitos contra elas, e , por causa disso, as duas grandes empresas foram uma espécie de animadoras do Plano Colômbia.
Como quase ninguém acredita numa saída militar para a crise colombiana, pode sair dai um longo processo de guerra de guerrilhas com repercussões em todos os paises da fronteira. Nesse processo, uma região como a do Comando da Amazônia, com 4 milhões de km2, uma rica biodiversidade, imensas áreas despovoadas, um quinto da água doce do mundo, grandes reserves minerais, inclusive do raro nióbio, é a última que pode ser pega de surpresa.
A aposta pessimista é a mais consistente no momento pois os observadores brasileiros que foram à Colômbia sempre saem com a impressão de que a paz nao interessa às forças em presença – exército, guerrilha, paramilitares, políticos e norte-americanos. A paz interessa apenas ao povo e aos vizinhos.