Estado de São Paulo
12 de Junho de 2000

Militares temem internacionalização da Amazônia

Comandante da Marinha mostra-se apreensivo com mapas em que área aparece destacada do País

TÂNIA MONTEIRO e SORAYA DE ALENCAR
 

BRASÍLIA - As Forças Armadas estão preocupadas com a tentativa de internacionalização da Amazônia. Esse foi o tema dominante ontem nas conversas entre militares de alta patente, durante a cerimônia de comemoração do aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, que contou com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O clima de apreensão foi alimentado pela divulgação de mapas que estariam sendo usados em escolas americanas, mostrando a Amazônia como "área de preservação internacional" e destacada do território brasileiro. Os militares ressaltam que este é apenas um pequeno exemplo de uma discussão em pauta e exige um posicionamento oficial do governo brasileiro. Esse posicionamento poderá vir hoje, por intermédio do ministro da Defesa, Geraldo Quintão.
Ontem, o comandante da Marinha, almirante Sérgio Chagasteles, aproveitou seu discurso, lido na cerimônia, para, nas entrelinhas, falar desta preocupação.
"O surgimento de conflitos no sistema internacional prescinde de ameaças previamente vislumbradas", disse o almirante, referindo-se à Amazônia, sem citá-la. O almirante ressalta que a globalização está aumentado a interdependência entre os Estados, dificultando a visualização de ameaças externas concretas, fato agravado também pela "momentânea sensação de segurança".
Mas o comandante adverte que os "conflitos nascem de interesses que entram em colisão e que, em algum momento, perdem a capacidade de acomodação negociada pela via diplomática". Quando isso acontece, continuou o almirante, o diálogo entre os atores prossegue com a aplicação de amplo espectro de instrumentos de pressão, incluindo a ação armada.
Para enfrentar crises que podem surgir repentinamente, o almirante defendeu o aparelhamento das Forças Armadas em níveis compatíveis com os avanços tecnológicos. "Forças Armadas com credibilidade e capacidade de dissuasão não se improvisam", advertiu. Porém, Chagasteles tentou demonstrar confiança "nos rumos que serão traçados para a modernização do sistema de defesa". Ele observou que os investimentos serão a garantia para as gerações futuras de "instrumentos eficazes de respaldo da soberania brasileira".
Sem citar nomes, o almirante mandou um recado a "todos que possuem responsabilidade sobre os destinos nacionais" salientando que "é imperativo" que estas pessoas dêem sua contribuição para a modernização das Forças Armadas e evitem soluções simplistas. Há um mês, o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães, questionou o número de homens nas Forças Armadas e defendeu a mobilização dos militares para combater a violência nas ruas do País.
Chagasteles falou um dia depois de o comandante do Exército, general Gleuber Vieira, ter rejeitado com veemência, em entrevista ao Estado, o emprego das Forças Armadas na segurança pública sob o argumento de que isso não resolveria as causas do problema da violência. O comandante do Exército também havia defendido mais investimentos nas Forças Armadas. "Você diminui ou desmonta uma força armada em uma semana, com uma assinatura, mas recompor leva muito tempo", alertou, acrescentando também que não se pode responder a uma necessidade conjuntural, mas se deve pensar no futuro, ao definir o papel das Forças Armadas.

O discurso de Chagasteles foi lido como ordem do dia na solenidade de comemoração do 135º aniversário da Batalha do Riachuelo, em Brasília, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso, que não fez comentários.


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