Estado de São Paulo13 de junho de 2000
Embaixador diz que é `mito grotesco' discussão sobre soberania da Amazônia
Rumores sobre internacionalização da região atrapalham relação entre Brasil e EUA, diz Harrington
LEDA BECK
SÃO FRANCISCO - O embaixador americano Anthony S. Harrington disse ontem ao Estado que os rumores de uma internacionalização da Amazônia são um "mito grotesco", que "tem atrapalhado o relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos durante anos". "Permita-me dizer isso da forma mais clara possível: os Estados Unidos não têm absolutamente nenhum interesse em invandir a Amazônia", acrescentou o embaixador, em declaração oficial, lida por telefone pelo assessor Terry Davidson. "A Amazônia pertence ao Brasil. Ponto final. Nós, americanos, somos fascinados pela Amazônia e cientistas brasileiros e americanos estão trabalhando juntos, lado a lado, para compreender melhor a ciência e ecologia nessa região. Mas somente vamos à região amazônica como convidados, agora e no futuro." Na quinta-feira, em seu primeiro discurso oficial no cargo, Harrington deverá tocar no assunto, de acordo com Davidson. O tema dominou a conversa entre os militares de alta patente presentes, no domingo, à comemoração do 135º aniversário da Batalha do Riachuelo, em Brasília, que contou com a participação do presidente Fernando Henrique Cardoso. Só se falava da suposta internacionalização da Amazônia, um mito estimulado nos últimos meses pela circulação, na Internet, de mapas que mostram um Brasil dividido ao meio, com a Amazônia Legal definida como "área de controle internacional". Na cerimônia, o fato acabou adquirindo contornos de argumento legítimo para reivindicar mais investimentos nas Forças Armadas, em nome da defesa da Amazônia Os mapas são falsos. Um grupo de brasileiros que insiste em permanecer no anonimato, e cuja atividade já foi atribuída a correntes de opinião tão variadas como militares do Exército ou eleitores do candidato a prefeito de São Paulo, Enéas Carneiro, acaba de demonstrar o poder da Internet.Uma informação fictícia - a de que escolas americanas estariam usando os tais mapas em aulas de geografia - começou a circular na rede, por listas de brasileiros da área acadêmica no Brasil e no exterior, há três meses, em mensagens apócrifas originárias de um website brasileiro. A identidade dos criadores dos mapas é obscura, até porque divulgaram a notícia com a assinatura indevida do Brazil Center, da Universidade do Texas, em Austin. O website brasil.iwarp.com, no ar há um ano, recebeu no período pouco mais de dez mil acessos e, como autores, identifica vagamente "Rafael M.M." e "Luiz Antônio", sem endereços ou telefones. O endereço eletrônico para contatos funciona, mas o Estado enviou mensagens nos últimos 15 dias e não obteve resposta. O servidor em que está hospedado o site fica fora do Brasil, na sede da empresa americana NorthSky, Inc., no Estado do Utah. A NorthSky opera a freeservers.com, um serviço que oferece espaço gratuito em disco a quem quiser criar seu website. Rob Moon, diretor de suporte a cliente, disse ontem ao Estado não poder revelar a identidade do grupo devido a cláusulas de confidencialidade no contrato (que, aliás, são praxe nesse tipo de serviço). A primeira página do site estampa o mote "Brasil Ame-o ou Deixe-o" e explica: "Uma velha frase, uma nova necessidade." O site reproduz, entre outros artigos de jornais e revistas brasileiros, a íntegra de uma edição de 1991 da Revista do Clube Militar sobre a Amazônia e traz links disparatados para o jornal Hora do Povo (do MR-8), para o site do candidato Enéas Carneiro, para os sites do Sivam, da Embraer e da Petrobrás, e para os sites do Ministério da Defesa, do Exército, da Marinha, da Força Aérea Brasileira e da Escola Superior de Guerra. E recomenda uma visita ao site independente militar.com.br e à página do militar da reserva João Paulo Saboya Burnier, cujo mote é "Tudo pela Amazônia". O embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Antônio Barbosa, remeteu, na última quinta-feira, uma carta de esclarecimentos ao jornal Ciência Hoje Eletrônico (CHE), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que inadvertidamente dera início à disseminação do mito, ao publicar carta de uma leitora que reproduzia o conteúdo da nota publicada no website brasil.iwarp.com. "Tudo parece resultar, não de uma suposta conspiração americana para desmembrar a Amazônia, mas de uma desinformação `made in Brazil', vinculada a correntes de opinião ainda não identificadas", disse Barbosa.
A pesquisadora Michelle Zweede, do Brazil Center, da Universidade do Texas em Austin, disse que a universidade vai investigar o uso indevido de seu nome. "Tenho certeza de que foram os responsáveis pelo site que acoplaram minha assinatura eletrônica e o nome da Universidade à mensagem original", disse Zweede.