O que vou dizer-lhes não é uma defesa. Não estou tentando escapar
do castigo imposto pela sociedade que ataquei. Além do mais, só reconheço um tribunal capaz de julgar-me - eu próprio - e o veredicto
de qualquer outro não tem nenhuma importância para mim. Desejo apenas dar-lhes uma explicação sobre os meus atos e dizer-lhes como fui
levado a praticá-los.
Faz pouco tempo que me tornei um anarquista. Foi só na metade de
1891 que ingressei no movimento revolucionário. Até então, freqüentava ambientes inteiramente imbuídos da moral vigente. Tinha sido
educado para respeitar e até mesmo amar os conceitos de pátria, família, autoridade e propriedade.
Pois a verdade é que os professores desta geração moderna esquecem muitas vezes de uma coisa importante: que a vida, com suas lutas
e derrotas, suas injustiças, se encarrega de abrir
indiscretamente os olhos daqueles que ainda ignoram a realidade.
Isso aconteceu comigo, assim como acontece como todo mundo. Disseram-me que a vida era fácil, que estava aberta a todas as pessoas
inteligentes e cheias de entusiasmo; a experiência me ensinou que só
os cínicos e os servis conseguiam bons lugares no banquete. Disseram-me que as instituições sociais baseavam- se na justiça e na
igualdade; eu observava a minha volta e só via mentiras e falsidade.
Cada dia que passava me azia perder as ilusões. Por onde quer que
andasse, testemunhava sempre a mesma coisa: a miséria de alguns e as
alegrias de outros. Não tardei a entender que as grandes palavras
que haviam me ensinado a venerar - honra, dedicação, dever - eram
apenas máscaras que escondiam a mais vergonhosa baixeza.
O dono da fábrica, que amealhava uma fortuna colossal graças ao
trabalho de operários que nada tinham, era um cavalheiro; os deputa-
dos e ministros, cujas mãos estavam sempre estendidas à espera do
suborno, eram homens dedicados ao bem comum; o policial, que experimentava um novo tipo de rifle alvejando crianças de sete anos, cumprira seu dever e era cumprimentado publicamente no parlamento pelo
presidente do conselho. Tudo isso me enojava e minha inteligência
foi aos poucos atraída pelas críticas feitas a organização social
vigente. essas críticas já foram tantas vezes repetidas que não vale
a pena voltar a fazê-lo. Basta apenas dizer que logo me tornei um
inimigo de uma sociedade que eu julgava criminosa.
Atraído, no início, pelo socialismo não tardei a afastar-me deste
partido. Amo demais a liberdade, tenho demasiado respeito pela iniciativa privada e demasiada repulsa pela organização militar para
que pudesse me tornar apenas mais um número no exército ordenado do
quarto estado. Além disso, cedo que o socialismo não chegava a modificar a ordem estabelecida pois mantinha o conceito da autoridade - e
seja qual for a idéia que os livres pensadores autodidatas possam ter
a respeito - tal conceito representa a sobrevivência de uma crença
antiquada num poder superior.
Estudos científicos me fizeram ir percebendo o papel que as forças
naturais desempenham no universo. Tornei-me materialista e ateu: entendi que a moderna ciência rejeita a hipótese da existência de Deus
porque não precisa dele. Da mesma maneira, a moral religiosa e autoritária baseada em falsas premissas, também deveria desaparecer. Perguntava a mim mesmo como harmonizar essa nova moral com as leis da
natureza, capazes de regenerar o velho mundo, para que fosse possível tornar a humanidade mais feliz.
Foi nesse momento que entrei em contato com um grupo de camaradas
anarquistas que ainda hoje considero entre os melhores que já conheci. O caráter desses homens me cativou de imediato. Percebi neles
uma grande sinceridade, uma franqueza total, uma vigorosa desconfiança de todos os preconceitos e quis entender as idéias capazes de produzir homens tão diferentes daqueles que eu até então conhecera.
Essas idéias, tal como consegui entendê-las, encontraram em minha
mente um solo totalmente preparado - graças a observações e reflexões
pessoais - para recebê-las. Elas vieram apenas dar objetividade ao
que já existia de forma vaga e indecisa. E, por minha vez, eu também
me tornei um anarquista.
Não é necessário que eu desenvolva aqui toda a teoria dos anarquista. Desejo apenas salientar seu lado revolucionário e os aspectos
negativos e destrutivos que me trouxeram a sua presença.
Neste momento de amargo e acirrado combate entre a classe média e
seus inimigos, sou quase tentado a dizer, como Souvarine em Germinal:
"Todas as discussões sobre o futuro são criminosas, já que impedem a
destruição pura e simples e retardam a marcha da revolução".
Como contribuição pessoal à luta, eu trouxe um ódio profundo e renovado a cada dia pelo espetáculo desta sociedade onde tudo é baixo,
equívoco e feio; onde tudo serve de impedimento ao fluxo das paixões
humanas, aos impulsos generosos do coração, ao vôo livre do pensa-
mento.
Desejava golpeá-la com tanta força e tanta justiça quanto fosse
possível. Comecemos com a primeira tentativa, a explosão na Rue des
Carmaux. As primeiras notícias sobre a greve me encheram de alegria.
Os mineiros pareciam enfim ter abandonado as inúteis greves pacíficas., nas quais o operário confiante espera pacientemente que seus
poucos francos triunfem sobre os milhões da companhia. Pareciam ter
finalmente escolhido o caminho da violência, que se manifestou decididamente no dia 15 de agosto de 1892. Os escritórios e prédios da
mina foram invadidos por uma multidão de gente cansada de sofrer sem
protestar; revoltados, os operários estavam prestes a justiçar o odiado engenheiro quando os mais medrosos decidiram interferir.
E quem eram esses homens? Os mesmos que fazem abortar todos os movimentos revolucionários porque temem que, uma vez livre, o povo não
obedecerá mais ao seu comando. Os mesmos que convencem milhares de
homens a suportar privações mês após mês para que , ao protestar contra essas privações, possam criar para si uma popularidade capaz de
fazer com que se elejam. Tais homens - falo nos líderes socialistas -
assumiram de fato a liderança do movimento grevista. Imediatamente
surgiu na região, uma nuvem de cavalheiros loquazes que se colocavam
inteiramente à disposição dos operários, para organizar listas para
arrecadação de fundos, arranjar conferências e buscar em todos os lugares possíveis. Os mineiros entregaram a eles toda a organização do
movimento - e todos sabem o que aconteceu.
A greve continuou, estendeu-se durante dias e os ,mineiros estabeleceram relações muito íntimas com a fome, que se tornou sua mais
fiel companheira. Logo esgotaram a pequena reserva de fundos de seu
próprio sindicato e das outras organizações que tinham vindo em seu
auxílio então, ao fim do segundo mês de greve, cabisbaixos e humilha-
dos, voltaram aos poços da mina mais miseráveis do que nunca. Teria si-
do tão simples no começo atacar a companhia no seu único ponto sensível - o financeiro - queimando os estoques de carvão, destruindo as
máquinas e as bombas de recalque das minas. Se tivessem feito isso,
a companhia certamente não tardaria a capitular. Mas os grandes pontífices do socialismo não permitiram a utilização destes métodos por
serem típicos do anarquismo. Ao lançar mão deles estamos arriscados
a levar um tiro e até quem sabe, a receber uma daquelas balas que deram resultados tão miraculosos em Fourmies. Esta não é, certamente,
a melhor maneira de ganhar um lugar na câmara municipal ou na assembléia legislativa. Em resuma, após uma interrupção momentânea, a ordem voltou a reinar em Carmaux, uma vez eliminados alguns problemas
passageiros. Mais poderosa do que nunca, a Companhia continuou a explorar o povo, e os cavalheiros acionistas cumprimentaram-se pelo feliz desfecho da greve, sentindo um redobrado prazer ao receber seus
dividendos.
Foi então que decidi introduzir naquele concerto de sons tão alegres uma voz que os burgueses já conheciam, mas que julgavam ter
morrido em Ravaxhel: a voz da dinamite.
Queria mostrar à burguesia que, à partir daquele momento, seus
prazeres já não seriam tão completos, que as vitórias insolentes se-
riam perturbadas, que o bezerro de ouro balançaria violentamente no
pedestal até o golpe final, que o faria rolar em meio ao sangue e à
imundice. Ao mesmo tempo, desejava fazer com que os mineiros entendessem que só há um tipo de homem capaz de se preocupar sinceramente
com os seus sofrimentos e dispostos a vingá-los: os anarquistas. tais
homens não ficam sentados no parlamento como o Sr Guesde e seus asso-
ciados, mas ,marcham até a guilhotina.
Assim, preparei uma bomba. Num certo momento, lembrei-me da acusação que havia sido feita em Ravachol. E as vítimas inocentes? Mas
logo resolvi esse problema. Os edifícios onde a Companhia Carmoux
mantinha seus escritórios eram habitados apenas por burgueses: não
haveria, portanto, vítimas inocentes. Todos os burgueses vivem da exploração dos menos afortunados e justos e deveriam pagar pelo seu
crime. assim, foi com a mais absoluta confiança na legitimidade do
meu ato que deixei a bomba diante da porta dos escritórios da Companhia.
Já falei aqui sobre a minha esperança de que, caso fosse descoberta antes de explodir, minha bomba acabaria por detonar na delegacia,
onde aqueles que por acaso viessem a sofrer ferimentos também seriam
inimigos. Tais foram os motivos que me levaram a cometer o primeiro
atentado de que sou acusado.
Vejamos o segundo: o incidente no Café Terminus. Eu acabara de
voltar a Paris na época do caso Vallant e fora testemunha da terrível
repressão que se seguiu à explosão no Palácio Bourbon. Vi as medidas
draconianas que o governo decidiu tomar contra os anarquistas. Havia
espiões, buscas e prisões por toda a parte. Um grupo de indivíduos
detidos indiscriminadamente, arrancados de seus lares e jogados nas
prisões. Ninguém se preocupou em saber o que aconteceria às suas es-
posas e filhos enquanto esses camaradas permanecessem confinados.
O anarquista já não era mais considerado um ser humano, mas uma
besta selvagem que devia ser caçada sem tréguas enquanto a imprensa
burguesa, escrava da autoridade, exigia em altas vozes que todos
eles fossem eliminados.
Ao mesmo tempo, panfletos e papéis libertários eram confiscados e
aboliu-se o direito de reunião. Pior do que isso: quando parecia aconselhável livrar-se de um camarada, um informante deixava no seu
quarto um pacote que, segundo ele, continha tanino; no dia seguinte
procedia-se a uma busca com um mandato datado do dia anterior e encontrava-se uma caixa com um pó suspeito. O camarada era então leva-
do a julgamento e condenado a 3 anos de prisão. Se quiserem saber se
o que digo é verdade, perguntem ao espião miserável que conseguiu
penetrar na casa do camarada Merigeaud!
Mas tais métodos eram válidos pois atacavam um inimigo que havia
espalhado o medo, e todos aqueles que tinham tremido de pavor queriam agora demonstrar coragem. Como coroamento dessa cruzada contra os
heréticos, ouvimos o Ministro do Interior, Sr. Reynal, declarar na
Câmara dos Deputados que as medidas tomadas pelo governo tinham implantado o terror entre os anarquistas. Mas isso ainda não era sufi-
ciente: um homem que nunca havia matado ninguém foi condenado à mor-
te. Era necessário mostrar bravura até o fim, e numa bela manhã ele
foi guilhotinado. Mas, senhores da burguesia, ao fazer tais planos,
vocês esqueceram do principal, prenderam centenas de homens e mulheres, violaram dezenas de lares, mas, fora dos muros da prisão, ainda
restavam homens que vocês desconheciam e que observavam, escondidos
nas sobras enquanto vocês caçavam anarquistas, esperando apenas o
momento propício para que eles, por sua vez, pudessem caçar os caçadores.
As palavras de Reynal eram um desafio arremessado aos anarquistas.
O desafio foi aceito. A bomba encontrada no Café Terminus é a resposta
a todas as violações à liberdade, às prisões, às buscas, às leis contra a imprensa, às deportações em massa, às guilhotinas. Mas - perguntarão vocês - por que atacar os pacíficos clientes de um café que
estavam apenas sentados ouvindo música e que, não eram nem juizes,
nem deputados, nem burocratas?
Por quê? É muito simples. Os burgueses não faziam distinções entre os anarquistas. Vailant, um homem que agia sozinho, jogou uma
bomba; mais da metade de seus camaradas nem ao menos o conhecia mas
isso não teve nenhuma importância; era uma perseguição em massa e
qualquer pessoa que tivesse ligações com os anarquistas, por menor
que fossem, deveria ser caçada. E já que vocês responsabilizam todo
um partido pelas ações de um só homem e atacam indiscriminadamente,
nós também atacaremos sem escolher as vítimas. Acham talvez que devêssemos atacar somente os deputados que fazem as leis contra nós,
os juizes que aplicam essas leis, à polícia que nos prende? Não concordo. Tais homens são apenas instrumentos. Não agem em seu próprio
nome. Sua funções foram criadas pela burguesia como uma forma de defesa. Não são mais culpados que qualquer um de vocês. Esses bons burgueses que não tem qualquer cargo público, mas que colhem seus dividendos e vivem ociosamente graças aos lucros obtidos com o trabalho
árduo dos operários, eles também devem sofrer a sua quota de vingança! E não só eles, mas todos aqueles que concordam com a ordem vi-
gente, que aplaudem os atos do governo e assim se tornam seus cúmplices; os funcionários que ganham três ou cinco mil francos por mês
e que odeiam o povo com fúria ainda maior que a dos ricos, aquela
massa estúpida e pretensiosa de gente que sempre escolhe o lado mais
forte - em outras palavras, a clientela diária do Terminus e de outros grandes cafés!
Foi por esta razão que ataquei ao acaso e não escolhi as minhas
vítimas. Devemos fazer com que a burguesia entenda que aqueles que
sofrem estão enfim cansados de sofrer. Começam a mostrar os dentes e
quando atacarem serão tanto mais brutais quanto tiver sido a brutalidade usada contra eles. Eles não têm nenhum respeito pela vida humana
porque os próprios burgueses já demonstraram que não se preocupam com
ela. Não cabe aos assassinos responsáveis por aquela semana sangrenta
e por Fourmies considerar que os outros são os assassinos.
Não pouparemos as mulheres e crianças burguesas porque as mulheres
e crianças daqueles que amamos também não foram poupadas. Não deveríamos incluir entre as vítimas inocentes, as crianças que morrem lentamente de anemia nos cortiços porque não há pão em suas casas? As
mulheres que vão se tornando cada vez mais pálidas trabalhando nas
fábricas, esfalfando-se para ganhar alguns tostões por dia e podendo
se considerar felizes se a pobreza não as levar à prostituição? Ou os
velhos que foram tratados como máquinas durante toda a vida e que
agora são lançados ao monte de refugos nos asilos, quando já não têm
mais forças para trabalhar?
Tenham ao menos a coragem de assumir seus crimes, cavalheiros da
burguesia, e reconheçam que nossas represálias são totalmente válidas. É claro que não tenho ilusões. Sei que as massas ainda não es-
tão preparadas para entender meus atos. Mesmo entre os operários pelos quais lutei, muitos ainda serão enganados pelos jornais e me condenarão como a um inimigo. Mas isso não importa. Não estou preocupado
com o que os outros pensam de mim. nem ignoro o fato de que há muitos
indivíduos que se dizem anarquistas mas que se apressam a negar solidariedade aos que pretendem difundir a ação.
Eles procuram estabelecer uma diferença sutil entre os teóricos e
os terroristas. Demasiado covardes para arriscar a própria vida, negam aqueles que têm esta coragem. Mas a influência que pretendem
exercer sobre o movimento revolucionário é absolutamente nenhuma.
Hoje o campo está aberto à ação, sem fraquezas ou desistências.
Certa vez Alexander Herzen, o revolucionário russo, disse: "devemos escolher entre duas coisas: condenar e marchar para frente ou
perdoar e dar meia volta no meio do caminho". Não pretendermos nem
perdoar, nem voltar atrás e marcharemos sempre para a frente, avançando até que a revolução, objetivo final de todos os nossos esforços, finalmente aconteça para coroar nosso trabalho com a criação de
um mundo livre.
Nessa guerra sem piedade que declaramos contra a burguesia, não
queremos que ninguém tenha pena de nós. Matamos e sabemos suportar a
morte. É portanto com indiferença que aguardo a sentença. Sei que
minha cabeça não será a última que vocês cortarão: outras ainda irão
rolar, porque os que morrem de fome começam a aprender os caminhos
que levam aos cafés e aos restaurantes, aos Terminus e Foyots. Outros
nomes serão acrescentados à lista sangrenta dos nossos mortos.
Vocês podem ter enforcado em Chicago, decapitado na Alemanha, garroteado em Jerez, fuzilado em Barcelona, guilhotinado em Montbrison e
Paris, mas nunca conseguirão acabar com o anarquismo. Suas raízes são
demasiado profundas, ele nasceu no coração de uma sociedade que está
apodrecendo e se desintegrando. Representa todas as aspirações libertárias e igualitárias que se levantam contra a autoridade. Está em
toda a parte, o que faz que seja impossível controlá-lo. Acabará por
matá-los a todos!
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