Que dia é hoje ? Domingo, 03 de junho de 2001.
Olá! Está é a edição número 7 do nosso fanzine eletrônico. Espero que você
goste (ou não). Olha o que temos no menu de hoje:
1. Editorial (Daniel Wildt)
2. Última aula (Ariadne Amantino - CARPE DIEM)
3. A última entrega (Daniel Wildt - BORN TO BE WILDT)
4. O zumbido (Eduardo Seganfredo - DE NOVO, PÔ!)
5. Slaves (Vincent Kellers - LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO)
6. A carta (Lenara Guadagnin Londero - O PLUS A MAIS DE HOJE)
7. CRÉDITOS FINAIS
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======================== EDITORIAL (Daniel Wildt) =========================
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Sucinto. Devo ser sucinto. Para sinônimo desta palavra já não basta a vida?
Sucinto na definição do dicionário me leva a palavras como resumido,
conciso, lacônico (breve). Sendo assim, não é minha intenção ser breve em
nada que faço na minha vida.
Se pudesse me mudar
Não mudaria minha sensibilidade
Não seria rústico
Não deixaria de pensar no próximo
Apesar de que do contrário seria mais próximo
De pessoas que conheço
Que nunca pensam em nada da maneira que eu penso
Que não acreditam na comunicação sadia
Que acreditam em sonhos fúteis
Que possuem objetivos inúteis
Que nutrem apenas seus egos
Narcisos podres
Morram de tanto olhar para o umbigo
Usem da minha boa vontade
Que ainda proverá um ombro amigo
Mesmo que arrependido
Neste mês tivemos apenas 1 dia útil (sexta-feira). Minha folha de horários
marca 24h de trabalho. Trabalhei sábado, domingo, deixei de almoçar, de
curtir o Sol das 16h no Parcão, mas não deixei de curtir o pôr do Sol no
mesmo Parcão nem o luar, que a cada dia que passa é melhor. Um show.
Falando em show, sábado meu tio reuniu a banda "Dino Boys" (onde ele
atualmente faz os vocais e guitarra base), dez anos depois da última
apresentação, em um show onde também era a comemoração do aniversário dele.
No set list, Velvet Underground, David Bowie, Bob Dylan, Neil Young,
Beatles, Eric Clapton, Iggy Pop, Pink Floyd, além de alguns clássicos do
Blues. Um show que entrou para minha história dos melhores shows da minha
vida. E eu tenho tudo gravado na minha filmadora. Voltarei a falar sobre
isso daqui a algumas semanas. Serei sucinto neste editorial, para ver qual
é.
Hoje temos emoções de último dia, zunidos, cartas (plus a mais de hoje),
nuvens, e alguma coisa minha que eu não sei ainda o que é. Sobre música,
que tal essa (que serve de prévia para a semana que vem, próximo do dia dos
namorados):
...
O teu silêncio
Ilumina o momento
Tua respiração
É o paraíso
Te vejo dormir
E só penso que
Te quero tanto
...
(Declaração, letra e música de Daniel Wildt)
Daniel Wildt
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====================== CARPE DIEM (Ariadne Amantino) ======================
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ÚLTIMA AULA
"Como é que eu vou lembrar de ti, sora, se tu vem aqui, me dá um mês de
aula e vai embora para a Áustria?", foi o que disse a Marcella, uma das
minhas alunas adolescentes, quinta-feira na última aula que dei para eles.
E eu não pude dizer nada, não tinha o que responder.
Depois de muito tempo trabalhando com informática, dei aula de inglês por
mais ou menos dois meses e meio na verdade. Entre várias coisas, aprendi
que lidar com pessoas é muito mais complicado do que lidar com máquinas. E
talvez, exatamente por isso, ao mesmo tempo mais interessante e assustador.
A máquina fica ali na nossa frente inerte, imóvel; ela só faz aquilo que a
gente "manda" ela fazer. Ela não tem vida nem vontade própria apesar de
muitas vezes parecer teimar e não obedecer.
As pessoas têm emoções, têm sentimentos. Elas se apegam ou não a outras
pessoas por determinadas razões ou afinidades por vezes difíceis de
explicar. Elas não fazem só aquilo que a gente "manda". Muito antes pelo
contrário, quando se trata de adolescentes e crianças, eles preferem fazer
o oposto do que a gente pede.
A Marcella passou a aula toda batendo boca comigo. Dizendo que meu trabalho
era muito fácil, só ficar ali caminhando pela sala, falando frases em
português para eles repetirem em inglês e depois corrigir meia dúzia de
frases nos temas. Ficou dizendo que eu devia ter me dado muito bem como
professora porque afinal de contas, estou indo para a Áustria sem nem ter
emprego ainda.
Pessoas a gente conquista e se deixa conquistar às vezes sem nem se dar
conta. E muitas vezes, a gente só se dá conta disso quando vai perdê-las.
Numa das turmas, tive que fazer bilhetinhos para todas as alunas. Outros
não queriam que eu fosse embora. Não aceitavam. É a vida, não...? Eu não
tinha como explicar para eles o porquê de eu estar indo embora agora.
Outros, é claro, nem se importaram. "Boa Viagem", ou nem isso, apenas
"tchau", como se fôssemos nos ver novamente na semana que vem.
E o mais interessante, é que é em horas como essas que a gente descobre
que, de um jeito ou de outro, faz diferença na vida de algumas pessoas e
descobre, também, que passa indiferente na vida de muitas outras. Deve ser
por isso que algumas pessoas têm tanta resistências a iniciar novos
relacionamentos, a se deixar cativar... Deve ser por isso que adolescentes
preferem criticar e dizer que odeiam primeiro antes que comecem a gostar.
Todos os meus alunos foram saindo, menos a Marcella. Ela continuou
implicando comigo, perguntando se eu voltava e dizendo que quando eu
voltasse, ela já ia estar velha e eu caduca e não ia mais dar aulas de
inglês.
Depois que todo o mundo foi embora e a Marcella ficou sozinha comigo, ela
disse:
- Sora, se tu não curtir, eu te mato!
Ela desceu comigo, conversando o tempo inteiro e perguntando várias coisas
e acabou se despedindo com um beijo, um abraço e me desejando boa viagem.
Ariadne Amantino
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===================== BORN TO BE WILDT (Daniel Wildt) =====================
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A ÚLTIMA ENTREGA
O que seria algo fácil para Otávio não estava sendo nem um pouco perto do
conceito de fácil. A espera por um lugar ao Sol parecia interminável.
Finalmente Otávio encontra o emprego dos sonhos. Boy. Office boy. E você
pensa que esta é mais uma daquelas histórias onde a pessoa começa por baixo
e cresce? Errou. Otávio não dava valor para as coisas que tinha, mas no
final desta história esperamos que ele entenda o que a vida quer mostrar e
ele não quer ver.
Otávio não gostava de seguir regras impostas por outras pessoas. Fazia
de sua vida um monólogo, gostava de fazer o estilo exército de um homem
só. Sempre achava que estava com a razão. Mesmo sendo um merda na vida com
um emprego que não reflete em nada um emprego dos sonhos. Para Otávio era.
Existia um problema único: ele mesmo. Como não gostava se seguir regras,
sempre marcava o início do seu dia com uma entrada triunfal perto do café
das 10h da manhã. Seus chefes e mesmo seus colegas com mesmo nível
hierárquico falavam mal dele. Pensavam que nada faria aquele homem mudar,
acordar para a vida antes que ela faça isso, mas aí não tem volta.
Certa vez Otávio resolve chegar mais tarde. Desafia o ponto eletrônico e
chega cedo, para o almoço. O pacote especial que deveria ser levado para o
banco no horário, que era sempre responsabilidade de Otávio, já tinha sido
levado por outra pessoa, que segundo um documento que ele tinha levado para
o departamento de RH da empresa na semana anterior, tinha começado a
trabalhar fazia duas semanas na empresa. Não acreditando naquilo, Otávio se
irrita, e vai tirar satisfação com a tal pessoa. Vai até o local onde ficam
os protocolos e descobre o endereço eletrônico da pessoa que tinha levado a
entrega.
Mensagem enviada. Desaforos e desabafos de uma pessoa sem razão. Otávio não
tinha base para a discussão, o que o fez derivar assuntos pessoais sem ao
menos saber quem era a outra pessoa. E agora vocês podem pensar: claro que
era um chefe ou alguém para fazer Otávio pagar um mico. Não, não era um
simples chefe. O nosso amigo não prestou atenção e não leu do lado do email
da pessoa a palavra "Presidente".
No dia seguinte, falam sobre uma mensagem que o presidente teria recebido
falando sobre um pacote especial. Otávio começa a entrar em pânico. Pronto,
agora ele já está em pânico, e com razão. O telefone toca na sala onde
ficam os ajudantes da empresa. Era para ele. Era o presidente da empresa.
Diz que Otávio não agiu de maneira correta e o presidente fez o que fez
pois era caminho; e ele estaria indo no banco. Como o pacote ainda não
tinha sido entregue ele pensou em relembrar os maus tempos que passou
sendo office boy na mesma empresa, onde começou sua promissora carreira
profissional.
Na manhã seguinte, Otávio tinha que levar um documento importante,
que estava vindo do gabinete do presidente da empresa para o departamento
de RH. O documento era a requisição para demitir Otávio. Sim, demissão. E
ele não sabia que estava levando o seu próprio fim.
E a moral disso tudo? Você todos os dias leva um pacote do presidente para
o departamento de RH. É o seu destino profissional, que representa a forma
como as pessoas te enxergam dentro de um ambiente de trabalho. Imagem é
tudo. Com base em pequenas atitudes é que o conteúdo do pacote vai mudar.
Atitudes negativas e/ou positivas. Expectativas. Responsabilidade. Encarar
o problema como sendo seu problema e não problema de alguma coisa maior.
Daniel Wildt
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==================== DE NOVO, PÔ! (Eduardo Seganfredo) ====================
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O ZUMBIDO
Hoje acordei diferente... Havia um zumbido atordoando minha mente ...
Contínuo, agudo... Pensei um pouco, fiz uma análise profunda de mim mesmo
na tentativa de identificar do que se tratava aquele som incomum. Era o
alerta de que minha reserva de esperança havia chegado ao nível mínimo. Os
ventos do cotidiano haviam levado para longe as últimas nuvens carregadas
de motivação sobre o céu do meu mundo. Restaram apenas camadas densas de
incompreensão que insistiam em estagnar-se no horizonte, na espreita, como
que aguardando o momento exato de se dissipar em um temporal fatal... E o
zunido fino ecoava agora como um alarme anti-aéreo, forte e intermitente,
suplicando que minha fé viesse em socorro trazer reforços que poderiam
proteger-me do perigo iminente. Mas as milícias da fraqueza e da decepção
haviam tomado de assalto a cavalaria da fé e reduzido significativamente
seu contingente, outrora excessivo. Agora o zunido se tornara mais grave e
fúnebre... Sob o campo de batalha, destroços das tropas já putrefatas da
confiança aniquiladas pela traição que novamente atacara pelas costas,
carregavam a atmosfera de um odor fétido, repugnante e sórdido, através do
qual uma brisa negra soprava como que pronunciando palavras de algum ritual
satânico... Ao fundo do zumbido havia gritos terríveis, que praticamente
moldavam a fumaça densa do ar em faces tomadas pelo pavor e pela dor,
anunciando que o caos e a crueldade venceram mais uma batalha. Também em
segundo plano, um retumbar constante carregado de sons metálicos graves e
ritmados, que se anunciavam como um marchar constante de um exército imenso
de infindáveis sombras do mal, prestes a despontar no topo do monte em uma
fileira interminável. Pelo ruído destruidor de seus passos, ainda ao longe,
era possível perceber o rastro rubro de sangue e negro de desgraça deixado
a cada ceifar impiedoso das vidas pelo caminho. A visão de um caldeirão
fervilhando onde carne, sangue, ossos e lágrimas se misturavam com dor,
gritos e faces de pavor tomou conta do meu pensamento... pude sentir até o
cheiro fétido da imagem funesta... Imediatamente tentei acionar a razão,
mas era evidente que a razão estava em crise existencial. Uma análise
rápida concluiu que se a emoção inegavelmente existia e havia me permitido
presenciar tamanho cataclisma, não haveria razão que pudesse contrariar o
fato de que aquilo pra mim era real. Busquei socorro novamente em meu
coração, tentando gritar mais e mais alto para que o zumbido, agora
ensurdecedor, não abafasse minha voz enfraquecida pelo cansaço... Enquanto
aguardava alguma resposta, meus ouvidos captavam o galhofar estridente dos
até então vitoriosos soldados inimigos. Olhei para mim mesmo, como que a
avaliar qual seria a baixa material se decidisse salvar minha honra ao
custo do meu corpo... e que surpresa meus olhos encontraram. Havia uma
espécie de carapaça luminosa envolvendo meu perímetro... e ao meu lado mais
pessoas igualmente assim. Percebi que estávamos em alguma espécie de missão
especial, envoltos por alguma proteção igualmente diferenciada. Com meus
ouvidos agora mais afinados, escutei a resposta: era a perseverança
anunciando que a cavalaria estava a caminho, que as tropas estavam sendo
repostas e que a missão prosseguiria em sua última tentativa. Recebida a
mensagem ergui a cabeça... O horizonte agora não era tão denso. Analisei ao
meu redor ... meus companheiros também haviam recebido o recado. Juntos
sabíamos que estávamos protegidos, embora agora ficasse claro que estávamos
em um lugar estranho para nós. Não era preciso estar ali, mas o senso do
dever e de alguma responsabilidade nos mantinha firmes e confiantes... O
temporal não nos atingiria e manteríamos nosso posto conquistado a muito
custo, ainda que intimamente soubéssemos que não poderíamos esperar
gratidão ou recompensa naquela terra, ainda dominada pelas influências do
mal. Apenas era nosso dever estarmos ali, a fim de servir de porto àqueles
que, vencidos pelo tédio e pela consciência, decidiram desertar ao mal. E
ali estaríamos, pelo menos por mais uma tentativa ou 2 mil anos.
O zumbido parou. Tem sol.
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Traços de reflexão desordenada e paradoxal.
* Não demora nada para o racionamento e a sobretaxa de energia chegar ao
Sul. Sem energia, sem produção. Sem produção sem PIB.
* Quando muita gente tem que fazer muito sacrifício é porque pouca gente
está tendo muito benefício.
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Cena da semana:
* em Traffic, momento em que o juiz federal vai a casa do traficante em
busca da filha. A expressão exata de como, em certas situações da vida,
tudo aquilo que você julgava importante ou julgava saber vai pro espaço e
você se sente inferior a um saco de adubo, incapaz de fazer coisa alguma.
Eduardo Seganfredo
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======== LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO (Vincent Kellers) ========
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SLAVES
"Os triângulo são os quadrado.
Os quadrado são uma banderinha."
Omar
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E viva o verão de maio. Dias quentes, abafados, com manhãs e noites frias.
Dias sem nuvens, céu limpo. Sem chuva.
Céu sem nuvens... nuvens que eu gostava de observar na minha infância, pois
nelas encontrava feições de pessoas, desenhos, fantasias e qualquer outra
coisa que minha imaginação e as nuvens permitissem criar.
Mas hoje não tenho tempo para achar formas em nuvens. Espremido entre
trabalho, faculdade, sonhos, contas e pequenas frustrações diárias, não
tenho mais tempo de olhar para as nuvens. Até pq não mais as vejo, pois
passo o dia inteiro trancado em salas. As nuvens continuam lá, observando
um bando de formiguinhas lutar por um lugar ao sol, "por uma vida melhor",
mas eu não tenho tempo de observar sua imponência branca: devo estar
atrasado para algum compromisso.
Dentre os compromissos que assumi (ou que me foram impostos), aquele que
ocupa maior parte de meu tempo é o trabalho. Trabalho que ajuda a sustentar
minha família, que não me permite estudar todo o tempo que eu gostaria, que
me permite adquirir pequenos sonhos materiais, que me cansa fisicamente e
que me permite conhecer pessoas fantásticas (é uma longa história, um dia
eu conto, mas foi daí que o Tresler nasceu).
Qualquer dia desses, sem nuvens no céu, perguntei-me qual era a razão de
tudo isso.
Para que trabalhar tanto assim? Para q um dia eu possa montar uma página na
internet e dizer que eu trabalho 55 horas por semana, ou, dizer na mesma
página que sou capaz de fazer 120 horas extra (horas extra? é assim?) por
mês? Para que eu não tenha absolutamente nenhum assunto a comentar com meus
colegas além do trabalho? Para que eu me transforme em um autômato que
apenas concorda com cada ordem superior? Para que ao receber meu salário eu
fique triste, pois estou recebendo o valor que corresponde a mais um mês de
vida perdido? Para que eu sonhe com o dia de minha aposentadoria, pois aí
sim terei tempo para fazer as viagens que eu sempre quis?
Não.
Trabalho por questões financeiras, e tento me policiar para não transformar
minha vida no inferno acima descrito.
Entendo que alguém tem que trabalhar.... afinal, o trabalho tem de ser
feito.
Mas, acima de tudo, a vida deve ser vivida. Até pq, as nuvens continuam lá,
a esperar que nossos olhares perdidos se voltem novamente para suas formas.
Em um dia qualquer.
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Sim, eu SEI que nós já estamos em junho.
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Pipou! A Overflow, banda que integro na função de baixista, vai fazer um
super hiper ultra show no centro de Viamão City, a megalópole que um dia já
foi capital de todos os gaúchos. Será no sábado que vem, dia 09, e
estaremos participando do primeiro festival de rock da cidade. Se alguém aí
curte punk rock, heavy metal, hardcore e afins, me contate em private
(vkellers@terra.com.br) que eu lhe fornecerei maiores informações sobre o
show, ok?
Dizem as piores línguas da cidade que a Overflow fará um show no Garagem
Hermética (www.garagemhermetica.com.br) em agosto. Aguarde!
Ainda sobre shows, teremos as seguintes atrações esse mês:
Helloween - 20/06/2001 - Opinião (?), POA
Tequila Baby - 30/06/2001 - (?) - POA
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Oh my gawd run for cover! They're back! They're baaaaaaaaack!!!
Linhas de pensamento caótico
- Morte ao governo. Apagão = falta de investimentos, privatização e aumento
de tarifas
- E o Grêmio ganhou do Juventude.
- Morte a cadeira de Pesquisa Operacional.
- Morte: o Pereirinha, do grupo Quero quero, faleceu na sexta feira, as
22h30min.
Linhas de pensamento paralelo
- Mas você pode economizar, não? Então se mexe e apaga essa lâmpada do
quintal (seus cachorros enxergam no escuro...) e fecha direito
esse refrigerador! E DESLIGA LOGO ESSE CHUVEIRO!!!
- Morte aos meus vizinhos.
- MORTE MORTE MORTE
- Fiquei sabendo disso pq minha irmã resolveu ouvir Rádio Liberdade durante
a madrugada da última sexta, e eu acordei com a barulheira, lá por 4
horas da manhã, e fiquei acordado até 5h30min. E daí que eu tinha que
acordar pra ir trabalhar as 6 da manhã?
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Trilha:
Megumi Hayashibara - Hesitation
Megumi Hayashibara - Daybreak impression
Candysuck - Leach
Smashing pumpkins - XYU
Nirvana - Tourettes
Bad Religion - 21st century (Digital boy)
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Na próxima semana: Impressões bêbadas sobre o show da Overflow! Despedida
da Ariadne!
Vincent "Digital boy" Kellers
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============= O PLUS A MAIS DE HOJE (Lenara Guadagnin Londero) ============
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A CARTA
A carta esquecida sobre a mesa. Mais uma vez: folhas e folhas de desabafos,
lembranças, saudades. Escrevia por horas a fio, a letra corrida, os acentos
espalhados, os pontos atropelados. Passava da ternura à angústia como quem
muda de parágrafo, mas não mudava, escrevendo ora com raiva, ora com amor.
Depois, a sanidade recuperada, jogava tudo numa gaveta qualquer na
tentativa de enterrar aquilo tudo pra sempre. Não adiantava, não ia
esquecer. E jamais enviaria aquelas cartas para outro lugar que não fosse o
lixo. Ainda assim, há meses aquela mesma cena se repetia.
Na tarde em que ele a procurou com aquela conversa de tempo, pensar,
decidir, ela já sabia. Sentados os dois na mesma sala-testemunha de sempre,
conversaram. Não, ela chorava. Ele falava.
No começo prestou atenção em todas as palavras que ele ia dizendo. Custava
a acreditar que aquilo estava acontecendo, sentia que ele não queria
magoá-la. Escolhia as palavras, cada pausa, e desviava o olhar nas horas em
que era inevitável dizer o que pretendia. Pretendia partir. Juntos fomos
ótimos, ele dizia, tu és a melhor pessoa que eu já conheci, nunca vou
esquecer o que me ensinaste. Não chora, já era hora, não estávamos bem. É
assim que tem que ser, e não é porque está terminando que não existiu amor,
eu sempre vou te amar.
Era assim que tinha que ser, ele dizia. Ela não perguntou nada, não quis
saber porquê, percebeu tudo quando ele gaguejava, fugia do assunto e depois
voltava, para enfim dizer: não dá mais. Falou durante uma tarde inteira,
ele que nunca falava, ela só olhos e água. Ele não chorou.
Dessa vez, entretanto, a carta ficou sobre a mesa. Aquelas cartas todas
eram como deixar a água correr e lavar a sujeira. Parecia que o sentimento
sufocava e precisava sair - escrever era abrir a torneira. Aquela, sobre a
mesa, por esquecimento ou por um desejo inconsciente de que alguém lesse e
soubesse de tudo, era a última. Ela decidira, e não ia voltar atrás. Era a
última, para ninguém, e mais do que nunca para ela mesma. A justificativa
daqueles três anos, a última tentativa fracassada de entender a distância
entre os dois. A prova da desistência de ainda amar mais uma vez. Alguém
ali era profundo demais. Ou de menos.
E dizia:
Ele pra lá sempre com seus livros, seus estudos, seus amigos, sua mania de
perfeição que jamais teve cura, sua dificuldade de se entregar. Eu pra cá
com meus escritos, minhas loucuras, minha dança, minha paixão e meus
suspiros, minha alegria.
Nós dois com nossas diferenças, nossas mudanças, nossas tentativas. Nossas
descobertas, nossa amizade, nossos enganos.
Ele pra lá com seus sonhos de médico, com suas entranhas, com sua família.
Com suas crenças, seus cultos, seu sono, sua convicção tão pouco convicta,
sua indiferença. Eu pra cá com minhas brigas, minhas contradições, meus
bilhetes, meus muitos eu ao mesmo tempo, minhas muitas dúvidas sem
resposta.
Nós dois tentando, invadindo, errando, acertando.
Ele pra lá com sua racionalidade, suas certezas, seus eu te amo. Eu pra cá
impulsiva, irrefletida, duvidando.
Nós dois nos achando e perdendo, levantando e caindo, nos contrapondo e
entendendo.
E ainda assim, ele pra lá tão frio, tão virgem, e eu pra cá tão ardente,
sagitário e fogo.
Nós dois juntos de repente tão separados.
Um pouco nós.
Hoje, sós.
A carta ali, incontestável, em cima da mesa. Como um exame de dissecção que
expusesse toda a sua anatomia. Ou uma página de jornal que denunciasse toda
sua loucura. E naquela tarde, ela não lembra se para resgatar um CD, um
livro ou uma mentira, ele apareceu. Leu, aqueles mesmos olhos inexpressivos
de sempre. Não conseguiu encará-la quando estendeu a folha em sua direção.
- Joga isso fora.
Lenara Guadagnin Londero
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============================= CRÉDITOS FINAIS =============================
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Este fanzine maluco que você recebe por email todo domingão se chama
Tresler. Um grupo de amigos escreve histórias para o seu deleite. Se você
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Ariadne Amantino (ariadnedbka@yahoo.com)
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