Que dia é hoje? Domingo, 17 de junho de 2001.
Pedido do Editor: chame seus amigos e inimigos para assinar o Tresler. Peça
para eles enviarem e-mail para tresler-subscribe@yahoogroups.com. Nosso
e-zine tem como objetivo ser um e-zine distribuído por e-mail, então nos
ajude a aumentar mais ainda nossa lista de leitores. Fale da gente, bem ou
mal, mas fale!
Olá! Está é a edição número 9 do nosso fanzine eletrônico. Espero que você
goste (ou não). Olha o que temos no menu de hoje:
1. Editorial (Daniel Wildt)
2. De volta à Europa (Ariadne Amantino - CARPE DIEM)
3. Sou uma águia! Egotrip não faz mal para ninguém (Daniel Wildt - BORN TO
BE WILDT)
4. Já Faz Tempo (Eduardo Seganfredo - DE NOVO, PÔ!)
5. Infected (Vincent Kellers - LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO)
6. Não me diga não (Gilberto Freitas - O PLUS A MAIS DE HOJE)
7. CRÉDITOS FINAIS
===========================================================================
======================== EDITORIAL (Daniel Wildt) =========================
===========================================================================
Oi! Tudo bem? Espero que tirando tudo de ruim que está acontecendo com
você, o resto esteja legal.
Estou com frio. Minha meia está bem longe, e eu estou com preguiça. Muita
preguiça. Meu quarto está desarrumado, desde janeiro a coisa vem piorando.
É uma bagunça bem arrumada, afinal eu encontro qualquer coisa por aqui. O
problema é que minha mãe não entende isso.
Queria estar assistindo TV, tapado por cobertores bem quentinhos, sorvendo
uma caneca com café ou chá, sei lá, na companhia da menina que arruma
problemas sem pensar duas vezes (yes, my girlfriend). Enfim, estou aqui,
sozinho ouvindo Beck e Candysuck, mas o domingo ainda não acabou.
Despite all my rage i'm still just a rat in the cage! (Bullet with
butterfly wings - The Smashing Pumpkins)
Sobre a semana, morte de um dos Titãs (é cedo demais para dizer adeus), fim
dos Raimundos (é cedo demais para dizer adeus), melancia quadrada (as
sementes continuam lá dentro enchendo o saco), o apagão continua (já
comprou sua lanterna?), a política ainda do mesmo jeito (sem comentários),
meu artigo sobre simulação distribuída foi apresentado em Praga (ôba!) e
comprei um microfone (gravações experimentais). Agora falta o amplificador
e um cabo novo para minha guitarra, pois o que eu tinha acabei estragando
tocando sleep now in the fire (rage against the machine).
Bom, resolvi mudar um pouco o final deste editorial e vou colocar algumas
dicas.
Riff da semana!
Creedence Clearwater Revival - Suzie Q
E----------------------------------------|
B----3-----------------------------------|
G------2-0-------------------------------|
D-------------2-0h2--2-----0-------------|
A----------------------0h2---------------|
e--0-------------------------3b--0-------|
Música da semana!
Beck - Devils haircut - um comentário, é muito tri!
Albúm da semana!
Creedence Clearwater Revival - Chronicle One - São 20 sucessos, Susie Q,
Bad moon rising, Fortunate son, Who'll stop the rain, Long as i can see the
light, Someday never comes, Have you ever seen the rain, e por aí vai.
Download da semana!
http://www.winmx.com - WinMX - tipo o Napster. Se pode fazer busca de
vídeos, imagens, e claro, mp3!
Site da semana!
http://www.falae.com.br - Falaê! - revista eletrônica, vale a pena dar uma
passada por lá. E não é só porque tem um texto meu publicado. :-)
Extra!
http://planeta.terra.com.br/arte/adonais/phonica.htm - Phonica é uma banda
com músicas bem legais. Um som meio pop-rock romântico ou algo parecido.
Não sou crítico de música nem muito menos gosto de classificar música.
Certo Zu, volta e meia classifico pessoas, mas estou melhorando, quer
dizer, estou deixando de classificar pessoas. Façam o que quiserem. Enfim,
neste site aí se pode fazer download das músicas (mp3). Aconselho baixar
"Mais Ninguém" para começar.
E no tresler de hoje? Sei lá, lê aí e me diz o que você achou. Ouviu? Envie
o que você achou (treslerbr@yahoo.com.br), se gostou ou não, participe! Se
ninguém disser que algo está errado, continuaremos fazendo coisas erradas e
você continuará lendo e não gostando. Isso lhe parece familiar? Você espera
para dizer que algo está errado? Que pena. Você machuca pessoas assim, além
de ser machucado sem necessidade.
Daniel Wildt.
===========================================================================
====================== CARPE DIEM (Ariadne Amantino) ======================
===========================================================================
DE VOLTA À EUROPA
Dadi, repórter internacional diretamente de Viena conta suas impressões e
sentimentos a respeito da capital mundial da música!
A cidade é grande, maior do que Porto Alegre, com seus quase 2 milhões de
habitantes e seu transporte considerado um dos melhores do mundo. Para ir
de um lugar para outro, pode-se usar U-bahn, schnellbahn, strassebahn,
ônibus ou várias combinações destes. Os prédios variam dos mais antigos e
conservadores aos mais modernos, a maioria grandiosos. A língua: alemão!
Nas ruas, nos cartazes, nas propagandas, no supermercado, tudo em alemão e
na maioria das vezes só em alemão!
Me senti super bem no primeiro mundo de cara dessa vez! Nem parece que
estou tão longe de casa! É muito diferente chegar num país estrangeiro
sozinha e chegar num país estrangeiro já direto nos braços da pessoa que a
gente ama. Dessa vez, tudo me parece perfeito e a cidade parece ótima para
se viver com todas as vantagens de uma cidade grande de primeiro mundo.
Durante a semana, me aventurei sozinha pelas ruas de Viena algumas vezes,
com diversas tarefas para cumprir. Uma delas, fazer as compras no
supermercado. Não foi tão fácil como eu esperava porque aqui, diferente da
Bélgica, o nome dos produtos estão só em alemão e não em francês, então até
para comprar farinha tive que usar o dicionário! Próxima tarefa: dar uma
olhada nas casas de estudante em volta para tentar descobrir os preços de
um quarto para nos mudarmos! Como não tinha ninguém nas recepções nunca,
cada portinha que tinha uma placa, eu parava para procurar o significado.
Podia ser zelador ou algo parecido... Que nada, só achei sala de marcação
da água, chave de luz, sala de trabalho e outras coisas inúteis para o meu
propósito. Desisti e voltei para casa!
No sábado, durante um passeio pelo Nachmarkt, tipo um mercado público, deu
para descobrir as vantagens de se morar numa cidade grande. Lá tem de tudo,
desde as frutas mais exóticas e nunca vistas por mim até as mais conhecidas
e tropicais como banana e melancia, todo o tipo de tempero imaginável,
sucos de tudo quanto é fruta e uma variedade enorme de grãos, que inclui
até feijão!
Pontos turísticos já averiguados até o momento: Schloss Schönbrunn, Schloss
Belvedere, Catedral Stephansplatz, Praterstern e Staatsoper. Os palácios
são maravilhosos como sempre, mais ainda às vésperas do verão quando as
flores e a natureza em geral estão exuberantes.
Enfim, vale à pena ver Viena e, com certeza, vale à pena sair atrás de uma
aventura desse tipo pelo menos uma vez na vida (ou mais em alguns casos)...
Mas o tempo é curto e por hoje esse texto meio desordenado foi tudo que
consegui produzir para vocês!
Ariadne Amantino
===========================================================================
===================== BORN TO BE WILDT (Daniel Wildt) =====================
===========================================================================
SOU UMA ÁGUIA! EGOTRIP NÃO FAZ MAL PARA NINGUÉM
Sim, esta é minha história. Um dia antes de completar 22 anos, sofri o
pênalti por assim dizer. O meu melhor atacante (myself) foi atacado pelo
goleiro adversário. No coração. Fratura exposta. Tive que aprender a viver
com a dor por um tempo. Fiquei enclausurado no meu quarto durante os dias e
em algum lugar durante as noites. Estava de férias do trabalho. Cinemas,
teatros, bares, pubs, boates. Diversão para não pensar no presente. No
vazio.
Durante este processo de internalização, eu comecei a ler, escrever,
estudar mais música, compor. Ou seja, me tornei uma pessoa melhor. Cultura
faz bem. Ou eu dava a volta por cima, criava novas manias, traçava novos
objetivos, ou sucumbia. Sou extremo em questões de sentimento. Um doador.
Por consequência, aquele que sempre acaba sofrendo quando o sentimento em
questão acaba.
E uma das coisas que me fez muito bem neste processo foi uma história que
meu pai me contou. Sobre a vida de uma águia. E eu sempre me lembro da
história, mas nunca sei contar ela direito. Hoje, pensando no que escrever
aqui, recebi um SPAM, e acredite, era um e-mail com a história. Sendo
assim, aí vai a tal história.
[[[
A águia é a ave que possue a maior longevidade da espécie. Chega a viver 70
anos, mas para chegar nessa idade, aos 40 anos ela tem que tomar uma séria
e difícil decisão.
Aos 40 anos ela está com: as unhas compridas e flexíveis, não conseguindo
mais agarrar as suas presas das quais se alimenta. O bico, alongado e
pontiagudo se curva.
Apontando contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da
gorssura das penas, e voar é tão difícil!
Então a águia só tem duas alternaivas: Morrer, ou enfrentar um dolorido
processo de renovação que irá durar 150 dias.
Esse processo consiste em voar, para o alto de uma montanha, e se recolher
em um ninho próximo a um paredão, onde ela não necessite voar. Então após
encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede até
conseguir arrancá-lo.
Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar
suas unhas.
Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas
penas.
E só depois de cinco meses, sai para o famoso vôo de renovação e para viver
mais 30 anos.
Em nossa Vida, muitas vezes temos de nos resguardar por algum tempo e
começar um proceso de renovação. Para que continuemos a voar um vôo de
vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes e outras tradições
que causam dor.
Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o resultado valioso
que uma renovação sempre traz.
]]]
Se é verdade ou não esta história eu não sei. Sei que já vivi coisas muito
tristes com relação ao amor e acredite, desejo isso a todas as pessoas. Um
coração partido faz você se encontrar, crescer muito, dar valor a certas
coisas, principalmente ao espelho (que por acaso reflete o que você é).
Aproveito aqui para agradecer a todas pessoas que me fizeram sofrer por
amor. De coração. Aqui, variando entre um tom sarcástico e sincero. Vai
saber. Nunca fui bom com ironias.
Daniel Wildt
===========================================================================
==================== DE NOVO, PÔ! (Eduardo Seganfredo) ====================
===========================================================================
Estou em meu quarto... Pink Floyd no rádio anuncia em tom provocativo "Hei
you!"... Aqui dentro, a lua cheia só pode ser percebida pela excitação e
ansiedade que sinto... É impressionante como as pessoas tem necessidade de
sofrer na grande maioria das vezes. Estamos sempre procurando aquele
problema pra remoer, aquela mágoa para chorar, aquele amor ou amizade mal
resolvidos para pensar como podia ter sido diferente, aquela foto
nostálgica da família unida quando você era criança, aquela antiga carta...
Parece que estas coisas são mais impactantes que qualquer bom momento. A
tragédia marca mais que a comédia.
JÁ FAZ TEMPO
------------
Eu podia ter sido diferente. Não importa o quanto tenhamos feito, o quanto
tenhamos nos esforçado, vamos sempre lembrar do que faltou dizer, do que
faltou fazer, principalmente se envolve sentimentos de outras pessoas,
vidas, destinos, amores. Para exemplificar, quem não se comoveu com uma das
cenas finais de "A Lista de Schindler", quando Schindler, na saída da
fábrica após o término da guerra, cercado pelas pessoas que salvou, se
coloca de joelhos em prantos amaldiçoando os poucos pertences que lhe
restaram - seu carro, um relógio e um anel, se não me engano - por não ter
ele convertido-os em vidas. Quem salva uma vida, salva toda a humanidade.
Grande verdade. Verdade que me apunhala no íntimo, como a gritar
"Incompetente!!!"... Ás vezes culpo-me por não ter escutado o silêncio. Por
não ter visto a sombra no escuro. Falo isso das coisas que sabemos estar
acontecendo em nossa volta mas não paramos pra ver, pra sentir, pra se
envolver. Aquelas coisas que só irão aparecer se você mexer nelas, retirar
as folhas secas de cima, trazer à tona. Você sabe que elas estão lá mas
acha que não é o momento de mexer naquilo, pois isto devia ter sido feito
antes, ou deve ser feito depois. Como aquelas amizades da infância que
terminaram simplesmente porque você não foi mais na casa dela e ela também
não foi mais na sua casa e vocês simplesmente perderam o contato, mesmo
você tendo o telefone dela, ela tendo seu telefone e nada ter acontecido
entre vocês. Passam-se anos e anos, você simplesmente não ligará e não irá
lá, mas você guarda o telefone dela, sabe que ela está lá ou apenas pensa
saber. Mas não importa o que acontecer, você sempre vai pensar que já
passou tempo demais para ligar assim do nada. E assim o tempo vai passando
e a distância vai aumentando cada vez mais. E então você já não sabe que
rumo tomou a vida dela, se aquele problemão que ela tinha com os pais se
resolveu, como ela está ganhando a vida. E você descobre que agora ela está
envolvida com drogas e com um pessoal barra pesada... Mistura isso com a
personalidade dela, faz a soma com os traumas de infância e com a família
destruída e logo vê o resultado negativo. Mas nem assim você liga, porque
agora não é o momento, você está ocupado, tem que se preocupar com seu
futuro. E mais uma vez o tempo passa. Você sabe que quando sobrar algum
tempo deve procurar ela com alguma desculpa, só pra saber como andam as
coisas. Mas nunca sobra tempo, é uma coisa atrás da outra. E nessa correria
um dia desses você esbarra naquele amigo que te diz que ela saiu de casa
porque não conseguia mais segurar a barra com os pais e que estava morando
com o namorado, um cara mais velho e meio malucão cuja vida era centrada na
sua banda de rock malfadada. Tudo bem, quem sabe ela não melhore agora.
Ilusão. É claro que isso é uma atitude desesperada e que o abismo está cada
vez mais próximo. Mas tudo bem. Agora está mais difícil ainda qualquer
possibilidade de contato. Mas ainda assim você sabe que se ligar pra mãe
dela conseguirá um meio de falar com ela. Mas pode ficar estranho. Não vale
a pena. E mais uma vez o tempo passa e passa muito. Até o dia que você
descobre que ela não estava mais morando com o namorado, que no fim era um
tremendo canalha que a usou das mais variadas maneiras e que quando se
cansou dela praticamente a expulsou de sua casa quase a pontapés. Normal,
não se pode confiar nesse tipo de sujeito, penso eu criando mais
preconceitos. Mas ela também não retornou pra casa, pois não suportaria
aturar a humilhação que seria ter que aguentar seu pai insuportável e
irresponsavelmente nojento de novo. Sentia pena da mãe por ter que se
submeter àquela situação. E a cada visita rara que resolvia fazer a sua
mãe, constatava enojada os ematomas que haviam mudado de lugar desde a
última vez que a vira. - Quando ele bebe ele perde a noção das coisas,
minha filha! - dizia ela como que a eximir de culpa o mau caráter do
marido.
Mas como ela estaria se virando sozinha se não tivera como estudar? Sim.
Você sabia como. No fundo você sabia que aquele corpo escultural e rosto
angelical de alguma forma estavam servindo pra isso. A princípio você tenta
se iludir, afinal ela poderia estar só tirando fotos ou trabalhando em
eventos publicitários. Mas aquele jeito maroto de morena mignon inspirava
outros desejos. Sim. Aquelas curvas logo seriam alvo de empresários
desajustados ou qualquer outra espécie de infelizes que se acham os tais só
porque ganham um pouco mais de dinheiro que a grande maioria das pessoas.
Era assim que ela estava se sustentando. Que pecado, você pensa. Quantos de
nós, seus colegas na época, não haviam quase se despedaçado de atração por
aquele corpo, agora desvalorizado pela presença de um preço.
E mais uma vez o tempo passa. E novamente passa muito, até que você abre o
jornal e lê o nome dela. Na reportagem, uma mulher com AIDS se suicidara
jogando-se do sexto andar do Hospital de Clínicas. Você olha a data do
jornal. É de ontem. O enterro já deve ter acontecido. Não há nada mais que
se possa fazer agora. E mesmo que houvesse, você não faria. Afinal, já faz
tanto tempo.
Traços de reflexão desordenada e paradoxal
------ -- -------- ----------- - ---------
* O mundo animal é uma inspiração constante para novas descobertas e
invenções. Você sabia que existem mais de 10 mil espécies de formiga? E
você nunca se perguntou se elas ficam doente? Já imaginou um formigueiro
inteiro gripado? Pois fique sabendo que elas tem uma glândula antibiótica
que as mantém livre de infecções. E elas usam seus ovos como tubos de cola
pra prender folhas e outras coisas na construção do formigueiro.
Cena da semana
---- -- ------
* Todo ataque japonês a base americana do Havaí em "Pearl Harbor". O ataque
é realmente impressionante. Um exemplo clássico de como algo pode passar de
paraíso a inferno em poucos minutos. Desde criança escuto que o erro
japonês foi não ter bombardeado mais vezes a base naval, uma vez que nos
dois primeiros ataques muito poucos aviões foram perdidos. As reservas de
petróleo americanas estavam lá, quase a mostra e não foram bombardeadas. Os
americanos afirmam que se elas tivessem sido destruídas, não era necessário
bombardear nenhum navio, pois eles não teriam como sair do lugar. Nunca
saberemos se a atitude do comandante japonês foi uma espécie de "piedade",
uma espécie de fraqueza ou displicência, ou uma espécie de discordância
moral contra o prevalecimento que teria sido o próprio ataque.
Eduardo Seganfredo
===========================================================================
======== LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO (Vincent Kellers) ========
===========================================================================
INFECTED
Oi!
Ouça Glycerine, do Bush ao ler esta coluna.
---
Christian tem AIDS há dez anos.
No estado atual da doença, ele não pode fazer muito além de esperar pela
morte. Enquanto espera, pede ajuda, de ônibus em ônibus. Qualquer ajuda.
Dinheiro. Alimento. Qualquer espécie de carinho. Ele não pede mais do que
alguma espécie de sustento, seja físico ou espiritual.
Aposentado por invalidez pelo governo, Christian já não chora, pois isto
consumiria suas escassas energias. E também pq já não há o que chorar. Ele
apenas vive o tempo que lhe resta, da maneira que é possível. Seu corpo
está roído pela doença. Magro, com voz fraca e o corpo debilitado, todo dia
ele se expõem ao público. Se expõem pois precisa desesperadamente de ajuda.
Qualquer espécie de ajuda.
Em um ônibus qualquer, Ângelo, uma pessoa qualquer, presenciou o pedido de
ajuda de Christian.
Tocado pela dor do rapaz, e pela indiferença dos demais passageiros,
deu-lhe todo o pouco dinheiro que possuía consigo. Ainda que o dinheiro
fosse extremamente necessário nos dias seguintes, naquele momento nada mais
importou. Face a dor de outro ser humano, expressa em contrações faciais,
em gestos fragilizados pela doença, nada mais fazia diferença. O mais
terrível de toda esta situação era a constatação de que o sofrimento alheio
não fazia a menor diferença.
E Ângelo pôde comprovar a sua volta que as últimas fofocas do meio
televisivo ou as últimas notícias esportivas fazem diferença. Estas são de
fato importantes para a vida das pessoas. O fato de Christian precisar de
dinheiro para comprar analgésicos não faz diferença. O fato de Christian
estar morrendo a sua frente não faz diferença. Mesmo que fizesse alguma
diferença, os demais passageiros não poderiam ajudá-lo, pois não têm
dinheiro, não é mesmo? Embora tenham dinheiro para comprar jornais
populares e assemelhados, eles não podem ajudá-lo, mas isso não vem ao
caso, não é verdade?
Christian não recebe remédios que combatam a doença, e isso não importa.
Christian não tem mais a quem recorrer e isso não faz diferença. Ele está
estendendo a mão a cada passageiro e esta mão é afastada como quando uma
mosca é afastada. Sequer o consideram humano. Ele é menos que humano: não
merece sequer ser olhado, pois ele não faz diferença. Ele vai morrer logo,
e convém não olhar para os olhos de um morto, pois isto faz diferença para
você, que escolheu ignorá-lo, não é verdade?
Ângelo pensou em todos esses fato em uma fração de segundo. Entregando o
dinheiro a Christian, ele não sabia o que dizer. O que se diz a alguém
nesta situação? Ele não sabia. E não teve o tempo necessário para
descobrir. Limitou-se a chorar. Chorou por Christian e por todos naquele
ônibus.
Observou o doente agradecer o seu dinheiro e solicitar a cada passageiro
alguma contribuição. Cego de ódio, observou o rapaz receber diversas
negativas ou ser simplesmente ignorado. Comovido e ao mesmo tempo odiando
todos a sua volta, com os olhos embaçados por lágrimas inocentes, Ângelo
buscou descer do ônibus. Como se isso fosse o alívio de seu sofrimento. Ou
ainda, o alívio do sofrimento de Christian. Como se ele pudesse de alguma
maneira esquecer tudo aquilo que havia presenciado há pouco.
Ao descer do ônibus, Ângelo estava como que bêbado. Observou o veículo
partir e seguir sua viagem. Pôde divisar através dos vidros sujos do
veículo a figura magra de Christian. Com algum fio de consciência, se
perguntou por quanto tempo ele ainda viajaria em ônibus como aquele. Sabia
que o tempo era escasso, mas... quanto tempo?
Desnorteado que estava, não sabia onde encontrava-se, embora já houvesse
passado por aquele local centenas de vezes. Simplesmente não sabia para
onde ir. Ou não queria saber. Mas isso já não fazia diferença. Nada mais.
Nenhum sofrimento... Alheio. Nenhuma ajuda.
Por alguns minutos, Ângelo caminhou sem rumo. Chorando, já não conseguia
coordenar nenhum raciocínio lógico. Apenas caminhava e chorava. Caminhava e
chorava. Corria e chorava. Corria. Corria às cegas. Corria para o meio da
estrada e isto já nao importava, nada fazia diferença.
Por isso não viu a morte que se aproximava velozmente.
Após o choque com um veículo qualquer, seu corpo foi arremessado ao ar.
Girou, girou e caiu inerte no chão. No asfalto, seu sangue se juntou a suas
lágrimas e nada mais fez diferença.
Nenhuma ajuda: nem para ele, nem para Christian, que morreu meses depois,
sozinho em um lugar qualquer.
---
Trilha:
- Bad Religion: I wanna conquer the world, Shades of truth e Against the
grain
- Pennywise - Surfin' USA, Peaceful day e Society
- Ataris - Your boyfriend suck, You need a hug e Clara
Vincent Kellers
===========================================================================
================= O PLUS A MAIS DE HOJE (Gilberto Freitas) ================
===========================================================================
NÃO ME DIGA NÃO
Em todos momentos vividos
Vivemos em vão
Teu amor não mais me satisfaz
Por isso te peço perdão
De dizer que tudo acabou
E que agora não mais podemos nos ver
Sinto não ser mais parte da tua vida
Sinto não ser mais parte do teu ser
Que eu seja queimado se me arrepender
Mas quero que seja assim
Quero buscar meu rumo
Quero ver se me aprumo
E reconstruo meu mundo
Para aprender a viver
Gilberto Freitas
===========================================================================
============================= CRÉDITOS FINAIS =============================
===========================================================================
Este fanzine maluco que você recebe por email todo domingão se chama
Tresler. Um grupo de amigos escreve histórias para o seu deleite. Se você
quiser entrar em contato conosco, visitar o nosso Site (você pode ler os
números anteriores do nosso fanzine eletrônico), se cadastrar ou
descadastrar, enfim, utilize os emails/urls no final da mensagem.
Tresler Team:
Ariadne Amantino (ariadnedbka@yahoo.com)
Daniel Wildt (dwildt@oocities.com)
Eduardo Seganfredo (edu.zu@ig.com.br)
Vincent Kellers (vkellers@terra.com.br)
Colaboradores da edição de hoje:
Gilberto Freitas (wisewizard@bol.com.br)
Visite o Site do nosso e-zine:
http://www.tresler.cjb.net
Para entrar em contato com o e-zine, mande um email para:
treslerbr@yahoo.com.br
Para receber o nosso e-zine mande um email para:
tresler-subscribe@yahoogroups.com
Para não receber mais o e-zine, mande um email para:
tresler-unsubscribe@yahoogroups.com