Que dia é hoje? Domingo, 14 de outubro de 2001.
http://www.tresler.cjb.net
Olá! Está é a edição número 26 do nosso fanzine eletrônico. Espero que você
goste (ou não). Olha o que temos no menu de hoje:
1. Editorial (Daniel Wildt)
2. Divagações sobre a paz no futuro (Ariadne Amantino - CARPE DIEM)
3. Poesias (Daniel Wildt - BORN TO BE WILDT)
4. Estresse e culpa (Eduardo Seganfredo - DE NOVO, PÔ!)
5. Insight (Vincent Kellers - LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO)
6. Através dos conflitos (Leandro Monteiro Dal Bó - FALANDO SÉRIO)
7. O retorno e a dúvida da poesia (Almandrade - O PLUS A MAIS DE HOJE)
8. CRÉDITOS FINAIS
===========================================================================
======================== EDITORIAL (Daniel Wildt) =========================
===========================================================================
VOCÊ DEVE DIVULGAR ESTE E-ZINE. DIVULGUE O TRESLER. VOCÊ DEVE DIVULGAR ESTE
E-ZINE. DIVULGUE O TRESLER. VOCÊ DEVE DIVULGAR ESTE E-ZINE. DIVULGUE O
TRESLER. VOCÊ DEVE DIVULGAR ESTE E-ZINE. DIVULGUE O TRESLER. VOCÊ DEVE
DIVULGAR ESTE E-ZINE. DIVULGUE O TRESLER. VOCÊ DEVE DIVULGAR ESTE E-ZINE.
DIVULGUE O TRESLER.
Hoje voltei da praia dirigindo. Andei acima de 100Km/h por um bom tempo,
realizei inúmeras ultrapassagens e cheguei em casa finalmente, depois de
mais ou menos duas horas e meia de estrada.
Está, mas e aí? Fala Daniel diz minha namorada, sempre que fico algum tempo
quieto. Bom, o que aconteceu comigo? Fui dirigindo para a praia e voltei
também, pela primeira vez. Devo ter dirigido ao todo umas seis horas na
estrada, levando em conta o engarrafamento na ida. Nunca pensei tanto.
Conversei também, claro, mas pensei muito. Sempre faço brainstorms quando
estou concentrado e realmente hoje na volta para casa eu vi como perdi
tempo sendo "o passageiro". Quanto tempo que poderia ter ficado pensando
que usei para dormir ou ver paisagens ou acompanhar o acostamento da
estrada. Tantas coisas passaram pela minha cabeça e aquele carro a mais de
100Km/h e aquela mulher maravilhosa no banco do carona.... me senti muito
feliz de ver onde cheguei (sim, fiz um resumo da minha vida durante toda a
viagem), repassei minha realidade e vi meu futuro. Resumo da viagem? Sol,
vento, ondas no mar, areia, pele queimada, música, comida e o amor no ar.
Música da semana!
Alice in Chains - Man in the Box
Bad Religion - Shades of Truth
Álbum da Semana!
Bad Religion - No Substance
Riff da semana!
Bad Religion - A Walk (Gray Race)
E----------------------------------------------
B-6-6-6-------------6-------6------------------
G-------7-7-5-7---3---5---3---5-4---4-5-4-3----
D----------------------------------------------
A----------------------------------------------
E----------------------------------------------
E----------------------------------------------
B-6-6-6-5-6-5-6--5-6-5-8-5-6-5-----6-6---------
G------------------------------5-7-------------
D----------------------------------------------
A----------------------------------------------
E----------------------------------------------
E no tresler de hoje, uma poesia que virou música estilo declaração de amor
para minha namorada e outra que eu não sei de onde saiu inspiração (acho
que quando pensei que as casas da praia ainda não precisam de muros), um
texto muito legal sobre poesia, um texto sobre os conflitos que o homem
gera no mundo, divagações sobre a paz no futuro, pensamentos sobre como a
vida é e a fé que vem a pé já que assim se é, e uma cena do cotidiano
nojento da cidade de Porto Alegre com sua polícia altamente treinada para o
crime, mas não preparada para enfrentar o normal. É o medo meu amigo.
Daniel Wildt
===========================================================================
====================== CARPE DIEM (Ariadne Amantino) ======================
===========================================================================
DIVAGAÇÕES SOBRE A PAZ NO FUTURO
"Eu fico aqui pensando, pensando
No ano 2020 eu vou ter o que...
72, 73 anos
Vai ser tudo igual
Tudo tudo igual!"
Rita Lee... Me lembro dela cantando essa música há alguns anos atrás. Eu
ouvia e calculava quantos anos eu vou ter em 2020... E ficava pensando como
será. O que vou estar fazendo aos 53, 54 anos... Futuro! De novo estou aqui
escrevendo sobre o futuro. Mas dessa vez um pouco mais global. Estamos na
era da globalização, não estamos? Não, mas não é nada disso!
Quando eu ouvia essa música (e eu não lembro exatamente quanto tempo faz,
mas sei que minha cabeça mudou muito desde então), eu pensava em mim, no
meu futuro pessoal e profissional simplesmente. Hoje quando lembrei da
música pensei no mundo... Quantos anos vai ter o mundo em 2020? Vai ser
tudo igual...? Eu já não tenho mais tanta certeza.
O mundo está de pernas pro ar! No mínimo! Tanta coisa ruim acontecendo
nesse nosso planeta que às vezes eu me pergunto: É possível continuarmos a
levar a mesma "vidinha besta" que sempre levamos, fazendo planos para o
futuro, juntando grana para, egoísticamente, melhorar a própria vida....
Que futuro? Às vezes tenho a impressão de que o nosso mundo encaminha-se
para um buraco negro sem volta. Ao invés de solidariedade, os homens trocam
guerras. Os grandes líderes, talvez únicos capazes de evitar estas guerras,
só fazem incentivá-las. Eles não se dão conta de que assim vão destruir o
planeta?!?! E nós? O que nós podemos fazer? Nós, simples mortais, donos
apenas do nosso nariz e não de um exército inteiro, nem de um país.... Nós,
que não somos os donos do mundo, continuamos levando nossas vidas e lendo
nos jornais os horrores do mundo como quem assiste a um filme de ficção.
Ou, então, com a cabeça em conflito e as mãos meio que atadas nos
perguntando o que podemos fazer para melhorar o nosso mundo. Se cada um
fizer a sua parte em nome paz, um dia a humanidade chega lá. De grão em
grão, a formiga enche o saco. Quanto mais pessoas estiverem cientes de que
a paz é sempre o melhor caminho e a melhor solução, melhores serão as
perspectivas de sobrevivência para o nosso planeta.
O homem é belicoso por natureza, eu sei. Mas não seria tão mais fácil ser
feliz vivendo em paz? Por que "eles" complicam tanto? Por que "eles"
inventam cada vez mais instrumentos para destruir uns aos outros e se
sentem vitoriosos ao final de guerras com centenas, milhares de vidas
sacrificadas. Isso é vitória para quem? Sonho com um mundo onde não existem
armas porque não precisamos delas. Não existem guerras, não existem
discussões. Um mundo onde viver é a dádiva suprema e ser feliz é simples e
direta conseqüência desse fato. Será que esse mundo é possível?
"A war doesn't decide who's right, only who left."
Ariadne Amantino
===========================================================================
===================== BORN TO BE WILDT (Daniel Wildt) =====================
===========================================================================
QUANDO CHEGA A NOITE
É quando o Sol se por, que eu vou falar
Vou beijar tua boca, iluminada pelo luar
Tocar teus cabelos, enquanto o vento toca os meus
Verei teus olhos sorrindo como gosto
Não, não me olha assim... esquece
Já basta saber o que eu quero fazer
Basta acordar para eu querer dormir
Basta sentir a noite que quero acordar e sentir
O amor cantando com o vento vendo o dia partir
- -- -- -- - -- -- -- - -- -- -- - -- -- -- - -- -- -- - -- -- -- - -- -- -
FIM DE TARDE
Fim de tarde na cidade
As pessoas voltam a vida
E voltam a sentir saudade
Da pessoa querida
Seja quem for
Queira como queira
Cidade iluminada
Já vou
Semáforos lotados
De meninos desamparados
Ruas cheias
De pais contando com a sorte
De um país livre
Preso à sua estupidez
Que vive o presente
Sem aprender a viver
Daniel Wildt
===========================================================================
==================== DE NOVO, PÔ! (Eduardo Seganfredo) ====================
===========================================================================
ESTRESSE E CULPA
Argumentei que já havia apresentado os documentos ao outro policial
apontando para ele. Mas ao invés de uma desculpa, o homem reagiu dizendo: -
Não me interessa! Quem está pedindo teus documentos agora sou eu! Me mostra
que eu quero ver se está tudo certo mesmo!
Estranhei um pouco a reação dele. Eu já havia sido parado a pé na rua em
batidas policiais outras vezes, mas nunca tinha sido forçado a parar de
carro por uma viatura em movimento. E também nunca tinha sido tratado com
tanto desprezo por um policial. Enquanto uma parte do meu cérebro tentava
me colocar em alerta trazendo à tona lembranças do episódio ocorrido
recentemente em São Leopoldo, onde um jovem inocente foi morto em uma
operação semelhante, a outra parte buscava entender o que se passava.
A cena prosseguiu com os policiais revistando meu carro ao passo que o
suposto comandante ameaçava guinchar o veículo, pois o meu IPVA ainda não
chegara pelo correio.
Para persuadí-lo a mudar de idéia, falei naturalmente: - Não precisa isso.
Tu pode ver que eu paguei o IPVA. Tá aqui o comprovante.
Então ele retrucou com autoridade: - "Tu" não! Senhor! "Tu" tu usa com teus
amigos! Eu não lhe dei intimidade para isso. Me trate por senhor!
Foi neste exato momento que a minha metade do cérebro preocupada em
compreender a ocorrência me alertou com a resposta.
Era um sábado após um feriado. Eu estava usando um tênis sujo, velho e
rasgado, que costumo usar para jogar futebol. Minha bermuda barata estava
manchada. Minha camiseta era velha e desbotada. Meu cabelo estava
despenteado. Eu havia me vestido apenas para comprar uns remédios para o
meu pai e não iria perder meu tempo precioso de descanso me arrumando para
ir à farmácia. O carro, um velho kadett ano 93, com a surdina furada,
completamente sujo e ainda por cima falhando por causa da gasolina
adulterada que alguns postos vendem livremente por aí. E para piorar, eu
estava falando de forma simples. Enfim, no julgamento daquele homem fardado
eu me apresentava como uma pessoa simplória, presumivelmente ignorante e
passível de humilhação e destrato. De imediato procurei restabelecer o
controle da situação.
- O "senhor" queira por obséquio me desculpar, cavalheiro. Eu não havia
percebido que tratava com um oficial da brigada militar. Queira por
gentileza aceitar minhas escusas. Eu lhe asseguro que não tornarei a
incorrer neste erro deplorável. Fico deveras satisfeito que o "senhor" está
designando os cuidados necessários ao patrulhamento de nossas avenidas. E
estou certo que decidirá com sabedoria a respeito do meu descuido
irrelevante com o IPVA do veículo. Hei de providenciar a imediata
retificação do mesmo.
O sujeito não disse uma palavra. Caminhou até a viatura, demorou uns 30
segundos e retornou. Me devolveu os documentos, pediu desculpas pelo
incômodo e me desejou boa noite.
Mas mesmo depois disso, o sentimento profundo de desgosto continuou. A sua
atitude não mudou por causa da minha humildade, pois desde o momento em que
ele me pediu para sair do carro eu me manifestei sempre humilde e submisso.
A mudança ocorreu quando eu usei do recurso que dispunha de falar atráves
de uma linguagem um pouco mais formal. Empregando menos de meia dúzia de
adjetivos pouco utilizados no colóquio popular eu estava dizendo pra ele
que não fazia parte do grupo de pessoas com as quais ele estava acostumado
a lidar.
Porém, agora eu pensava naqueles que não possuiam este recurso. A sensação
que eu tive com a experiência foi tão ruim, que me repugnava pensar nas
centenas de pessoas que diariamente passam por circunstâncias como essa. E
de maneira bem pior, prolongada, pois elas não podem contar com o auxílio
de uma roupa cara e elegante. Ou de um carro zero. Ou de olhos e pele
claros. Tampouco de uma fala mais elaborada ou culta. Isso não faz parte do
mundo delas.
Dirigi até em casa remoendo uma raiva grotesca contra o policial. E demorei
até ser avisado por alguma outra parte do meu cérebro de que ele não era o
culpado disso. Ele tinha sido muito menos preparado do que eu para lidar
com pessoas. Portanto, se eu quisesse culpar alguém, eu teria que achar
outro responsável. Isto aliviou minha visão do brigadeano e melhorou um
pouco meu ânimo.
No entanto, terminei meu sábado com uma espécie de depressão, enquanto
alguma parte do meu cérebro exibia insistentemente uma imagem do palácio do
planalto.
Eduardo Seganfredo
===========================================================================
======== LINHAS DE PENSAMENTO CAÓTICO & PARALELO (Vincent Kellers) ========
===========================================================================
INSIGHT
- Olhe, eu realmente queria compartilhar desta sua fé. Realmente gostaria,
pois tornaria tudo muito mais fácil. Eu saberia então que ele entraria
naquela maldita sala e sairia de lá curado, pois o meu Deus ou meu Buda ou
meu messias vai interceder por ele, MAS EU NÃO ACREDITO NISSO!
Ele respirou rápida e profundamente, agitado, mexeu nos cabelos pôs-se de
pé e prosseguiu, deliberadamente de costas para seu irmão mais velho.
- Eu gostaria de saber que a mão do meu ou do seu deus vai guiar a mão dos
médicos, ou melhor ainda, que o meu deus vai interceder diretamente pela
saúde dele, e como num passe de mágica ele ficará finalmente bom,
finalmente livre das dores, mas... - angustiado, passou a mão pelo rosto e
fez menção de acender um cigarro. Lembrou-se de onde estava e parou o
movimento automático.
- Escute. Você já deixou o seu ponto de vista bem claro. Sei que discorda
de muitas das minhas crenças, da maneira como meu comportamento é diferente
do seu. Mas esta discussão realmente não leva a nada além de desgaste para
nós e para o resto dos que estão aqui. Ao dizer isso, fez um gesto vago com
as mãos e o olhos, de maneira a identificar os parentes e amigos que
estavam no hall do hospital esperando o resultado da cirurgia de emergência
a que se submetera o seu pai.
- Eu sei, eu sei... - suspirou - eu, eu vou caminhar um pouco. Volto logo.
Cansado, Leandro dirigiu-se à frente do hospital. Ficou feliz por poder
escapar dos olhares de reprovação dos familiares. Precisava
desesperadamente fumar. Mentalmente repreendeu-se por ter discutido
novamente com seu irmão. De maneira alguma seu irmão mais velho, seu ídolo
de infância, era má pessoa. Ele simplesmente tinha o péssimo hábito, na
opinião de Leandro, de confiar demais em crenças. De entregar aquilo que
pode ser feito pelo homem às mãos do seu deus. Agora, seu pai estava quase
morrendo em uma sala de cirurgia e a única coisa que Cláudio fazia era
orar, orar e orar. Como se fizesse alguma diferença, pensou Leandro.
Como se fizesse alguma maldita diferença, pensou. Como se houvesse alguma
justiça divina nesse mundo. Sim, pensou, se houvesse alguma justiça, não
seria o nosso pai a enfrentar tudo isso. Seria algum miserável assassino
que estaria lá, condenado. Quando pensou na palavra condenado, chorou. Uma
lágrima quente rolou por seu rosto, quase incandescente.
O choro não trouxe alívio. Por mais que se esforçasse, ele não conseguiu em
momento algum de sua vida ter fé. Era inútil. Isto por que ele sabia que
não havia nenhuma espécie de equilíbrio neste mundo. E também não havia
nenhuma outra vida onde o equilíbrio fosse restaurado e os males fossem
castigados. Na sua visão, refletida no seu modo de vida, não havia paraíso
eterno, não havia tormento eterno e nenhuma espécie de vida pós-morte. Não
havia sopro nem masturbação divina que criou o universo. Havia apenas
células de carbono e impulsos elétricos metidos à besta. Era nisso que
acreditava.
Sim, realmente acreditava nisto. Sabia que no fundo, as coisas simplesmente
são como elas são. Haja Deus, Buda ou Messias. Quase sorriu ao lembrar-se
da palavra karma, mas esta não era ocasião para sorrisos. Nem para
lágrimas, pois no final tudo ficaria bem. Karma, neh?
Vincent Kellers
===========================================================================
================= FALANDO SÉRIO (Leandro Monteiro Dal Bó) =================
===========================================================================
Imagine um membro das forças armadas estadunidenses apontando às
fotografias penduradas na parede de sua sala e dizendo a seu subalterno:
"Ali, eu soltando a bomba de Hiroshima; na outra, bombardeando o Vietnã; ao
lado, eu explodindo o Camboja; depois, lutando na Coréia, invadindo o
Iraque... meu filho guerra boa é guerra na casa dos outros." Acima, na
figura, escrito, em maiúsculas: GOD BLESS AMERICA. Esta charge do Angeli
era o tema da redação que segue.
ATRAVÉS DOS CONFLITOS
A economia é diretriz. Políticas militares a protegem. Ainda hoje há uma
correria dos países em direção ao poder militar. Uns protegem-se dos
outros. Para após, desenvolverem-se internamente. Grande tensão e quase
nenhuma cooperação. O atual presidente dos Estados Unidos, quando assumiu o
posto, protegeu exageradamente a economia do país. Revelou despreocupação
ecológica. Causou desgosto a inúmeros líderes europeus. Agora Bush é
humanitário: diz defender o mundo como um todo, a democracia contra o
terrorismo. Agora é apoiado pelos europeus. A grande maioria da população
das grandes potências econômicas é a favor da vingança, do conflito. Quando
todos assustaram-se, a competição foi esquecida e a união veio à tona:
união é uma coisa esporádica, desesperada.
A competição sempre prevaleceu. E isto é natural: jovens competem pelas
universidades. Animais lutam por comida, abrigo, parceiro sexual. Plantas
buscam, umas sobre outras, a energia solar. Isto demonstra o equilíbrio da
natureza. É primordial a qualquer ser vivo o seu íntimo. A própria vida.
Não apenas a sobrevida, mas a qualidade de vida.
O homem não é diferente, obviamente. É ingênuo e até antinatural o desejo
de alguns homens de tornar igualitária a sociedade. Desejo de controlar os
eventos em busca da homogeneidade. Mesmo desejo de Hitler sobre os povos
"inferiores".
Sim, é desgostoso aos homens ver seus semelhantes sendo abandonados pela
vida. Mas a ação impulsiva, pragmática e desesperada nunca terá resultados
maiores que faíscas.
É preciso ser lento, calmo. Dirão que, assim, a solução não será alcançada.
É um grande problema. A solução jamais será alcançada: não é este um
objetivo concreto. Mas sim, sacudir o planeta. A natureza tende a se
equilibrar sempre. Quando o homem tenta torná-la estática (encontrar uma
solução controlada) ela perde o prumo. O movimento é o prumo. Se a
translação terrestre cessasse, "cairíamos" no Sol.
O homem é extremo. Uns tão individualistas que chegam a desesperarem-se por
si mesmos. Outros sociais em demasia: desesperam-se com o mundo. Estes
tendem ao esquecimento de si mesmos; e aqueles, do mundo. Poucos se
equilibram. Poucos são calmos. A solução não é algo a que se alcança, é
algo sobre o qual se dança. É dinâmica. O que parece poder ser alcançado é
transitório, é desespero. Algo de diferente talvez aconteça se mais homens
transcenderem os conflitos entre competição e união, industrialização e
natureza, dinheiro e amor, desespero e calma, densidade e leveza, análise e
síntese.
Leandro Monteiro Dal Bó
===========================================================================
==================== O PLUS A MAIS DE HOJE (Almandrade) ===================
===========================================================================
O RETORNO E A DÚVIDA DA POESIA
A poesia é um conhecimento à parte da razão tecnocrata que rege a sociedade
contemporânea, hoje em dia, o homem se defronta com outras oportunidades de
linguagens, outros conhecimentos, que deixou de lado o hábito da leitura,
principalmente a leitura de poesias. Diante da informática, da música
popular, do discurso político, não há lugar para a poesia. Mas de repente
um surto de poesia tomou conta da cidade, saraus, recitais, debates,
publicações, vão se espalhando e ocupando pequenos espaços nos centros
urbanos, bares, cafés, bibliotecas. Páginas na internet. Parece que a
poesia voltou a fazer parte da cidade. Mais uma ilustração da crise da
linguagem, do pensar e da cidadania? Afinal de contas, poesia passou a ser
tudo que alguém escreve movido por uma “inspiração”, uma revolta, uma
paixão, um discurso livre e aleatório, como: a frase da mesa do bar, o
bilhete da namorada, o discurso de protesto, etc. O poeta que já foi
expulso da cidade, volta ao cenário urbano na condição de sintoma da cidade
grande.
-------------
A Poesia e a Cidade
“Os poetas nos ajudarão a descobrir em nós uma alegria tão expressiva ao
contemplar as coisas que às vezes viveremos, diante de um objeto próximo, o
engrandecimento de nosso espaço íntimo.”
(Bachelard)
Desde quando a cidade é objeto de trabalho de especialista, ela passou a
ser um corpo fragmentado e perdeu sua geografia poética. Primeiro foram os
filósofos que expulsaram os poetas de sua república, depois foram os
técnicos que destronaram a filosofia. Custou caro ao filósofo aceitar que o
saber foi uma invenção do poeta, que a eternidade da Grécia se deve
primeiramente a um Homero e depois a um Platão. Nessa mudança de século, a
filosofia acabou ressuscitando um Sócrates arrependido, solicitando do
poeta seu retorno à polis . Pudera, em épocas de crise sempre se apela para
o poeta, ele que nada sabe, foi adivinho do passado e é livre para falar de
suas emoções. Mas ele nada pode resolver com relação aos equívocos dos
especialistas do urbano, a não ser restaurar a poesia perdida.
A cidade de políticos e de técnicos tem problemas mais urgentes, para se
preocupar com a poesia. Acreditava-se que a tecnologia era uma solução
universal, mas se mantêm longe de dar respostas às demandas de habitação,
segurança, transporte e educação. Não se canta mais a cidade, fala-se para
lamentar seus problemas. A cidade precisa da poética e do pensamento. Quem
se ocupa de conceitos sabe, sem negar a importância da tecnologia, que a
cidade atualmente precisa mais do exercício da cidadania e das idéias, do
que intervenções técnicas sem uma compreensão mais ampla dos seus
problemas. As cidades modernas se ressentem da carência de uma nova idéia
de planejamento urbano que não a veja exclusivamente como o cenário do
mercado de trabalho. Pois a imagem urbana não se restringe àquilo que a
percepção capta, é muito mais o que a imaginação inventa com a liberdade
poética. As musas sabem que o poeta não vai salvar a cidade, mas ele é quem
lida com a fantasia e o devaneio, indispensáveis para o sonho de uma outra
expectativa de vida urbana.
-------------
A Poesia e a Lógica da Linguagem
“A poesia é uma arte da linguagem; certas combinações de palavras podem
produzir uma emoção que outras não produzem, e que denominamos poética.”
(Valery)
O poeta vive num canteiro de obras. A musa, o acaso, a razão, o sentimento,
os pensamentos abstratos são matérias primas para a sua poesia. Ele produz
a partir da leitura de textos alheios, articulando idéias e costurando a
linguagem. A poesia é um trabalho que exige de quem faz uma quantidade de
reflexões, de decisões, de escolhas e de combinações. As leituras e as
experiências modificam a escrita, as palavras não são totalmente
espontâneas, como nas pinturas de um Pollock, há um trabalho e um cálculo
da escrita. A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a
comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um
acontecimento inesperado, de uma experiência singular. A linguagem
cotidiana desaparece ao ser vivida, é substituída por um sentido. A poesia
não, ela é feita expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser
indefinidamente o que acabou de ser.
Numa época marcada pelo desaparecimento do durável, transmutação rápida dos
valores, sem tradição poética, a poesia retorna como um lugar de
experiências contraditórias, para atender uma necessidade de lazer e
divertimento, do que uma vontade de saber. Os saraus, recitais e debates
têm mostrado uma ausência de uma percepção mais ampla das contradições da
cultura, particularmente da literatura. A poesia que já participou como
protagonista nos movimentos de vanguarda nos anos 20 e 50/60, reaparece na
cena urbana deslocada de sua materialidade para falar de aparências e
emoções
Almandrade
Artista plástico, poeta e arquiteto
===========================================================================
============================= CRÉDITOS FINAIS =============================
===========================================================================
Este fanzine maluco que você recebe por email todo domingão se chama
Tresler. Um grupo de amigos escreve histórias para o seu deleite. Se você
quiser entrar em contato conosco, visitar o nosso Site (você pode ler os
números anteriores do nosso fanzine eletrônico), se cadastrar ou
descadastrar, enfim, utilize os emails/urls no final da mensagem.
Tresler Team:
Ariadne Amantino (ariadnedbka@yahoo.com)
Daniel Wildt (dwildt@oocities.com)
Eduardo Seganfredo (edu.zu@ig.com.br)
Vincent Kellers (vkellers@terra.com.br)
Colaboradores da edição de hoje:
Almandrade (almandrade_x@ig.com.br)
Leandro Monteiro Dal Bó (leandromdb@email.com.br)
Visite o Site do nosso e-zine (edições antigas e outras coisas mais!):
http://www.tresler.cjb.net
Para entrar em contato com o e-zine, mande um email para:
treslerbr@yahoo.com.br
Para receber o nosso e-zine mande um email para (DIVULGUE!):
tresler-subscribe@yahoogroups.com
Para não receber mais o e-zine, mande um email para:
tresler-unsubscribe@yahoogroups.com